As Crônicas de Astra
11 Pelos Deuses e pelos homens - Idrian
Notas iniciais
A manhã surgiu bela. Idrian acordou com um tímido raio de sol invadindo o quarto pela janela. O homem ficou em silêncio olhando para Joanis, que ainda dormia sobre seu peito, respirando lentamente. Os cabelos dela estavam soltos e caiam como cascatas castanhas sobre seu corpo nu.
Idrian permaneceu quieto, refletindo sobre tudo que havia acontecido desde que passara pelo vilarejo de Isan e salvara Joanis até a chegada à Hakar, onde foram atacados por Jon, aquele demônio e onde perdera sua noiva, Antariad. As memórias de um passado mais distante vinham à tona e se mesclavam com a realidade. Talvez tudo estivesse mais interligado do que ele podia imaginar. Porém o mais importante era conseguir sobreviver a tudo aquilo. Joanis no momento representava perigo iminente, mas no futuro ela seria símbolo de poder no oeste de Astra e se ela deseja-se até no outro lado do Mar de Cristal, no leste. Era o certo a fazer, embora tivesse se precipitado um pouco.
Ela iria ficar e iria governar. Mas por quanto tempo isso seria possível? Estava sendo caçada pelo Senhor e ele e seus servos não iriam descansar enquanto Joanis não fosse capturada e morta para a honra e gloria do Senhor.
Idrian acariciou a cabeleira da jovem que abriu os olhos lentamente. Joanis deu-lhe um sorriso de bom dia e se sentou na cama.
– Então não foi um sonho?
– Não milady – Idrian retribuiu o sorriso e se sentou ao lado dela – Bom dia.
– Bom dia – ela se levantou e andou até a janela e se pôs a olhar para a vila – Idrian, hoje irei definir meu destino e quero seu conselho – ela se virou e Idrian não pode não notar as cicatrizes espalhadas pelo corpo da jovem, como no de um guerreiro – Devo continuar para oeste e abandonar meu povo, ou ficar e dar uma base para meu povo e partir daqui a alguns meses?
A mente de Idrian automaticamente articulou diversas coisas que poderiam acontecer nas duas oportunidades. Se partissem podiam morrer, se ficassem também. Porém se ficassem ele poderia se casar com Joanis e se tornar o rei de Pandorian. Porém se não partissem Joanis poderia ser capturada e o Senhor iria destruir tudo que ela construísse.
– Deve ficar e governar.
Joanis saltou sobre Idrian derrubando-o na cama. Ele a beijou e ficaram os dois ali, parados, se olhando.
Poderia ter se passado vários anos, meses, ou dias quando por fim lorde Gute bateu na porta do quarto.
– Milady, o povo irá te esperar em uma hora – ele ficou em silêncio por dois segundos – Alminus está na cidade e deseja te ver, imediatamente.
– Diga a Alminus para esperar – ela se levantou e pegou seu vestido – E diga a ele que agora não sigo ordens – a voz da jovem soava imponente, como de uma verdadeira rainha – Eu dou as ordens.
Gute ficou em silêncio e pode-se ouvir os passos pesados dele no corredor se retirando. Idrian estava pasmo com a súbita mudança de Joanis. Como era possível a dor moldar uma pessoa dessa forma?
– Vamos Idrian! – ela disse de maneira mais suave – Tenho que falar com meu povo, apresentar meu rei e dizer que iremos partir para Pandorian – enquanto vestia o espartilho continuou a falar – Graças aos Deuses que Alminus esta aqui, realmente preciso falar com ele, sobre a aliança bélica entre meu reino e Garidis.
Idrian ouviu tudo em silêncio, enquanto se vestia, mas ainda pasmo com a nova Joanis.
– Milady, sinto informar, mas Garidis não é uma cidade bélica, nosso exército não é muito grande – ele se dirigiu a porta – Mas temos aliados e eles possuem grande poder.
– Que assim seja Idrian – ela sorriu – Me encontre na praça em uma hora.
