As Crônicas de Mhaglacia
18 Passado
O sol batia nas costas de Dário avisando-lhe que amanhecera.
Ele e Luana dormiam debaixo do velho carvalho.
Luana abriu os olhos e apercebeu-se que estava deitada sobre o peito dele. Ficou surpresa e fez de tudo para se lembrar do que acontecera na noite anterior mas estava a ser difícil. O que quer que tenha acontecido, para ela, estar sobre o corpo dele era uma coisa boa.
A guardiã podia sentir a respiração dele e mais uma vez gostou da sensação.
Suavemente elevou a cabeça afastando-se do peito de Dário. Observou a cara do homem que estava ao seu lado e uma onda de harmonia espalhou-se pelo seu corpo.
Ele rapidamente abriu os olhos e os dois entreolharam-se.
Um vulto de imagens percorreu a mente da princesa. Eram imagens do que acontecera na noite anterior.
Os pensamentos de Dário.
A cascata.
A magia que acontecera na cascata.
Ela agora sabia porque estava deitada no peito dele.
-Não sei o que dizer… — Começou Luana.
-Estás arrependida? – Perguntou Dário entreolhando-a.
-Tu estás?
-Não … — Sussurrou.
-Eu também não! – E acabou juntando os seus lábios aos dele. Mais uma vez a natureza pronunciou-se, aparecendo um vento forte e as folhas voaram porem desta vez foi menos forte pois Luana estava no caminho de controlar os seus poderes.
-Vamos! – Disse Dário acabando com o beijo. – Temos que levar o máximo de água que conseguirmos!
Encheram uns quantos potes de água, e montaram os cavalos. Estavam a sul de Melian então seguiram para nordeste.
O vento soprava e a cada cavalgada que davam tinham mais a certeza que o deserto os esperava.
A vegetação já estava a desvanecer-se e já se podia ver areias misturadas com a terra. Os cavalos trotavam fortemente pela terra dura, que agora estava a ficar mole por causa das areias e assim os corcéis abrandaram.
-Como é que tudo começou? – Perguntou Luana em cima do seu corcel.
-Começou o quê?
-Como e que começou a existir magia? – Especificou a princesa.
-Já há muito tempo que os humanos têm abusado da natureza. Temos gasto muitos recursos. Por volta do século XII pensava-se que Mhaglacia iria deixar de existir, pois os recursos da natureza estavam a esgotar-se. Nas primeiras cinco décadas do seculo XII foram tempos muito difíceis, as árvores eram cortadas a uma velocidade estonteante que nem dava tempo para nasceram novas, a água estava demasiada poluída e as montanhas começaram por desmoronarem-se.
Agosto de 1251
-Quero todas as pessoas dentro de casa! — Ordenou o rei D. Henrique.
-Sim, senhor! — Responderam os soldados.
O céu estava iluminado por uma luz muito forte. Algo se aproximava a uma velocidade imensa.
-Fechem os portões! — Voltou a ordenar o rei. Ele começou por subir as escadas da torre mais alta do palácio com dois guardas atras de si. Quando chegou á torre, olhou pela grande janela e viu o que se aproximava do reino.
-Mas o que é isto? — Perguntou para si estupefacto. Parecia um meteoro.
Uma luz imensa preencheu o céu por completo cegando aqueles que estavam a observar o espetáculo.
Em poucos segundos o meteoro estava perto do palácio e estava coberto de chamas que iluminavam aquela noite escura.
Num grande estrondo o meteoro aterrou.
Rapidamente o rei desceu as escadas e deparou-se com o meteoro na sala do trono.
Agora ele podia ver do que se tratava, era uma grande pedra que lhe dava pela cintura. A pedra brilhava muito, quase como o sol.
-Guardas! — Gritou o Rei e em poucos segundos uma dúzia de guardas apareceram em seu auxílio.
-Levem a pedra para as masmorras! — Ordenou.
Um dos guardas aproximou-se da pedra e ela atirou-o para longe.
-Meu deus! — Sussurrou D. Henrique. Ele aproximou-se da pedra com muito receio mas esta nada fez. Colocou a sua mão nela e sentiu uma energia enorme e proclamou:
-Esperança! Esta é a nossa Esperança! Partam o chão e façam-na chegar às masmorras sem tocarem nela! Ela é muito poderosa!
-Agora sabemos que foi essa pedra que deu vida á magia. Ela deu poderes á natureza para assim se recompor. Mas mesmo assim nós humanos abusávamos da natureza, então ela mesma decidiu pedir ajuda. E quem melhor do que alguém da realeza? E como sabes, passados noventa e um anos nasceram as quatro princesas e assim ganharam os poderes.
-E a pedra ainda existe? – Perguntou Luana curiosa.
