As Crônicas de Daegeryen - O Vento Traiçoeiro

1 Capítulo 1 - Partindo ao Alvorecer


Há quem diga mundo afora que pertencemos a um só lugar, a qual temos de passar anos e anos de nossas vidas monótonas.

Há quem diga que não existem outros mundos a serem explorados, além dessas vastas constelações de estrelas, galáxias, e dimensões.

Há quem diga que nosso pensamento é limitado para tais coisas, e que, como somos meros seres humanos, somos condenados a ciclos comuns e repetitivos de uma única perspectiva de vida.

E também há quem diga que estes mundos estão próximos a nós, sendo que não conseguimos enxergá-lo, a não ser que acreditemos em sua existência, alimentando esta idéia em nossos pensamentos.

Mas quais mundos haverão de existir? Isso, todos nós teremos de descobrir juntos, através de nossos próprios méritos e expectativas.

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Em terras distantes, muito além de nossa insignificante compreensão, vivi um povo.

Um povo que está constantemente em guerra, relacionada ao trágico e mórbido passado que une esse mundo de desavenças. Uma guerra que parece nunca chegar a um fim.

Porém, nesses tempos gélidos de inverno, ela parece ter finalmente silenciado... Mas só parece.

Os povos que vivem nas Terras do Norte, governadas pelo Rei George Weyland, se preparam para cruzar a imensa e pérfida Floresta Negra, que todos dizem ser habitada por criaturas noturnas e monstros sanguinários, como Lobisomens, Vampiros, Bruxas e Demônios. Mas que é a única, e possível rota que faz fronteira com os outros reinos inimigos.

A tropa se prepara. E como já haviam planejado dias passados, aguardam os outros guerreiros que embarcarão nesta longa jornada na frente dos portões de ferro que selam o Reino de Snowflakes.

O plano principal era invadir de surpresa as Terras do Sul, governadas pelo Rei Charles Fairchild, pelo motivo das Terras do Norte se encontrarem num estado alarmante de falta de alimento, que está dizimando a população de fome, e que pode piorar ainda mais com a vinda do inverno, que está cada vez mais próximo. As Terras do Sul, por serem grandes produtoras, tem comida de sobra para todos. O único problema é que os respectivos reis de ambas as terras tem uma forte rivalidade entre si, e não conseguem de forma alguma entrar num acordo que ajude as partes.

Sem qualquer outra alternativa, o Rei George, motivado tanto pela sua sede de vingança quanto pela situação precária de seu povo, resolve invadir as Terras do Sul para saquear o alimento necessário que irá sustentar sua população, sendo que fará isso de forma sigilosa, para que não haja uma forma de derrotá-lo com precisão...

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Um dos muitos guerreiros que irão se aventurar em terras distantes é Kaleb Walker, um notório jovem-arqueiro. Filho do meio de dois agricultores. Que se destacou com o arco enquanto caçava numa floresta próxima a sua casa, e que até então foi se dedicando mais e mais, até se oferecer para entrar na jornada em que está empenhado a concluir.

Ele acorda com o cheiro de terra úmida invadindo suas narinas. Ele adora esse cheiro, que é conseqüente da neve que caiu noite passada e que derrete em água agora.

Não são nem cinco da manhã ainda. O céu está colorido, quase como que uma explosão de cores diversas.

Levanta-se de sua cama e vai se arrumar.

“Hoje é o dia... O grande dia”, fala para si mesmo olhando nos próprios olhos, de frente ao espelho.

Veste uma blusa cinza que cobre seus braços por inteiro, uma calça de couro, uma bota de pele de camurça e a capa cor de sangue, que representa o reino. Ao terminar de se vestir pega sua aljava de flechas, uma bolsa meio surrada — onde coloca água e o que ainda restou da comida — e desce as escadas para se despedir da família.

Sua casa é das mais simples, rodeada por uma plantação que está soterrada pela neve, e sendo um pouco afastada do centro.

Quando chega no andar de baixo, sua mãe esboça um caloroso sorriso, mas ele percebe que por baixo dos cachos volumosos de cabelo castanho escuro, existe uma melancolia em seus olhos.

– Bom dia, meu arqueiro! – diz ela, deixando uma pequena lágrima escapar de seus olhos.

– Bom dia mãe! – responde num tom cansado.

Então ele a abraça e ela o abraça de volta.

Quando se vira, seu pai está encostado na parede do canto da cozinha, com seu irmão Kyle, de sete anos, nos braços.

– Onde está Kludd? – Kaleb pergunta.

Kludd é seu irmão mais velho, ele tem dezoito anos, enquanto Kaleb, dezesseis.

– Sumiu desde ontem... – diz seu pai – Provavelmente, deve estar cambaleando bêbado em algum beco dessas ruas imundas de lixo e urina.

Kaleb sempre teve esse instinto protetor, principalmente em relação aos irmãos.

– Mas deixe seu irmão pra lá, ele já sabe se virar sozinho. Venha dar um abraço no seu velho – diz seu pai colocando Kyle no chão e abrindo os braços.

Kaleb então deixa os grandes braços de seu pai lhe acolherem como um cobertor.

–Tome cuidado – ele fala perto do ouvido de Kaleb.

– Tomarei – responde.

Solta-se dos braços de seu pai, e olha para baixo, onde seu irmão o encara com os olhos verdes esmeralda.

– Você vai embora? – pergunta Kyle.

Kaleb se abaixa para falar com Kyle, e diz:

– Vou, mas eu volto. E quando voltar, estaremos fartos de comida.

