As Crônicas de Daegeryen - O Vento Traiçoeiro
2 Capítulo 2 - Ouro e Sangue
Notas iniciais
Ela está de pé ao lado da grandiosa janela revestida de ouro puro, observando seu povo seguir com suas vidas miseráveis pelas ruas cobertas por um tapete branco de neve.
– Lyra? – diz a voz forte de seu pai por trás da porta.
Ela vira-se para ele majestosamente, com os olhos cor de canela brilhando sob a fraca luz do sol que surgiu agora a pouco. A mesma luz que reflete seus cachos alaranjados muito bem arrumados debaixo de um coque e de uma tiara de brilhantes. Sua pele límpida salpicada com algumas pequenas constelações de sardas no rosto fica semelhante a uma perola que acabará de sair da ostra.
– O que? – pergunta com sua voz suave.
– Está na hora – responde.
Ela olha para baixo, respira e olha pro seu pai do outro lado da saleta mal iluminada.
– Então vamos – fala com uma certa insegurança.
– Vamos – ele fala e aguarda ela chegar perto dele, com seus passos suaves como as nuvens que sobrevoam o céu azulado.
Lyra segura seu vestido de veludo dourado como as estrelas para não amassá-lo, e seu pai, vestindo roupas longas de cor perolada segura-se no corrimão lustroso, sob a luz das lâmpadas sobrepostas nas paredes persianas.
A atmosfera que cerca o castelo e todo o reino é tensa e nebulosa.
Lyra Fairchild é a princesa do reino de Vuldrini, localizado nas Terras do Sul, governadas pelo Rei Charles Fairchild, seu pai. Ela é a legítima herdeira do trono, seguida por seu irmão mais novo Louis. Até então, pequenos grupos rebeldes se formaram por entre os becos da cidade. Eles queriam que o Rei renunciasse o trono, acusado-o por praticar corrupição, e agindo contra esta ação, eles saquearam o depósito de alimento, que era onde toda a comida que seria usada neste inverno serviria para matar a fome. Seu pai estava com medo de que algo pudesse lhe prejudicar, mas não só a ele, como também todos da família.
Agora, o Rei está se dirigindo a sala de reuniões para conversar com o principal líder dos rebeldes, juntamente com sua filha, que futuramente sucederá o trono quando finalmente atingir a maioridade, e ele quer garantir que ela fará isso da melhor forma possível.
Cruzam os corredores repletos de tapetes persas bordados a ouro e bronze, até então passarem pelo arco de mármore, perfeitamente lapidado.
O Castelo de Vuldrini é sinônimo de riqueza. Apresenta quatro torres, cada qual com seus aposentos, sendo eles: A estufa, na Torre Noroeste; O escritório real, onde o Rei Charles observa seu reino e faz seus debates para o público, na Torre Nordeste; os aposentos reais, na Torre Sudeste e os quartos de visita, na Torre Sudoeste. Além, é claro, da Sala de Reuniões no andar de baixo, assim como, a Cozinha Real, a Biblioteca Real, os dormitórios dos empregados, os vastos jardins verdejantes e as masmorras, no subsolo. Tudo arquitetado nos mínimos detalhes, e exclusivamente feito para o rei e seus sucessores.
Guardas protegem a entrada da Sala de Reuniões, segurando lanças de prata.
Eles passam por eles e entram.
É um grande espaço. Paredes formadas por tijolos cor de pele, um teto de vidro, um chão de mármore lustroso, uma grande mesa com mais ou menos doze cadeiras de cedro, e numa destas cadeiras está sentado um homem de quase a mesma idade do rei, uns quarenta e poucos anos.
Ele tem cabelos escuros, assim como os olhos que parecem um poço sem fundo. Usa roupas longas e pretas como carvão. Tem um rosto de expressão severa que ao mesmo tempo exalta um ar debochado.
Seu nome é Allomere. Lorde Allomere. O principal líder dos rebeldes que desejam a abdicação do Rei Charles.
