Após os eventos com Nealie e o Cavaleiro Verde, Aethel enviou por meio de Arquimedes uma carta a Merlin, solicitando seu retorno imediato para o grande palácio imperial.

O imperador nada comentou sobre os eventos daquela fatídica noite com nenhum de seus amigos, nem mesmo Jack e Danny; Aethel considerou o assunto encerrado e não mencionou-o novamente, optando por lidar com outras questões mais urgentes, como a ameaça de guerra, a fome etc.

Muito dedicado, o jovem monarca tinha o costume de acordar entre 4 e 5 da manhã para fazer suas orações matinais e seguir com o trabalho em seu escritório, somente tomando seu café da manhã entre 6 e 7 horas, segundo o costume milenar dos ghalaryanos.

Era agradável acordar tão cedo porque se podia ver o Sol raiar majestosamente no horizonte, como um grande disco de ouro que enriquecia todo o mundo, além disso, o silêncio reinante naquele horário era uma grande benção para Aethel.

Os ghalaryanos viam com bons olhos um imperador tão afeito ao trabalho, especialmente porque o monarca exigia das classes nobres igual disposição, enquanto afirmava convicto “vossos títulos não os eximem de trabalhar pelo império”.

Infelizmente o mencionado império não passava por seus melhores dias, de forma que a mesa de Aethel sempre estava abarrotada de documentos a serem trabalhados.

Considerando o extenso trabalho, o jovem rei lia a papelada (muitas sendo petições das mais variadas áreas) e formava decisões acerca delas:

—Vamos ver o que temos para hoje — sorria o rapaz — “Alocação de recursos do Estado para a construção de uma ponte na grande floresta”... pode esquecer! Eu precisaria tirar dinheiro de outras áreas, como saúde e segurança, o que faria o senado me encher a paciência. “Construção de um hospital militar na fronteira leste, próxima ao território Franco-Armaniana”, interessante… Talvez eu possa ordenar essa construção, porém, seria melhor se o hospital servisse também a população local, inclusive às aldeias franco-armanianas próximas (que sempre são abandonadas por aquele tirano do Juba); dessa forma eu conquisto o apoio local e diminuo a influência de Juba III nas fronteiras do meu império; aquele déspota não perde por esperar!

Prosseguindo com o trabalho, Aethel não notou a entrada de Jazz em seu escritório, com um olhar que guardava tanto receio quanto medo:

—Alteza, por favor, precisamos conversar.

—Hein, o quê? — disse Aethel, surpreso — Oh, é a senhorita Jazz. Como posso ajudá-la?

—Eu preciso falar uma coisa… — disse a garota — Espero que não se aborreça.

—Estou ouvindo, senhorita Jazz — respondeu Aethel, sempre afável — Qual a sua aflição?

—Noite passada, quando você conversou com aquela feiticeira e o cavaleiro… Eu não entendo muito bem as regras desse lugar, mas me parecem “bárbaras” ás vezes… Você é o imperador e… Olha, eu só queria perguntar uma coisa, mas se achar ofensivo não precisa responder e…

—Quer saber porque cortei a cabeça do Cavaleiro Verde, não é isso? — disse Aethel, levantando de sua cadeira e caminhando até a janela.

Assentindo com a cabeça, Jazz continuou:

—Sim… não precisava terminar tudo com um assassinato.

—Não houve assassinato algum, senhorita, nem tenho autorização legal para isso. Eu apenas cortei a cabeça do cavaleiro, nada mais.

—Isso mesmo, você matou aquele homem — disse Jazz — Eu vi tudo, nem adianta negar!

—Então permita que eu lhe conte o que não viu — disse Aethel, com a tranquilidade de alguém que, a pouco, acordou da letargia noturna — Após o ocorrido ele exigiu justiça, porém, com minhas palavras eu o convenci a carregar as ofensas sofridas, por enquanto… Depois de cortar sua cabeça (como previsto em seu código de honra), seu corpo ajoelhado se levantou e, carregando a cabeça, retirou-se, cumprindo com o combinando e atestando a imensa honra do Cavaleiro Verde.

