As Crônicas de Magnam - A Entidade
2 Superação
Notas iniciais
Á medida que o sol deitava no horizonte, o frio acompanhava os arredores de Prosperatus. Mas Bron não estava com frio. Estava cheio de vigor. Hoje, depois de dezoito anos de escravidão, iria receber seus documentos como cidadão.
– Tem certeza de que quer assinar sua liberdade? – Perguntou uma velha senhora que cuidava do antigo cartório de prisioneiros e escravos do reino. – Constataremos que é extremamente perigoso. Será difícil para você encontrar qualquer trabalho.
– Não me importo – Respondeu Bron, com sua voz penetrante e determinada. – Jamais serei escravo novamente. – Só não conseguiu ser mais confiante nas suas palavras, pois o local fedia a mofo e madeira podre. E fedia muito. As paredes de madeira estavam mais verde-acinzentadas a marrom de tanto mofo e fungo. Existiam tantos buracos que Bron pensou que havia colônias de cupins no local. Mas a madeira do cartório era tão podre que era difícil de acreditar que alguma colônia gostaria de se banquetear com tal madeira.
– Meu filho, com essa idade você pode escolher aonde quer servir. – Havia compaixão na voz da idosa. – Escravos marinheiros ganham alguns benefícios, inclusive prata. – Olhou para os documentos que o jovem havia trazido consigo. O documento foi assinado pelo seu senhor, para dar liberdade ao escravo.
– Preciso ajudar a minha irmã. Está doente e, em hipótese nenhuma ela pode fazer força.
– Entendo. Mas saiba que sua jornada será difícil daqui em diante. Trabalho para pessoas que já foram escravos são muito mal remunerados e, na maioria das vezes, mais árduo que o normal.
– Compreendo. – Disse Bron, conduzindo a pena para assinar sua liberdade.
– Espere – Interrompeu a senhora. – Você pode escolher um sobrenome, se quiser. Ele assentiu e continuou a assinar. – Pronto. Agora é Bron Timios, um homem livre.
Bron agradeceu e saiu do cartório. Finalmente. Pensou ele, com orgulho. Caminhou perto das grandes muralhas joviais do reino. Estava quase sentindo a sua falta... Pensou Bron. O reino ero o mais belo do país, onde a prosperidade guiava os mais destemidos e ousados. Esse era parte de um discurso de Darkon, o rei de Prosperatus. O reino era o mais bonito: Era indiscutível, suas altas muralhas de pedra que cobriam toda a cidade eram impenetráveis. Seus castelos os maiores e mais pomposos. Sua terra era mais fértil. Mas o mais importante é que era detentora dos grandes ídolos arcanos, e isso trazia destaque no reino. Porém, o mesmo tinha suas falhas. O reino também possuía enormes periferias tão grandes, que faziam a nobreza parecer um vilagero. Bron andou pela maior periferia da cidade: O Esgoto. Era espantosamente grande. Possuía muitas casas e barracos ao longo da margem do córrego impossivelmente sujo. Era mais seguro dizer que passava um córrego na sujeira a dizer que um dia já existiu um córrego ali.
Esse lugar fede muito mais que o cartório. Pensou Bron, enojado a medida que sentia pena dos que ali viviam. Ele logo percebeu o porque do córrego ser tão imundo: As casas e barracos ali presente não tinham um saneamento; assim todo dejeto, lixo e qualquer imundice dessa periferia era jogada no solitário córrego. Além de fedorento o lugar cheirava a doença, tendo em vista o grande número de doentes que andavam por lá. Isso sem contar os que estavam de cama. Era assustador. Merda! Lastimou Bron após pisar com suas novas botas num poço de vomito que pintava o chão. Seguiu até o beco mais próximo para limpar.
– Ei! – Sussurrou uma voz vinda a sua direita. — Você quer comprar?
– Comprar o quê? – Perguntou Bron surpreendido. Não tinha visto esse homem no beco. Se não era muito, apareceram mais dois homens.
– Ciat – Respondeu o segundo e mais alto homem. Ciat era uma droga potente, que dava benefícios ao usuário. Deixava-o mais rápido, mais forte, apurava seus reflexos e extinguia a dor. Tudo isso por aproximadamente uma hora. Porém era excessivamente viciante; bastava ingerir uma vez para viciar. – Você tem dinheiro?
