As Crônicas de Hogwarts e a Magia Proibida
1 A Pedra Proibida
Notas iniciais
Um dos locais mais áridos do planeta, o deserto do Saara parecia um oceano de areia. Calor irradiava por todas as direções. Parecia que faziam anos que nenhuma alma viva passara por ali, o silêncio era apenas quebrado pelo barulho do atrito dos grãos de areia empurrados pelo vento, até dois homens aparecerem com um estralo. Quem estivesse passando por ali poderia jurar ter escutado um relâmpago, apesar de o céu estar limpo e claro – isso considerando a existência de qualquer ser humano num raio de dez quilômetros daquele local.
Ambos vestiam uma roupa totalmente preta, o mais baixo, ligeiramente obeso, velho, cabelos grisalhos e bagunçados, tinha uma expressão preocupada. Após surgir no meio do nada, olhava para todas as direções, tentando entender o motivo de estarem ali. O outro, alto, jovem, cabelos pretos e magro, assim que surgiu, permaneceu na mesma posição, inflou os peitos, fechou os olhos e deu um suave sorriso.
— Você… você tem certeza que é aqui? — Disse o velho, receoso, a voz áspera e aguda, olhando desconfiadamente para os lados, talvez tendo a esperança de avistar alguma coisa sólida no horizonte a não ser morros de areia. O homem mais alto abriu os olhos vagarosamente, e respondeu após alguns segundos:
— Com a certeza de que há um outro ser humano ao meu lado. — Disse, com uma voz calma e grave, virando a cabeça lentamente em direção ao outro, sorrindo. A expressão do outro era de medo, não queria estar ali, talvez estivesse mais confortável sem a companhia daquele jovem e sombrio homem, e complementou: — Esperei um torturante tempo para chegar até ela… Estou sendo avisado há anos e agora terei a oportunidade tocá-la e experimentar seu poder, foi tudo elaborado para que esse momento acontecesse. A chave encontrará a fechadura, e uma nova ordem se estabelecerá… para sempre.
O homem mais velho tremia. Assim que o mais jovem começou a andar, o mais velho se agitou e disse:
— M-meu senhor… Se isso tudo for verdade, não acha que é muito perigoso?
O jovem parou de andar, e virou para o velho com uma expressão grave e disse num tom baixo, mas ríspido:
— Quem é você para me dizer o que é ou não é perigoso? Está questionando meus poderes? Eu poderia ter agito sozinho esse tempo todo, você só está vivo por que tem vivido escondido sob minha capa, eu já te disse, você pode se livrar de mim a qualquer momento, mas lembre-se, uma vez dando as caras ao mundo, você é um homem morto, não posso fazer nada. Se ao menos me provasse ser últil… estou começando a me desapontar. — Como se fosse interrompido, voltou a cabeça para o alto rapidamente, como se quisesse ver algo céu e disse conforme sua mão ia de encontro à sua varinha sob suas vestes: — Mas que raios, mal posso esperar para nunca mais ter de me preocupar com problemas de seres humanos idiotas… Cumulusnimbus Evocatio! — Dizendo o feitiço com a varinha mirando o céu, um jato de fumaça acinzentada saía de sua ponta e acumulava-se no alto, formando uma espécie de nuvem muito escura.
O outro homem, que escutava as palavras de seu mestre com a cabeça baixa, assustou-se com seu gesto brusco, recuando-se, observando hipnotizado o jato de uma substância gasosa escura saindo de sua varinha com muita velocidade e se acumulando no céu, produzindo uma grande sombra que agora os acompanhava conforme seguiam em frente.
Muitos minutos se passaram, até que o homem jovem começou a reduzir seus passos, de olhos fechados, sorrindo ligeiramente, até parar:
— É aqui. Posso sentir. Bem abaixo de nossos pés.
O outro homem olhava para baixo, e depois para seu mestre:
— O-onde, senhor?