– Olá Vossa Majestade – ele diz se levantando da mesa e reverenciando-se pro rei – Olá Vossa Alteza – fala beijando a mão de Lyra e curvando-se.
Em seguida volta para seu assento na cadeira que fica na “cabeça” da mesa do lado esquerdo, escoltado por guardas de todos os lados.
O Rei Charles,juntamente com Lyra, sentam do outro extremo da mesa, deixando uma longa distância entre eles e Allomere.
– Vamos iniciar o debate, primeiro gostaria de... – começa o Rei sendo interrompido pela voz rasgaste de Allomere do outro lado da sala.
– Por que não fala logo o que quer Rei? Ao invés de ficar enrolando com essa baboseira – diz ele debochado – Vamos, assim, como você gostaria de fazer. Eu digo uma proposta pra você sair, você se recusa e me paga com alguma coisa para que essas rebeliões acabem e você continue no luxo, e eu em silêncio. Não é isso?
O Rei fica sem ação, e Lyra fica boquiaberta.
É muito cinismo para uma pessoa só.
– Guardas... – Lyra fala sendo cortada pelo pai.
– Guardas! Não – rebate o rei.
– Mas pai...
– Filha, não é assim que se resolvem as coisas – o Rei adverte – O que você quer Allomere?
– O que quero? Eu quero, como você, o bem do povo – começa, levantando-se da cadeira – E para o bem deles, e do James... – o rei parece perplexo, a expressão em seu rosto é de horror, como se tivesse acabado de ver um fantasma.
– O que disse? – pergunta em choque.
– James – fala novamente, como se esse nome adoçasse sua boca – Seu filho bastardo, o qual você mandou para a floresta por não ter sido “desejado”.
Lyra não entende um terço do que dizem. Está em choque. Suas pernas ficam trêmulas e os pelos dos braços se arrepiam por inteiro.
O Rei parece ter um infarto a qualquer momento, seu coração está acelerado como um furacão, e ele soa tanto que parecem cachoeiras decaindo sob as rochas.
– Pai... Isso é... Verdade? – pergunta com a voz rouca e os lábios tremendo.
– Lyra! Agora não! Saia daqui e vá já para seu quarto! – ordena seu pai – O assunto agora é entre eu e ele!
– Ah! Então quer dizer que ele não lhe contou sobre seu irmãozinho? – Allomere cuspia as palavras na face do rei, aquilo estava lhe causando superioridade. Agora ele o tinha em suas mãos.
Ele se aproxima de ambos, que ainda se encontram sentados, porém já saltando das poltronas.
– Seu pai minha querida – fala – Teve um filho fora do casamento, com uma mulher que não tinha mais nada para oferecer à vida, a não ser seu corpo. Ele não queria ter de assumir o filho como seu, pois traria a ruína para toda a família, além de por um fim no casamento com sua mãe. Ele então abafa o caso dando um fim na amante, dando dinheiro e mandando-a para longe.
“Até aí tudo bem, mas então ela volta. Com a criança nos braços, chamada agora de James. O Rei, revoltado pela quebra do acordo manda seus guardas reais irem atrás de seu filhinho querido e de sua mulherzinha.”
“Relutantes, seus guardas pegam a criança e a jogam na Floresta Negra, a qual você sabe muito bem o que esconde entre os arbustos e folhas secas. Enquanto ela comete suicídio se jogando do alto do Penhasco das Almas.”
A um minuto de silêncio, que é brevemente quebrado por Lyra ao perguntar:
– Pai? – num tom decepcionado.
Seu pai não responde, e para isso evita o olhar culpado da filha. Ele corre seus olhos angustiados por todos os cantos da sala, até se dar conta de que não tinha saída.
Ele já sabe até onde Allomere quer chegar.
– O que você quer Allomere? E como sabe disso? – o Rei pergunta num tom severo, levantando-se da cadeira num sobressalto.