– Não o suficiente. – Respondeu Bron, apreensivo após notar que estavam com adagas mal escondidas na cintura.
– Você leva um pouco do que temos – Disse o primeiro homem, o mais branco de todos. – E depois nos paga.
– Não tenho interess... – Pensou melhor, e decidiu comprar. – Quanto custa o frasco?
– Cinquenta pratas. – Responde o branquelo com um sorriso malicioso, mostrando os dentes que faltavam.
– Pago vinte e cinco pratas por metade de um frasco. – O sorriso do homem desapareceu, fazendo com que a garganta de Bron secasse. Mas o jovem manteve a postura determinante e prosseguiu com o negócio. – Se eu gostar eu volto comprar mais.
– Você vai gostar – Garantiu o homem. – E vai voltar. Berg, pegue meio frasco para o... Como se chama garoto?
– Bron. – Relutou em responder, mas disse.
– Tanto faz. Você ainda não foi pegar Berg?
– Já voltei – Respondeu a voz impaciente do homem mais alto do grupo. – Aqui está. – Bron pagou, pegou o frasco com o líquido azul escuro e continuou seu caminho. O jovem caminhou bastante até sair da periferia e chegar até parte nobre da cidade, onde residiam os Grygors que eram seus antigos senhores. E lá estava grande casa, porém humilde. Que saudades de casa. Lembrou Bron, tocando o sino. Quem recebeu o grande homem negro na casa foi Dina, a única criada da casa.
– Bron! –Disse ela alegremente. – Entre. Tomaz espera você. O jantar será servido agora. – Adentrou na casa. Estava como sempre estivera. Luxuosa e rustica. Bem decorada e simples. Grande e humilde. A casa dos Grygors sempre foi fascinante por conta disso. Mas oque mais chamava a atenção da casa era como a mesma era aconchegante.
– Senhor Tomaz. – Bron chamou pelo homem que estava em seu escritório, preparando seus antídotos e poções. O homem era velho e ranzinzo, as rugas em sua testa diziam que já trabalhara demais, até mesmo para sua idade.
– Entre, Bron. A porta já está aberta – Assim o fez. Quando o jovem adentrou a sala, foi recebido com um abraço do seu antigo senhor. – Que feliz estou em revê-lo. Como está se sentido como homem livre?
– Normal – Porém sinto como se um grande peso despencasse da minha costa. E o Ryan, como está?
– Bem – Disse o velho sorrindo. – Está com a Emily. Foram pescar. Ou brincar de pescar. – Os dois riram. – Sentiu saudades deles?
– Sim. Apesar de não termos grau de parentesco, sempre considerei eles como meus irmãos. – Bron só teve noção do que disse alguns instantes depois. Quase se ajoelhou para pedir desculpas, mas parou num tranco. Não me ajoelharei sem nenhum motivo. Sou um homem livre, não um escravo. – Desculpe senhor Grygor. Não repetirei esse erro denov...
– Bron – Interrompeu Tomaz, com carinho na voz. – Passou tanto tempo fora de casa que se esqueceu de como o considero um filho? Pelo que me lembro nunca te tratei mal.
– Pelo contrario Senhor Grygor. Foi o senhor quem me libertou e que meu deu uma chance de viver como cidadão. Nunca me esquecerei.
– Você faz parte desta família. É disso que que não deve se esquecer. – O idoso sorriu e suas rugas apareceram. Bron sabia que era verdade. Tomaz era um homem bondoso e amigável, e nunca mentiria para amigos e familiares. A poção que tomaz estava preparando borbulhou e explodiu o frasco.
– Deixe que eu limpe pai. – Disse Bron, pegando um pano próximo para limpar a sujeira.
– Esses tônicos estão cada vez mais ariscos. Tome cuidado, Bron! Está fervendo. – Exclamou Tomaz, surpreso por ele não reagir ao tônico fervente.
– Não se preocupe pai. Não me lembro de como é a dor de uma queimadura. – As cicatrizes e queimaduras que carregava consigo provavam que tivera contato com o fogo. Não possuía mais sensibilidade ao calor desde que salvara a filha de um mercador de um incêndio em uma feira de frutas.
– Eu sei... – Disse Tomaz. A porta da casa abriu, trazendo o frio da noite e risos de jovens. Após Bron terminar de limpar a sujeira, Tomaz sentou-se novamente à mesa. – Sente-se Bron – Pediu Tomaz. – Vamos conversar sobre sua viajem.
