Após dois dias transcorridos desde o interrogatório com Cláudio, Aethel e seus amigos, por fim, chegaram até o grande palácio, quase 24 horas antes de Felipe e as legiões III, IV e VII do Norte.

Embora fosse seu desejo, Aethel nem pôde solicitar um triunfo ao senado, pois esse estava demasiado ocupado com as questões financeiras e políticas do império, especialmente a notável instabilidade que ainda se via no Leste, a despeito da campanha de pacificação efetuada pelo imperador.

Cláudio fora entregue aos cuidados de “Marcos Aurelianus” (por vezes grafado “Aurelianos”, devido a suas origens sulistas; todos sabem que no Sul, algumas vezes, nomes latinos tem a letra “u” trocada pelo “o”, que remete ao sotaque típico de lá, que ganhou maior expressão a partir do que se chamaria de século XIX), o Mestre de Justiça, pois julgamentos e aplicação da lei eram atribuições do poder judiciário, não do imperial.

Naturalmente, Aethel preferia ver Cláudio crucificado, porém, não lhe cabia desafiar as atribuições do chamado 3° Poder do Império, cuja separação dos demais fora instituída por Ivan I, chamado “O Gentil”, primogênito de Vladimir III — “O Sanguinário”.

De certa forma, Aethel sentia que sua vitória em Nimrod havia sido reduzida a uma questão menor, quase sem importância, especialmente porque ainda havia alguns focos de baderna, clamando por revolução e morte.

O imperador se sentia cada vez mais desanimado e sem energia para lidar com tantos problemas; a seu ver, nada daquilo fazia sentido, tendo em vista que seus esforços pareciam não surtir nenhum efeito significativo.

Mabel ainda estava inconsciente; Dipper procurava nas anotações de Antonio Aureliano qualquer coisa que pudesse ajudar na busca pelo pomo de ouro; o Cavaleiro Verde enviou um comunicado ao senado, pedindo para se encontrar com Aethel de acordo com o costume dos cavaleiros; e Gemma ainda estava com dificuldades em desvendar os dizeres da placa de pedra.

Apesar de tantos desgostos, Merlin ainda trouxe ao seu discípulo algumas alegrias: quatro jovens que surgiram da floresta sombria e que agora estavam confortavelmente alojados no grande palácio.

Aethel não conhecia nenhum deles e, em dado momento, chegou a pensar que poderiam ser espiões estrangeiros, pois já sofria com o estresse e começava a desconfiar dos outros.

Porém, Jake, Rosa, Danny e Sam não tiveram problemas em identificar os novos convidados palacianos:

—Trixie?Spud?! — disse Jake — Como vieram parar aqui?

—Jazz e Tucker?! Então seguiram a gente pelo portal? — perguntou Danny, enquanto Sam olhava os amigos, feliz.

—Na verdade — explicou Jazz — O portal que trouxe vocês dois aqui, nos jogou no meio da floresta, mas o senhor Merlin nos salvou e abrigou aqui, no palácio.

—Merlin? — perguntou Spud — Trixie e eu fomos trazidos aqui pelo tal de Gael… Na boa galera, mas aquele cara me dá arrepios.

—E quem é esse bonitão aí? — perguntou Trixie, olhando Aethel de cima a baixo, com risadinhas.

—Sou Aethel I, da casa de Ryu — respondeu Aethel, curvando-se educadamente — É uma honra conhecê-la, senhorita Trixie — terminou o rei, enquanto beijava a mão esquerda da moça, segundo a etiqueta ghalaryana.

—”Graça”? — perguntou Trixie.

—Ele tá perguntando seu nome, Trixie — respondeu Spud, enquanto comia um brioche de creme com morango (pois, para alegria geral, Aethel decidiu não banir os brioches, apesar da má fama que haviam ganhado no século XVIII) — Ela se chama Trixie Carter, alteza, e eu sou Arthur Patrick "Spud" Spudinski… Mas pode me chamar só de Spud mesmo, sem enrolação.

