As Crônicas de Orbe
3 TERCEIRA HISTORIA, ESCOLHAS
CENA 1
Selvagem
Corria freneticamente pela floresta enquanto sentia o orvalho da manhã sobre os pés feridos, mas não se permitia parar, pois os homens o seguiam.
“Homens ruins, homens sujos, homens fracos!”
Os perseguidores berravam como loucos. Alguns gritavam ofensas que ele conhecia bem; outros praguejavam com palavras que nem sequer compreendia. Todos, porém, repetiam uma em especial, capaz de fazer seu sangue ferver e sua raiva crescer a cada novo grito...
“Selvagem.”
E assim continuava sua fuga, embora já começasse a acreditar que ela estaria destinada ao fracasso. Os homens não o perseguiam sozinhos: traziam cães, e aqueles animais representavam tudo em que ele se recusava a acreditar.
Sentia o corpo fraquejar enquanto corria. O peito doía, a vista embaçava e a respiração faltava, mas prosseguia. Não pararia até estar morto. Não seria escravo. Não seria!
Já corria havia um dia e uma noite inteiros e ainda avançava naquela manhã. Alguns homens haviam desistido, mas, para seu azar, não todos.
Os pés sangravam e as feridas latejavam sempre que saltava um obstáculo, mas a Força o mantinha de pé. Sim, a Força: a única coisa que importava para um Derekth. Perguntava-se se Khan o receberia caso não se entregasse; afinal, ainda não havia realizado o rito de Algoskthan para se tornar um Kallsgoth...
O desespero tomou conta dele quando parou diante do precipício e observou o rio correr numa correnteza violenta.
Podia ouvir os cães se aproximando. Respirava como louco, tentando decidir o que faria. Restava pouco tempo e, por um momento, a ideia de se lançar lá embaixo pareceu-lhe atraente.
A morte em vez de uma vida de escravo definitivamente não lhe parecia uma escolha ruim, embora não soubesse como Khan a julgaria... Saltou no instante em que os cães chegaram e, enquanto caía, sentiu-se aliviado: não seria escravo!
CENA 2
Sussurro
Alto da Colina era um castelo grande para os padrões de Capital.
“E muito enfeitado também...”
O sol ainda fraco produzia uma sensação agradável sobre a pele. A maioria das pessoas ainda dormia, e Alexander provavelmente também estaria na cama se, na noite anterior, um criado não lhe tivesse entregado um bilhete. “O rei mandou lhe entregar isto”, dissera o homem. A mensagem era clara: deveria encontrar Felipe Meneai no Jardim da Primavera antes do primeiro sino. Aquela fora uma noite difícil. “Primeiro o anúncio de uma Reunião Gama e agora isto...”
Não gostava daquilo e gostava ainda menos de não saber o que poderia acontecer. “Percebe-se que nem mesmo eu posso saber tudo, afinal...”
Seguiu em direção à fonte no centro do jardim. A estátua de um leão de mármore jorrava água pela boca no espelho-d’água. Os peixes eram tão coloridos como nenhum que já vira. Ao que parecia, Capital gostava de se pintar com cores bonitas.
— Espero não tê-lo feito esperar muito, príncipe Alexander... — disse Felipe Meneai em tom formal, com uma reverência de cumprimento.
— De modo algum, Majestade — respondeu, devolvendo a cortesia com um pouco mais de respeito. — Mas devo confessar que fiquei um tanto curioso a respeito de seu convite — concluiu, com o sorriso de sempre no rosto.
Felipe aproximou-se da fonte. Usava uma coroa simples, no mesmo estilo daquela que vestira na noite anterior, e um elegante roupão de seda dourada. As costuras das botas de couro eram bordadas a ouro. Vários anéis de pedras preciosas adornavam-lhe os dedos, e os colares eram tão belos que Alexander se perguntou quem os teria criado.
— Certa vez, perguntei ao meu pai como os Quatro Poderes começaram... Na época, ele me disse que a aliança fora criada para pôr fim às guerras intermináveis que assolavam Orbe e conduziam tudo à destruição. — Tirou uma carta de dentro do roupão. — Tome. Você deveria ler o que está escrito aí — disse enquanto contornava a fonte para alimentar os peixes com um pedaço de pão.
Pegou a carta com alguma aflição, mas sem perder o pequeno sorriso. O selo da árvore seca representava o emblema de Divisar. “Mortedrai!” O conteúdo não era outra coisa senão perturbador.
— Por que me mostra isso? — perguntou com espanto. Dessa vez, não trazia o sorriso no rosto.
— Meu pai dizia não ter dúvidas de que a aliança não duraria para sempre. “Há reinos demais em Orbe para que exista paz”, confidenciou-me certa vez. Era um milagre que ainda não tivesse sido desfeita. — Olhou seriamente para o príncipe. — Balázios declarou guerra ao Norte e tenta unificá-lo. Diga-me, príncipe: o que isso lhe parece?
Alexander o observou com atenção. “Isso é mau...”
— Guerra. Ainda assim, nada muito diferente do que sempre acontece...
— Você está certo, mas a carta muda as coisas, não é mesmo?
— Sim, ela muda.
“Uma frota de cento e trinta e quatro Goluns...” Tornou a olhar a carta. “Como não fui informado disso?”
— Estou realmente curioso para saber como conseguiu essa informação, Majestade.
— Como consegui não é importante. Como pode perceber, essa guerra entre Divisar e Balázios tem um motivo mais sombrio do que o suposto assassinato de um Berifor em Cidade Velha. Diga-me, príncipe: se Balázios tomar Divisar e conseguir acesso ao Torrente, o que acontecerá?
Um frio seco percorreu-lhe a espinha. “O que aconteceria...”
O Torrente era o maior rio de Orbe. Nascia no Norte e se ramificava pelos treze reinos. Sem dúvida, era a principal rota comercial do interior de Orbe...
— Não há dúvida — disse com voz séria. — Com cento e trinta e quatro Goluns, Maestria teria de intervir. Uma frota desse tamanho poderia navegar pelas ramificações do Torrente e alcançar os treze reinos.
— Você está certo — concordou Felipe, ainda alimentando os peixes. — Acredito, porém, que o objetivo imediato seja isolar o Norte do restante de Orbe. Se conquistarem Divisar, passarão a controlar toda a parte norte do Torrente. Com tantos Goluns, seria fácil impedir que qualquer auxílio alcançasse os reinos do Norte. — Virou-se para Alexander, com um olhar sério. — Mas ainda seria impossível iniciar uma incursão bem-sucedida contra os reinos do Sul.
“Pelo menos enquanto o Norte não estiver unificado...”
— Percebo bem o problema, Majestade, mas por que me confidenciar isso? Não seria mais sensato tratar do assunto com meu pai?
Felipe o olhou com atenção, como se repassasse algo na memória. Alexander notou o gesto. “Estranho... Se não soubesse dos últimos acontecimentos em Neão, poderia considerar isto alguma espécie de intriga — o que ainda não está totalmente descartado...”
— Fernando disse que, antes de tomar qualquer atitude, eu deveria verificar a verdade de tudo isso. Quando descobri que Balázios sitiava Neão, porém, não tive dúvidas de que o conteúdo da carta era verdadeiro. Embora ainda seja um assunto do Norte, não há dúvida de que, se tudo vier a público sem preparação, uma ruptura entre os Quatro Poderes será inevitável. Não desejo isso neste momento; por essa razão, Fernando me orientou a procurá-lo, príncipe.
Felipe tinha os olhos cansados e o rosto tenso. “Conselheiro curioso... E o senhor, Majestade, não me parece nada bem. Mas, no fim, posso compartilhar de suas intenções. Não seria ruim ganhar tempo numa situação assim...”
— Diga-me, Majestade: o que deseja que eu faça?
— Preciso de ajuda nessa Reunião Gama, príncipe. Quero que seja aprovada a suspensão imediata do comércio de escravos com o Norte e, depois, sua extinção entre os Quatro Poderes.
Não precisou de mais de um minuto, depois do choque, para entender o plano. Vale Profundo seria o local perfeito para construir uma frota daquele tamanho: além de distante do centro de Balázios, servia para despachar e receber escravos. “A mão de obra usada na construção dos Goluns...” A proibição não destruiria a frota já existente, mas impediria sua expansão e dificultaria a reposição de perdas. Um veto imediato ao comércio com o Norte também atingiria o abastecimento de Vale Profundo. Tornou a olhar a carta, repassando as informações. “É perfeito, embora ainda falte algo...”
— Quanto a Neão, como pretende proceder? Mesmo a cidade sendo extremamente fortificada, seria insensato não intervir. Afinal, se a capital de Divisar cair, o Torrente estará praticamente nas mãos de Balázios.
— E isso nos leva ao segundo tema da reunião: a possibilidade de intervenção na guerra entre Divisar e Balázios, sobretudo após a notícia do cerco a Neão.