– Sim senhor, pai. – Havia tensão sobre os ombros de Tomaz, notou o jovem, e isso o preocupou.
– Você trouxe o que eu pedi? – Há medida que indagava, sua voz falhava, como se não tivesse esperança de ouvir o que queria.
– Eu trouxe metade. – Abriu a bolsa que carregava consigo e remexia tudo que estava lá dentro, até recolher um pote envolto em tecido de algodão preto. – Consegui coletar cinco Lírios-Azuis em bom estado – Contou enquanto dava o pote para o idoso. – Mas também trouxe algumas sementes.
– Os Lírios-Azuis não têm sementes, Bron – Riu Tomaz. Ao desenrolar o pano, o idoso contemplou a beleza da flor. Suas pétalas formavam uma espécie de copo aberto. Pareciam estar alinhadas, viradas para o mesmo lugar. Mas oque mais chamava a atenção era a sua cor: Um azul tão claro e puro que parecia emitir uma fraca luz envolta das pétalas.
– Estas irão servir? – Perguntou Bron.
– Sim – O jovem relaxou ao ouvir isso. Não precisarei voltar até Maloryan. Bron agradeceu por ter tido paciência ao selecionar as flores. O Lírio-Azul é uma flor muito rara, que cresce em condições muito específicas de clima e solo. Bron os achou perto das ruínas de Maloryan. – Mas e a escama de dragão?
– Não consegui encontrar – Bron chateou-se por falhar com Tomaz. Apesar de ver a compreensão nos olhos dele, sabia que não podia falhar. Não por Tomaz, nem por ele, mas pela sua irmã. Ivy sofria com a Síndrome de Infivetus, que degenerava seus nervos e tendões ao longo do tempo. Apesar de ter tratamento, essa rara doença não possuí cura. Após Bron e Ivy serem acolhidos pela família, Tomaz decidiu ajuda-los a descobrir a cura, ou ao menos amenizar os sintomas.
– Mas combinamos de comprar a escama com o Benjam. A carta que enviei dizia isto.
– Ele disse que não deve nada a você.
– É mesmo? – Tomaz acariciou sua barba, pensativo. – Então temo de encontrar outro fornecedor.
Hã?! – Irritou-se Bron. – O senhor salvou a vida dele. É claro que lhe deve algo!
– Abaixe o tom da sua voz, Bron – Pediu o velho. – Não vou perder tempo discutindo se Benjam tem dívidas comigo ou não. Precisamos mesmo é de alguém que tenha a escama e esteja disposto a vende-la. – Concluiu Tomaz pensativo. Era difícil encontrar alguém que possuísse uma escama de dragão; e se encontrassem alguém que tivesse disposto a vender a preciosidade, o preço seria inimaginável.
– Depois conversarei com Benjam pessoalmente – Por fim disse Tomaz, com certo pesar na voz. – Mas não agora.
– Benjam mora em Pólema – Alertou Bron. – Se o senhor quiser, eu volto lá.
– Não. Benjam tem motivos para ser inseguro. Ele simplesmente não confiou em você. Terei de ser eu a falar com ele.
Bron não gostava da ideia, mas teve de concordar, pois fazia sentido. Benjam era um homem que muito aprendeu a não confiar em ninguém.
– Ah! – Lembrou-se Bron. – No caminho de volta para casa, passando pelos esgotos me venderam isso – O jovem mostrou o frasco com a droga para o velho.
–Ciat – Tomaz estava surpreso. A droga era comercializada no reino militar de Pólema. Lá era vendida como água, mas o sucesso foi tamanho que chegou a Prosperatus também.
– Trouxe para o senhor analisar. E parece que aqui em Prosperatus ela é ilegal.
–Hm...
O silencio foi interrompido com ranger da porta da casa. Dois jovens entraram. Eram Ryan e Emily. Os cachos castanhos da jovem eram inconfundíveis. Sua pele era branca como o algodão. Seus castanhos e grandes olhos faziam dela uma beleza única. E Ryan continuava o mesmo: Magro, lisos cabelos que corriam até o rosto e olhos verdes.