—Acha que eu vou acreditar nisso? — perguntou Jazz — Você ao menos está se ouvindo?!

—E porque não? — perguntou Aethel — Vivemos em um mundo onde se pode crer em um garoto que vira dragão; uma coruja que fala; bruxas e magos; espadas encantadas tiradas de bigornas etc., além disso, não podemos esquecer de Danny e seus poderes de fantasma…

—Tá, tudo bem, acho que tem razão — concordou Jazz — Então, supondo que disse a verdade, o que vai acontecer a partir de agora?

-Jazz, minha tarefa é cuidar desses assuntos… — disse Aethel — e a sua é não comentar o que viu com mais ninguém, mesmo com seu irmão, está bem? Sei que está abalada com a cena, mas pode confiar que ela nada teve de bárbara e primitiva, foi apenas “diferente” do que você estava acostumada.

—Se ele ainda está vivo, então o que o Cavaleiro Verde é? Um fantasma?

—Não vale a pena fazer essas indagações — respondeu Aethel — Algumas coisas não precisam de nossa atenção… felizmente, o café da manhã não é uma delas; venha, senhorita, vou lhe servir o desjejum.

Juntos, os dois foram até uma saleta, onde logo uma funcionária alegre trouxe a refeição matinal para o amo e sua convidada.

Tradicionalmente os monarcas ghalaryanos constumavam fazer todas as refeições no grande salão de banquetes, porém, a arrumação, cerimonial e quantidade grande de pratos eram, na visão de Aethel, um desperdício de alimentos e uma colossal perda de tempo para os funcionários (além de tudo, o rapaz gostava daquela tranquilidade da manhã que se alongava com agradáveis refeições em sua saleta).

Após o café da manhã, o mordomo real trouxe para Aethel um comunicado do senhor Carlos: finalmente parte da placa de pedra fora decifrada!

Sem esperar mais, Aethel e Jazz seguiram até uma sala especial da grande biblioteca, onde encontraram o Dr. Gemma de frente para a placa de pedra.

Ao lado direito do arqueólogo estava Carlos, com um caderno de anotações:

—Salve, grande Aethel, senhor do mundo. Após uma extensa pesquisa, me alegro em dizer que a placa foi decifrada… E acho que o senhor vai se interessar muito no que ela diz.

—Os outros já foram avisados? — perguntou Aethel, recebendo uma resposta afirmativa de Carlos:

—Chegarão logo, majestade. Eles também têm feito progressos com o diário da imperatriz.

De fato, após alguns instantes, Beatriz, Jack, Danny, Sam, Rosa, Spud, Tucker, Trixie e até Dipper cruzaram um corredor e chegaram até a sala onde estava a placa de pedra.

Após cumprimentar a todos, Gemma e Carlos retomaram o assunto:

—Inicialmente pensávamos que se tratava de um texto único — disse o curador do museu — porém, com a ajuda de nossos especialistas, eu percebi que parte das linhas que compunham o misterioso texto eram mais profundas que outras, além de conterem traços microscópicos de pigmentos amarelados…

—O que sugeriu que havia mais de uma mensagem na placa, cada uma sendo de épocas distintas — complementou Gemma — Por isso eu não conseguia decifrar a mensagem; além de haver mais de uma mensagem, elas estavam sobrepostas!

—Naturalmente… — disse Carlos — A placa foi reutilizada de forma um tanto descuidada, garantindo que os textos se misturassem e ficassem indecifráveis.

—Tá certo, já entendemos isso — disse Dipper — Mas o que estava escrito nessa placa? É alguma coisa que pode ajudar a Mabel?

—Fique calmo, Dipper — pediu Gemma — Eu sei que está preocupado com sua irmã, mas precisamos de tempo.

—Mais tempo? A Mabel está morrendo! Ela não tem mais tempo! — disse Dipper, irritado.