“Definitivamente, esse conselheiro é problemático...”
Não tinha dúvidas de que o plano partira do conselheiro. Era certo que a proposta provocaria uma discussão interminável e que, ao fim, ninguém agiria de maneira oficial. “Pelo menos, não diretamente...” Entretanto, uma vez que todos soubessem o que estava acontecendo, alguns exércitos acabariam marchando em auxílio de Neão, fossem eles do Norte ou não.
— Entendo. É uma solução brilhante, Majestade. — Recompôs o sorriso. — Fique tranquilo: terá o apoio de que precisa.
Felipe o observou seriamente enquanto se aproximava.
— Imagino que deva agradecer, então... Em todo caso, aguardarei com ansiedade o desfecho de tudo isso. — Estendeu a mão para receber a carta. — Contarei com você, príncipe, e, mais uma vez, obrigado pela ajuda. Não há dúvida de que fazemos o melhor para Orbe.
Felipe fez uma reverência e seguiu para a entrada do castelo.
Mais uma vez, Alexander estava sozinho no jardim. Tudo permanecia silencioso, embora o sol já tivesse surgido por completo. “E se tornado um pouco mais forte também...” Levou a mão ao rosto, como se tentasse apagar o sorriso.
“Como agir?”
Não tinha dúvidas de que os Quatro Poderes, tal como eram conhecidos, sofreriam uma mudança drástica. Restava saber quanto isso afetaria Orbe.
Enquanto se dirigia à porta, viu um homem ocultar-se num canto escuro do jardim.
— Alguma novidade sobre nossos amigos Mester, senhor alferes? — perguntou, mudando de direção. — Percebe-se que algo deve ter acontecido ontem à noite para que esteja aqui tão cedo...
— E o senhor não faz ideia... — disse Alferes, com um sotaque áspero.
— Se desejava despertar minha curiosidade, conseguiu. Agora, por que não conta tudo de uma vez?
— Como desejar, Alteza...
“Parece que terei um dia bem cheio, afinal...”
CENA 3
Encontro
“Acho que aqui já está bom”, pensou enquanto jogava a bolsa no chão e se sentava numa pedra próxima ao rio. Teria de atravessá-lo. “Mas, com uma correnteza dessas, não há a menor possibilidade... Talvez fique mais fácil rio abaixo.”
Olhou o céu azul, sem nenhum sinal de nuvens. Gostava daquele céu: era sincero e sereno, bem diferente de sua vida nos últimos tempos.
Desde que deixara a cidade pelo Portão da Virada, na noite anterior, não parara. Embrenhara-se na floresta e caminhara durante toda a noite, até aquela parte da manhã.
Aproximou-se do rio para lavar o rosto. A água estava gelada. Bebeu um pouco e, para relaxar, sentou-se diante da correnteza, apoiando o corpo nos braços estendidos para trás.
“Devia ter matado todos eles...”
A lembrança ainda estava viva em sua mente... Quando percebera que estava sendo seguido, ficara extremamente preocupado — ao menos até descobrir que os perseguidores não eram quem temia. Se fossem, teriam-no encurralado na loja de Mamona, em vez de continuar seguindo-o às escondidas.
“Ainda assim, não foi um resultado feliz. Aquilo acabou com meus planos... Devia tê-los matado!”
Sabia que Octavius não mandaria segui-lo. “Não depois de descobrir quem eu era.” Logo, a única possibilidade era Rober. “Maldito nobre! Se ao menos tivesse perguntado a Octavius, nada disso teria acontecido... Mas que Umbral! Devia ter matado todos!”
O nobre investigaria, disso não tinha dúvida, mas não se preocupava. “Ele não vai descobrir muito. Afinal, os necromantes ainda não conseguiram fazer cadáveres falarem...”
A lembrança da garrafa ainda lhe vinha com nitidez: o vinho escuro, o veneno dissolvido e Octavius erguendo a taça sem desconfiar. Quando Rafael voltara à casa, fizera questão de que o nobre bebesse. Agora Octavius estava morto. Com isso, impedira que ele revelasse qualquer coisa a Rober e ainda complicara a vida do Mester. “Uma pequena vingança.” Suspirou. O verdadeiro motivo, porém, fora impedir que Octavius contasse a Eles o bastante para destruir qualquer possibilidade de fuga.
Olhou a paisagem à sua frente com uma expressão assustada. “Ainda assim, Eles já têm uma pista de onde me encontrar... Mas que Umbral! Eu realmente devia ter matado todos!” Embora não pudesse matar Rober, poderia ter matado os demais. “Mas não significaria muito, já que eu não teria tempo de matar Mamona também...”
Fechou os olhos por um momento, tentando se acalmar. “Obrigada... Você salvou meu irmão e todos nós. Muito obrigada, Rafael!” Lembrava-se dos olhos lacrimejados dela enquanto o abraçava com força.
Até aquele momento, não se dera conta do quanto sentia falta de ser abraçado. “Nobres não deveriam ser assim. Mesters não deveriam ser assim... Sempre Vorazes: esse não é o lema de quem costuma se importar com os outros.”
Pensando no que acontecera, soube que não poderia tê-los matado. Não depois de conhecer Alice, não depois de ouvir a história dela.
“Maldita seja minha fraqueza. Por sua culpa, agora corro o risco de morrer... Ainda assim...” Tirou os cabelos do rosto, levando-os para trás. “Não haverá misericórdia numa próxima vez...”
Pegou o colar. Era um cristal azul-escuro com o entalhe de uma meia-lua atravessada por uma longa espada. Embora lhe faltasse uma parte, a joia era linda. Rafael a ergueu diante dos olhos e a viu balançar de um lado para o outro.
“Não importa como, terei minha vingança. Juro pelo meu sangue, juro pela minha alma e, acima de tudo, juro pelo meu ódio. Eu terei minha vingança!”
Depois de alguns minutos, levantou-se e bateu a poeira do corpo. Encheu o odre com cautela e já estava de partida quando viu alguém lutar desesperadamente para permanecer na superfície enquanto era arrastado pela correnteza. Antes que pudesse pensar, tirou as botas e a camisa, lançou-se na água e deixou que a correnteza o levasse.
As pedras do rio atrapalhavam qualquer avanço. O esforço para evitá-las era desgastante e o obrigava a permanecer submerso mais tempo do que gostaria. Ainda assim, isso não constituía um problema: podia não ser forte nem muito vigoroso, mas era um excelente nadador. “Um ano e meio no mar... Não poderia ser diferente!”
O choque contra uma pedra quase lhe tomou todo o fôlego, mas ele ainda conseguiu emergir para buscar mais ar. Já não estava tão longe; poucos corpos de distância o separavam do desconhecido. “E aí é que terei trabalho de verdade...”
O desconhecido se debatia em desespero, numa tentativa débil de manter a cabeça fora da água. Rafael não compreendia como ainda não se afogara, embora julgasse que não demoraria muito — sobretudo depois de vê-lo atingir uma pedra...
“Minha vantagem! Agora consigo...”
Rafael agarrou-lhe o cabelo e puxou-o de volta para fora da água, usando a pedra como apoio. A pessoa era pesada e, pelo que constatou, não muito mais velha do que ele. “Um menino. É um menino...”
Olhou para a margem enquanto lutava para manter o menino fora d’água e preservar sua posição. “Isso será difícil, além de extremamente doloroso”, concluiu ao observar as várias pedras espalhadas pelo caminho. “Terei muita sorte se não quebrar nada... Mas não há outro jeito.”
Usou toda a força para se lançar rumo à margem. A primeira pedra que o atingiu quase o fez perder a consciência. “Fique firme... Firme.”
A segunda lhe acertou o lado esquerdo do corpo, fazendo-o perceber que, se aquilo não acabasse logo, certamente morreria... Conseguiu calcular melhor a terceira, que passou de raspão, mas fez suas costas arderem. A quarta atingiu o menino, e Rafael se odiou pelo alívio que sentiu. “Mais uma dessas e não sei se aguentaria...”
A quinta acertou-lhe as coxas, mas, a essa altura, já conseguia sentir a areia sob os pés...
Deitou o menino sobre a terra molhada e procurou sua respiração. “Merda, isto não é bom...” Alternou o ar de seus pulmões com compressões firmes sobre o peito do garoto, repetindo o procedimento com uma técnica que aprendera no mar. “Mas que Umbral! Respire logo!”
A tosse o fez relaxar. “Não está morto!” Deixou-se cair de costas no chão, o que lhe causou uma ardência terrível. Permaneceu com os braços abertos e os olhos presos ao céu. “Mas que merda eu estava pensando...”