—Muito bem — respondeu Aethel — É um prazer, irmão Spud…

Spud e Trixie ainda usavam as roupas do dia anterior, quando foram achados na floresta, assim como Jazz Fenton e Tucker Foley, porém, os dois últimos tomaram o cuidado de lavarem os rostos e baterem nas vestimentas, para tirarem um pouco da poeira.

Jazz curvou-se diante de Aethel, sendo seguida por Tucker, logo apresentando-se ao imperador:

Majestade, meu nome é Jazmine Fenton, irmã de Daniel Fenton, mas meus amigos e familiares me chamam de Jazz. Esse ao meu lado é Tucker Foley, um amigo da família. Merlin pediu que eu lhe entregasse este bilhete — disse a garota, logo estendendo ao imperador um bilhete do tamanho de uma mão adulta.

—Vamos ver… — disse o rei — “Grande Aethel, senhor do mundo, conquistador do Leste; eu o saúdo. Peço que cuide bem da senhorita Jazz Fenton e de seu amigo, Tucker (ele também gosta de carne). Jazz é irmã de Daniel, então vocês se darão bem. Retornarei em breve. Cumprimentos.” Então Merlin saiu? Espere um momento… Quem é Daniel?

—Como assim? Eu sou Daniel! — respondeu Danny, um tanto surpreso com Aethel.

—Daniel? … Daniel Fenton?… Eu estava escrevendo “Phantom” nos documentos que citam você… E seu sobrenome não era “fantasma”? — questionou o rei — E você, Jake? Também tem algum outro nome secreto?

—Eu sou o Jack — respondeu o dragão ocidental — Só o Jake, ok?

—Pensei que seu nome fosse Jacob… — disse Rosa, segurando um riso.

—Jacob? — perguntou o rei.

—Hahaha, na verdade é Jacob Luke "Jake" Long… Jake é diminutivo de Jacob — disse Rosa — Vossa alteza não sabia?

—Não — respondeu Aethel — diminutivos usados a nível oficial são extremamente raros em Ghalary. Todo ghalaryano deseja ter seu nome lembrando, letra por letra… para nós, um apelido, ainda que carinhoso, não tem o peso de nossos nomes… Acho que minha pequena confusão se deve a mais uma diferença cultural, peço o perdão de todos.

—Está tudo bem, majestade — respondeu Jazz — Sua cultura parece ser rica e fascinante. Não precisa se preocupar com pequenos equívocos que não fazem mais do que alegrar o ambiente. Além disso, a tradição milenar de sua nação justifica toda a situação deste momento.

—Obrigado, senhorita… Jazz… E fala muito diferente de seu irmão, se me permite. Muito bem, para mostrar que está tudo bem, vou deixar as mentirinhas de Daniel e Jacob de lado e ignorar que mentir para um imperador constitui crime de “lesa majestade”... cuja pena é a morte.

Diante do silêncio sepulcral, Aethel preferiu acalmar os espíritos de todos:

—Só estava brincando.

Jazz sorria com o clima de descontração, enquanto ajeitava sua calça azul marinho e sua camisa de mangas longas , inteiramente preta.

Jazmine era uma garota muito bonita, com pele clara, olhos azuis, cabelos ruivos, quase alaranjados, corpo esguio e sapatilhas escuras, que lhe davam uma aparência um pouco adulta, especialmente porque ela parecia ter sido tirada dos anos 70.

Tucker, por outro lado, era um rapaz afro-americano, com cabelos crespos, camisa amarela, uma calça cargo da cor verde, botas marrons — e “radicais”, como disse Spud -, boina vermelha, cinto preto e um par de óculos com armação escura.

O rapaz possuía olhos turquesas e parecia estar ficando cansado da discussão, de forma que Aethel foi até a mesa mais próxima e pegou um sino dourado, que produziu um som bastante natalino e chamou um dos mordomos do palácio, cujos olhos castanhos, cabelos negros e curtos, postura ereta e pele bronzeada denunciavam uma vida de marinheiro.

