As Crônicas de Erde
1 Despertar
Notas iniciais
Você é o escolhido.
Você foi feito para dominar a razão.
Você é a chave para um novo mundo.
Você é...
Num susto, acordo e me levanto. Estou completamente suado. Não faço a menor ideia de onde estou ou do que aconteceu. Na verdade, não me lembro nem do meu próprio nome.
Olho em volta, estou em uma floresta. Está nevando de forma suave. No chão, ao meu lado, há uma mochila, e com ela, uma espécie de machado, bem arranhado, aliás. Pego as coisas no chão e as equipo. O frio está me consumindo. Começo a caminhar à procura de algum abrigo. Parece que a temperatura só tende a cair.
A neve começa a cair mais rapidamente, tenho que me apressar. Algumas dezenas de metros à frente, avisto um pequeno chalé de madeira abandonado. Suas janelas estão quebradas, e a madeira, podre. Mas deve servir, de algum jeito. Me aproximo dele, e logo, o adentro. Há alguns móveis revirados, coisas jogadas no chão. Não sei o que aconteceu ali, mas não parece ter sido boa coisa. Explorando a casa, encontro em um dos quartos, uma cama boa.
-Acho que vou passar a noite aqui. — Digo, batendo o queixo, com frio.
Removo o cobertor de cima da cama e o chacoalho, no intuito de tirar um pouco do pó acumulado no mesmo. Sento-me na cama e abro a minha mochila. Começo a fuçar dentro dela, procurando alguma coisa que possa ser útil. Acho um livro com capa de couro, um pouco desgastada, intitulado como “Caderno de Anotações”. Abrindo-o e folheando suas primeiras páginas, encontro algumas informações estranhas, desenhos de objetos e criaturas. Parecia que cada uma das ilustrações possuía uma ficha técnica e uma análise específica. Vou lê-lo depois. Guardo o livro e volto a procurar coisas na mochila.
No fundo, encontro um colar feito com um cristal amarelo. Do lado dele, uma bússola. Procurando nos bolsos, acabei achando uma fotografia em sépia. Nela, aparecia um menino e, atrás dele, duas pessoas maiores, que estavam com seus rostos ocultos por uma mancha, acho que a foto foi queimada.
O vento que entra pela porta do quarto é gelado, então eu a fecho. Por segurança, decido trancá-la, mas ela não possui chave. Pego a cadeira da penteadeira e a posiciono embaixo da maçaneta. Deito-me na cama, no intento de dormir um pouco. Dormir pode ser útil para despistar o frio intenso.
Antes de fechar os olhos, começo a pensar um pouco sobre o sonho que tive. Aquelas palavras... não reconhecia de quem era a voz, exatamente, mas me soava familiar. Também contemplo sobre quem eu era ou poderia ser, como poderia ter aparecido ali, no meio de uma floresta, sem lembrar uma linha do que eu sou ou já fui. Minha história é um mistério a mim mesmo. Depois de muito pensar e não chegar a lugar algum, por fim, adormeço.
...
Acordo com os pequenos feixes de luz que passam pela veneziana de madeira. O Sol já nasceu, e parece que parou de nevar. Me levanto e pego meus pertences, dirigindo-me à porta. Retiro a cadeira do caminho, abro a porta e vou até o banheiro. Nele, há um espelho meio empoeirado. Depois de limpá-lo com a manga da minha blusa, algo me surpreende: eu sou o menino da foto. Pelo visto, aquela mochila pertencia a mim antes d’eu perder a memória. Aquele caderno de anotações pertencia a mim, e de alguma forma, não tenho ideia do que aquelas escrituras significam. Talvez ele tenha pertencido à algum daquelas duas pessoas na foto comigo.
Fico encarando o espelho por algum tempo. Meus olhos roxos... brilham. Eu tenho um cabelo castanho, está meio bagunçado. Minha blusa branca está um pouco suja e rasgada, e ela possui uma touca roxa. Não sabia disso. Dou alguns tapas para tirar a sujeira de minha blusa, olho para baixo e vejo que minha calça está um pouco suja de terra e rasgada, terei que trocar. Vou para um dos quartos da casa, não o que dormi. Este contém um guarda-roupas. Abro-o e vejo se há alguma coisa que eu possa usar. Pego uma calça jeans azul um pouco velha, de fato, mas vai servir. Me troco, e logo me dirijo para a cozinha.
Abro todos os armários, em busca de algo para comer. Nada. Já era de se esperar. É uma casa velha, e pelo que parece, seus moradores a deixaram faz um bom tempo.
Decepcionado, vou até a sala de estar e repouso no sofá. Depois, sairei em uma caminhada em busca de suprimentos. Não sei se voltarei para essa casa, mais tarde. Apesar de ser meu único abrigo, onde encontrar comida, posso me instalar. Talvez seja melhor, aqui já está caindo aos pedaços mesmo.
Volto para o quarto em que dormi para me certificar de que não esqueci nada ou deixei de vasculhar algum canto. Depois de checar, me direciono ao corredor, para enfim sair da casa, quando ouço um barulho vindo da sala. Parece alguma coisa de vidro caindo, e quebrando. Então, ouço passos.
Meu coração dispara, volto para o quarto e fecho aporta, colocando a cadeira na fechadura para bloqueá-la novamente. Eu não sabia o que poderia ser. Poderia ser apenas um animal inofensivo, tal qual um esquilo ou um guaxinim. Pensar isso me deixava mais aliviado, mas então ouço uma espécie de rugido. Não era exatamente como de um animal, soava mais como um som vocalizado.
Me volto até a janela. Tento abri-la, mas ela parece emperrada. Lembro-me do meu machado e o pego. Logo em seguida, golpeio repetidamente a janela, até que ela quebra. Com chutes, retiro os cacos de vidro restantes nela, e então pulo para fora de casa.
Ouço barulhos da tal criatura tentando abrir a porta. Dou a volta pela casa e entro pela porta dos fundos, que dá na cozinha. Ao chegar na sala, me aquieto. Dou passos silenciosos até o corredor, e tento espiar o que era a tal criatura que fazia tanto barulho. Se fosse um animal, mesmo que de grande porte, eu poderia acertá-lo com meu machado, não havia grande perigo. Mas quando olho pela esquina do corredor, um arrepio percorre a minha espinha.
A criatura, alta e esguia, era assustadora. Seus dedos eram como garras gigantescas. Sua pele era negra e sem vida. Em sua volta, pequenas partículas roxas flutuavam, enquanto a besta se jogava contra a porta e a arranhava, na tentativa de abri-la. Dou um passo para trás, com medo, e acabo pisando em um piso danificado. O ranger do piso chama atenção do bicho, que se vira para mim, revelando seus brilhantes olhos de cor roxa. Nesse momento, um único pensamento me vem à tona: Corra.
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