Olhou o menino, que ainda tossia. “Eu realmente poderia ter morrido...” Ao levar a mão ao pescoço, foi tomado pelo pânico. “Onde está? Onde?” Fitou o rio com os olhos arregalados. “Não... Devo tê-lo deixado junto da camisa. Melh...”
O garoto o fitava com grandes olhos castanhos. Era mais jovem, Rafael não tinha dúvida, embora os traços fortes e a altura sugerissem o contrário.
“É bem alto... E esse cabelo?” Estava em péssimo estado — e Rafael entendia bem de péssimos estados —, longo, desgrenhado e de um cinza-claro. “Um selvagem... Mas o que faz tão longe daqui? E dentro de um rio?”
— De onde você vem?
O menino permaneceu em silêncio, observando-o com atenção. “Isto realmente está ficando cansativo...”
— Você me entende?
Mais uma vez, o garoto se calou, embora parecesse querer dizer alguma coisa sem saber como.
— Correr... fugir? — O menino o olhou como se buscasse orientação.
Rafael suspirou enquanto juntava as peças daquele quebra-cabeça. “Pelo menos conhece algumas palavras.” Olhou-o seriamente. “Fugindo... Bem, isso é realmente muito estranho.”
Se Pélago ocupava o extremo sul de Orbe, as Ilhas de Skrathos ficavam no extremo norte. Eram o lar dos Derekths, povo que se mantinha isolado do restante de Orbe num ambiente ainda mais frio do que Balázios ou qualquer Reino do Norte. Seus habitantes eram imensos e extremamente fortes. “Imagino que tenha a ver com sua adoração a Khan...”
Em geral, eram hostis e viviam principalmente de saques e incursões. Embora fosse possível negociar com eles em certas ocasiões, o contato era raro, sobretudo por causa do mar gelado e temperamental que cercava as ilhas. “Sem falar na distância até aqui... Encontrar uma criança Derekth é muito estranho.”
— Tem nome? — perguntou da forma mais simples que pôde.
— No... me... nome, Khouyntsh — concluiu em sua língua.
Não tinha certeza da pronúncia. “Nem sob tortura eu conseguiria repetir isso... O que faço com você?” Terminou olhando o garoto sentado na areia. “Poderia vendê-lo a alguns mercadores de escravos. Assim compensaria o estado terrível em que me enfiei para salvá-lo. Onde eu estava com a cabeça?”
— Po... por... por quê? — perguntou com a voz rouca.
“Curioso. Ele sabe perguntar.” Rafael começou a gargalhar, mas logo seu corpo o lembrou de que aquela era uma péssima ideia.
— Por que você pergunta? Bem, quem sabe... De qualquer maneira, tenha uma boa viagem. Se me dá licença, já vou.
Não esperou que o menino respondesse, porque nem sequer imaginava que tivesse compreendido. Levantou-se da maneira que julgou menos dolorosa, levou a mão ao pescoço e fez uma rápida avaliação de seu estado. “Eu realmente não imaginava que conseguiria piorar minha situação, mas parece que me surpreendi outra vez.” Deu um sorriso triste e começou a caminhar até suas coisas.
— O que você está fazendo? — perguntou ao garoto, que o seguia.
— Ir... você — respondeu. Parecia orgulhoso da última palavra, mas ainda demonstrava muita confusão.
— Não. Você vai por ali. — Apontou na direção contrária. — E eu, por aqui — concluiu, tocando o próprio peito e indicando o caminho que seguiria.
O menino não demonstrou ter entendido. Se entendeu, fez questão de ignorá-lo, pois continuou seguindo-o.
“Dê-me paciência... Talvez eu realmente deva vendê-lo a mercadores de escravos. Como pode ser tão burro?”
— Olhe, não tenho tempo para bancar a ama, ouviu? Você vai por ali, e eu, por aqui — disse seriamente.
O menino assumiu uma expressão séria. Depois de olhar o caminho indicado, voltou a segui-lo.
“Só pode ser brincadeira... Quem foi que decidiu fazer caridade mesmo?”
Decidiu ignorar o Derekth até alcançar suas coisas. Sentia muita dor e não pretendia somar estresse àquilo, embora duvidasse de que conseguiria evitá-lo.
“Mau sinal, mau sinal...”, pensou ao ver três homens saírem da floresta, não muito longe de onde deixara suas coisas.
— Não disse que ele voltaria? — falou o líder.
— Segundo Alferes, é aquele ali — disse o mais novo, apontando para Rafael.
— Mas que trabalho! Porra, garoto, você sabe quanto nos fez andar? — perguntou o mais velho dos três.
— E aí, quem é o outro menino? — continuou o mais novo.
— É um selvagem, ao que parece... — Deixou a frase morrer ao ver a fúria nos olhos do menino diante daquela palavra.
“Droga! Não é possível que Eles já tenham me encontrado...”
Olhou-os atentamente. Sem dúvida, eram de Pélago: pele morena, olhos levemente puxados, estatura mediana e espadas mercenárias presas aos cintos de couro. Até onde podia ver, porém, não estavam marcados. “Mas ainda assim podem estar a serviço Deles. E, afinal, quem é esse Alferes?”
— Garoto, faça o favor de vir conosco. Se não fizer nenhuma gracinha, não se machucará — disse o líder.
“Não, vocês não trabalham para Eles. Do contrário, não se preocupariam em me manter vivo... Então foram enviados pelo Mester? Isso também não faz sentido. Ele não tinha como saber por qual portão eu saí. Além disso, não me lembro de nenhum Alferes.”
— Sabem, senhores, não costumo seguir pessoas que desconheço. Isso sempre resulta num monte de problemas — concluiu com um sorriso cínico.
— Vejam só, o menino tem senso de humor. Mas, ao que parece, você não está conseguindo se manter longe de problemas. — Fitou o corpo do garoto, cheio de hematomas e cicatrizes. — Além disso, eu insisto — concluiu, tocando o cabo da espada.
— E quanto ao outro? — perguntou o homem do meio.
— Só recebemos ordens de ir atrás desse aí... Façam o que quiserem — continuou o líder.
“Isto é realmente uma merda. Com o corpo neste estado, não vou longe.”
Deteve o olhar no rio por alguns segundos. “Isto é suicídio. Maldito selvagem! Se o tivesse deixado morrer, poderia ter saído ileso...” Olhou para o garoto ao seu lado. Era da sua altura, embora muito mais musculoso, e tinha nos olhos uma fúria que, por um momento, fez Rafael esquecer o que se passava.
“Provavelmente se lembrando dos antigos donos.”
Ao voltar a olhar para os homens, viu-os se aproximarem lentamente, sem se preocupar em sacar as armas. Por força do hábito, procurou a faca no cinto. “Merda, ficou com minhas coi... MAS QUE UMBRAL!” A raiva transbordou quando percebeu que todas as suas coisas haviam sido remexidas.
“UMBRAL!... UMBRAL!... Parece que não haverá outro jeito...”
— Bem, como... — Foi tudo o que pôde dizer antes de o selvagem agarrar-lhe o braço com violência, puxá-lo para trás e correr na direção dos homens, que riam da cena.
“Mas que merda você está fazendo?” Rafael aproveitou a distração para correr para a floresta.
Não era tolo o bastante para supor que o selvagem se sairia bem, nem para acreditar que, naquele estado, conseguiria ir longe. “Talvez tenha sorte e encontre algum lugar para me esconder.”
Também não acreditava nisso. Ao que parecia, sorte era algo que não possuía — fato que se tornou evidente quando se deparou com uma enorme parede de pedra.
“Só pode ser brincadeira...”
Dois gritos abafados ecoaram entre as árvores, seguidos por um silêncio repentino. Rafael não precisou se virar para compreender que Khouyntsh alcançara os outros homens.
— Parece que você não tem sorte, garoto... — disse o líder às suas costas.
“Mas isso eu já sabia... A sorte é só mais uma das coisas que me odeiam...”
— Você não pode me culpar por tentar, não é mesmo? — falou ao se virar.
“Só um?”, pensou ao ver o homem que julgava ser o líder.
— Diga-me uma coisa: o que o tio Alferes falou para fazê-los se dedicar tanto a me seguir?
O homem pareceu confuso e hesitou por um instante, voltando a avaliá-lo.
— Alferes nunca falou nada sobre sobrinhos balázianos...
— Ele sempre foi a ovelha desgarrada da família — observou com naturalidade. — Posso facilitar para você, mas o que acha de começar devolvendo minhas coisas? — disse enquanto se abaixava para apanhar um pouco de terra.
— Suas coisas, é? — perguntou com malícia. — Não me lembro de ter visto seu nome nelas...
“Então estão com você!”
— É realmente uma pena, mas garanto que são importantes — disse enquanto se aproximava. — Inclusive, fazem parte de uma das razões pelas quais vocês estão atrás de mim. — Parou diante do homem e estendeu os braços, oferecendo as mãos fechadas para que fossem amarradas. — Seria um problema se ele me encontrasse sem o colar — concluiu com ar inocente, fitando a corda no cinto do mercenário. — Poderia devolvê-lo?