—Senhor Jonas — disse Aethel — Estes são meus convidados: Tucker Foley, Jazmine “Jazz” Fenton (espero ter falado certo), Trixie Carter, Arthur Patrick "Spud" Spudinski, Daniel “Danny” Fenton (que quase me enganou com seu nome), Jacob Luke "Jake" Long e… Rosa. Esqueci de alguém? Não? Ótimo. Senhor Jonas, gostaria que os levasse até uma das saletas de jantar e nos trouxesse algo, pois meus novos amigos devem estar famintos… E também gostaria que chamasse Luna e Tristan, pois não os vejo a algum tempo.

—Mas é claro, vossa majestade — respondeu o senhor Jonas, com um riso — Ouvir é obedecer. Por favor, senhores, venham todos por aqui.

Todos, até Aethel, admiravam os longos corredores do palácio, os quadros requintados, os vasos floridos, tapetes vermelhos com fios de prata e ouro, colunas de mármore e grandes portas com belíssimos relevos, retratando cenas mitológicas, jardins, passagens bíblicas e eventos históricos do império ghalaryano.

Após alguns minutos, o grupo chegou a uma porta de ébano, que dava entrada para uma pequena sala com janelas abertas cujas cortinas púrpuras eram, habilmente, presas por argolas de ouro.

As paredes eram forradas com macias tapeçarias e o chão possuía tapetes fofos tão confortáveis, que o grupo retirou os calçados antes de entrarem no lugar (pois todos sabem que os ghalaryanos gostam de ter salas e quartos especiais para, sempre que for conveniente, possam caminhar descalços em tapetes macios).

No centro da sala havia uma mesa de madeira de tamanho médio, com dez assentos de madeira estofados, algumas almofadas de veludo vermelho e uma aconchegante lareira, com duas poltronas aveludadas próximas, iguais as almofadas, com brasões dourados que remetiam a ordens de cavalaria e a casa real de Ryu.

Não havia nada naquela saleta que não fosse simpático e agradável; inclusive as duas janelas traziam uma sensação tão absoluta de conforto e paz, com suas vistas para o jardim e também para as grandes montanhas distantes e a floresta, que o grupo logo se sentiu em casa, trazendo a Aethel uma grande satisfação, pois a boa hospitalidade é um dos maiores orgulhos ghalaryanos.

Sem demora, três funcionárias trouxeram uma travessa farta de espaguete em formato de sino, um tipo de pote coberto feito de jade, contendo um molho feito a base de tomates com sal (naqueles tempos, um luxo) e especiarias, duas jarras de alabastro com vinho do norte (esse feito de uvas com mel e um tipo de flor congelada e moída) e alguns figos em um prato.

Também havia um pequeno pote de madeira com mel do oeste, para acompanhar os figos.

Embora fosse diferente de uma macarronada comum, dessas que temos em nosso mundo comum, era também diferente em seus detalhes, como em relação ao queijo, que tradicionalmente era produzido na própria casa de um ghalaryano ou no palácio, caso se estivesse falando do rei.

O queijo era cortado em pequenos pedaços e colocado em um tipo de moedor de temperos, próprio para aquele trabalho, sendo logo moído em cima do macarrão, porém, isso era mais para um visitante estrangeiro que para um ghalaryano típico, já que era costume no império partir o referido laticínio em fatias finas e colocá-las sobre o alimento, sem moer.

Esses detalhes culturais deixavam mais evidentes as diferenças entre o mundo de Ghalary e qualquer outro de que se pudesse falar, mas também gerava maiores possibilidades de erros de etiqueta (algo intolerável para uma casa ghalaryana), de modo que Aethel teve o imenso prazer de explicar aos seus amigos sobre a importante questão do queijo, dos vinhos quentes ou vinhos do norte (pois Tucker, Jazz, Spud e Trixie ainda não sabiam que a palavra “vinho” em Ghalary não se refere a algo alcoólico) e de inúmeros outros assuntos.

Sam e Jazz maravilharam-se com tudo aquilo, Spud se divertia cortando o queijo e cantando uma velha canção mexicana, Jake beijava a bochecha direita de Rosa e Danny conversava com Trixie sobre o que significava ser um “garoto fantasma”.

