Notas iniciais
Demorou mas tá ai! Espero que gostem do capítulo de hoje.

A neblina passava por debaixo da porta suavemente. Graças a pouca luz que entrava pela janela mal coberta a fim de impedir o vento gelado, era possível ver que já era manhã. O local não era muito espaçoso e nem muito limpo. Ao lado esquerdo do quarto, a cama de madeira era preenchida por um colchão de feno e alguns panos de cor marrom-escura caiam pelos cantos. Ao lado direito havia uma mesinha com uma vela que se apagara durante a madrugada e uma espécie de cesto vazio. Na cama, deitada, estava uma mulher; seus olhos estavam fechados e sua pele era cor de oliva. Seus cabelos negros, lisos e longos caiam-lhe sobre os ombros; estranhamente, pareciam-se serpentes movendo-se nos sujos lençóis da cama.

A mulher abriu os olhos cor-de-mel vagarosamente. Esperou que seus olhos acostumassem-se com a claridade do quarto e então se sentou. Ela usava uma camisola marrom e um colar; nele, estava entalhada uma chamativa pérola roxa. Ela percorreu o local com os olhos por alguns instantes, observou a vela apagada e então olhou o cesto. Ela se levantou e seguiu até ele, ao se aproximar percebeu que o mesmo estava vazio: Seu filho havia sumido. Não se importou – sua filha mais velha provavelmente havia pegado a criança. Ela se espreguiçou e seus músculos estalaram em um som ruidoso e súbito. Ela vestiu uma sandália feita com couro de Draken e olhou para a porta.

Assim que saiu, percebeu que as crianças já brincavam soltas ao centro da pequena vila. Um caminho de pedras ligava todas as casas, as quais eram perfeitamente idênticas. A moça respirou fundo e procurou por seus filhos no meio das muitas crianças ali. Lá estavam elas: uma garotinha de cabelos castanhos e olhos cinzentos que demonstravam confiança e superioridade. Ela segurava uma criança não muito pequena, seus cabelos, assim como os da mãe, eram pretos e longos, lhe caiam aos ombros; seus olhos eram grandes e castanho-esverdeados. A mãe andou vagarosamente até o cento da vila enquanto abria os braços um pouco acima do quadril, a menina correu em direção à mulher e a abraçou assim como seu irmão.

– Mamãe! – Exclamou a garotinha enquanto a abraçava. – Kihri acordou e estava fazendo barulho... Então achei melhor trazê-lo para fora.

A mãe fitou a filha por alguns segundos.

– Obrigada, Minahra, querida. Algo aconteceu enquanto eu repousava?

– Não. – A garota interrompeu a própria fala, pensativamente, hesitante. – Digo, Timmo avistou algumas Tropas Sparrows indo em direção a uma vila próxima, apenas isso.

– Ótimo. Cuide de Kihri mais um pouco, preciso fazer uma coisa. – A mulher acariciou os cabelos de Minahra e beijou a testa de Kihri, então seguiu até uma cabana próxima a saída da Vila e entrou.

O local era bem mais limpo que o anterior; prateleiras improvisadas, livros, frascos, tintas e penas "decoravam" o interior. À direita havia um espelho grande e uma bandeja feita de madeira rústica, assim como as bordas do espelho. A mulher seguiu até a frente do espelho e encarou o próprio reflexo: Algumas olheiras estavam à mostra, abaixo de seus olhos, mas, fora isso, ela continuava bela. Levou a mão esquerda ao colar que emoldurava a pérola roxa e assim que a tocou, seus olhos brilharam num tom roxo semelhante ao da preciosa pedra. A mulher encarou a bandeja de madeira, que era funda e estava cheia duma água límpida, e então olhou o espelho na direção da bandeja. Por segundos ela pareceu estar em um transe e, após uma fração de tempo, a água começou a ficar tremular e então uma gota de um líquido avermelhado "explodiu" dentro da água pintando-a de vermelho.

A "fumaça" que se formava na água agora vermelha fez com que a mulher começasse a tremer e suas pupilas dilataram. Ela tombou para trás e soltou seu colar, que acabara deixando uma marca vermelha na palma de sua mão. Por mais que parecessem apenas segundos, aquela visão a deixou ali, parada, por longos minutos que se transformaram em uma hora, ao todo. Ela ainda encarava o espelho quando ouviu alguns gritos e um alto relinchar de cavalo. Saiu da cabana e se deparou com vários homens invadindo a vila a cavalo e então gritou assim que viu Minahra e Kihri próximos a entrada. Ela tentou correr, mas um cavalo passou a sua frente fazendo-a cair e então a mesma rastejou até o outro lado, até uma cabana, e impulsionou-se para cima, ficando de pé. Ela esperou a hora certa e então correu até as crianças, desviando-se de cavalos e corpos, até que algo a atingiu nas costas: Um dos homens a cavalo tinha-a acertado com a ponta oposta da lamina de seu machado com força.

Ela desmaiou.

O cheiro de fumaça a acordou. Aquele cheiro irritou suas narinas e a fez acordar espirrando e tossindo. Sua visão ainda estava embaçada e suas costas doíam. Deu-se conta do gosto férreo que havia tomado conta de sua boca e ela, rapidamente, cuspiu uma mistura de saliva e sangue. Conforme sua visão tomava foco, conseguiu perceber que algumas das cabanas pegavam fogo e vários corpos estavam estirados ao chão. Olhou, pela primeira vez, para onde as crianças estavam e seu coração começou a bater mais rápido: Ela entrou em pânico. O corpo de Minahra estava estendido ao chão, sua barriga estava cortada e seus órgãos escorregavam para fora de seu corpo, numa cena macabra. Ao seu lado estava o corpo de uma criança pequena e o que mais chocou a mulher foi que o corpo estava sem a cabeça.

Assustada e sem forças, ela conseguiu libertar um grito quase sem som e, logo após, gemidos e soluços.

***

Seu coração doía e sua lagrimas desciam queimando por seu rosto. Ela se levantou e encarou mais uma vez o corpo inerte de suas crianças e então seguiu na direção oposta da entrada da vila.

Conforme caminhava via corpos estirados pelo chão, mulheres, crianças e idosos. O caminho até a cabana pareceu demorar uma eternidade, ver os corpos de seus irmãos era uma dor enorme. Corpos decapitados, gargantas cortadas, a parte de cima do cabelo da maioria dos mais velhos foram arrancadas deixando a mostra seus crânios.

As mais jovens e belas da Vila estavam nuas, provavelmente foram estupradas e mortas. A mulher finalmente chegou à cabana de antes. Ela estava revirada e o espelho, antes intacto, agora estava rachado. A mulher sentou-se sobre uma prateleira derrubada e então pegou um pedaço do espelho que estava no chão. Segurou firme o colar e esperou. Nada. Ela recomeçou a chorar, sentia-se culpada pela morte de seus irmãos, sentiu-se culpada mais ainda por não ter conseguido fazer nada.

Ela não podia acreditar, mais uma vez aquilo tinha acontecido: Sua visão estava certa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.