O homem o encarou seriamente e depois voltou os olhos para a bolsa. A dúvida estava estampada em seu rosto. Observando a situação com mais calma, Rafael percebeu que aqueles homens tinham alguma relação com Alferes, embora não muito próxima — se é que podia chamar aquilo de proximidade. Também sabia que Alferes provavelmente era outro pélgano. “O que não sei é como esse Alferes entra na história.”
— Olhe, garoto, não sei qual era sua relação com Alferes nem com os Mester. Na verdade, isso não me importa — disse, apanhando a corda e dando a primeira volta nos pulsos de Rafael. — O que sei é que... QUE PORRA PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, SEU MERDA? — berrou depois de receber um punhado de areia nos olhos.
Rafael não perdeu tempo e se afastou do homem, que em poucos segundos sacou a arma. “No fim, Alferes estava seguindo os Mester, não a mim. Deve ter presenciado meu teatrinho na outra noite e mandado esses homens me rastrearem enquanto informava seu empregador.” Observou o mercenário tentar limpar os olhos em desespero. “Merda, preciso recuperar meu colar.”
Sabia onde o objeto estava: vira o homem fitar a bolsa quando pedira que o devolvesse. “O problema é como me aproximar...” O mercenário ainda bradava enquanto balançava a espada de um lado para o outro e tentava limpar os olhos. Rafael se aproximou tão furtivamente quanto pôde. Já estava perto da bolsa quando a puxou e recebeu um corte nas costelas.
— Gostaria que não me tentasse a matá-lo, seu filho da puta! — disse enquanto conseguia abrir um pouco mais os olhos vermelhos e lacrimejantes. — É melhor não esperar bondade — concluiu, furioso.
O sangue escorria e molhava todo o lado esquerdo de seu corpo. A julgar pelo ferimento, teria graves problemas. “Que Umbral! Mais essa... Agora estou acabado!”
O homem já recuperava parte da visão e avançava cautelosamente. Para piorar, Rafael tinha o paredão às costas. Somado ao ferimento e ao seu estado, aquilo o condenava.
Arrastou-se pelo chão, relutando em se entregar. O homem caminhava com mais calma à medida que a visão voltava. Ao alcançar a parede de pedra, Rafael olhou para o alto. “Posso tentar escalar...” O pensamento morreu quando tornou a encarar o mercenário. Os olhos dele pareciam arder em fogo, tornando sua expressão ainda mais ameaçadora, mas Rafael mal os percebeu: a figura que surgiu atrás do homem era muito mais assustadora.
Um menino coberto de sangue arrastava um tronco grosso que Rafael jamais imaginara que alguém daquela idade fosse capaz de usar. O homem percebeu que algo estava errado e, ao se virar, assumiu a guarda. O selvagem avançou correndo.
“Como consegue correr tão rápido usando aquele tronco como arma?”
A espada passou a poucos centímetros do rosto do garoto, mas a ardência nos olhos fez o homem errar. O selvagem golpeou-lhe a parte de trás dos joelhos. Ouviu-se um estalo seco. O mercenário caiu, apoiou-se numa das mãos e urrou de dor. Então, o tronco atingiu-lhe a cabeça com toda a força. Dentes voaram; uma massa acinzentada escapou do crânio e caiu no chão. O selvagem golpeou-o outra vez. E de novo. E de novo. A cada golpe, seu corpo se cobria de vermelho e de fragmentos cinzentos.
— HAAAAAAAR!... HAAAAAR!... — berrou o menino, da forma mais monstruosa que conseguiu.
“Um monstro... É um monstro.” O medo tomou conta de Rafael. O selvagem ainda segurava o tronco quando o encarou. “Ele vai me matar...” Rafael perdera a voz. A dor desaparecera; o ferimento já não o incomodava. A única coisa que percebia era a lenta aproximação do garoto coberto de sangue, arrastando o tronco pelo chão e deixando um rastro vermelho. “Parece que não consegui ir muito longe...”
— Bem? — perguntou o garoto com a voz rouca, olhando o ferimento nas costelas de Rafael.
“Bem?” Rafael assumiu uma expressão incrédula diante da cena. “BEM?”
— Bem! — Rafael gargalhou como um louco, ignorando toda a dor que sentia.
“Ele não vai me matar... Hahahahaha!” Olhou para o selvagem, que demonstrava dúvida. “No fim, você pode ser bastante útil!” Estendeu-lhe a mão. Depois de observá-lo por alguns segundos, o garoto compreendeu o que se esperava e o ajudou a se levantar. Rafael o examinou com mais atenção. “Parece que terei muito trabalho.” Então tornou a olhar para o ferimento. “Mas, por ora, primeiro preciso sobreviver a isto.”
O selvagem permaneceu a seu lado, observando-o com curiosidade. “E, antes que me esqueça, é melhor recuperar meu colar.”
CENA 4
Respostas
— É ali. — O mercenário apontou para o último lugar a que deveria levá-los. — Foi naquela Casa dos Sonhos, meus senhores — concluiu, apreensivo.
— Você já não é necessário. Pode voltar. Não deixe ninguém se aproximar e prepare tudo para partirmos assim que regressarmos — ordenou Rober, com urgência.
— Pode contar conosco. Seremos discretos... — respondeu o mercenário.
— Ótimo.
— Precisava de tudo isso, Rober? — perguntou Alek.
Alek ainda tinha dificuldade para aceitar tudo aquilo. A imagem de Rober arrebentando a porta da sala de Octavius e derrubando a refeição no chão fora insana. “Mas, comparada à história que veio depois, nem tanto.”
— Certamente. Você entende que, com Octavius morto, estamos com a forca no pescoço?
— É claro. Em todo caso, acha mesmo prudente andarmos por aí investigando? — perguntou, olhando para o estabelecimento sem janelas, coberto de plantas.
“O fato de termos amarrado todos os criados e cercado a casa com mercenários também agrava a situação. Ainda assim, nada é pior do que matar um nobre.”
— Sim... — Rober pensou por um momento. — Esse menino armou tudo por algum motivo, e preciso descobrir qual. Tenho a impressão de que isso é muito importante. — Contemplou o estabelecimento e as plantas ao redor. — Quanto a Octavius e ao restante, acredito que tenhamos até o fim da Reunião Gama antes que tudo exploda e consigam nos ligar ao ocorrido. Fugir antes seria praticamente uma confissão e ainda deixaria Balázios sem representação. Depois da reunião, porém, estaremos a caminho de Pugna, e será muito mais difícil nos alcançar.
— Espero que tenha razão, Rober, porque, senão, estamos acabados. Nem meu pai nem mesmo Atur poderão nos livrar, sobretudo diante do que está prestes a acontecer!
— Não se preocupe tanto, Alek. Tudo ocorrerá como planejamos. — Rober olhou para a porta da loja. — Agora precisamos descobrir quem era aquele menino...
— Bem, não vou negar que também estou curioso.
Olhou para a porta. “Loja de Ervas Mamona.”
— Será que encontraremos as respostas aí?
— Se não respostas, ao menos alguma luz — disse Rober, olhando a Casa dos Sonhos.
Velas aromáticas queimavam dentro de garrafas de vidro abertas nas extremidades. Conferiam uma atmosfera peculiar ao ambiente e impediam que ele ficasse inteiramente escuro.
A velha apareceu logo depois de o sino da porta tinir. Alek a observou atravessar a cortina de conchas que separava a loja do restante da casa.
— Posso ajudá os senhorzinhos em quê? — perguntou, abrindo um sorriso com poucos dentes.
— Uma pergunta — disse Rober seriamente. — Algum garoto baláziano passou por aqui ontem?
A velha assumiu uma expressão séria enquanto fitava profundamente os olhos de Rober.
“Não gosto dessa velha.”
Alek não sabia o motivo, mas, desde que entrara na loja, seu braço doía com mais intensidade. Recuperava-se depressa e, embora a ferida doesse sem cessar, ainda era suportável. O braço fora enfaixado e imobilizado; mais parecia um adorno do que um membro. Não demoraria a sarar, embora talvez nunca mais manejasse uma espada como antes.
“Isto se eu ainda conseguir manejar uma espada...” Essa parte permanecia incerta, e a possibilidade de perder a habilidade não podia ser desprezada.
— Curioso... Pur que se me pergunta algo que se já sabe a resposta? — Abriu um sorriso sinistro. — Pur que se nun pergunta logo o que veio perguntá? Pur que se nun pergunta quem é o menino?
Alek sentiu um frio percorrer-lhe a espinha.
— Então sabe quem era aquele menino? Estava envolvida? — perguntou antes que o primo tivesse a oportunidade.