Quanto a Tucker, esse entrou em desespero quando descobriu que em Ghalary não havia acesso à internet: sem wi-fi; sem sites; sem vídeos online; sem telefones celulares e sem boa parte das tecnologias comuns da Terra, desde a terceira ou quarta revolução industrial.

—Irmão, vocês não conhecem o século XXI?! — disse Tucker, sem perceber a indelicadeza na pergunta — Como alguém sobrevive sem internet hoje em dia? A maioria preferia ser engolida por um dragão.

—É com você, Jake — disse Rosa, rindo em seguida.

—Ha-ha-ha, não achei graça nenhuma — respondeu Jake, enquanto limpava o molho dos lábios.

—Bem… — começou Aethel — Eu sinto muito por não ter-mos essa “internet”, senhor Foley. Antonio Aureliano estava tentando modernizar Ghalary, mas como sofreu uma revolução e terminou executado… Bem, vamos dizer que essa tarefa, como tantas outras, caiu sobre mim, graças à fraqueza de Aureliano.

—Nossa, que vacilo o meu — disse Tucker — Aí cara, foi mal, eu não quis ofender.

—Está tudo bem, senhor Foley, não me ofendeu — respondeu Aethel, com gentileza — Na verdade, o senhor e todos aqui me honram, ao aceitarem partilhar de minha mesa e me distrair com histórias desses mundos tão estranhos de onde vieram.

A conversa se estenderia um pouco mas; para resumir, Danny e Sam contaram que foram sugados por um portal verde, enquanto o garoto fantasma explorava uma estranha singularidade fantasmagórica na escola, cujo epicentro era a biblioteca.

Após serem sugados e irem parar o mundo de Aethel, os dois ficaram perdidos e sem orientação, até que conheceram o jovem imperador.

Enquanto as aventuras em Ghalary transcorreram, no mundo de Danny as coisas eram um pouco diferentes: Jazz ficara tão preocupada, que obrigou Tucker a usar um tipo de GPS para tentar localizar Danny e Sam no interior daquela singularidade, onde a energia gravitacional tornava-se cada vez mais terrível; embora os pais de Jazz estivessem ali, nada puderam fazer para impedir que os dois jovens, Tucker e Jazmine, fossem sugados.

Com Jake e Rosa a situação foi um pouco diferente:

—Eu estava treinando com o vovô — disse Jake — De repente, apareceu um portal e um cara de armadura verde saiu dali.

—É verdade — concordou Rosa — Jake e eu fomos atacados. Acabamos sendo jogados pelo portal e acabamos acordando no quarto do seu palácio.

—O Cavaleiro Verde atacou vocês? — questionou Aethel — Suspeito que ele não tenha ligações com Nealie. Aquela placa de pedra deve ter muito mais do que apenas os interesses de Nealie…

Seguindo com a discussão, Spud e Trixie disseram que precisaram da ajuda de Lao Shi, o avô de Jacob, e Susan, a mãe do garoto, para abrirem o portal de novo e pularem dentro, no intuito de salvarem Rosa e Jake.

Porém, como não estavam preparados, acabaram sendo jogados na floresta, ficando totalmente perdidos e rodeados de feras selvagens.

Aethel ficou fortemente interessado em duas coisas: a origem dos poderes de Jake e a senhorita Jazz, que falava com grande perspicácia.

Também estava achando a história da origem dos poderes de Danny muito interessante.

Aparentemente, os pais de Danny estavam criando uma espécie de portal para o mundo dos fantasmas, porém, como a invenção parecia ter fracassado, eles a deixaram de lado.

Daniel, por outro lado, entrou dentro da máquina e, acidentalmente, conseguiu ligá-la, o que acabou fazendo com que o DNA do rapaz fosse fundido com uma poderosa energia fantasma, conferindo assim seus grandes poderes.

Quanto a Jake, seu caminho não foi a ciência estranha, mas a linhagem ancestral: Jake Long pertencia a uma linhagem de dragões poderosos.