—Alguns têm ainda menos tempo… — disse Aethel, distraidamente.

—Como assim? — perguntou Rosa.

—Esqueçam isso — disse Aethel — Por favor, doutor Gemma, prossiga.

—Muito bem — continuou o arqueólogo — Detectamos ao todo três textos antigos: um poema, um hino funerário e fragmentos de um mito antigo, muito anterior ao tempo da grande fundação. Para facilitar a compreensão, tomamos a liberdade de atualizar algumas palavras e referências de localidades contidas nas mensagens. Fora isso, infelizmente o poema e o mito ainda estão em processo de decifração e não temos mais do que algumas poucas frases e palavras perdidas… Mas com certeza isso mudará nos dentro de dois ou três dias.

Fazendo uma pausa, Aethel pediu que os textos fossem lidos, ao que Carlos pegou seu caderno e iniciou a leitura:

—Muito bem, comecemos então pela camada mais recente — disse Carlos — já que temos razões para acreditar que é nela que Nealie está mais interessada…

Ajeitando a gravata borboleta, o curador começou a leitura, com a voz de um avô contando uma história para os netos, antes de dormirem:

—”Minha espada foi manchada com as gotas rubras de meus inimigos; a grande Mãe fortificou nossa terra, pois se alegrou em minha força; toda Connacht bebe o leite mais puro e come a carne mais nobre: quem elevará o nome acima do meu? Meus frutos reinarão sobre Connacht e os sábios das grandes florestas — por onde passeia a grande Mãe — exultam ao ouvirem meu nome: o nome divino de Maeve, a senhora das batalhas! Que a grande Mãe e os deuses do bosque me recebam na mesa mais farta, ao lado de meus irmãos; que a grande Mãe abençoe os frutos de meu ventre, para que reinem; que a grande Mãe proteja minha espada, meu escudo e minha couraça, na grande caverna da eternidade, onde repousa meu corpo sem vida (mas não minha alma, pois essa estará se banqueteando no reino dos deuses); que meus olhos vislumbrem as maçãs de Avalon e meu espírito torne a viver, ao lado da grande Mãe”.

Fazendo uma pausa, Aethel começou suas reflexões:

—Maçãs de Avalon… “meu espírito torne a viver”... uma deusa primitiva, chamada de “grande Mãe” e o nome de Maeve, uma antiga rainha celta, cultuada como deusa. O que pode significar?

—Essa “caverna da eternidade” — disse Sam — Será que não é um lugar real?

—Com certeza — disse Gemma — Provavelmente é apenas uma forma poética de se referir ao túmulo de Maeve.

—O texto também falou de uma espada, escudo e couraça que pertenciam a Maeve — disse Aethel — O que nos trás um problema…

—Problema? — perguntou Rosa.

—Sim, senhorita — respondeu Aethel — Merlin me contou uma vez que Maeve foi uma grande guerreira, imbatível e impiedosa em combate… E se Nealie estiver, na verdade, atrás de Maeve? E se o pomo apenas fizer parte do problema?

—Está dizendo — disse Dipper — que Nealie não quer a maçã de ouro? Mas ela mandou você encontrá-la, ou Mabel morreria!

—Sim, eu sei — respondeu Aethel — mas há uma coisa no texto que me intriga, ouça: “que meus olhos vislumbrem as maçãs de Avalon e meu espírito torne a viver”... Estou começando a achar que o pomo de ouro funciona como um meio de se alcançar Maeve… Não, acho que a maçã serve para se chegar às armas de Maeve; com elas, Nealie seria imbatível.

—Mas o texto disse “maçãs de Avalon” e Nealie está atrás do pomo de ouro das hespérides — indagou Jack — Como se explica isso?

—Uma lenda costuma sofrer com as influências culturais do povo que a conta… — respondeu Aethel — Maeve deve ter visto ou ouvido falar de maçãs douradas e acabou associando-as a terra encantada de Avalon. Na verdade, maçãs douradas com características mágicas não são tão incomuns assim; por exemplo, temos o caso das maçãs de Iduna, na mitologia nórdica.