A velha o olhou como se acabasse de notar sua presença. Depois de encará-lo por alguns segundos com os olhos levemente puxados, voltou-se para Rober.
— Então foi pur isso que se me perguntou se ele tinha passado aqui? — Gargalhou de modo estridente. — Não — disse, olhando para Alek. — Eu nun estava envolvida em seja lá o que ele fez. E, sim, eu conheço ele, ainda que nun tenha reconhecido da primeira vez.
— Da primeira vez? — perguntou Alek, confuso. Ao seu lado, Rober demonstrava impaciência. — Explique-se!
— Bem... — Mamona expirou devagar, pensando na melhor maneira de conduzir a conversa. — Da primeira vez, ele veio com uma nobrezinha. O que me faz pensá se ela tá bém...
— O QUE DISSE, BRUXA? — Alek avançou com fúria e agarrou o pescoço da velha.
— Solte-a! — ordenou Rober às costas de Alek. — Desse modo, ela não conseguirá continuar.
“Mas que inferno!”
Alek se virou para o primo, ainda com a mão no pescoço da velha. Os olhos de Rober estavam gélidos, e sua aparência era assustadora. O choque foi tão profundo que Alek mal percebeu quando soltou a anciã e recuou ao lugar onde estivera.
— Explique-se! — bradou Rober. — Pode começar pelos motivos que o trouxeram até você.
— Fl... — Parou para tossir e levou a mão ao pescoço, tentando aliviar a dor. — Fror da Lua — disse com a voz débil. — Foi o que eles vieram buscá da primeira vez...
O silêncio dominou o lugar por alguns instantes. “Flor da Lua... No fim, isso explica algumas coisas”, pensou Alek, lembrando-se das paradas durante a viagem e das mudanças repentinas de humor de Alice.
— Prossiga — ordenou Rober. — E, da segunda vez, o que ele queria?
— Essa pergunta se também já sabe a resposta... — Respirou fundo diante do olhar fulminante de Rober. — Erva de turtigueira. — Calou-se, observando a expressão assustada dos nobres.
— E você vendeu? — perguntou Alek, apenas para ver a velha assumir a mesma expressão com que antes indicara que ele já sabia a resposta.
— Bem, eu nun vendo essa erva pra qualquer um... Tem efeitos específicos demais, e são poucos os lugares onde se acha. Então, tentei negá, mas aí é que tá... — Ficou visivelmente desconfortável; não gostava de recordar aquela sensação. — Num posso dizê não pra um marcado.
Alek ficou zonzo diante da revelação. Olhou para o lado e viu Rober imóvel, tão branco quanto na ocasião em que o encontrara no quarto de Alice, logo depois de arrebentar a porta de Octavius e lançar ao chão a refeição que estava sendo servida.
— Mas, vendo vocês aqui, perguntando essas coisa... — Respirou com dificuldade. — Percebo que a posição dele nun era a que supus. Parece que um destino pior que a morte segue aquele menino. Tetros nunca deixa um escravo seu fugí... Já disse tudo que vocês queriam sabê e tudo que eu sabia. O que acontece agora?
Alek observou o primo, frio diante da velha. “Eu não o impediria se decidisse matá-la.”
— Nós vamos embora, e você esquecerá esta conversa! — disse Rober, por fim, de maneira agressiva.
— Nada me faria mais feliz, senhorzinho — respondeu Mamona com uma expressão impassível.
— Isto faz sentido. Faz todo o sentido — disse Rober quando alcançaram a rua.
— Então, Rober, o que pretende fazer agora? Está mais do que claro por que Octavius não nos contou tudo.
— Na verdade... — Rober olhou para Alek com os olhos cansados. — Nem tanto. Nós encontramos o menino no meio da estrada. Embora tudo contribua para pensarmos que foi um golpe planejado desde o começo, não acredito nisso. Conversei com ele, e o que vi foi apenas ódio... Além disso — acrescentou com tristeza —, ele poderia ter matado todos vocês, com exceção de mim. Então por que não o fez?
— Como eu disse, tudo é muito confuso. Então, o que faremos? Vamos rastreá-lo? — indagou Alek com frieza.
— É impossível. Da praça central, ele poderia ter saído por qualquer portão. O que posso fazer é conversar com Alice. Ela talvez saiba de alguma coisa; foi quem passou mais tempo com ele.
— Então um beco sem saída... Só espero que a Reunião Gama não termine assim também.
— Sim... Por falar nela, é melhor nos apressarmos. Pelas minhas contas, a reunião deve estar prestes a começar.
Alek lançou ao primo um olhar cúmplice.
— É bom que consigamos sair desta situação sem mais nenhuma surpresa desagradável, Rober.
CENA 5
Descanso
Miriam observava Aleyah correr pelo grande jardim, maravilhada com o mundo que acabava de descobrir. “E pensar que estava tão enjoada ontem... Crianças realmente têm muita energia.”
— Isto é incrível, não acha? — perguntou Calebe enquanto contemplava o jardim.
— Sim, é incrível! — Miriam se lembrava da primeira vez que desembarcara no porto da Cidade de Capital. As construções, as vestimentas e a fala lhe revelavam um mundo do qual sempre ouvira histórias, mas que nunca pudera conhecer.
“Até aquele dia.”
Pélago fora colonizada por fugitivos de uma terra distante e, como só era possível chegar até lá por mar, permanecera afastada do restante de Orbe por muito tempo.
“Mas, no fim, nós nos integramos.”
O processo não fora fácil. Segundo os registros, a cultura e o idioma distintos provocaram grande parte dos conflitos com os outros reinos. No fim, porém, casamentos foram celebrados e tratados, assinados.
“E o idioma pélgano foi, pouco a pouco, deixado de lado.” Embora ainda fosse usado, “certamente não como antes”.
O isolamento permitira que o reino se consolidasse nas décadas posteriores à sua descoberta, mas também acabara por estagná-lo, pois os recursos de Pélago eram escassos.
“De modo que a única saída era comerciar com o restante de Orbe.”
Suspirou. Repassar a história não era algo que fizesse com frequência. Aliás, perguntava-se o porquê de fazê-lo naquele momento.
— Isto é muito mixir... — disse Aleyah, usando a palavra pélgana para algo bom ou agradável, com o sotaque áspero do qual nenhum deles conseguia se livrar.
— Mixir? Acho que haixir seria melhor: belo — sugeriu Miriam.
— Sim, entendo. Haixir serve — respondeu Aleyah.
Jardim do Paraíso era como chamavam o lugar, e Miriam tinha certeza de que era o mais belo que já vira. Espelhos-d’água cobriam o chão e refletiam os canteiros suspensos por todo o ambiente. Havia ainda animais tão coloridos e belos quanto um arco-íris.
— E quando papai virá nos encontrar? — perguntou Aleyah.
— Bem... Ele disse para o encontrarmos no ikhizar, o navio. Ao que parece, a reunião será longa — respondeu Miriam gentilmente à menina.
— Esperar no barco... Como se a viagem nele já não bastasse... — murmurou Calebe.
— Sei que você está entediado, mas tente ser razoável... — consolou o filho.
— Dhi! — protestou Aleyah em pélgano ao ouvir que voltariam ao barco. — Não!
Aleyah era uma menina cheia de energia, filha da primeira esposa de Mariel. Miriam não tinha nada contra ela.
“Embora com a mãe seja uma história diferente...”
Asha era uma mulher bela e, sem dúvida, a favorita de Mariel. “Se ela lhe tivesse dado um filho, tenho certeza de que Mariel a coroaria rainha...” Entretanto, os deuses haviam sido bons, e Calebe fora uma dádiva concedida a Miriam.
“Sim, o primogênito, aquele que herdará Pélago, saiu de meu ventre”, reforçou, orgulhosa.
— Miriam — chamou Aleyah. — Miriam, tenho fome!
Miriam suspirou ao olhar para a menina. Quatro anos mais nova que Calebe, Aleyah tinha os cabelos vermelho-sangue e os olhos cor de mel da mãe, embora o rosto fosse mais oblíquo, como o de Mariel.
“Boa desenvoltura e bom gosto para a moda pélgana.”
Observou a vestimenta. Embora fosse ela quem vestia a menina, não podia reivindicar a escolha da mantra que a pequena usava. “O tecido branco realça sua pureza.”
A roupa consistia num vestido de tecido leve, bem ajustado ao corpo e composto por duas camadas. A primeira chegava aos tornozelos e cobria a segunda, mais escura e rendada, que alcançava os pés. Sobre o vestido havia uma peça semelhante aos tabardos usados por soldados: começava numa gola aberta, seguia até um decote — “que, no caso de Aleyah, não tem função alguma” — e terminava junto à primeira camada da saia.