Bron! – A surpresa estampada na cara de Emily era tão grande que fez Bron cair na risada. Ela largou o único peixe que pescaram e correu para abraçar o grande jovem negro. – Senti saudades de você. – Havia lágrimas nos grandes olhos da jovem, mas ela nunca permitiria chorar em público: Era uma fraqueza.
– Finalmente você chegou – Soltou Ryan com um sorriso, abraçando Bron também. – Já estava na hora também, não é?
– Se fosse você no meu lugar, não voltaria até que me pedisse para te buscar. – Debochou Bron, e os dois riram.
Dina entrou no meio dos amigos, e com sua cara emburrada disse:
– O jantar está na mesa, e vai esfriar. Melhor comerem logo. – E saiu sem dizer mais nada.
O jantar teve pratos simples: frango assado com passas e alface junto de legumes cozidos. O jantar foi alegre e envolvente. As histórias que Bron contava chamavam a atenção de todos, inclusive a de Tomaz. As piadas de Ryan fazia toda a mesa caírem na gargalhada. Bron estava feliz. Contente por estar entre a sua família novamente. Os ânimos se abaixavam a medida que tempo passava.
– E o alistamento militar? – Indagou Bron. – Já passou do prazo e ainda não fiz.
– Acalme-se, Bron. –Pediu Tomaz. –Eu fiz para o Ryan e para você também. A avaliação é depois de amanhã.
Bron estava aliviado. Quase que não chega a tempo de prestar o serviço militar de Prosperatus. De ano em ano havia um alistamento militar para jovens e homens serem avaliados em habilidades marciais. Se obtivessem êxito, ingressavam no exército do reino. Era bem remunerado e não havia demissão. E Bron como já fora um escravo não conseguiria trabalhar bem em qualquer lugar que fosse e, como possuía tamanho e força de um guerreiro, era sua melhor opção.
–Você também pretende virar um militar Ryan? – Indagou Bron.
– Não me vejo fazendo poções ou vendendo algo – Respondeu Ryan determinado. – Quero fazer algo grande. Seja como guerreiro, ou como mago.
Tomaz irritou-se com a afirmação de Ryan.
–Mago?! Já conversamos sobre isso. Nenhum de vocês será um mago. – Ponderou o velho.
–Mas, pai – Retrucou Ryan – Temos de fazer o teste esse ano. É obrigatório e, se tivermos aptidões mágica, não temos escolha senão prosseguir com os estudos. O reino obriga a todos que tenham aptidões mágicas irem a Tsyrak.
– Vamos dormir – Por fim disse Tomaz. – Já estou cansado dessa conversa.
Tomaz levantou e subiu as escadas sem dizer mais nada.
–Está tudo bem, Ryan – Consolou Emily, colocando sua mão no ombro direito do rapaz. – Ele entende que se formos selecionados, não teremos escolha.
– E porque ele sempre fica bravo? – Indagou Ryan, olhando frustrado para a jovem.
– Ele só não aceita – Concluiu Emily, levantando para organizar e limpar a mesa.
– Deixe que eu limpe Emily. – Bron delicadamente tentou pegar o pano da mão da jovem, mas ela não deixou.
– Não é mais um escravo, Bron – Emily disse. Por mais que tentasse dizer de forma gentil, não conseguiu. Soou como uma ameaça, e fez com que Bron recuasse. – Me desculpe. Eu...
– Tudo bem – O grande jovem se virou e caminhou pelo corredor que levava às escadas. – Vou dormir. Tenham uma boa noite.
Bron subiu as escadas de granizo e seguiu até o ultimo quarto à esquerda. Seu quarto estava do jeito que deixara: Arrumado e organizado. Porém estava empoeirado. Jogou sua mochila no chão e tombou de costas na cama. Bron ouviu a porta do quarto se abrir e se levantou
– Ei! Você me ajuda a treinar amanhã? – Sussurrou Ryan. Parecia assustado.
– Sim, eu ajudo.
Ryan ficou feliz em ouvir isso. O jovem ranzinza não tinha habilidades marciais para entrar no batalhão, deduzira Bron. Não seria ruim treina-lo um pouco. Ryan saiu do quarto cam um Bac na porta. Bron virou numa posição confortável na cama. A semana seria corrida, e precisava descansar um pouco. Vagou nos pensamentos e imaginações que o rodeavam, nos infindáveis mistérios que o esperava num futuro próximo, antes de cair no sono.
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