—Você recebeu boa educação — sorriu Gemma — Até parece um adulto falando.

—Minha infância foi dedicada a extensos estudos, doutor — respondeu Aethel — E graças a minha ocupação, não posso ser apenas um adolescente; tente me ver como um adulto de 13 anos, está bem?

—Um adulto que nunca usou internet — riu Tucker, enquanto ajeitava os óculos.

—Hahaha, mas é claro — riu Aethel — O homem sempre está descobrindo coisas novas, mas é muito difícil se inteirar de todas elas. Ainda estou tentando assimilar essa tal de “televisão”, que conheci em Gravity Falls. Eu até já havia visto uma televisão antes, mas só fui conhecê-la com o senhor Stan Pines… E ainda me encanta o cinematógrafo dos Lumière, mas ainda não tive tempo de trazer um ao palácio.

—Cara! — começou Spud — “Cinematógrafo”?! Então nunca foi a um cinema de verdade?!

—Apenas uma vez… — respondeu o rei — Era um teatro com uma tela branca ao fundo, nada de muito especial, embora a locomotiva tenha me assustado um pouco.

—Locomo… — começou Tucker — Fala sério, cara! Não é possível que os ghalaryanos sejam uma sociedade tão primitiva!

—TUCKER! — repreendeu Jazz — É claro que esse mundo evoluiu de forma diferente do nosso, por isso precisamos ter respeito.

—Aí cara, foi mal — desculpou-se Tucker.

Como Aethel não estava ofendido, pediu que Gemma seguisse com suas explicações, que se estenderam por mais alguns minutos.

A despeito do poema antigo e do mito, como não pareciam estar relacionados a lenda de Maeve (ou “Medb”, como Gemma citou, em certo momento) e, além do mais, ainda estavam em processo de tradução, Aethel pediu que fossem deixados de lado por enquanto.

Antes que mais coisas fossem ditas, Arquimedes chegou voando pela sala, comunicando que Merlin havia retornado.

Sem esperar, Aethel pediu que todos se dirigissem até seu escritório, com exceção de Gemma e Carlos, pois era imprescindível que as outras duas mensagens fossem devidamente decifradas (além disso, o rapaz estava curioso demais para saber o que elas diziam).

Seguindo as orientações do imperador, o grupo correu até chegar ao confortável escritório, onde as principais decisões imperiais eram tomadas.

Merlin estava sentado em uma agradável poltrona de veludo vermelho, enquanto brincava com seu cachimbo de bolhas de sabão e ouvia um violino que, magicamente, tocava Sir Roger de Coverley de forma alegre.

Levou alguns minutos até que Aethel inteirasse o mago acerca da mensagem na pedra e de seu encontro com o Cavaleiro Verde (omitindo os detalhes fortes, naturalmente), porém, a despeito do tempo curto, esboçou também um breve comentário sobre seu convite a Juba III, o rei dos franco-armanianos.

—Juba… — suspirou Merlin — Um turrão que sempre busca brigar! Vamos esquecer um pouco desse “elemento” e focar em Nealie e seu pomo de ouro das hespérides, já que a senhorita Mabel ainda está inconsciente.

—Isso mesmo! — disse Dipper, com rapidez — A Mabel precisa de ajuda!

—Muito bem — disse o mago, enquanto dividia a conversa com as bolhas de sabão — Acho que devemos procurar o túmulo de Maeve, ainda que não tenhamos a localização da maçã dourada…

—E de que nos serve um túmulo, sem a maçã de ouro? — questionou Tucker.

—E de que nos adianta ter a maçã — perguntou Merlin — sem sabermos onde a rainha Maeve foi enterrada? É bem possível que Nealie já tenha essa informação, então não seria razoável encontrar o túmulo e protegê-lo?

—E onde ele está, meu amigo? — perguntou Aethel.

—Não sei, Aethel — disse o mago — Você terá de procurá-lo.

