As Crônicas de Daegeryen - O Vento Traiçoeiro

3 Capítulo 3 - Caminhos da Floresta


Notas iniciais
Achei que iria demorar para postar, pois ia viajar, mas foi cancelada... Enfim, nesse capítulo, Kaleb junto com os outros guerreiros enfrentam o primeiro obstáculo na Floresta Negra... Boa leitura!!

O exército marcha á dentro da floresta, vestindo as extravagantes capas de sangue.

Alguns estão montados em cavalos, enquanto outros vão dentro de carrocerias envolvidas num toldo cor de pele, e um pequeno grupo caminha no solo úmido e desconhecido, prontos para o ataque.

Kaleb, Scorpius e alguns outros garotos, estão numa das carrocerias de madeira, esta sendo puxada por um alazão negro. Kaleb põe a cabeça na minuciosa janela e observa as árvores os espreitarem na escuridão fúnebre. O sol está brilhando no céu, porém as copas das árvores são tão densas que impedem a passagem da luz, transformando o lugar no que parece um fim de tarde. Uma névoa espessa recobre os arredores sombrios, juntamente com arbustos retorcidos e o barulho tenebroso do vento, que atravessa os troncos ocos, fazendo ruídos, inicialmente, ininteligíveis, como um baixo sussurro ao pé do ouvido.

O solo é úmido, e está sendo marcado, tanto pelos cascos dos cavalos, quanto pelas rodas das carrocerias e dos pés marchantes.

– O que você acha desse lugar? – Scorpius pergunta no sacolejar da carroça.

– Como assim? – Kaleb pergunta virando-se para ele.

– O que você acha? Tantos mistérios, lendas... Acha que é tudo isso é verdade ou são só apenas histórias pra dormir? – explica.

– Não sei... Acho que acredito por uma parte – Kaleb assumi.

– Já eu não – responde – Digo, meio sem sentido não acha? Se eles realmente existem por aqui, porque nunca saíram? Ou porque nunca os vimos?

– Medo? – indaga.

– Somos nós os medrosos aqui Kaleb, não eles.

De repente a carroceria para.

– O que aconteceu? – Kaleb pergunta num sobressalto.

– Não faço a mínima idéia – Scorpius responde olhando para o lado de fora.

Alguns dos outros jovens colocam as cabeças pra fora, até perceberem que todas as carroças, cavalos e guerreiros pararam.

Uma onda de murmúrios e relinchos enche o ar da floresta, que parece escurecer cada vez mais naquele amanhecer.

Barclay mexe em sua barbicha encaracolada e preta enquanto dá passos firmes nas gramíneas.

– Silêncio! Silêncio! – ele pede, e todos silenciam.

– Capitão Barclay, o que houve? – pergunta um dos jovens de outra carroceria.

– Apenas a roda de outra carroça que se quebrou – fala sem preocupação – Nada demais, agora voltem pra dentro, até que dê a hora de saírem.

Então, obedecendo a ordem voltam ao interior das carroças, até que um grito corta o ar rançoso como uma faca corta um simples pedaço carne.

Todos se assustam e fazem uma expressão de espasmo.

O grito vinha da frente, do mesmo lugar em que a carroça havia enguiçado.

Todos saltam num milésimo de segundos para fora, correndo num vento seco e chegando até de onde surgiu o grito de horror...

Lá, a carroça se encontra virada, com a roda totalmente quebrada, mas não é isso que causou o grito.

Um garoto da mesma idade de Kaleb, com cabelos lisos e olhos castanhos, está de pé ao lado de um buraco, que na verdade é uma pata de meio metro de comprimento, com dedos enormes e alongados.

Todos dão um passo pra trás, e rostos assustados fazem parte de uma sintonia.

– Saiam da frente! – ordena Barclay logo atrás de uma pequena multidão.

Suas pupilas dilatam ao verem a pata monstruosa no solo.

– O que é isso? – pergunta ele pasmo.

– É o que estamos nos perguntando – Scorpius responde.

Então, os murmúrios cessam no instante em que o vento paralisa, e uma espécie de bocejo toma conta do que uma vez era o silêncio da floresta.

As pernas ficam bambas, quase se quebrando de tanto que tremem.

Os pêlos se arrepiam numa onda de calafrios, que deixam as mãos gélidas e intocáveis.

Os olhos angustiados correm por todos os cantos nevoados da floresta, até avistarem uma grande sombra de olhos brilhantes como diamantes em chamas, a mais ou menos três metros de onde se encontram.

