As Crônicas de Aethel (II): O Livro das Bruxas
18 A Conspiração das Taças
Com o raiar de um novo dia, todos no grande palácio se preparam para saudar a chegada de Juba III, rei de todos os franco-armanianos, a quem se conferia o título de “senhor supremo do grande deserto”.
Apesar de noite difícil, Aethel foi obrigado a vestir seus trajes oficiais e seguir até o grande salão de recepções, onde Juba e seu séquito seriam recebidos com toda a pompa que tal evento pedia.
Em verdade, Aethel odiava esse tipo de vento, por considerá-lo um tanto “hipócrita”: Juba ameaçava as fronteiras ghalaryanas, provavelmente foi responsável pela revolta de Cláudio e, para piorar, não demonstrava os devidos respeitos ao imperador de Ghalary, tendo em vista que não enviou qualquer presente ou carta de felicitações pela coroação de Aethel…
Então, porque receberiam Juba com honras de Estado?! Aos olhos do jovem imperador de Ghalary, Juba III não merecia mais do que ser atirado aos leões.
Apesar de tudo, a nação reconhecia Aethel como um monarca ungido por Deus e, portanto, responsável pelo bem-estar do império e pela manutenção da paz, de modo que o rapaz não tinha escolha além de aceitar a desagradável presença de Juba.
Jazz estava bastante animada, assim como os demais, a exceção de Dipper, que preferia continuar a trabalhar com o diário da finada imperatriz Sophia.
Após um café da manhã rápido, Aethel recebeu o rei dos franco-armanianos, rodeado por vinte criados, dezessete pajens e seis escravos; quatro escravos para segurar a liteira de madeira vermelha decorada com ouro e dois para segurar grandes leques com plumas de pavão, feitos com a mais nobre madeira de cedro revestida com ouro e inscrições sagradas.
Ao descer da liteira, Juba ficou diante de Aethel, mas não lhe estendeu as mãos, pois o monarca dos franco-armanianos era considerado sagrado, de modo que apenas sua família e o sumo-sacerdote do grande templo de Enubhaal – um deus primitivo e obscuro para os ghalaryanos – tinham autorização para tocá-lo.
Apesar de seu imenso desgosto em receber Juba, Aethel não pôde deixar de reconhecer o quanto aquele inimigo parecia imponente: medindo quase dois metros de altura, Juba era moreno e vestia botas de couro vermelho e aveludado, manto colorido e longo que descia até os joelhos, sendo preso na cintura por um cinto dourado, seguido por uma capa branca coberta de lindas linhas de ouro que, sob um olhar mais minucioso, revelavam bonitos desenhos geométricos.
Em sua cabeça o rei dos franco-armanianos usava uma coroa cônica com um turbante de igual formato, tendo ao topo um leque de penas de pavão seguradas por um tipo de prendedor de ouro e prata arredondado.
Os escravos de Juba usavam grilhões de ouro e vestiam apenas calças longas de algodão, além de sempre manterem seus olhos em direção às botas de Juba, já que sua condição humilde lhes impedia de olhar seu amo e senhor nos olhos.
Tal condição sub-humana fez o sangue de Aethel ferver; como pessoas podiam ser reduzidas a tal condição de miséria e subserviência? Aqueles pobres homens não tinham nem sapatos para seus pés fatigados! “Maltido Juba” pensou Aethel, “vai pagar por essa barbaridade!”.
Atrás de todo aquele séquito, Apareceu uma outra liteira, menor que a primeira e muito menos decorada, de onde saiu uma mulher com pele bronzeada, cabelos negros e belos, que muito lembravam a lã dos carneiros ghalaryanos, sandálias de couro adornada com joias vermelhas, vestido marrom com faixas coloridas, assim como as do marido, com maravilhosos desenhos geométricos e um grande colar feito com missangas do tamanho de um polegar, com um medalhão de ouro ao centro com os dizeres “Senhora do Oriente, rainha das Duas Terras”.