—”Não sabe”?! — surpreendeu-se o imperador — Acho que é a primeira vez que o ouço dizer que não sabe de alguma coisa.

—Hahahaha, verdade Merlin — riu Arquimedes — Você não costuma dizer que “sabe tudo”?! Hahaha.

Antes que os risos desviassem a conversa, Aethel ponderou suas opções, como costumava fazer em momentos de solidão, ignorando que o escritório estivesse tão cheio de pessoas:

—Problema: partindo do pressuposto de que Nealie esteja atrás das armas de Maeve que, supostamente, estão escondidas no túmulo da antiga rainha celta, faz-se necessário proteger o túmulo e o pomo de ouro (pois ele, aparentemente, será necessário para chegar aos armamentos de Maeve). Complementos: não sabemos a localização do túmulo de Maeve ou do pomo de ouro. Acréscimos: o tempo de Mabel está acabando e Nealie é a única que pode salvá-la, porém, ela exigiu o pomo dourado que, caso entregue entregue, lhe dará o antigo poder de Maeve, contido nas armas da antiga rainha.

Todos observavam as palavras de Aethel, mas Merlin lhes pediu silêncio, já que não desejava que a linha de raciocínio fosse quebrada por interrupções.

Olhando para os livros no armário, os documentos na mesa e o bonito tapete retratando criaturas da mitologia grega, Aethel caminhou até a janela e apresentou suas formas de resolver o problema apresentado:

—Resposta 1: damos foco na descoberta do pomo e depois o protegemos? Não, Nealie deseja que o encontremos, mas jamais fez menção ao túmulo de Maeve, sugerindo que a rainha das bruxas já sabe onde os restos mortais da deusa celta estão. Resposta 2: Partimos em busca do túmulo e ignoramos o pomo (pois, se Nealie não o encontrou nos últimos séculos, dificilmente o encontrará nos próximos dias); dessa forma, podemos proteger os restos mortais de Maeve e impedir que Nealie tenha as armas da antiga rainha? Não, se seguirmos essa ideia, Mabel morrerá. Resposta 3: Dividimos as buscas para encontrar ambos, túmulo e pomo de ouro, para proteger ambos? Não, Nealie já deve ter isso em mente e, com certeza, pensou em meios de se beneficiar de uma solução como essa… porém, não é a solução mais óbvia?… Ainda assim, há perigo no óbvio, embora uma solução simples diante de tantas complexas, deva ser a mais assertiva… Eu devia ter prestado mais atenção nas suas aulas de lógica, Merlin.

—Meu rapaz… — disse Merlin — Você ao menos sabe a razão de Nealie querer tanto o pomo das hespérides?

—Mas é claro — respondeu Aethel -, ela deve achar que com o pomo terá as armas de Maeve e, dessa forma, será invencível.

—E ela já não é invencível? — perguntou o mago.

—Claro que não, Merlin! Só você, Gael e madame Min já colocam Nealie de joelhos.

—Verdade, Aethel — disse Merlin — Mas além de nós três, acha que algum outro mago ou feiticeira no mundo, poderia fazer frente a Nealie? Porque acha que ela é chamada de “rainha das bruxas”?!

—Porque ela é egocêntrica e megalomaníaca? — perguntou Aethel.

—Aethel — começou Merlin — É preciso alguma coisa para ser reconhecido como rei ou rainha; no caso das bruxas é necessário um imenso nível de magia, comparável ao meu ou de Gael e Min… Mas, se bem me lembro, meu antigo amigo não se dava muito bem com Nealie e jamais reconheceu o título de rainha que ela ostentava, hihihihi. Bem, como Nealie jamais teria poder para subjugar Gael, ela foi obrigada a suportar todas as zombarias de meu antigo amigo. Eu nunca soube a razão, mas Nealie sempre foi obcecada por maçãs, desde que éramos crianças… e quando se tornou adulta, começou a procurar o pomo de ouro, dizendo que, no dia em que o tivesse, nunca mais seria humilhada outra vez.