Como um garoto com habilidades de dragão poderia ser inconveniente, o rapaz precisou treinar com seu avô, Lao Shi, para dominar seus poderes.

Lao também estava precisando de um sucessor, tendo em vista que proteger o mundo mágico era o nobre dever da família Long, o que também foi considerado tanto pelo avô quanto por seu neto.

Em determinado momento, Aethel contou aos amigos sobre a saga da espada e de como tornou-se imperador, para deleite de todos os presentes.

De repente, Rosa não pôde segurar e acabou comentando:

—Esta sala é fofa demais, me lembra da sua coleção de ursinhos, Jake.

O riso geral foi inevitável, mas a alegria durou pouco, pois quando Tristan e Luna chegaram, trouxeram com eles alguns documentos que precisavam da assinatura imediata de Aethel.

—Vamos ver… — disse o monarca — Aumentar o soldo do exército… negativo; jamais vou mimar um militar enquanto eu viver. Doações para a construção de um novo orfanato para os órfão de guerra… aprovado — disse o rapaz, assinando o documento — Também cederei um bom terreno para a construção do edifício. Determinar quem representará a casa de Ryu na conferência de exploração científica da Sociedade Cartográfica e Histórica? Vamos ver… creio que o senhor Albert nos servirá muito bem; vi seu trabalho sobre a monarquia ghalaryana e fiquei encantado — continuou o rei, escrevendo o nome de Albert C.N. Jones no documento.

—São muitas obrigações — disse Sam — É legal ver um garoto com tanta responsabilidade.

—É, como vocês dizem… “ossos do ofício”, não é isso? — perguntou Aethel — Vamos continuar… Uma escavação arqueológica no antigo assentamento de Atlas, próximo ao litoral? Não tinha conhecimento disso. Tritan, quero que depois você comunique ao senado sobre isso e lhes peça para enviarem um pequeno destacamento para proteger a escavação e manter os civis longe; se algum leigo ficar andando por lá, pode acabar destruindo artefatos preciosos para nossa história.

Fazendo uma pausa, o rei continuou:

—E quero que redijam uma carta para o rei Babar, de Celesteville; precisamos garantir que a chegada de seus especialistas em botânica e plantio de bananas e mangas cheguem em segurança. Quero que tenham total liberdade para fazerem seu trabalho… A memória de um elefante é longeva, então esperemos que sua sabedoria também o seja.

Luna tilintou, produzindo o agradável som das fadas, mas apenas Tristan e Aethel a compreenderam plenamente, pois o primeiro era desse povo alado, e o segundo entendia aquela linguagem como se fosse sua língua materna.

Após terminarem suas refeições, todos calçaram seus sapatos e seguiram para o escritório de Aethel, onde havia uma abusiva papelada esperando a chancela do imperador.

Eram assuntos muito variados, mas a maioria abordava temas como fome, crise financeira, direitos civis e questões diplomáticas (muitas referentes ao império Franco-Armaniano, muito menor que o ghalaryano, porém, excessivamente ambicioso).

Aethel suspeitava que eles desejavam Cláudio como um imperador fantoche, mas esboçar tais suposições baseado apenas em intuição não era suficiente para que a questão fosse abordada pelos senadores.

De repente, Dipper e Beatriz apareceram no escritório e algumas apresentações precisaram ser feitas pelo imperador.

Dipper estava impaciente com o estado de sua irmão, enquanto Beatriz desejava a autorização de Aethel para entrarem nos “arquivos imperiais secretos”:

—Vossa majestade — disse Beatriz — Precisamos de mais documentos referentes à imperatriz Sophia e sobre o rei Atlas.

—Mas é claro — assentiu o imperador — Beatriz, quero que você e Dipper tenham acesso total aos arquivos secretos, porém, creio que precisarei estar com vocês, pois alguns pontos só podem ser acessados pelo próprio imperador… É como um sistema de segurança, nem eu sou capaz de liberar acesso total a vocês.