– Tenho meus informantes, digamos que você tenha maçãs podres – fala.
Eles trocam olhares de ódio.
Os guardas continuam imóveis em seus postos.
– Fale agora o que quer ou serei obrigado a mandar os guardas o prenderem na masmorra ou eu mesmo o prenderei e o sentenciarei! – ordena, e finalmente ocorre o que Lorde Allomere queria: A máscara do rei finalmente caiu.
Agora estava de pé a pessoa que se escondia por trás de seus guardas.
– Vejamos quem apareceu – rebate com sua língua afiada e cheia de veneno – Agora que o Rei Charles se juntou a nós, posso falar o que quero. Vejamos... Ah! Quero que você entregue o trono à mim, hoje!
– O que disse? Você só pode estar louco! – adverte o Rei – Nunca!
– Então seria uma pena se, porventura, o povo descobrisse quem você realmente é. Uma pessoa sem escrúpulos, que pensa somente em si! – explode como uma bomba que esperava apenas sua deixa – Hoje Rei Charles, você renunciará o trono à mim, além é claro, de explicar o real motivo de sua “despedida”.
Lyra já não assimilava mais o que era e não era verdade.
Seu pai?
O homem bondoso que cuidou dela desde pequena, e que a consolava nas noites em que passava chorando pela perda da mãe?
O mesmo que a ensinou como comandar um reino?
O mesmo que ajudou seu irmão?
Ela não conseguia acreditar, ou pelo menos, não queria.
Continua em silêncio enquanto eles brigam, soltando palavras e mais palavras, que entram por lado e saem pelo outro.
Era como se tudo o mais a sua volta, estivesse parado no tempo e não importasse mais.
– Como você pode ter feito isso comigo? – diz finalmente. Os olhos deles encaram-na, mas ela não olha pra eles. Uma raiva impulsiva sobe pelo seu corpo – Como pode fazer isso com a mamãe? Como pode fazer isso com seu filho? Você me enoja. Monstro! – grita. Passa voando pelos guardas. Sai correndo, passando pelo arco e indo em direção ao seu quarto, com lágrimas apalpando seu rosto.
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Passaram-se algumas horas até que o Rei Charles finalmente cedeu o trono.
Convocou uma reunião com o povo, aparecendo na varanda de seu escritório na Torre Nordeste.
“Povo de Vuldrini, foi muito bom governar estas terras férteis que de tanto extraímos a riqueza de nossas famílias. É uma pena eu não poder mais continuar comandando, pois sinto que estou prestes a partir, e me encontrar finalmente com Lizbeth nos céus. De alguma forma, estou doente e é grave... Peço a colaboração de todos ao dizer que, quem continuará no meu lugar, é o Lorde Allomere, que agora se transforma em Rei. Desde já agradeço”, estas foram as comoventes palavras de Charles, antigo rei de Vuldrini.
O povo não parecia tão impressionado, apesar de que tornou-se uma coisa bem comentada.
Lyra apenas chorava em seu travesseiro.
“Por que ele fez isso?”, se pergunta, quando de repente seu irmão Louis entra no quarto.
Seus cabelos cor de fogo estão despenteados, o que lembra as chamas de fogueira. Seus olhos estão meio preocupados. Ele ainda não sabe de nada.
– Lyra? – chama.
– Oi Louis – ela fala enxugando as lágrimas.
– Você viu o papai? – pergunta. Sua voz a acalma.
– O papai Louis, é um mentiroso! – grita com ódio nas veias.
– O que houve? Vocês brigaram? – pergunta.
Ela morde o lado inferior do lábio.
Não sabia se era certo contar ao Louis, aliás ele tem apenas sete anos.
– Louis... – a porta então se abre e uma das muitas empregadas vestidas com roupas cinzas, aparece.
– Lyra, Louis. Seu pai está chamando vocês – fala.
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Eles andam um ao lado do outro.