Aethel fitou a mulher por alguns instantes, observando o quanto aqueles olhos castanhos eram carregados de alegria, combinando perfeitamente com o lindo sorriso que logo se formou nos lábios grossos da bela rainha.
“Majestade” disse a mulher, “Sou Amira, esposa de Juba III e rainha da Franco-Armânia”.
Juba fez um gesto para que a esposa se afastasse e fitou o jovem imperador, como se o rapaz fosse alguém de alguma casta inferior para olhar uma rainha nos olhos; um olhar tão carregado de desdenho e superioridade não passou despercebido por Aethel e, naturalmente, foi considerado extremamente ofensivo.
Enquanto ajeitava a barba escura e encaracolada (mas curta e muito bem cuidada), Juba olhou ao redor e pediu a Aethel para debaterem os assuntos de Estado, pois seu tempo era demasiado curto para sutilezas ou cerimônias ghalaryanas que, para o rei estrangeiro, não tinham qualquer significado.
Como não desejava alongar aquela visita, Aethel atendeu ao pedido de Juba e os dois seguiram até uma sala para recepções, onde poderiam debater toda sorte de questões relacionadas às fronteiras ou qualquer outra coisa que parecesse relevante.
Atreu e Salazar chegaram poucos minutos depois, mas Jazz e todos os outros não puderam participar da discussão com Juba, já que aquilo era uma questão para chefes de Estado.
Os problemas de fronteira eram acentuados pelas suspeitas de Aethel sobre o possível envolvimento de Juba com a tentativa de golpe orquestrada por Cláudio.
— Vamos logo ao assunto, Juba – começou Aethel – Nós o recebemos como um visitante, mas preciso que seja franco conosco, já que todos sabemos o quanto Ghalary e a Franco-Armânia tem se desentendido ao longo dos séculos.
— Mas é claro – disse Juba – Diga o que deseja saber, jovem príncipe.
— Tive um pequeno “conflito” com um general – disse Aethel – e ele parece que tinha boas relações com seu país, “grande Juba”.
— É mesmo? – riu Juba – Então minha causa tem adeptos dentro de seu império, garoto?
— Não me chame de “garoto”, Juba – disse Aethel – Nesta sala não há crianças.
— Então amanse um pouco seu tom, “garotinho” – respondeu Juba.
Estava claro que aqueles dois não se entenderiam, tanto pelo orgulho do rei quanto pelo temperamento do imperador, que já não conseguia esconder o desgaste dos últimos dias.
Para evitar uma guerra, Salazar e Atreu propuseram-se a mediar entre os dois chefes de Estado um acordo de paz que beneficiaria a todos, começando por concessões econômicas a reforços militares para Juba, que aguardava uma guerra com a república de URSI (um antigo território outrora pertencente ao império ghalaryano mas que declarou independência durante a revolução).
Aethel não pôde deixar de sorrir com os esforços de Atreu, já que esse desejava destruir os franco-armanianos tanto quanto ele próprio:
— Não é fácil ser senador, não é mesmo, Atreu? — riu Aethel.
— Não, vossa majestade – respondeu o senador – Ás vezes abrimos mão daquilo que queremos pelo bem do Estado.
Com o passar dos minutos, Aethel começou a demonstrar melhor postura diplomática e logo impressionou Salazar e Atreu com suas palavras bem polidas e diálogos concentrados em ideias de paz e de um possível intercâmbio cultural entre as duas nações.
De acordo com Aethel, a Franco-Armânia e o império ghalaryano utilizavam as mesmas rotas comerciais, com poucas exceções, além de ambos terem culturas ricas e antigas.
— Juba… a gente se odeia e isso é claro – disse Aethel – Mas nosso ódio mútuo não pode ser usado para levar nossas nações para uma guerra. Por qual razão partir para o conflito quando um acordo de paz e amizade será muito mais lucrativo para ambos? Será que Cláudio lhe prometeu algo além de ouro? O que ele lhe deixou além de uma questão diplomática grave? Juba, coloque a mão na consciência, antes que seja tarde.