-Ao longo dos anos as masmorras acabaram por desmoronar. Só o rei e alguns soldados sabiam da sua existência e nunca fizeram um mapa ou outra coisa qualquer. Já tentei saber onde está mas nada.
-Então, mas a pedra deu poderes á natureza que sucessivamente deu às rainhas. Mas de onde veio … tu sabes… o mal!
-Elas vieram de nós. A nossa ganancia de querermos o poder, destruir tudo! O irmão de Federico II, os teus antepassados, queria o reino para si então criou um odio dentro de si enorme. Ele soube do destino das quatro princesas, então procurou em tudo o que era canto para encontrar poderes. Um ano depois teve três meninas e nesse mesmo ano ele descobriu um cristal que viera juntamente com a Esperança, mas o que ele não sabia era que esse cristal continha magia negra. Então numa noite muito escura de lua cheia ele agitou as águas do mar, fez o vento soprar e transferiu todo o poder do cristal para as meninas.
-Estás a dizer que elas são da realeza? As bruxas são da realeza?
-Sim. Tudo aconteceu há nove reinados atrás. Elas já nem são do teu sangue.
-Já á muito que queria fazer esta pergunta. Se sempre estiveram vivas, porque é que só agora tentaram conquistar o reino?
-O cristal estava conectado com a pedra, sendo que só quando os poderes da pedra fossem utilizados é que os do cristal se podiam utilizar. Destruindo a pedra também destróis o cristal. Foi por isso que as rainhas se deixaram vencer. As bruxas ancestrais foram muito burras ao destruírem os quatro elementos, para além de não conseguirem acabaram com elas próprias. Mas agora tu despertas-te os quatro elementos e assim os poderes das bruxas também voltaram a funcionar.
-Mais uma vez provas que sou culpada de tudo o que está acontecer! – Exclamou Luana triste.
-Mas tinha que acontecer, Luana! Tu vais conseguir reestabelecer a paz!
-Então e se encontrasse-mos a Esperança? Poderíamos a destruir e acabar com todo este mal? – Perguntou Luana.
-Mas também destruirias o bem… Não podes fazer isso! É como acabares com tudo o que acreditas.
-Eu fiz uma pergunta e já percebi que a resposta é sim. Mas descansa essa ideia não me passou pela cabeça.
-Espero bem que não! – Dário ficou mais descansado.
Continuaram calmamente em cima dos seus corcéis.
Pouco tempo depois ouviram uns ruídos. Alguém se aproximava deles. Podia-se ouvir de longe o trotar de um cavalo na sua direção.
-Anda para detrás destas árvores! – Ordenou Dário enquanto cavalgava para trás das árvores.
Uns minutos se passaram até que avistaram um cavalo preto e em cima dele, para seus espantos, era Rodrigo. Luana saiu detrás das árvores e foi ao encontro dele.
-Que estás aqui a fazer? – Perguntou quando chegou perto dele.
-Andava á tua procura! – Disse com cara de aliviado.
-O que aconteceu?
-Depois que se foram embora eu voltei para Solar, mas as notícias correm por todo o lado e chegou a Solar que Mhaglacia estava a ser atacada. Então decidi vir para cá. Fiquei numa cabana ali perto de Melian. Estava de partida quando vos vi! – Rodrigo olhou para as árvores e viu Dário aproximar-se.
-Há quanto tempo aqui estás? – Perguntou Luana surpresa.
-Há cerca de dois dias. Eu sei que Catarina está no reino, mas pelo que me chegou aos ouvidos ela está aliada às bruxas por isso nem tentei entrar em contacto com ela.
-Fizeste bem! Mas não sei se conseguirás sair de Mhaglacia!
-Eu tenho um barco escondido, perto de Carvahall, vai ser uma viagem mais longa, mas não importa! – E olhou para o chão como que espera uma resposta.
-Porque não ficas connosco? – Perguntou Luana.
-Estás te a passar? – Retorquiu Dário – É muito perigoso! Ele pode morrer. Se já é difícil estarmos vivos, imagina andar-mos com alguém que não sabe os perigos que corre e nem como se defender deles! – Dário olhou para Luana – Está fora de questão!
-Ele tem razão – Começou Rodrigo, para espanto da princesa – É melhor eu voltar para Solar.
-Está bem! – Pronunciou Luana.
-Quando tudo melhorar, porque eu sei que vai melhorar, eu voltarei! – Rodrigo deu volta ao seu cavalo e principiou uma forte cavalgada para longe.
-Escusavas de ser tão arrogante! – Pronunciou a princesa e de seguida cavalgou novamente para o caminho em direção ao deserto.
-O que é que fiz agora? – Perguntou Dário para si mesmo.
Fale com o autor