O vestido de Aleyah era estampado com flores azul-claras. O conjunto se completava com o thuna, um lenço usado para envolver os ombros e os braços expostos. “Definitivamente, nada comum nesta parte de Orbe”, concluiu Miriam, sentindo sobre si os olhares de espectadores curiosos.
— Para isso, teremos de voltar ao barco — lembrou Miriam. — Toda a comida está lá!
— Não! — respondeu Aleyah, inflando as bochechas e assumindo uma expressão séria.
“Muito mimada para seus nove anos.”
— Mas não temos outra solução. Além disso, seria melhor prepararmos logo nossa partida; seu pai não gostaria que deixássemos tudo para a última hora. Dhi-fark hien zi tez-fark: não se deixa para amanhã o que pode ser feito hoje — concluiu em pélgano.
— Dhi-fark hien zi tez-fark — repetiu Aleyah. — Eu entendi, mas não quero ir.
— Minha mãe está certa. Você não quer ver nosso pai bravo, quer? — perguntou Calebe com amabilidade.
— Não! Que seja como diz, Anrian — respondeu, usando o título pélgano daquele que vinha primeiro na família, enquanto entregava a mão ao irmão.
— Para o barco, então — disse Miriam, sorrindo enquanto seguia com os dois.
Enquanto caminhava, lançou um último olhar atento ao jardim. “É realmente belo. Imagino quanto tempo levarei para ver algo assim outra vez... Provavelmente muitos anos”, pensou com tristeza.
CENA 6
Decisões
A última vez que uma Reunião Gama fora convocada havia sido no ano da Grande Seca, dez anos antes.
Felipe contemplou a mesa e o trabalho realizado; tivera o cuidado de não deixar faltar nenhuma iguaria dos reinos presentes. Naquela assembleia, os soberanos decidiriam pelo voto, enquanto lordes e representantes apresentariam as posições de suas casas. Na ausência de Atur, Rober e Alek poderiam defender os interesses de Balázios e registrar seu protesto, mas não votar em nome do rei.
— Então, Majestade... — começou Marcos Exporiam. — Imagino que todos estejam impacientes para conhecer o motivo de uma Reunião Gama convocada de forma tão repentina. Creio que já seja hora de nos dizer o porquê de tudo isso.
“Marcos Exporiam.” Felipe olhou para o homem sentado à sua esquerda. O rei de Maestria trajava um opulento roupão de seda, cortado segundo a moda de seu reino, e usava uma coroa simples.
Encontrara-se poucas vezes com o rei de Maestria, mas, em todas as ocasiões, ele se mostrara sério e formal. Fernando dizia que o homem nem sempre fora assim e que, antes da morte do pai, costumava ser diferente. “Bem, isso não me importa. Afinal, não é algo que eu possa usar a meu favor.”
Felipe encheu a taça e tomou um gole de vinho. Precisava de coragem para começar, e o álcool costumava tornar as pessoas corajosas — para o bem ou para o mal...
— Muito bem... — disse Felipe, fitando os homens reunidos ao redor da mesa redonda num salão reservado do castelo. Havia curiosidade e certa preocupação em seus olhares, sentimentos que logo dariam lugar à surpresa e à raiva. — Proponho a suspensão do comércio de escravos.
À sua direita, Mariel Caboz trajava uma kura marrom e uma coroa que mais parecia uma tiara. O olhar que Felipe recebeu do The’zar de Pélago foi comparável a uma tempestade no mar.
“Como esperado. Isto não será fácil...”
Embora os olhares dos outros homens à mesa tampouco fossem gentis, estavam longe de demonstrar o ódio do monarca de Pélago.
“Entretanto...”
Observou com certo receio Ariel Cabal, o Xezar de Mistra. Seu olhar era impassível e, se as histórias fossem verdadeiras, aquele nobre pélgano podia ser considerado muito perigoso.
— Por que agora? — A pergunta que rompeu o silêncio veio de Anselmo Luzetro.
Felipe dirigiu o olhar ao lorde de Silício. O nobre estava impecável, vestido em suas cores — azul e dourado — sobre estampas de lírios-do-vale. Usava um sobretudo de mangas largas, ajustado ao corpo, e calças igualmente justas, como ditava a moda maestrina.
Anselmo Luzetro era um homem belo, de pele parda, olhos claros e longos cabelos dourados, atados por uma fita azul. “E, para completar, extremamente perspicaz.”
Para a maioria, talvez não houvesse razão para acabar com a escravidão. A ideia, porém, não era nova: fora mencionada na terceira das quatro Reuniões Gama já realizadas na história de Orbe. Maestria tampouco participava daquele comércio, devido a Trinos e à religião da Estrela, que o condenava com veemência. A pergunta de Anselmo, portanto, era certeira: não questionava o motivo para abolir a escravidão, mas a escolha daquele momento.
— Um excelente ponto, lorde Anselmo — respondeu Felipe, chamando a atenção para a pergunta. — Todos conhecem a posição de Capital sobre o assunto, assim como a de Maestria. — Olhou para Marcos Exporiam, que permanecia calado. — O impasse sempre esteve em Pélago — indicou com a cabeça o The’zar e o Xezar do distante reino — e em Balázios.
Felipe então se voltou para Rober Mester e Alek Berifor.
— Por essa razão, o assunto vem sendo deixado de lado. Entretanto, diante dos últimos acontecimentos, acredito que tenha adquirido extrema importância.
Felipe respirou fundo. Ao observar a confusão dos presentes, implorou a qualquer deus que o ajudasse com o que viria a seguir.
— O que exatamente quis dizer com “últimos acontecimentos”?
Dessa vez, a pergunta veio de lorde Richard Quena, que, como Anselmo, vestia-se segundo a moda maestrina. Era um dos homens mais velhos ali; pelo que Felipe se lembrava, tinha trinta e sete anos. Alto, de cabelos castanhos atados por uma fita, como ditava o costume de Maestria, era senhor do Grande Vale, território que fazia fronteira com Divisar, o primeiro Reino do Norte. Por essa razão, Felipe sabia que teria toda a sua atenção.
— Como todos sabem, Atur e os Tanos de Balázios não estão presentes. Segundo fui informado, o motivo...
Felipe olhou para Rober e Alek, cujas expressões eram frias e cortantes. “Parece que entenderam o que está acontecendo...”
— ...é o cerco imposto a Neão neste exato momento.
— Não vejo como isso se aplica ao comércio de escravos — disparou Alek Berifor, com raiva evidente.
— Permita-me lembrá-lo, senhorio Berifor, de como as Reuniões Gama são conduzidas — disse Felipe, fulminando Alek com o olhar antes de prosseguir em tom grave. — Você está aqui para representar os interesses da nobreza de seu reino e oferecer sugestões. — Levantou-se e apoiou as mãos na mesa. — Jamais para questionar, impor ou INTERROMPER UM REI! — Sentou-se novamente, sem desviar do nobre o olhar mortal. — Sugiro que compreenda seu lugar; caso contrário, eu o farei compreender.
— Percebe-se que os ânimos estão exaltados. Ainda assim, por que não continua seu relato, rei Felipe? — Marcos Exporiam manteve uma expressão séria enquanto fitava Rober e Alek.
— Que seja... — Felipe assentiu, abandonando a raiva e retomando o relato. — Durante o baile, Bor Rober confidenciou-me o motivo da ausência de Atur e dos Tanos Rickon e Manuelk. Como já disse, trata-se do cerco à cidade de Neão, que por si só viola o acordo de paz com os Reinos Menores do Norte. Se considerarmos a mão de obra empregada nos Goluns usados nessa incursão e o provável destino dos conquistados... — Levantou-se e encarou os presentes. — O veto à escravidão é uma maneira de frear Balázios e, ao mesmo tempo, combater problemas decorrentes desse comércio, como a exploração dos Reinos Menores, a pirataria e o conflito com as religiões que condenam essa prática.
Felipe ouviu uma série de murmúrios. Uma coisa estava clara: a ação de Balázios despertara profundo descontentamento.
“O único problema...”
Observou Mariel Caboz e Ariel Cabal; ambos mantinham olhares distantes e pensativos.
— Isso é verdade, Bor Rober? — perguntou Richard Quena, com expressão enojada.
— Sim — respondeu Rober, como todo bom baláziano, fazendo uso do gelo em suas palavras. — Cada palavra.
— Não dirá que isto é por causa de Cidade Velha, dirá? — Richard Quena elevou a voz. — Está claro o que seu rei pretende, e não é vingança!
— Não sei o que o rei Atur pretende. Digo apenas o que me foi informado — continuou Rober, em tom gélido. Ao seu lado, sentia a ira de Alek crescer.
— Compreendo o que está acontecendo e a gravidade do assunto, mas, até onde vejo, trata-se de um problema com Balázios — disse Mariel Caboz, com seu sotaque áspero. — Não vejo motivo para arrastar a questão dos escravos para esta discussão.