– Ainda bem, pois já estou com fome, e mamãe disse que era pra economizarmos – diz Kyle, enquanto todos soltam uma risada meio abafada.

Kaleb mexe nos cabelos castanhos de Kyle com a palma de sua mão e se levanta, para dar o último abraço em seus pais e então partir em sua jornada.

Ele então olha pra sua mãe, que fica em pé ao lado de seu pai.

Não havia herdado seus cachos volumosos de tom castanho escuro, tampouco os olhos cor de chocolate.

Ele se acha mais parecido com o pai, olhos verdes e lisos fios castanho-claro, assim como Kyle.

Depois de refletir as aparências, da um último abraço em ambos.

– Amo vocês – fala num tom baixo.

– Também ti amamos – dizem juntos.

Desgruda-se deles e vira-se de costas indo de encontro à porta, até que paralisa quando toca na maçaneta.

– Mandem lembranças pro Kludd, digam a ele que sentirei saudades – fala, e então sai de sua casa.

Essa pode ter sido a última vez em que ele os viu.

Com passos firmes na neve, quase, totalmente espessa, ele se distancia cada vez mais da família, aproximando-se de seu destino.

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Após um tempo andando pela estrada coberta de neve, ele finalmente avista as torres do Castelo de Snowflakes.

Já são quase cinco da manhã quando ele chega na frente dos portões.

Alguns dos outros aventureiros já estão aglomerados em pequenos grupos. Deve ter, aproximadamente, trinta e poucos homens e jovens dentre quinze e dezoito anos, todos vestindo as capas cor de sangue.

Surgem os primeiros raios de sol no horizonte, indicando que está prestes a amanhecer.

Ao passar os olhos pela multidão, não tão grande de jovens, Kaleb vê alguém familiar. E quando se aproxima mais, reconhece o cabelo loiro bagunçado e o tom de pele pálido.

É Scorpius.

Scorpius Lancaster, um de seus únicos amigos. Kaleb o conheceu por acidente, numa tarde em que se chocaram quando corriam por lados opostos, e depois de uma briga no mesmo local, resolveram se entender, e tornaram-se grandes amigos.

– Scorp! – grita Kaleb.

Scorpius vira a cabeça abruptamente e acena para Kaleb.

– Kaleb! – diz indo ao encontro do amigo.

Scorpius não é dos mais atléticos, mas também não é daqueles que você quer ficar perto quando ele segura uma espada.

– Onde você estava? Te procurei por todo lugar – Scorpius pergunta encarando Kaleb com seus olhos azuis hipnotizantes.

– Estava em casa, cheguei aqui agora a pouco – diz Kaleb – Você viu o Kludd? Meu pai disse que ele sumiu desde ontem...

– Não, não vi – responde – E mesmo assim não temos tempo para procurar, partiremos daqui a pouco. Só estamos aguardando as ordens do Rei George.

Kaleb odeia ter que admitir que é verdade. Ele não tem tempo para procurar o irmão. Agora ele tem apenas de deixar esse seu lado protetor um pouco de lado e seguir em frente.

– Tudo bem, você tem razão – diz finalmente – Uma hora ele volta não é?

Scorpius abre a boca para falar alguma coisa quando então é interrompido pela voz forte do Rei George, soando do alto de seu castelo de tijolos alaranjados e lustrosos.

Os cabelos grisalhos e a barba acinzentada são iluminados pela luz fraca do sol que surge além das colinas. Suas vestes cor de vinho se assemelham um pouco as cores vermelhas das capas de seus solados.

– Hoje – começa – Partiremos no que pode ser a mais perigosa jornada já feita antes. Nenhum outro exército cruzou o solo inumano da Floresta Negra e saiu com vida. Mas nós, juntos, iremos sobreviver ao impossível, e então traremos a paz, tanto para a floresta quanto para as famílias de Snowflakes. A fome agora será extinta.

Os guerreiros gritam e lançam seus punhos cerrados no ar.

O Rei faz um sinal para que eles silenciem.

– Povo de Snowflakes – diz o Rei, e então Kaleb percebe que algumas pessoas de pele meio acinzentada saem de suas casas para ouvir o discurso – Nesta manhã, nossos mais poderosos guerreiros irão partir em uma missão. Eles serão testados pela magia da Floresta, e nem todos suportarão a loucura de estar do outro lado. E quando os vitoriosos alcançarem o Reino de Vuldrini, e trouxerem o tão cobiçado alimento que tanto necessitamos, finalmente, nós sobreviveremos ao inverno rigoroso.

“Então meus guerreiros, tudo está nas mãos de vocês agora. Nosso povo está morrendo, e só vocês podem impedir que isso se propague ainda mais”.

Há um breve momento de silêncio, e então os gritos e punhos cerrados ao vento explodem numa onda de euforia e adrenalina.

– Guardas! Abram os portões! – ordena o Rei George.

Os portões de ferro que outrora selavam e protegiam o reino, juntamente com os muros de madeira nobre, se abrem.

O Comandante Barclay, um homem alto de físico forte é quem comanda todo o exército de guerreiros, que marcha no soar imaginário de tambores, para fora do reino.

O povo observa atentamente os guerreiros partindo ao alvorecer, enquanto o sol ilumina o céu o tudo o mais que se encontra abaixo dele.

Notas finais
O próximo capítulo não será "exatamente" uma continuação desse, eu irei ficar alternando as histórias para depois juntá-las.Espero que tenham gostado.