Uma criatura horrenda salta detrás dos arbustos, abrindo sua boca deformada e correndo com passos pesados em direção aos guerreiros...

– PEGUEM AS ARMAS! – Barclay grita.

O desespero toma conta, e todos correm para pegar suas armas nas carroças antes que seja tarde demais, enquanto outros já se encontram preparados para enfrentar o perigo.

Em meio aos gritos e empurra-empurra, cavalos relincham enraivecidos e dão coices, como se estivessem sentindo a presença agonizante das criaturas da floresta.

Kaleb corre e esquiva-se de empurrões chegando na carroça de onde veio, seguido então por Scorpius. Ele entra num pulo, pega seu arco que se encontra repousado num canto, e logo a aljava de flechas e sua bolsa com suprimentos, afasta a capa de suas costas, até que Scorpius fala:

– Você acredita nisso? – um lado de sua boca está tremendo.

– Não temos tempo para conversar Scorp, precisamos matar seja lá o que isso for – diz Kaleb sem olhar para Scorpius.

Ele assente e tira sua espada da cintura e erguendo-a no ar.

Então ambos correm em direção ao monstro, que já está de pé ao lado de sua pata marcada no solo, gritando e urrando enquanto flechas, escudos e espadas cortam sua pele robusta.

Ele tem olhos brilhantes, um corpo de parece ser feito de madeira e pedras e uma boca com dentes de raízes grossas que podem rasgar membros em pedaços, além de seu porte forte, e de uma altura de mais ou menos dois metros.

Suas garras rasgam o ar e guerreiros são mandados para longe ao irritarem com suas facas pontiagudas.

Kaleb mira e lança uma flecha em um de seus olhos, o que faz ele se contorcer e gritar algo seco e abafado.

Barclay grita e acerta o monstro com sua espada de prata que tem uma pedra avermelhada e brilhante na ponta, protegendo-se das garras fortes com seu escudo.

– Como vamos derrubar essa coisa? – Scorpius pergunta assustado.

Kaleb analisa-o, e percebe que todos miravam em seu tronco e cabeça — o que não ajudaria muito -, quando deveriam acertar suas pernas.

– Quanto mais alto, maior a queda – responde.

– O que quer dizer com isso?

– Temos que derrubá-lo atacando as pernas!

Scorpius olha para ele esperançoso e logo saem correndo para mais perto do monstro, onde Barclay está protegendo-se com um escudo de uma patada enfurecida.

– Barclay! Barclay! – Kaleb chama.

Barclay vira-se e neste instante a criatura joga um guerreiro para longe, ele bate numa árvore e desaba no chão em sangue.

– É melhor que seja algo importante! – adverte.

– E é – responde – Temos de acertar as pernas dele, pois quando ele cair, o mobilizamos e então o matamos!

Barclay o encara pensativo, com seus olhos percorrendo o corpo meio desajustado.

– Pode até funcionar... – afirma – TROPA!

Todos param e olham furtivos para seu comandante.

– Não acertem outro lugar sem ser as pernas! Se o derrubarmos por baixo o resto vem junto! – grita, e eles parecem entender o que disse.

Voltam a terminar o que haviam começado, lançando-se contra as pernas enrugadas com suas espadas e lanças de cobre polido, protegendo os rostos com escudos medievais.

O monstro urra e balança os braços ao alto, esmagando corpos indefesos.

Scorpius se junta ao grupo de investida, cortando a madeira das pernas com sua espada de prata reluzente, enquanto Kaleb um pouco mais afastado tenta acertar a criatura nos olhos para que ela tropece. Suas flechas de mercúrio são precisas e chegam a perfurar os olhos de diamante flamejante.

Quando menos se espera, após inúmeras flechas e cortes quase perdidos na superfície encouraçada, a madeira e as pedras cedem, fazendo seu corpo cair com um estrondoso baque no chão. Uma nuvem de poeira sobe e alguns guerreiros se afastam do corpo que ainda grunhe de dor.

Barclay, com um ar vitorioso esboçado no rosto, sobe nas costas do bicho, levantando sua espada no negrume brilhoso, a pedra vermelha reluz ao cravar na cabeça da criatura que dá um último grito, que é fortemente abafado por outros gritos ainda mais fortes de vitória e punhos cerrados na névoa.

A cabeça havia se separado do resto do corpo que agora está sem vida na grama mística.

Barclay retira a espada, que sai com poucos respingos de sangue na ponta, a tal pedra prende a atenção de Kaleb com cada movimento, parecendo cintilar como sangue novo que caí depois de um corte insignificante.

Barclay levanta os braços fazendo um sinal de silêncio, e todos silenciam.