—Desculpe, professor — disse o rei — Estou ficando um pouco perdido.

—Aethel… — começou o mago — Nealie deseja o pomo para firmar sua posição como rainha das bruxas; já não estava claro? A lógica conduz à seguinte conclusão: o pomo de ouro é necessário para que Nealie alcance o poder de Maeve; portanto, quem tiver o pomo, terá o poder da antiga rainha celta.

Após mais algumas ponderações, Aethel olhou para a linha do horizonte, indagando a razão de tanta informação, tanto de Merlin quanto da placa, estarem tornando o problema com a rainha das bruxas ainda pior.

Após suspirar, pediu que todos fossem até o grande salão, onde as próximas refeições seriam servidas, não sem antes solicitar que Dipper lhe entregasse o diário de Sophia:

—É surpreendente que tenha conseguido trazê-lo até aqui, Dipper — disse o rei — Mesmo eu poderia ser preso se fizesse algo assim.

—Aethel; Mabel é minha irmã! Não me importo de ser preso, desde que ela fique bem. E nem adianta dispensar a gente, porque eu não vou sair daqui até chegarmos a uma solução!... Além disso — suspirou Dipper — Não é como se eu não soubesse como é uma cadeia; Stan é meu tivô, lembra?

—Basta, Dipper — disse o imperador — Não sabemos onde está o túmulo de Maeve e nem o lendário pomo de ouro, além disso, tudo o que temos são o diário de Sophia e o texto antigo da pedra. Não faz sentido perder tempo com tudo isso se nem sabemos onde começar a procurar o túmulo ou o pomo! Se desejar, pode ficar comigo, olhando o diário, mas lembre que há outras questões importantes além de Nealie, como a ambição de Juba, a fome no império e as brigas políticas do senado.

—Desculpa, cara — irritou-se Dipper — Mas a Mabel está morrendo e… eu quero ajudar em alguma coisa; por favor, sabe que a gente pode ajudar!

—Estou um pouco cansado, irmão Dipper — disse Aethel — Vá com os outros comer alguma coisa, depois conversamos.

—Viu só, você está fugindo do problema! — irritou-se Dipper — Você foi o culpado disso tudo! A Mabel está inconsciente porque você desafiou aquela bruxa!

Neste momento, o coração de Aethel irou-se contra o irmão de Mabel; o imperador já estava cansado da postura de Dipper e, por mais que a entendesse, não poderia mais tolerá-la:

—Muito bem — disse o rei — peço que todos saiam do meu escritório agora, com exceção do senhor Dipper Pines, Merlin e Jazz.

Tamanha era a severidade no olhar do monarca, que ninguém se atreveu a levantar a palavra contra ele e, dentro de dose segundos, todos se retiraram, sem pestanejar.

Caminhando até a parede esquerda, logo atrás da mesa, Aethel apontou o dedo esquerdo para um grande mapa do império ghalaryano, cheio de bosques, montanhas, vales extensos, cidades pequenas e grandes, ilhas e mares cujos nomes Dipper jamais ouvira falar.

Após admirar o mapa, Aethel começou a falar:

—Dipper, tudo o que esse mapa mostra é o nosso império. Deve ter algo em torno de um bilhão de pessoas, mais ou menos, sem contar os refugiados, anônimos, recém-nascidos e os que estão prestes a nascer.

Após fazer uma pausa, o imperador sentou-se na cadeira e pegou alguns documentos na mesa, mostrando-os ao amigo:

—Sabe Dipper, alguns desses papéis falam dos recentes incêndios, outros tratam de pessoas passando fome e alguns focam em pequenos grupos que estão com medo da guerra. — disse Aethel — E também tenho documentos tratando de orfanatos pedindo mais recursos, legiões questionando seus generais e denúncias de roubos…

—O que quer dizer com tudo isso? — questionou Dipper.

—Meu irmão — disse Aethel — Sei que toda esta situação está sendo difícil para você, mas perder a compostura não vai ajudar. Se quer ajudar, então precisa se mostrar confiável.