— Ainda me acusa de ter planejado o golpe de Cláudio? – perguntou Juba – Eu poderia considerar uma uma ofensa imperdoável.
Novamente o temperamento dos monarcas começou a pesar, até que Juba fez sua proposta:
— Isenção de impostos para todos os produtos franco-armanianos que entrarem em seu império; tributação de 60% aos produtos ghalaryanos em minha nação; diminuição de tropas ghalaryanas em minhas fronteiras e domínio sobre as terras ao norte de Ghalary, partindo do desfiladeiro, seguindo para as minas e as terras próximas ao leste, incluindo suas grandes florestas ricas em madeira e minério.
Aethel ficou mudo. Aquilo não era uma proposta, mas uma ofensa imperdoável; nenhum líder aceitaria um acordo tão humilhante e Juba teria que pagar por isso:
— Não acredito… – disse Aethel – além de querer a destruição de nossa economia, está me pedindo um terço do império ghalaryano?! Acha que tento evitar a guerra porque a têmo, “senhor do grande deserto”?
Antes que Aethel partisse para cima de Juba, Salazar tomou a palavra e propôs uma pausa, sugerindo que voltassem a se reunir algumas horas depois.
Seguindo o conselho do 2° cônsul, Juba e Aethel seguiram para o salão de banquetes, onde Salazar havia organizado uma refeição agradável para todos.
Estavam presentes Jazz, Sam, Danny, Jake, Blair, Roland, Merlin e a rainha Amira, já sentados ao redor de uma mesa preparada para uma refeição nobre.
Amira parecia se dar bem com Jazz e Sam, sorrindo sem parar e conversando amenidades, por outro lado, Juba e Aethel se olhavam com tamanha fúria que Salazar comentou com Atreu o quanto aquele encontro diplomático estava sendo um desastre.
O senador também estava angustiado, mas logo buscou tranquilizar o cônsul:
— Ao menos a rainha parece estar se divertindo. Talvez ela também deseje a paz.
— E isso faz alguma diferença? – questionou o cônsul – Na Franco-Armânia uma rainha tem mais status que poder.
— Um ponto a se considerar – concordou Atreu – Mas se quisermos dar um fim na praga franco-armaniana, teremos que garantir esse acordo de paz… tudo pelo bem do império, logicamente.
— Atreu, você me assusta – disse Salazar – Mas não acho que esteja errado…
Enquanto os dois senadores conversavam com voz baixa, Amira perguntou a Aethel sobre a lenda da espada e de como o rapaz desafiou o grande mago das sombras, ao que o imperador contou-lhe em detalhes sobre os acontecimentos do ano anterior.
Para Aethel, ter a oportunidade de conversar com alguém tão educada e interessada em sua história era bastante gratificante. Além disso, ao contrário de Juba, Aethel tinha uma história fantástica para contar sobre sua ascensão ao poder.
O imperador também ficava impressionado com o grau de instrução de Amira, que conseguia discursar sobre os mais variados temas, de história e filosofia à política.
Aethel não entendia como uma mulher como aquela podia ter se casado com um turrão como Juba; “deve ser algo cultural” pensou o imperador, enquanto o mordomo real trazia um pouco de vinho do norte, servido em taças de cristal com bordas de ouro e lindos desenhos de ramos de trigo.
No caso específico, se tratava de suco de uvas recém-espremidas com raspas de gelo e uma colher de mel.
Aethel pegou uma das taças e serviu Amira com um sorriso, mas os demais foram servidos com a ajuda do mordomo.
Durante a refeição, Juba aproveitou para se vangloriar de suas vitórias militares, das prisões de seus inimigos e de suas incríveis proezas no campo da política; porém, era Amira que atraía toda a atenção.
Pedindo a atenção de todos, Salazar pediu um brinde em honra aos visitantes estrangeiros, sendo atendido por todos, que se levantaram e ergueram as taças.
A despeito dos olhares mortais que Juba e Aethel dirigiam um para o outro, a paz parecia ser uma possibilidade viável, graças a Amira e sua receptividade à ideia de um acordo entre as duas nações.