– Esse foi apenas o primeiro dos muitos outros obstáculos que enfrentaremos nas dependências desta floresta! Ocorreram algumas perdas e ferimentos, mas isso é inevitável. Quando sairmos como vitoriosos e conseguimos o alimento, iremos nos tornar os heróis de nosso povo! Seremos o exemplo! – Barclay diz – E isso que acabou de acontecer foi graças a um de nossos notórios guerreiros, Kaleb!

Todos vibram com gritos e pulos, levantando as armas ao ar.

– Venha cá! – chama, e logo Kaleb sai desajustado do meio da multidão de jovens.

Ele meche os lisos cabelos castanhos ao subir no corpo decaído da criatura e Barclay estende a mão para ele, que a segura, até que é erguida num sobressalto.

Um sorriso se alarga na boca de ambos enquanto todos gritam o nome de Kaleb com euforia e fervor nas veias.

________________________________________________

Mais tarde naquele dia, após retirarem os corpos e tratarem dos feridos todos se reuniram num local isolado da floresta para passar a noite, apesar de que com a ausência de luz, não se sabia ao certo se já era noite ou meio da tarde.

As carroças que ainda se encontravam inteiras estão repousadas num círculo envolto de uma fogueira. Os cavalos, agora mais calmos, foram presos nas árvores para não escaparem e um grupo de quatro reveza com outros grupos para vigiar os arredores e alertar anormalidades.

Kaleb fora chamado por Barclay para encontrá-lo em frente a sua carroça.

– Então, como teve aquela idéia brilhante? – perguntou Barclay.

– Não teve nada de extraordinário naquilo... Qualquer um poderia ter pensado – responde Kaleb modesto.

– Mas você pensou... E você não é qualquer um – Barclay fala – Quer suco de maçã?

– Não... – Kaleb está se sentindo desconfortável. Conversar com o seu chefe não foi algo que ensinaram nas aulas de treinamento.

Com os dedos e olhos inquietos os olhos de Kaleb se chocam novamente com a pedra cor de sangue da espada de Barclay. Uma irritação percorre sua espinha, e sem mais conseguir segurar, pergunta:

– Onde você arranjou essa pedra? – seus olhos se perdem no brilho precioso.

– Ah! Isso? – pergunta apontando pra espada – É parte do arsenal do rei, mas pelo que sei, essa pedra não é da espada, foi apenas “implantado”.

– Então de onde ela é afinal?

– Está interessado nessa velharia? – pergunta sorindo – Bem, é de uma das manoplas do Rei George, ele disse que ela está com sua família a gerações e é valiosíssima, faz coisas fantásticas. Ele mesmo afirmou que ela é reforçada com sangue.

Kaleb fica boquiaberto imaginando-se com uma armadura, usando as manoplas cravejadas com esta pedra avermelhada, lançando flechas de platina que cortam o ar impregnado de fumaça...

– Kaleb? – chama Barclay trazendo ele de volta a realidade.

– Ahn? Ah... – indaga limpando os olhos – Acho que já está na hora de eu ir embora.

– Tudo bem – diz Barclay mexendo nos seus cachos negros.

– Já vou indo, tchau! – se despede levantando-se.

– Tchau.

Desce da carroça e pisa na grama meio seca, com um rastro de vento esfriando seu pescoço.

________________________________________________

Ele deve ter se perdido, pois faz alguns minutos que anda na escuridão fulminante.

Em meio ao silêncio avassalador, um barulho quebra-o, enquanto Kaleb passa por alguns arbustos retorcidos.

“Kaleb...”, diz uma voz seca e mórbida em meio as folhas.

Kaleb olha assustado os galhos cercando-o pelos lados.

– Quem está aí? – pergunta.

Ninguém responde.

“Kaleb... Venha até mim... Nós vos esperamos...”, fala a voz rasgaste novamente.

Assustado, Kaleb corre sem rumo por caminhos da floresta, passando por emaranhados de galhos e folhas. Até que ele finalmente chega numa espécie de “espaço livre”, rodeado por árvores altas e caducifólias.

Respira rápido e forte, de forma ofegante.

Vira-se para os lados procurando alguém, mas não há ninguém.

Agora ele está realmente perdido.

Então, escuta o barulho de um galho sendo quebrado por trás dele.

Ele se vira abruptamente num sobressalto, avistando os olhos negros e profundos de uma criatura pálida e horrenda.

Notas finais
No próximo voltaremos ao ponto de vista de Lyra, que descobrirá ainda mais coisas sobre seu passado.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.