—Como assim? — perguntou Dipper — Quer dizer que há lugares lá embaixo que nem o Merlin pode acessar?

—Exatamente, Dipper — disse Aethel — Mas não se preocupe, vou assinar mais alguns documentos e já desço com vocês todos. Aliás, tem algo que preciso mostrar a todos vocês; o segredo do imperador e da casa de Ryu.

Tristan se retirou com os pedidos de Aethel e Luna permaneceu ali, porém, voou pela janela, assim que o grupo ouviu um murmurar no pátio do palácio…

Havia uma pequena multidão, que desejava falar com seu imperador.

—Parece que as coisas vão esquentar — disse Spud — Não acha melhor a gente ir falar com eles?

—Sim, Spud, tem toda a razão — disse o imperador — Não queremos que essa pequena manifestação se transforme em algum tipo de marcha sobre Versalhes.

—Majestade! — gritou Jonas, o mordomo — Um grupo de pessoas está rondando os portões e alguns até conseguiram entrar no pátio. Como os guardas não impediram isso?! Não entendo!

—Mas é claro… — disse Aethel, bastante tranquilo — No meio da multidão devem haver amigos e familiares da guarda imperial, então era natural que eles facilitassem a entrada das pessoas… pois bem, ordene que abram os portões e guie-os até meu segundo escritório.

—Queira desculpar, irmão Dipper — disse Aethel, com um sorriso — mas a nação deseja ver seu rei e, como as senhoritas Jazz e Sam podem lhes dizer, meu irmão Luís, dos franceses, bem nos ensinou o que acontece quando um rei não se entende com seu povo.

Levantando-se, Aethel guiou seus amigos até um escritório muito maior do que o anterior: um grande salão com cadeiras, estantes de livros, uma mesa grande ao centro com mapas, uma mesinha menor com xícaras, pires e uma jarra de chá vazia, grandes janelas abertas e um tapete grande, que cobria boa parte do chão e possuía belas ilustrações das mil e uma noites.

Pedindo que seus amigos se sentasse, Aethel lhes falou:

—Aconteça o que acontecer, mantenham a calma e sejam educados, ou teremos uma revolução nas mãos.

Em poucos minutos, uma pequena multidão, portando lanças e alguns mosquetes, cruzou as portas abertas do grande salão e entrou, desejando falar com o imperador.

Caminhando alegremente até eles, Aethel os cumprimentou e perguntou como podia ajudá-los.

Uma mulher entre 30 e 40 anos, com um vestido simples, cabelos negros, pele clara e portando uma lança se aproximou de Aethel:

—Majestade, desculpe a invasão. Meu nome é Maria. Somos pessoas boas que estão com fome e medo.

—Por favor — respondeu Aethel — Se vocês têm fome e medo, eu é que devo me desculpar. Aqui represento a nação e vocês fazem parte dela; sempre serão bem vindos aqui.

Ouvindo isso, a multidão pareceu se acalmar, de modo que algumas mulheres, incluindo Maria, se curvaram diante de Aethel. O rapaz chegou a ouvir alguns vivas dirigidos a ele, mas não deixaria sua postura cuidadosa por nada, nem por alguma sensação breve de orgulho juvenil.

—Majestade — disse Maria — Os franco-armanianos estão ameaçando nossas fronteiras e tem havido alguns incêndios nos celeiros. Acreditamos que eles desejam nos matar de fome!

—Acredito que Cláudio estava aliado a eles — respondeu Aethel — Mas não tenho mais do que minhas suposições. Talvez estejam querendo se aproveitar do que julgam ser uma fraqueza de nossa parte, para nos invadirem e anexarem partes do território ghalaryano… Acho que vão começar com a fronteira leste.

—O que o senhor pretende fazer? — perguntou uma idosa da multidão.

—Primeiro: vou comunicar o senado agora mesmo. Luna — disse Aethel — comunique a situação ao senador Atreu, ele é um pouco belicista, mas sua lealdade não tem tamanho. Segundo: vou enviar uma esquadra para proteger o mar do leste, talvez o almirante Danner possa manter a segurança sem parecer que estamos “ameaçando” os franco-armanianos… Claro, antes Luna terá que comunicar essa ideia ao senado, ou isso poderá ser visto como declaração de guerra.

