Notas iniciais
POV Gael
O amanhecer chegou e aqui estava eu, acordando nos braços de meu marido, com o corpo dolorido graças ao peso que sua estrutura fazia sobre a minha. Desvencilhei-me dele com cuidado; olhei para o chão, observando os retalhos de meu vestido, evidencias acusatórias da paixão da noite anterior. Não tive como não sorrir. Ainda estava confusa e com raiva, mas não podia deixar de negar que era tudo o que eu mais queria.
Edmundo estava com a aparência jovem novamente, exatamente como a que nos conhecemos. Mas o tempo que ficou em seu mundo fez com que ele voltasse diferente. Nunca o vi tão determinado, ciumento ou dominador. Não estou reclamando. Adorei seu novo eu e como ele fez claro a cada toque que eu o pertencia.
Vesti algo que encontrei no baú de meu quarto enquanto ria comigo mesma pensando no que diríamos a Caspian para explicar a fechadura arrombada. Caminhei até a sacada e respirei o ar da manhã. Não era Cair Paravel, não era meu lar. O tempo que havia passado não se podia voltar atrás.
Senti mãos na minha cintura e uma respiração quente no meu pescoço. Era ele. Ele ainda estava sem camisa, o que fez meu corpo se arrepiar por inteiro. Inclinei a cabeça para aumentar o contato e ele repousou beijos em meu pescoço. De repente porem, ele me virou para que eu ficasse de frente para ele e me beijou com ternura.
Edmundo: Me desculpe... – disse com olhos tristes, com a testa colada a da de Gael.
Gael: Eu... – tenta se desvencilhar dele.
Edmundo: Você está magoada. Eu sei, eu posso sentir, lembra? – cola os corpos dos dois e leva as mãos de Gael ao seu coração – eles batem juntos...
Gael: Eu não sei... – abaixa os olhos – eu me senti sozinha e tudo ficou confuso... – Edmundo interrompe pondo o indicador em seu lábios.
Edmundo: Gavin. – diz seco – eu também pude sentir isso... – diz irritado. Gael deixa uma lágrima escorrer. – mas você ainda é minha! Você e Gladis são minha família e eu vou lutar por vocês, entendeu? Você é minha...
Gael: Não é simples assim... – Edmundo a interrompe com um beijo apaixonado. Ouve-se batidas na porta.
Edmundo: Entre. – diz sem soltar Gael. Gladis entra e sorri grandemente ao ver os dois abraçados.
Gladis: Bom dia Pai, Mãe...
Edmundo: Bom dia querida... – solta Gael e abraça a filha.
Fico parada, olhando Gladis aconchegada nos braços do pai, sorrindo. Ele olhou para mim com um meio sorriso e entendi o que ele queria. Me aproximei dos dois e os abracei. Ficamos assim por um bom tempo, abraçados. Vez por outra Gladis abria os olhos para ter certeza de que estávamos lá e depois fechava, apertando Edmundo com mais força. Eu não podia culpa-la. Eu mesma mal acreditava. Nos olhávamos o tempo todo e ele beijava o topo da cabeça de Gladis as vezes e sorria para mim. Eu o pertencia, nós pertencíamos um ao outro.
Gavin: Gael, Caspian está... – entra pela porta sem bater e para ao ver a cena – chamando... – olha para os três abraçados extremamente incomodado. Gladis e Gael olham para Edmundo de modo apreensivo.
Edmundo: Eu, MINHA esposa e MINHA filha já vamos descer... – dá ênfase no minha – obrigado Gavin, você já pode ir...
Gavin: Com licença... – faz uma reverencia forçada e o fita com raiva.
Edmundo: Bem, as senhoras ouviram. – se dirige a Gladis — Vá para seu quarto e se troque, que eu e sua mãe vamos tomar um banho... – sorri para Gael.
Gladis: Está bem... – beija o rosto do pai e da mãe e sai.
Gael: Você vai primeiro? – pergunta ainda abraçada a Edmundo.
Edmundo: Quem disse que eu vou sozinho? – diz como se fosse obvio. Gael ri.
Após o banho, nos juntamos aos outros na Praça da Arvore para o pronunciamento de Caspian. Aslan ainda não havia ido embora, o que era estranho e me fazia sentir um leve frio na barriga por saber que o objetivo de sua visita ainda não havia acabado. Eu estava ao lado de Edmundo, que me abraçava pela cintura com um dos braços possessivamente enquanto repousava a mão do outro braço no ombro de nossa filha.
Caspian: Nárnia pertence aos narnianos tanto quanto aos homens. Qualquer telmarino que quiser ficar e viver em paz será bem vindo. Mas aquele que desejar, Aslan o levará para terra de nossos antepassados.
Homem na multidão: Já faz gerações que deixamos Telmar...