O homem retribuiu o sorriso e se retirou para seu quarto. Idrian entrou e se deitou em sua cama e ficou ali pensando por uma hora inteira.
Logo ele seria anunciado como noivo de Joanis. O que os Garidianos iriam pensar? Antariad tinha morrido a menos de uma semana e ele já estava se deitando com outra e querendo se casar e governar. Aquelas pessoas podres jamais iriam entender os motivos de Idrian. Aqueles malditos não sofreram o que ele sofreu. Não sabem quais fatos o levou a ser o que ele é hoje.
Joanis representava poder e Idrian amava tanto a garota quanto o poder que ela podia fornecer. A jovem era forte e destemida, como ele pode comprovar, e seria uma rainha com mãos de ferro. Todos iriam se curvar perante ela e perante ao seu Rei Vermelho. Idrian desejava guerra e cobiçava todos aqueles que ele poderia conquistar.
Idrian se levantou e pendurou sua capa vermelha sobre o ombro e pegou sua espada dourada e saiu para a rua do vilarejo. Guiou-se solitário pelas vielas da cidade até que por fim chegou até a praça, onde as pessoas já começavam a se aglomerar. Se sentou num banco e se pôs a se observar aquelas pessoas.
Estavam mais gordas que quando as viu acorrentadas pela primeira vez. Olhou detalhadamente para cada uma delas, vendo suas feições e pensando que um daqueles habitantes foi o responsável por arrancar seu braço. Ele não guardava ódio deles, pois entendia a fome que eles passavam e a dor que aquele demônio os sujeitava. Respirou fundo e passou a esperar.
Algum tempo depois Joanis surgiu sendo escoltada por Alminus e uma tropa de cavaleiros de capa branca. Idrian se levantou e se juntou ao grupo, cumprimentando seus parceiros e subordinados. Joanis se virou e seus olhares se cruzaram por um segundo, antes de ela se virar novamente. Ela parecia determinada e furiosa. O grupo se dirigiu ao centro da praça e Joanis se estufou o peito imponente e olhou para todos ali presentes.
– Sei do sofrimento que passaram nas garras daquele demônio. Fome, dor, humilhação – ela gesticulou para o oeste – Por sorte eu e meus amigos atracamos aqui nesse vilarejo há uma semana e fomos atacados por aquela fera e num golpe de sorte fomos salvos por meu nobre amigo Thor, o esquilo e seu amigo Bart, que terá grandes honras no reino que pretendo estabelecer – ela fez uma pausa, talvez dramática e voltou a falar – E é por isso que os reuni aqui hoje meu povo. Convido vocês para abandonar essa vila que tanto maltratou vocês e me seguirem para Pandorian, onde sou herdeira por direito – a multidão se agitou perante a menção do nome das terras de Pandorian, que há tanto tempo não eram habitadas e também perante a um reino regido com magia – Sei que vocês possuem família, sei que desejam voltar para seus lares antigos. Mas eu lhes dou um novo lar! Vocês são livres para suas escolhas, mas os que me seguirem serão lembrados quando eu me sentar sobre o trono de ouro.
Alminus se precipitou e começou a falar pela primeira vez:
– Não se sintam acanhados em seguir Lady Joanis, pois mandarei guarnecer Pandorian enquanto o reino cresce e vocês se adaptam a vida nova – ele balançou seu cajado sem motivo aparente – Pandorian terá aliados fortes e seu cada um de seus aliados, como prometi, mandara 10% de seu poder bélico para a cidade um protegido para ser criado sobre teto Pandoriano. Entre todas as escolhas que tem, seguir sua futura e legitima rainha é a melhor de todas.
A praça explodiu em aplausos. Joanis podia ser imponente e firme com sua palavra, mas Alminus era persuasivo, talvez até usasse magia para isso. Joanis sinalizou e fez a praça silenciar.