Ali estava o ponto fraco do plano. Fora por causa daquele momento que Felipe pedira ajuda ao príncipe de Maestria; só esperava receber o apoio prometido. De fato, a guerra não envolvia diretamente os escravos. “A menos que eu mostre a carta...” Mas isso estava fora de questão. Seria o mesmo que iniciar uma guerra.
— Na verdade, vejo sentido nisso — começou Anselmo. — Se Balázios não retroceder, terá de ser retirado dos Quatro Poderes. Caso a crise se prolongue, precisaremos estar unidos. Todos os Reinos Menores, com exceção dos que ficam no Norte, são contrários ao comércio de escravos. Este decreto seria uma boa forma de aproximá-los de nós diante da crise.
Os presentes meditaram sobre as palavras do lorde. Fosse ou não por influência de Alexander, Felipe estava satisfeito por Anselmo ter assumido seu lado. Além dele, ainda contava com Richard, que votaria em quase qualquer proposta para encerrar a reunião e retornar a seu território, e com os barões Luciano Dossel e Mateus Meneai, de Capital.
— É muito fácil para vocês dizerem isso. Para seus reinos, a mudança não significa muito; para Pélago, porém, esse comércio representa nossa maior fonte de renda. Pergunto-me quem realmente estão tentando punir! — disparou Mariel Caboz, ainda lutando para impedir o que já considerava inevitável.
— De fato, The’zar Mariel está certo — começou Mateus Meneai, em tom brando. — Seria injusto agir dessa forma com Pélago. Entretanto, lorde Anselmo levantou um excelente ponto. Poderíamos vetar imediatamente o comércio de escravos com o Norte e implementar o restante do decreto ao longo de três anos. — Mateus tomou um gole de vinho. — Isso daria tempo para Pélago se adaptar.
Embora fosse seu tio, Mateus Meneai, um dos seis barões de Capital, não era um homem movido pelo sangue, mas pelos lucros. O apoio tão imediato ao fim da escravidão significava que já encontrara uma forma de lucrar com a mudança. Isso não tranquilizou Felipe: o tio se parecia mais com um inimigo do que com um aliado, e, quanto mais poderoso se tornasse, mais difícil seria enfrentá-lo depois.
— Além disso — prosseguiu Luciano Dossel —, poderíamos ser flexíveis quanto à implementação ao longo desses três anos, de modo a beneficiar Pélago. — Luciano olhou para Felipe em busca de assentimento, que não demorou a chegar. — O mais importante é resolvermos o problema de Balázios antes que a situação se torne realmente séria.
— Parece-me que minha opinião não mudará nada... — concluiu Mariel, num tom que o sotaque tornou ainda mais ríspido. — Não vai dizer nada, Xezar?
— Considero esta uma boa ideia. Voto a favor do decreto — respondeu Ariel Cabal em tom áspero e sem vida, com a expressão impassível.
Felipe foi pego de surpresa. Deveria ter ficado extremamente feliz, mas sentiu apenas apreensão. Não sabia o que levara Ariel a aceitar o decreto, porém tinha certeza de que não fora nada do que se dissera ali. Temia o verdadeiro motivo.
— Ora, ora, Xezar, até você foi corrompido — disse Mariel, com certa frieza no olhar. — Se não há outro caminho, tenho algumas exigências.
— Imagino que tenha — respondeu Felipe, aproveitando a deixa para encerrar a discussão. — Vamos registrar todas elas antes da votação.
As exigências de Pélago foram debatidas uma a uma. Ao final, a proposta foi aprovada por maioria: a captura e a venda de escravos provenientes dos Reinos Menores do Norte seriam suspensas imediatamente, enquanto o restante do comércio seria extinto gradualmente ao longo de três anos. Mariel registrou sua oposição; Ariel manteve o voto favorável. Sem autoridade para votar por Atur, Rober formalizou o protesto de Balázios.
Felipe sabia que o decreto não destruiria os Goluns já construídos nem salvaria Neão por si só. Ainda assim, limitaria a expansão da frota, enfraqueceria o abastecimento de Vale Profundo e daria aos demais reinos uma justificativa comum para fiscalizar as rotas do Norte.
— Quanto à intervenção na guerra — prosseguiu Felipe, dirigindo um olhar frio a Rober e Alek —, ela será deliberada numa segunda Reunião Gama, em Maestria, dentro de três dias. Até lá, cada reino poderá apresentar suas informações e exigências. Resolveremos esse problema com Balázios antes que ele arraste toda Orbe para a guerra.
CENA 7
Suspeitos
A casa estava repleta de mercenários e, até onde Alferes sabia, a companhia Pata do Leão não cobrava barato.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Um momento — disse o mercenário. — Que negócios tem aqui?
Alferes examinou o homem, alto, forte e com algumas cicatrizes no rosto. “Nascido em Capital.” Voltou o olhar para o mercenário ao lado. Fisicamente, não havia grande diferença entre os dois, exceto pelo fato de o segundo ser um conterrâneo de Pélago.
— Vim encontrar o senhor Octavius — explicou Alferes com seriedade, avaliando mais uma vez os mercenários. — Tenho negócios com ele.
— Entendo... — O mercenário de Capital pensou por um instante. — Infelizmente, o senhor da casa está convalescendo. Tivemos um problema com a segurança ontem à noite, e Octavius acabou ferido. — Lançou a Alferes um olhar desanimado. — Quando melhorar, tenho certeza de que irá ao seu encontro.
Alferes conteve a vontade de rir. “Realmente valem cada centavo!”
Observou novamente os mercenários, agora com mais interesse. Sem dúvida, era uma boa mentira: justificava a ausência de Octavius e o armamento pesado, além de desviar a atenção do verdadeiro motivo de tudo aquilo. “E, para melhorar, há certa verdade nessa história.”
— Entendo — disse Alferes, com fingido pesar. — Será desanimador informar isso à senhora Octavius. — Observou os mercenários e assumiu uma expressão séria. Já esperava por algo parecido: seguira Rober Mester na noite anterior e durante toda aquela manhã, por isso fazia alguma ideia do que ocorria dentro da casa.
— Está certo — prosseguiu o mercenário de Capital. — Jhoreel, vá chamar a senhoria Alice e diga... — Virou-se para Alferes. — Como disse que se chamava?
Alferes conteve o riso outra vez. “Agora é que pergunta meu nome?”
— Eu não disse. — Deu um sorriso sarcástico. — Meu nome é Hallex.
— Desculpe-me. Muitos vêm por nada — justificou-se o mercenário, sem sinceridade, antes de se virar para Jhoreel. — Diga que o senhor Hallex traz notícias da senhora Octavius. — Voltou-se para o visitante enquanto Jhoreel entrava na casa. — Desculpe-me novamente, senhor Hallex. Ordens são ordens. Se quiser, pode me chamar de Augusto.
Alferes deu um sorriso fraco e acompanhou com os olhos o outro mercenário. “E pensar que todo este caos foi provocado por um menino... Por falar nisso, os outros já deviam ter voltado com ele.”
Aquilo o incomodava bastante. Os homens haviam partido havia muito tempo e, a julgar pela hora, já deveriam ter retornado. “Isto não está certo de jeito nenhum.”
— O senhor seria Hallex, certo? — Alice o avaliou antes de sorrir. — Disse que traz notícias da senhora Octavius? Por que não entra?
Todos os sentidos de Alferes gritaram perigo. O sorriso de Alice não alcançava seus olhos, e ele percebeu que cometera um erro ao falar como se pudesse comunicar-se livremente com a esposa de Octavius. Provavelmente as mensagens da família usavam selos privados, ou os criados já haviam revelado que nenhum mensageiro era esperado. Teve certeza de que, se entrasse na casa, não voltaria a sair.
“Você é uma beleza muito assustadora.”
A senhoria vestia um traje negro de corte baláziano. No lado esquerdo dos cabelos, usava um prendedor com o busto de Fenrir, o lobo gigante do Norte e símbolo dos Mester. A pele era branca como a neve, e os olhos, azuis como gelo. Embora jovem, era alta como as mulheres do Norte e transmitia uma aura ameaçadora, mesmo tentando disfarçá-la com um sorriso.
— Não desejo perturbar o senhor Octavius — disse Alferes, sorrindo timidamente enquanto procurava a melhor forma de recuar. Quisera entrar na casa, mas agora essa lhe parecia uma péssima ideia.
— Não será incômodo algum. Se o senhor traz notícias da senhora Octavius, não vejo como ele poderia se aborrecer — respondeu Alice, sorrindo enquanto se aproximava.
— Realmente, a senhora está certa... — Alferes se afastou por instinto e notou que os mercenários haviam soltado as presilhas que prendiam as espadas.
“Fui descoberto.”