Tinha algo muito estranho... E Lyra estava sentindo isso.
Edith, a empregada, vai na frente com eles dois logo atrás.
Então eles entram no Grande Salão, onde ocorriam as festas reais e onde o Rei deixava seu Trono em repouso. Edith sai, deixando os irmãos a mercê da porta de madeira gigantesca.
Eles se entreolham até que Lyra, ainda usando o vestido dourado, empurra a porta...
Um cheiro de sangue entra por suas narinas.
O Grande Salão está destruído. As cortinas que outrora enfeitavam os bailes, estão rasgadas ao meio. A fonte que trasbordava vinho nas noites, está rachada e partida em pedaços. Sem falar no piso de ouro que refletia os vestidos rodados e os ternos, que está com manchas de sangue espalhadas.
O que aconteceu aqui?
E então os gritos começam.
Num canto do outro extremo, Allomere usa em sua cabeça a reluzente coroa cravejada de ouro e diamantes. Ele está rodeado por guardas, que espancam o Rei, que tosse sangue e tem graves hematomas pelo corpo.
– PAI! – grita Lyra que cobre os olhos do irmão pequeno – Louis não saia daqui! – ordena então tira seus sapatos e sai correndo até o pai.
Seus pés descalços sentem as pedras e o sangue encostando na pele branca.
– PAREM! – grita.
Allomere sorri vendo a cena, a dor dos outros lhe traz felicidade.
Agora tudo está sob o seu controle.
Lyra salta para cima de Allomere arranhando sua cara, mas ele revida empurrando-a para chão.
Ela solta um grito de dor.
– Covarde! – insulta, ele não se importa.
Ele lança um olhar frio para ela, um olhar tão frio que poderia chegar a congelar pessoas. Ele não tem piedade.
– Guardas! Acabem com ele! – ordena e então um dos guardas levanta sua lança de prata que rasga o vento com um simples corte.
O Rei já não abria mais olhos quando a lança atinge em cheio sua cabeça, e deixa seu sangue escorrendo pelo carpete de ouro.
Lyra já não conseguia mais gritar, sua garganta doía e seus olhos estão vermelhos de tanta água que trasborda sem parar.
Ela levanta-se com dificuldade e lança-se novamente para o rosto de Allomere, aqueles olhos profundos que faziam ela mergulhar na escuridão a atormentariam pelo resto de sua vida. Antes de cravar suas unhas em sua pele escamosa, ela é impedida pelos guardas, que tempos atrás serviam ao seu pai, que jaz morto no Grande Salão.
Eles seguram Lyra pelos braços, que se debate tentando se livrar das garras traidoras.
– Levem-na para as masmorras – ordena Allomere, o novo rei tirano das Terras do Sul.
Ela olha para ele e fica sem ação, paralisa deixando seu corpo pesado cair de joelhos.
Os guardas a levantam e ela volta a gritar.
Passam pela porta por onde ela passou com seu irmão.
Até que ela se da conta do que ocorreu...
Onde está Louis?
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Ela está sem forças para gritar e se debater, os guardas descem as escadas mal iluminadas e chegam no subsolo do castelo, onde celas de pedra e ferro formam as tenebrosas masmorras.
Abrem uma delas, e jogam Lyra dentro, sem algum cuidado, como se ela não significasse nada.
– VOLTEM AQUI! – grita – ME SOLTEM! – eles não dão ouvidos – LOUIS! ALGÚEM!
Então ela desaba no chão com as lágrimas já salgadas.
Seu vestido já não é o mesmo de hoje mais cedo, seu cabelo está bagunçado, sua tiara se perderá por algum lugar e seus pés estão descalços e com sangue entre os dedos.
Logo, em meio ao choro, ela vê alguma coisa no piso.
Quase tão pequeno que é quase invisível naquele mar de escuridão.
Uma pedra de citrine dourada e brilhante como o sol, que parece ser feita com mel de abelha.
– O que é isso? – indaga.
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