—Depois de tudo que passamos em Gravity Falls, você ainda não confia em mim? — perguntou Dipper, indignado.

—Irmão Dipper… — respondeu Aethel, como um amigo de longa data — Com certeza você tem caráter e coragem, porém, toda essa situação o está tornando emocionalmente instável. Tem minha palavra de que vamos salvar Mabel, mas você precisa ter fé, especialmente porque as coisas ficarão mais difíceis a partir de agora.

Antes que mais pudesse ser dito, Marlin sugeriu que os três seguisse para a sala de jantar, junto aos outros, onde poderiam comer algo.

Tanto Aethel quanto Dipper não gostaram da ideia, porém, ambos tiveram que ceder quando Atreu, o nobre senador, ficou de frente para a porta do escritório, solicitando uma conversa com seu imperador.

Aethel não estava muito disposto a dialogar com o homem, porém, a negação ao pedido de Atreu seria interpretada como uma afronta grave ao senado, especialmente porque a antiga instituição era fundamental no reconhecimento dos imperadores ghalaryanos a milênios; não, o rapaz jamais poderia se recusar a receber o senador, por mais cansado que pudesse estar da desgastante manhã de trabalho.

—Nobre Atreu — disse Aethel — Na verdade seguíamos para uma refeição leve, mas se nos acompanhar, ficarei alegre em conversar.

—Meu senhor — respondeu o senador — Aceitarei vosso convite, com humildade.

Seguindo com Jazz, Merlin, Dipper e Atreu para o salão onde uma refeição já estava montada, o imperador se encarregou de inteirar o senador sobre o texto da placa, o Cavaleiro Verde e tudo mais que achou necessário pois desde eras remotas, a casa imperial e o senado trabalhavam juntos, lado a lado, buscando sempre manter a harmonia e prestando a apoiar-se mutuamente.

Talvez confiar no corpo do senado fosse, de muitas formas, ingênuo, já que Aethel era imperador a pouco mais de um mês e, portanto, não conhecia a maioria dos senadores, porém, o rapaz entendia que a arte do governo dependia também da confiança nas instituições; certo ou errado, era assim que as coisas sempre foram feitas, desde milênios antes de Vladimir III, então porque se preocupar em mudar?

Já no salão e rodeado por Danny, Jack e os outros, Aethel puxou uma das cadeiras a sua esquerda, próxima a cabeceira, convidando Atreu a se sentar (pois é sabido que sentar-se próximo ao imperador é um privilégio do senado).

De acordo com a tradição, Aethel serviu os amigos com fatias de pão, um pouco de vinho do norte a base de uvas e pequenos bolinhos com cobertura (o famosos brioches, cuja relação com Aethel eram de amor profundo e ódio mortal).

Em nosso mundo, o planeta Terra, não é comum que um chefe de Estado se preste a servir aos outros, como um criado qualquer, porém, isso é tão básico para um imperador ghalaryano quanto o é para um garoto arrumar a cama e ir para a escola.

Se considerarmos que aqueles que desejam ser servidos devem primeiro aprender a servir, então o costume de Aethel não mais nos parecerá exótico e o repetiremos, de muito boa vontade, como se fôssemos ghalaryanos nativos.

Retornando para a refeição do imperador e seus convidados, Atreu logo conversou sobre a carta de Aethel parta Juba (pois o senado estava apreensível com o convite para o rei franco-armaniano):

—Meu senhor Aethel, imperador de Ghalary — começou Atreu — Sugiro que o senhor organize uma majestosa recepção para mostrar ao arrogante Juba que Ghalary não é tam fraca como os franco-armanianos pensam. Devemos considerar que Juba III está tentando expandir seus domínios e, de forma afrontosa, tem invadido nossas fronteiras.

—Sei o que realmente pensa, nobre Atreu — disse Aethel — Você deseja que eu inicie uma guerra e conquiste o império franco-aramaniano; você se inspira na obra de Vladimir, mas se esquece de que uma guerra vai nos custar demais.