Aslan: Não nos referimos a Telmar. Seus antepassados foram marinheiros errantes, piratas arrastados para uma ilha, nela acharam uma caverna, uma rara fenda entre este e aquele mundo... o mesmo mundo de nossos reis e rainhas... – todos se entreolham espantados – é para essa iha que pretendo retorna-los. É um bom lugar para quem deseja recomeçar...
Oficial: Eu vou. Eu aceito a oferta. – Caspian e o homem trocam leves reverencias.
Esposa de Miraz: E nós também. – se dirige para perto de Aslan junto com o filho nos braços e um senhor que provavelmente é seu pai.
Aslan: Por que foram os primeiros a decidir, vocês serão felizes neste outro mundo. – jorra seu hálito fresco nos quatro, como que os abençoando. A arvore da praça se desdobra formando uma passagem, arrancando clamores da multidão. Os quatro passam por ela e desaparecem.
Outro homem na multidão: Como saberemos que não estão nos levando para morte? – multidão clama assustada.
Ripchip: Senhor, se meu exemplo pode servir de alguma coisa, passarei com onze ratos sem demora! – Pedro e Suzana se olham tristes e Aslan olha para os dois.
Pedro: Nós iremos. – diz triste. Caminha em direção a Caspian.
Edmundo: Iremos? – pergunta aflito. Gladis o abraça com olhos marejados.
Pedro: Vamos embora. Chegou nossa hora. – Gladis esconde o rosto no peito de Edmundo e chora. Pedro olha para Gael e afasta o olhar. Volta-se para Caspian – afinal, não precisam mais de nós aqui... – entrega espada para Caspian.
Caspian: Vou cuidar de tudo até que voltem. – diz com firmeza.
Suzana: Esse é o problema, não vamos voltar...
Edmundo: O QUE?! – sente nó na garganta. Abraça Gael.
Lucia: Não vamos? – diz com voz embargada.
Pedro: Vocês dois vão, pelo menos é o que ele disse... – olha para Aslan.
Lucia: Por quê? Eles fizeram alguma besteira?
Aslan: Pelo contrario querida, mas tudo tem o seu tempo – Edmundo suspira um pouco aliviado – seu irmão e sua irmã já aprenderam o que podiam deste mundo. É hora deles viverem por conta própria.
Pedro: Tudo bem Lu. É tudo muito diferente do que eu pensava... – pega as mãos das irmãs – mas já estou conformado, um dia você compreenderá... Vamos... — beija a mão de Lucia, que sorri.
POV Edmundo
Meu coração estava na mão. Gladis soluçava no meu peito enquanto Gael me olhava com uma expressão indecifrável. Gavin, não muito longe sorria com insolência, enquanto eu as apertava contra o meu corpo com todas as minhas forças. Quando terminaram de se despedir dos outros, meus irmãos viram até mim e se despediram de Gael, já que Gladis se recusava a me soltar. Pedro estava com os olhos marejados e me olhava de coração partido e depois olhava para Aslan como que suplicando para que não o obriga-se a fazer aquilo. Aslan porem estava com a expressão impassível, embora sempre bondosa.
Pedro: Precisamos ir Ed... – disse quase que num sussurro.
Edmundo: Eu não posso... – olhou para as duas como que justificando sua resposta. Volta-se para Aslan – eu não vou.
Aslan: Se ficar em Nárnia, pertencerá a Nárnia e nunca mais poderá voltar... – disse calmamente.
Meu mundo parou de girar. Gladis levantou o rosto inchado e de olhos vermelhos pela primeira vez desde que começou a chorar e me olhou suplicante. Gael abaixou a cabeça e respirou profundamente, e depois olhou para mim. Ela sabia o que eu estava sentindo, ela sabia exatamente o que eu estava sentindo. Levamos nossas mãos até o nosso cordão de casamento ao mesmo tempo e o apertamos com força. Olhei para meus irmãos e vi Lucia e Suzana, que já choravam copiosamente, enquanto Pedro me olhava de modo compreensivo, como que apoiando minha decisão, seja lá ela qual fosse. Vi o sorriso de Gavin desmanchar e logo depois saiu com a expressão raivosa no olhar.
Eu já havia decidido. Não iria perdê-las de novo. Tirei Gladis do meu abraço e abracei Pedro com força. Senti uma lágrima molhar meu pescoço. Nada foi dito. Nós nunca mais nos veríamos e meu coração estava partido, mas era o certo a fazer. Não podia deixar minha filha, ela precisava de mim. Abracei Lucia e Suzana que custaram a me soltar e depois me afastei para perto de minha família. Olhei para Gladis e ela voltou a me abraçar sorrindo, mas Gael não parecia feliz. Levantei o seu rosto pelo queixo e ela sorriu fraco e me abraçou também.
Fiquei ali, parado, olhando meus irmãos indo embora, quando algo totalmente inesperado acontece.
Gael: ESPERE!!! – Pedro, Suzana e Lucia param. Todos os olhares se voltam para Gael. Ela se volta pra Aslan – Ele não pode ficar mais... nós... nós... podemos ir?
Fiquei sem reação.
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