As Crônicas de Aldembar
1 Capítulo 1
Brasil, 31 de janeiro de 2014.
“Interrompemos nossa programação para um pronunciamento de última hora” foi o que disse a voz feminina na TV enquanto todos esperavam sentados na sala atentos às cenas do ultimo capítulo da novela. Aquele era um dia especial, diferente dos outros. Em cada casa do país, as pessoas mudavam sua rotina e deixavam seus afazeres só para ver qual final teria o vilão que tanto aprontou, e claro, o tão esperado beijo de amor dos protagonistas.
Tenho certeza que muitos reclamaram com a interrupção e o adiamento por alguns minutos do tão sonhado felizes para sempre. Mas não havia muito que se fazer se não esperar e torcer para que seja lá o que é que tinha que ser dito, bem no horário nobre da novela, não demorasse mais que dez minutos.
Um homem, aparentemente comum, nem magro, nem gordo, usando ternos risca de giz e uma gravata que combinava perfeitamente com o resto do conjunto, apareceu na tela substituindo a imagem preta que ocupava os monitores anteriormente. Seus cabelos castanhos contrastavam com a tez extremamente pálida e com os olhos de cor única, pretos mesclados de vermelho, que não desviavam um só segundo das câmeras, mas que pareciam atentos a cada canto do aposento.
“Boa noite” disse a voz melodiosa na TV. “Meu nome é Leon Del Sartre, sou um dos membros do Concilatus de Aldembar e estou aqui para fazer uma revelação. Desculpem-me se atrapalhei a vossa noite de lazer, mas o que tenho a dizer é urgente e necessita total atenção dos senhores. Prometo ser o mais breve possível”.
“Pois bem” Continuou ele “A uma distancia em que seus olhos não podem ver, porém bem mais perto do que os senhores imaginam, existe um reino onde a magia se faz presente e as criaturas que habitam os sonhos se fazem reais. Nesse mundo de lendas, onde orcs, elfos, gnomos, elementais e outras tantas espécies, são obrigadas a conviver em sua diversidade, é inevitável que eventuais desentendimentos aconteçam e que vez ou outra uma batalha venha a se formar.”
“O problema é que essas batalhas às vezes tomam proporções tão épicas que afetam não só o reino de Aldembar, mas todo o equilíbrio do planeta. Lembram-se daquele tsunami em 2004 que invadiu vários países na Ásia? Ou aquele terremoto no Japão que ocasionou aquele desastre nuclear em Fukushima? O deslizamento de terras no Brasil que matou tantas pessoas? É meus caros, sinto-lhes informar, mas tudo isso e tantos outros desastres foram ocasionados pelas guerras que despontam em Aldembar.”
“Ah, senhores, meros humanos... Incapazes de notar nossa presença... criam guerras que nem sequer são suas. Sim, sim... Estão certos se pensam que estou falando das duas grandes guerras mundiais. Eu assumo, elas foram totalmente nossa culpa. Mas o que fazer se precisávamos de um exército bem maior do que o que tínhamos e os senhores estavam prontos para guerrear? Entendam, em uma guerra vence aquele que tiver primeiro as armas em mãos, os senhores estavam prontos, nós não. As circunstancias justificam os atos.”
“Não estou dizendo que me arrependo por usá-los quando necessário ou que sinto algum remorso por todos os desastres pelos quais fizemos os senhores passarem. É só que chegou o momento em que os senhores, pobres mortais, precisam tomar uma decisão, e para isso precisam conhecer o que está bem debaixo de seus narizes. No entanto, antes de abrir a porta do meu mundo, sinto-me obrigado a avisar: este é um caminho sem volta. Todos aqueles que atravessarem o véu que separa Aldembar do seu mundo estarão presos para sempre.”
“Mas esse não é o aviso mais importante. O que nos preocupa é que o mal está se formando. É preciso saber que se ele não for detido, não ocasionará só o fim de Aldembar, mas transformará cada ser, cada criatura em escravos da escuridão, trazendo caos e terror para toda a humanidade. O seu reino e o meu reino como o conhecemos está correndo risco de extinção. O que os senhores irão fazer? Continuar no escuro enquanto nossos reinos serão destruídos, ou entrará nessa jornada seguindo por caminhos e aprendendo coisas que jamais sequer poderiam imaginar?”
“Todos aqueles que acreditam em meu pronunciamento e desejam ajudar em nossa luta contra o mal, devem comparecer a sede do Concilatus. Não se preocupem, os senhores não precisaram ir muito longe. Em cada cidade foi construída uma sede ao lado da prefeitura, procurem-na. Aviso mais uma vez: não há volta. Haverá uma guerra onde muitos cairão e você pode ser um deles. Nós não temos tempo. Para maiores informações, procure o Concilatus”
“Obrigado e boa noite”
A imagem de Leon foi substituída por uma preta, enquanto a voz feminina da TV anunciava “Continuaremos a seguir com a nossa programação original”, retornando para as cenas da novela.
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