— Seu tolo, está a muitos metros abaixo... Nada mais conveniente do que chamá-la, não? — Dizendo isso, mirou sua varinha para baixo e ordenou: — Accio Pedra Proibida! — seguido de alguns segundos de silêncio. Porém nada aconteceu. O homem riu. — Mas é claro… ela é imune à magia comum. — Disse para si mesmo.
O outro observava a cena muito interessado e aflito. Será que aparataram naquele deserto com temperaturas infernais e andaram vários metros, talvez quilômetros, para nada?
O mestre então, deu meia volta e começou a voltar, com passos apressados. O outro não ousara em questionar qual era seu plano, seguindo-o, aflito. Então, virando subitamente, o mestre apontou sua varinha para frente: — Bombarda Maxima Ultra!
Imediatamente, um filete luminoso saiu rapidamente da ponta de sua varinha e mergulhou na areia vários metros a frente, quando, após uns dois segundos, uma enorme explosão ocorreu, causando muito tremor. Grande quantidade de areia foi erguida em câmera lenta, levantando consigo juncos maiores em chamas.
— Pro-Protego! — Gritou o velho, em reação à violenta cena, fazendo sua varinha conjurar um escudo translúcido, que fora de certa forma, útil, pois alguns segundos depois, uma onda de ar quente os invadiu, varrendo muita areia, seguido de uma chuva de fragmentos em chamas.
Quando a cena se acalmou, havia muita fumaça e areia suspensa. Os dois observavam a nuvem de areia se dissipar, que revelava aos poucos uma enorme cratera na areia. O homem mais alto desceu em em direção ao centro da cratera, observando ao redor. O outro o acompanhou.
Chegando ao centro, o mestre parou, fechou os olhos e abaixou a cabeça.
— Estou sentindo. — Disse com voz baixa. Ao abrir os olhos, virou a cabeça em uma direção específica, e caminhou lentamente, olhando para aquele ponto. Depois de alguns passos, parou e se abaixou. Havia um objeto retangular semi enterrado na areia que fora arremessada ao alto e depositada nas laterais da cratera. Uma caixa. Pegou o objeto, limpou, e percebeu que não havia abertura alguma.
— Talvez… — Disse o velho, que chegara logo depois ao ponto e observava seu mestre contemplar o objeto. — Esteja lacrada com algum tipo de magia.
— Exato, a magia desconhecida, que agora a partir desse momento, já não é mais. — Disse o mestre, ainda contemplando a caixa. Logo depois, com uma mão apoiando-a, esticou o braço para frente, e a fez flutuar a centímetros de sua mão aberta.
O velho observava assombrado o objeto que logo após flutuar, se reduziu a uma fumaça preta, dissipando-se e revelando uma pedra, escura como um céu à meia-noite. O mestre a pegou, e nesse momento, ela também se transformou em fumaça, mas dessa vez, sendo absorvida pela sua pele.
Nesse momento, houve uma intensa luz os atingindo do céu. Era o sol brilhando sobre suas cabeças, uma vez que a nuvem conjurada se desfizera no exato momento em que a última partícula de fumaça negra penetrou nos poros do mestre. Este, sorria, com os olhos fechados, parecendo contemplar uma brisa fresca.
— Exato. — Disse o mestre, ainda na mesma posição. O outro, confuso, hesitou e perguntou:
— Exato? E-exato o quê?
— Sua conclusão está correta… — Respondeu o mestre, muito calmo: — Você estava pensando se essa tal magia desconhecida, que agora faz parte de mim, teria cancelado meus feitos com a magia comum. Sim, meu caro, essa nova magia, grande como o universo em si, é infinitamente mais potente que qualquer outra coisa material ou imaterial que a face desse planeta já presenciou e supera qualquer tipo de magia que já existiu. Sim, eu agora sou invencível. — As palavras de seu mestre pareciam responder as perguntas que ele estava pensando. Seria ele agora capaz de ler mentes?