Após pensar um pouco, Aethel pediu ao mordomo que chamasse Arquimedes:

—Ele deve estar dormindo na torre de Merlin — disse Aethel — Por favor, chame-o e diga que preciso dele imediatamente.

Não demorou mais do que cinco minutos antes que a coruja chegasse voando, para ajudar seu amigo:

—Estou aqui, rapaz — disse Arquimedes, para a surpresa de Jazz e os outros — Do que precisa?

—Arquimedes — disse o imperador — preciso que envie uma carta aos reis, imperadores e líderes que estão diplomaticamente aliados a nós; se houver alguma possibilidade de guerra, será bom ter um pouco de ajuda. Também preciso que envie uma carta a Juba III, rei dos franco-armanianos… já vou escrevê-la; está na hora de tirar algumas coisas a limpo e tentar impedir uma guerra.

—O que pretende? — perguntou Jazz e Arquimedes, em uníssono.

—Convidá-lo para um chá — respondeu Aethel — Preciso de tempo até que a placa seja decifrada e o pomo de Nealie encontrado. Além disso, espero me encontrar novamente com o Cavaleiro Verde; se esse tolo continuar a andar por aí, pode acabar aumentando as suspeitas do povo quanto a uma invasão estrangeira.

—Surpreendente! — disse Jazz — Mas gostaria de sugerir o envio de diplomatas para o reino de Juba III. Além disso, você poderia falar aos senadores e pedir que lutem pela paz.

—Não é má ideia — respondeu Aethel — Senhoras, poderiam fazer uma coisa para mim?

A multidão assentiu e o imperador falou:

—Reúnam as pessoas da cidade, escolham doze e lhes digam para aparecerem na próxima sessão do senado, pois os súditos também precisam estar cientes de meus passos daqui para frente. Comunicarei ao senado com antecedência por meio de Arquimedes e essas pessoas serão bem recebidas. Após a sessão, irei até o fórum e conversarei convosco… Neste momento, será bom que toda a capital esteja reunida, me entenderam?

A multidão concordou, mas também aproveitou para falarem mais algumas coisas:

—Majestade — respondeu um rapaz de olhos azuis, pele clara e cabelos castanhos, com cerca de 17 anos — Perdão, mas as pessoas estão com fome por causa dos incêndios. Será que o senhor poderia fazer alguma coisa?

—Qual o seu nome, rapaz? — perguntou Aethel.

—Sou Marcelo, majestade.

—Encarrego você de liderar os grupos que irão, todas as noites, vigiar os celeiros e proteger os grãos. Também mandarei algumas unidades de policiamento para protegerem os poços de águas; não podemos correr o risco de alguém envenená-los. Roland II, de Enchancia, e Blair Willow, de Gardênia, são nossos aliados e estão nos ajudando a armazenar grãos. Pedirei a eles que enviem o suficiente para suprir as famílias que estão sofrendo com esses incêndios criminosos.

—Rosa, Spud e eu podemos ir com o Jake e investigar os incêndios — disse Trixie.

—Desculpe Trixie — respondeu Aethel — Mas Jake se tornou importante demais para que eu permita que ele se distancie do palácio. Um dragão pode ser muito útil caso haja um ataque inimigo contra os civis… e boa parte do meu exército está espalhado pelo império, protegendo as fronteiras ou tramando rebeliões.

Após redigir de próprio punho um convite rápido para Juba III, Aethel se levantou e caminhou até a janela mais próxima:

—Temos que impedir essa guerra, senhores… A nação já tem sofrido demais até aqui. Senhor Foley, o que é essa “internet” de que você falou? Ela tem aplicação militar? Pode ser usada para defesa?

—Bem… — começou Tucker — com ela a gente tem acesso quase ilimitado à informação, podemos nos comunicar e até acessar satélites e outros aparelhos eletrônicos, se estivermos com a conexão adequada e o acesso correto. Quer dizer, você precisaria de alguns computadores, mas eu posso arranjar isso.