Fitou a senhoria à sua frente e sorriu. Esperou em silêncio a aproximação de uma carruagem. Quando ela chegou perto o bastante, lançou-se contra a lateral, impulsionou-se até o teto e saltou para um beco do outro lado do veículo.
“Fui um tolo por imaginar que seria mais fácil lidar com ela.”
Aquele dia vinha se mostrando um verdadeiro fracasso: nada útil obtivera de Rober, da bruxa Mamona ou da casa de Octavius. “E, para piorar, eles ainda não voltaram, e preciso encontrar Alexander agora...” Não gostava de comparecer diante do príncipe sem informações úteis, mas não tinha escolha. Depois de amaldiçoar a própria sorte, seguiu para a residência do barão Dossel.
Alexander tocava sozinho. Alferes esperou, oculto num canto, enquanto o príncipe concluía a melodia. Havia dois motivos: Alexander detestava ser interrompido quando tocava sua harpa, e a música era belíssima.
O jardim abrigava muitas flores e plantas, algumas tão exóticas e difíceis de encontrar que valeriam uma fortuna. “Só alguém extremamente rico e influente poderia reunir tudo isto.” Era curioso observar como os barões gastavam dinheiro, e Luciano Dossel não media despesas com obras de arte ou luxos extravagantes. Sua fortuna corria como água na direção que desejasse. Era considerado o barão mais poderoso de Capital, pois, além de extremamente rico, era amigo íntimo da realeza de Maestria.
— Espero boas notícias, Alferes — disse Alexander, terminando de tocar enquanto via o homem sair das sombras do jardim.
— Infelizmente, Alteza, não as tenho — respondeu Alferes, desanimado, enquanto se aproximava.
— Muito bem. — Alexander assumiu uma expressão mais séria. — Seu relato.
Alferes assumiu uma postura mais rígida e, depois de suspirar, começou o relato.
— Como já havia enviado três homens atrás do garoto na noite anterior, passei a manhã seguindo Rober, que continuou procurando o menino. — Alferes tomou fôlego enquanto Alexander o incentivava a prosseguir. — Descobri que os balázianos o encontraram na estrada para a Cidade de Capital e lhe deram uma carona. Quando chegaram, o menino afirmou servir a um nobre da cidade: Octavius.
— E quanto a esse nobre, o que descobriu? — perguntou Alexander, interessado. — Gostaria de entender por que participou dessa farsa.
— Quanto a Octavius... Bem, ele mantém negócios escusos. Trabalha com piratas para lucrar à custa dos concorrentes e, neste momento, permanece em sua casa, cercado por mercenários. — Alferes olhou mais seriamente para Alexander. — Acredito que esteja sendo mantido como refém pelos balázianos.
— O que o faz crer nisso?
— Quando fui à casa dele, aproveitando a presença de Bor Rober e senhorio Alek na Reunião Gama, fui recebido pela senhoria Alice. Ao me convidar a entrar, ela deixou claro que eu não voltaria a sair. Tudo porque mencionei a esposa de Octavius, que se encontra num dos Reinos Menores.
— Realmente, tudo está muito estranho... — Alexander levou a mão ao queixo. — Então Octavius é um refém. — Olhou para Alferes. — Isso não implica que estava participando de tudo?
— Sim, mas não de forma direta — continuou Alferes. — Antes de ir à casa de Octavius, enquanto ainda seguia Rober e Alek, vi os dois entrarem na loja de uma bruxa, nas vielas. Ao que parece, o menino estava a serviço de outro grupo.
— Que grupo? — perguntou Alexander por reflexo, embora já imaginasse a resposta.
— Ela não disse diretamente. Apenas afirmou que, se eu prezasse minha vida, deixaria o garoto em paz, porque Tetros já estava à procura dele.
— Você disse que Octavius negociava com piratas, não foi? — Alexander perguntou em um tom frio.
— Exatamente.
— Piratas... Tetros... — Alexander gelou. — Além deles, não existe outro grupo de piratas que adore o deus da vingança, da destruição e do mal. Existe?
— Não, Alteza.
— E quanto aos homens que enviou?
— Não voltaram e já deveriam estar aqui há muito tempo. Só podem estar mortos — respondeu Alferes, sombrio.
— E eu pensando que a Reunião Gama seria o único problema imediato... — Alexander suspirou. — Descubra o que eles planejam. Não podemos deixar essa situação ao acaso.
— Já ia providenciar isso. — Alferes se aproximou. — Precisa de mais alguma coisa?
— Sim. — Alexander olhou para o céu. — A esta hora, a Reunião Gama já deve ter terminado. Descubra, com a máxima urgência, tudo o que foi dito e decidido.
— Como desejar, Alteza.
CENA 8
Caos
— Estamos com sérios problemas, Rober — comentou Alek, exasperado, enquanto caminhavam depressa para a carruagem. — Como eu queria enfiar uma espada na cara daquele rei de merda! Aí ele veria qual é o lugar dele!
— Imagino que isso talvez não demore a acontecer — respondeu Rober ao primo.
Estava claro que precisavam ser rápidos. Agora que os outros reinos haviam tomado consciência do que acontecia no Norte, logo enviariam exércitos em auxílio de Neão. Rober não era tolo a ponto de supor que Atur conquistaria a cidade antes disso.
— Alek — começou quando alcançaram o veículo —, você buscará Alice e seguirá diretamente para Pugna. Eu irei para Cabo Frio. Os exércitos enviados pelo Torrente terão de atravessar um trecho estreito antes de alcançar o porto de Neão; ali, devo ser capaz de atrasá-los.
— Você está louco? — exclamou Alek, surpreso. — Não permitirei que vá sozinh...
— Não temos tempo para isso — bradou rispidamente. — Você está ferido. — Fitou o braço do primo. — Não me entenda mal; eu realmente gostaria que viesse comigo, mas está claro que não deve. Além disso, preciso que proteja Alice e avise todos em Pugna. Usarei o dinheiro depositado no banco para contratar três companhias livres e duas embarcações. Em Cabo Frio, o rio se estreita e reduz a vantagem numérica: não preciso derrotar os reforços, apenas atrasá-los antes que alcancem o porto de Neão.
— Tem certeza? — indagou Alek, infeliz com o rumo que as coisas estavam tomando. — Se fizer isso, não haverá volta. Além do mais...
— Eu sei... Mas não pretendo vencer. Só preciso ganhar tempo para Atur tomar Neão. — Olhou seriamente para o primo. — Quando chegar a Pugna, siga para Vale Profundo, assuma o comando de todos os Goluns e desça até Neão.
— O que está dizendo, Rober? — Por um momento, Alek pareceu não acreditar no que ouvia. — Se fizermos isso, será o mesmo que declarar guerra a toda Orbe!
— Eu sei! — disse, visivelmente irritado. — Mas, do jeito que as coisas estão, não há outra saída. Entenda, Alek: a guerra já começou. Atur não receberá minha mensagem antes de eu estar enfrentando os exércitos de auxílio e, quando isso acontecer, precisará dos Goluns tripulados.
— Mas, pelo inferno! Não seria melhor esperar o fim disso tudo? Ainda haverá a segunda reunião em Maestria.
— A segunda Reunião Gama em Maestria, assim como o decreto de hoje, apenas demonstra que eles já compreenderam nossas intenções e moveram suas peças para nos deter. — Olhou para o céu. — Assumirei toda a responsabilidade. Se Atur julgar que agi precipitadamente, aceitarei qualquer punição que me der. Entretanto, sei que não será assim. Eles julgaram errado: acreditaram que teriam poder para nos conter.
Alek permaneceu calado diante do primo enquanto avaliava a situação da maneira mais lógica que podia.
— Por que não enviar apenas um mensageiro a Vale Profundo?
— Porque um mensageiro pode ser interceptado e porque os comandantes dos Goluns não aceitarão uma ordem dessa magnitude sem o selo e a presença de uma das casas de Balázios. Preciso de você lá.
Alek respirou fundo antes de assentir.
— Que seja como diz, Rober. Levarei Alice a Pugna e, de lá, seguirei para Vale Profundo. Fique vivo — disse, despedindo-se com um forte abraço do primo.
— Não tema! Não pretendo morrer tão cedo — disse Rober, sorrindo enquanto o primo entrava na carruagem.
“Sempre Voraz”, lembrou a si mesmo quando o veículo partiu.
“Perpétuo, dê-me a força do aço que cumpre o propósito do gelo mediante a vontade do ferro...”, recitou em súplica a prece de guerra. “Tenho de ser rápido. Alek só chegará a Pugna dentro de uma semana. A essa altura, eu já estarei em guerra, e Atur muito provavelmente terá recebido minha carta.”
Tornou a olhar para o céu, tenso e temeroso. Já não havia como voltar atrás. Direcionou a atenção ao porto e seguiu para onde o destino do aço o aguardava.
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