— Ah, o poder pleno. — Continuou o mestre, agora virando-se para o velho, encarando-o bem nos olhos. — Você mente, você mente muito. Você me traiu muitas vezes. Certos acontecimentos agora já estão claros para mim. — Agora falando com os olhos semicerrados como se ele estivesse tentando enxergar ao longe, e continuou: — Mas não vou te dar o privilégio de me trair novamente.
O assombro no rosto do velho estava muito evidente. Recuava mini passos enquanto o mestre falava, avançando lentamente. Seu corpo todo estava tremendo, queria sair dali, queria desaparatar naquele momento, mas seu corpo travara, de uma certa forma havia esquecido de como fazê-lo. Caiu com o traseiro na areia, seu mestre diante seus pés, o sol brilhando lá no alto, conseguia apenas ver a silhueta de seu corpo devido o contraste da intensa luz. Sua mão foi deslizando lentamente, tremendo, para dentro de suas vestes.
— Eu poderia te petrificar, te torturar, ou mesmo te matar em um segundo, mas vou te conceder o privilégio de tentar. — Disse o mestre, olhando para baixo com um meio sorriso, observando o terror no rosto do velho, que percebeu que seu mestre sabia exatamente o que ele estava planejando fazer.
— Avada Kedavra! — Gritou o velho ao retirar sua pequena varinha de suas vestes e mirando para o homem a sua frente. Um lampejo verde percorreu o curto espaço entre a ponta de sua varinha e o peito do homem. Nada aconteceu. — Crucio! Estupefaça! — Tentava o velho na esperança de alcançar algum efeito. Nunca vira algo assim antes, nenhum ser humano fora imune à nenhum feitiço.
O homem em pé dava gargalhadas sombrias. O velho caído gritava aos prantos:
— Isso... Isso não é justo! Não é mérito seu! Você não pode…
— Meu caro Emmanuelle… — Disse o mestre calmamente. — A Pedra Negra, ou melhor, a Pedra Proibida foi criada com muitos esforços, sim. Mas não posso ignorar o fato de que desde quando ela foi criada estava esperando por minha chegada, e que nasci para possuí-la. Sempre fomos o mesmo ser, separados por alguns quilômetros de distância e algumas décadas no tempo. Mas agora habitam um só corpo, incrementado por seu poder e minha inteligência. — Os olhos do velho estavam vermelhos e brilhantes, parecia que não restasse saída alguma a não ser chorar pelo mundo que agora recebera aquele que poderia destruí-lo num piscar de olhos. — O história do mundo… — Continuou. — Foi construída por aqueles que lhes fizeram mal. A história só existe por que existiram pessoas que perderam seu tempo em tentativas frustradas em aniquilar o mal. Mas agora a história acaba, pois elas não existirão mais. O mal será pleno.
Ao dizer isso, levantou sua varinha e disse: — Objeto inútil. — E com as duas mãos a partiu varinha como se fosse um graveto seco e jogou os pedaços em Emmanuelle, que olhava para o homem, incrédulo.
— Me desculpe, mas o trabalho a partir de agora é algo para se fazer sozinho. — Continuou calmamente, erguendo a mão em direção ao rosto pálido e assombrado de Emmanuelle. Este, então, como se fosse um holograma, foi se reduzindo à uma fumaça negra, começando da cabeça e se espalhando pelo corpo.
Conforme se desintegrava, a fumaça era sugada pelo seu indicador levemente levantado, até que nenhum fragmento do velho Emmanuelle restasse. O homem provido de um tipo magia até então nunca sido vista, mencionada ou relatada, agora estava só, dentro de uma cratera no meio do deserto do Sahara. Sabia exatamente o que fazer em seguida. Um craque. Não havia mais ninguém no deserto, que ainda ecoava o som do ar entrando em grande velocidade no vácuo criado no espaço onde havia um homem.
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