—Computadores… — pensou Aethel — Se bem me lembro, eles eram apenas caixas grandes de metal que pesavam toneladas e não serviam para nada.

—Irmão! — disse Tucker — Quando viu um computador pela última vez?!

—Estive em uma sala com um desses, uma vez — respondeu Aethel — O general MacArthur me mostrou esse “computador”, durante uma guerra, eu me lembro bem.

—MacArthur? Está falando do general Douglas MacArthur?! — perguntou Sam, surpreendida.

—Sim, ele mesmo — respondeu Aethel.

—Eu não acredito! Irmão, quer dizer que a última vez que você viu um computador foi na Segunda Guerra Mundial?! Onde você viveu até agora? Numa caverna?!

—Guerra civil é ruim, meu caro Tucker. Mas poderia ajudar meu império a se modernizar? Talvez sua tecnologia estranha me ajude a vigiar meus celeiros.

—Deixa isso comigo — sorriu Tucker — Eu dou um jeito, cara.

—Eu agradeço — disse Aethel — Quanto a senhorita Jazz, será que poderia me ajudar com um pouco de diplomacia no senado?

—Terei prazer em ajudar, majestade — respondeu Jazz.

—Muito bem, então faremos o que foi decidido: lidar com os incêndios; pesquisar mais documentos nos arquivos imperiais para ajudar a senhorita Mabel; conversar com Juba III e tentar impedir esta maldita guerra; reunir nossos aliados estrangeiros; desvendar a placa de pedra; descobrir os planos do Cavaleiro Verde; alimentar meu povo e deter as ambições de Nealie! alguma pergunta?

Como todos permaneceram em silêncio, o imperador sorriu e encerrou:

—Ótimo. Se tudo der certo, Ghalary será reerguida e modernizada, assim como foi desejado por meu antecessor, mas se falharmos, seremos destruídos por uma guerra mundial ou arruinados pelos planos de Nealie.

A questão era séria e mereceu alguns instantes de silêncio, logo terminados por um otimista Aethel:

—Tenhamos fé, meus irmãos; a sorte está lançada e faremos o melhor…

Notas finais
A má fama dos brioches: Conta-se que, após ouvir que o povo não tinha pão, a rainha Maria Antonieta (1755 - 1793) teria dito "Se o povo tem fome e não tem pão, que coma brioches". A frase infeliz - e falsa - foi usada durante a revolução francesa para aumentar o ódio contra a rainha, que acabou sendo executada. A frase apareceu originalmente em "Confissões", obra do filósofo Rousseau, porém, há quem pense que está associada a uma antiga anedota chinesa relacionada ao imperador Hui de Jin (259 - 307), segundo imperador da dinastia Jin (265 - 420). Após ouvir que seu povo não tinha arroz suficiente para comer, Hui teria respondido "porque não comem carne?", um alimento muito mais caro, associado as classes mais altas. Luís: Luís XVI, rei da França e de Navarra. Seu reinado teve início em 1774, porém, terminou de forma trágica quando foi deposto em 1792 durante a Revolução Francesa. Luís seria executado em 1793. Ao se lembrar de Luís XVI, Aethel - que também é um monarca - tinha sérias razões para não ignorar a multidão que entrou no palácio. Douglas MacArthur: Douglas MacArthur (1880 – 1964) foi um militar e oficial norte-americano, que serviu tanto nas Filipinas quanto nos EUA. Teve papel importante durante a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), no chamado "Teatro do Pacífico". MacArthur aceitou a rendição do Japão durante a Segunda Guerra em 2 de setembro de 1945, tendo se encontrado pessoalmente com o imperador Hirohito. Segunda Guerra Mundial: Conflito de proporções globais ocorrido de 1939 a 1945. Além do conflito entre "Aliados" e "Eixo", a segunda guerra também foi marcada por inúmeros crimes contra a humanidade, além de milhões de pessaos que perderam suas vidas, tanto civis quanto militares.