– Tenho algumas nomeações a fazer – ela se virou para Thor que estava entre os guardas – Primeiro eu chamo Lorde Thor, se ajoelhe – o esquilo cambaleou e se ajoelhou perante a rainha – Sir Thor, sua bravura será cantada em canções por todos os séculos, porém ainda nessa vida eu lhe darei recompensas grandes. Tu serás Senhor de terras e meu vassalo, além de guerreiro de meu exercito. Agora se levante meu senhor – Thor se levantou e se prostou ao lado da rainha – Agora Bart – o homem se ajoelhou de maneira humilde – Tua bravura também será cantada em canções por muito tempo, mas tu merece muito mais que isso. Tu agora será Lorde Bart e vivera na corte, onde recebera toda recompensa e respeito que seu ato lhe proporcionou. Se levante Lorde Bart.
O homem se levantou e as nomeações continuaram por alguns minutos, porém Idrian não prestou atenção. Sua mente vagava no futuro, onde ele era rei e o Senhor estava morto e ele vivia feliz e poderoso. Voltou a si apenas quando ouviu seu nome no discurso de Joanis.
–... Lorde Alminus, pelos poderes que os Deuses lhe deram una eu a Idrian. Os tempos são sombrios e não teremos tempo para festas e cerimônias complicadas. Por favor.
Alminus hesitou. Ele parecia não querer aquilo, mas devia fazer, pois eram ordens de sua rainha.
– Que assim seja – ele levantou o cajado e então o bateu com força no chão – Se ajoelhem!
Idrian tomou a mão de Joanis e se ajoelhou junto a ela. Alminus se levantou imponente sobre os dois. Os olhos do mago encontraram por um segundo os de Idrian e pareceu ler cada sentimento na consciência dele. O homem desviou o olhar para o chão e ouviu as palavras do mago.
– Pelas estrelas e pelos Deuses, dos Antigos, aos Novos. Pelo leste e pelo oeste. Pelo fogo e pelo gelo, vós Joanis Goldragon jura permanecer junto de Idrian Garidiel, servindo-o e amando-o?
– Sim – Joanis respondeu sem hesitar e sorriu.
– Até que as estrelas apaguem e os Deuses morram, até que o sol surja no oeste e se ponha no leste, até que o fogo congele e até que a morte por fim caia entre vocês, tu ficaras ao lado de Idrian?
– Sim – a garota balançou a cabeça – Para sempre.
Alminus se virou para Idrian.
– Pelas estrelas e pelos Deuses, dos Antigos, aos Novos. Pelo leste e pelo oeste. Pelo fogo e pelo gelo, vós Idrian Garidiel jura permanecer junto de Joanis Goldragon, amando-a?
O homem pensou por um segundo. Seria isso o certo a fazer?
– Sim – disse por fim.
– Até que as estrelas apaguem e os Deuses morram, até que o sol surja no oeste e se ponha no leste, até que o fogo congele e até que a morte por fim caia entre vocês, tu ficaras ao lado de Joanis?
– Para sempre...
– Então pelos Deuses e pelos homens e por tudo que se move e habita sobre Astra eu os declaro uma alma única.
Idrian se levantou e ajudou Joanis a se levantar. Olhou em seus olhos e sorriu para ela.
– Temos de seguir a tradição... – sussurrou o homem – Temos que ir.
– Que assim seja.
Joanis se virou para as pessoas e falou em alto e bom som.
– Partiremos amanhã ao amanhecer! Quem quiser nos acompanhar será bem vindo, mas que não quiser será livre para partir.
O homem segurou a mão de Joanis e cruzaram a multidão em direção a pousada. Agora estavam casados, tudo que um conquistasse também pertenceria ao outro. Quantas terras a rainha de Pandorian poderia conquistar? Mas uma pergunta ainda pairava na mente de Idrian. Ainda teriam de ir para oeste para anular a magia contida no sangue de sua mulher. Será que ele iria sobreviver àquela viagem para desfrutar da realeza?
Subiram ao quarto e Idrian despiu Joanis em silêncio. Peça a peça, os dois ficaram nus.
– Meu rei – Joanis o beijou.
– Minha rainha.
A menina se deitou na cama e sorriu de maneira sensual, enquanto ajeitava o cabelo. Idrian retribuiu o sorriso e se deitou junto a sua mulher.
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