—Entendo ponto, meu senhor, mas Juba nos desafia por julgar-nos fracos; se conquistássemos seu império, mesmo os resquícios da revolução seriam varridos para sempre de Ghalary — rebateu Atreu.

—Apenas se vencesse-mos a guerra — rebateu Aethel — Além do mais, os custos de uma ação militar poderiam enfraquecer o Estado e dar aos revolucionários motivação para agir. Também quero lembrar ao nobre senador sobre a revolta de Cláudio e do quanto ela mostra que, talvez, o exército seja menos confiável do que se imagina.

Antes que mais fosse dito, Jazz pediu a palavra, tendo imediata autorização de Atreu e Aethel:

—Gente, vocês nem viram esse tal de Juba e já estão pensando em ações militares? Precisamos buscar a diplomacia antes da guerra!

—O que sugere, senhorita? — perguntou Atreu.

—Vamos todos esperar que Juba chegue e daí então conversamos com ele. Com sorte, vamos conseguir acalmar os ânimos e evitar a guerra.

—Gosto muito da ideia! — falou uma voz feminina.

Levantando-se e olhando para trás, Aethel avistou Blair, com seus lindos cabelos loiros e olhos azuis, vestida com um belo vestido rosa com fitas e laços brancos, acompanhada de Roland II, com seu traje formal usual.

Seguindo o protocolo, Aethel caminhou até a moça, beijou sua mão esquerda e levou-a à mesa, logo puxando um assento.

Por educação, Blair pôde se sentar a direita de Aethel, já que Atreu estava a esquerda do rei (que, deve-se acrescentar, não parava de admirar os cabelos soltos da rainha de Gardênia, como se fossem feixes de trigo recém colhidos, iluminados pela luz solar).

Roland ficou ao lado de Blair e, sem demora, ambos foram servidos por Aethel, como dizia a tradição e os ensinos de Merlin.

—Muito bem, senhores — falou Merlin, após beber um pouco de vinho do norte — Agora que estamos todos reunidos, desejo lhes falar de Maeve, das tribos celtas; ouçam todos.

Quando o mago contava suas histórias, Aethel sentia como se voltasse aos tempos de criança, quando colhia frutas na floresta, cuidava do jardim, ajudava o mago a fazer pães, bolos e deliciosos ensopados de peixes! Como poderia resistir a mais uma grande narrativa do feiticeiro?!

Após pedir silêncio a todos, Aethel chamou Luna e Tristan, solicitando que os amigos usassem o pó de fadas para ilustrar a história do mago.

O rapaz também convidou Arquimedes (ainda sonolento), para repousar em seu ombro esquerdo, como sempre fazia no passado, nos momentos em que Merlin divertia seu aprendiz com contos e narrativas do passado antigo.

Seria uma grande história, aquela que o mago contaria sobre Maeve; mais do que isso, seria um conto de aventura!

E tal como Aethel, todos os meninos apreciam uma emocionante aventura…

Notas finais
Cinematógrafo: Antiga máquina de filmar e projetar filmes, atribuída aos irmãos Lumière (embora seu real criador seja Léon Guillaume Bouly (1872–1932), que também cunhou o termo “cinématographe”). Lumière: Lumière: Por vezes referidos como os pais do cinema, os irmãos Lumière (Auguste (1862 - 1954) e Louis (1864 - 1948)) foram responsáveis por alguns dos primeiros filmes da histórias, como por exemplo "La Sortie de l'usine Lumière à Lyon" (de 1895). Embora duvidassem do futuro comercial do cinema, foram muito importantes para a história da nascente “Sétima Arte”. Sir Roger de Coverley: Trata-se de uma antiga dança inglesa acompanhada de música tradicional. Citada em A Christmas Carol (1843), é executada por duas fileiras de pessoas, frente a frente. No caso empregado no capítulo, Merlin estava apenas escutando a melodia tradicional.