Como mandava a tradição, Aethel se levantou da cabeceira e caminhou até Juba, estendendo-lhe as mãos em sinal de amizade:
— Ao menos por hoje, vamos deixar nossas diferenças de lado – disse o rapaz.
Será que alguém tão orgulhoso quanto Juba aceitaria a paz? Será que ele se sentia bem em apertar a mão esquerda de seu nêmesis?
Jamais teremos uma resposta para essas questões; infelizmente algo parou toda a cerimônia, pondo fim a um interessante banquete, ainda antes do pudim chegar aquela mesa farta.
Aramis, após tomar um gole do vinho do norte, começou a sentir cansaço e acabou por desmaiar, chocando os presentes.
Merlin, que até o momento estava em silêncio, correu até a mulher e a levantou com cuidado, sendo seguido por Arquimedes, que se aproximou para ajudar.
De repente, a coruja se aproximou da taça caída e experimentou a bebida, cuspindo imediatamente:
— Está envenenada! – Exclamou Arquimedes.
— E aposto que o alvo era eu! – Berrou Juba, furioso.
Aethel ficou sem palavras, mas Salazar tentou acalmar os ânimos, garantindo que aquilo teria investigação.
Após se recuperar, Aethel perguntou a Merlin sobre o estado de Amira:
— Ela está viva – respondeu o mago – Mas sugiro que a levemos até a ala hospitalar, ou o caso pode se agravar.
As próximas horas foram dedicadas aos cuidados com a rainha, mas para todos já estava claro que as chances de paz estavam acabadas.
Juba, que até aquele momento parecia desprezível, não saiu de perto de Amira, certificando que sua esposa estivesse recebendo os tratamentos educados.
Merlin não teve dificuldades em preparar um antídoto para o veneno, mas Amira precisaria de tempo para se recuperar.
Mais para a noite, Aethel saiu da sala hospitalar, junto de Rosa, Sam e seus outros amigos, mas Atreu e Salazar ficaram junto de Juba, tentando acalmar o rei furioso.
Aethel despediu-se de seus amigos e caminhou pelos corredores do grande palácio, sendo acompanhado por Merlin e Arquimedes.
Seu desânimo e cansaço eram evidentes, mas tudo havia piorado nos últimos dias: Mabel, Nealie, o Cavaleiro Verde, Cláudio… e agora Juba! Será que Aethel estava fazendo algo de errado?
Com esses pensamentos, Aethel nem percebeu quando chegou aos lindos jardins do palácio, ainda acompanhado por Merlin e Arquimedes.
Sentando-se na pequena amurada da fonte de mármore, Aethel admirou a Lua e começou a procurar constelações, começando pelo grande dragão do Norte.
Preferindo o banco de mármore rodeado de gardênias, Merlin a ajeitou confortavelmente, e por fim, perguntou:
— Quer conversar?
Após uma pausa, Aethel confirmou com um movimento da cabeça.
Em verdade, o rapaz sentia-se cada vez mais esgotado por seus deveres como chefe de Estado e, por mais que demonstrasse constantemente o quanto levava jeito para o ofício, já não suportava tanto desgaste.
— Merlin… – começou o rapaz – Não pode curar Mabel, dar um jeito em Nealie e me livrar de Juba?
— Quer que eu traga uma xícara de chá também? – perguntou o mago, de forma ironia – Aethel, nem tudo se resolve com magia.
— Falo sério, Merlin… Tudo isso me esmaga… Meu Deus, eu acabo de provocar uma guerra; vou matar milhares de pessoas. Não me sinto capaz de continuar com isso…
— Aethel – disse Merlin – Depois de remover a espada e salvar a todos, você já deveria ter superado essas inseguranças. Você não precisa ser o "melhor", na verdade, talvez nunca seja… Ouça, tudo que precisa é se esforçar ao máximo e fazer a sua parte. Quando precisar de ajuda o auxílio virá e, quando o problema estiver além da sua capacidade, Deus intercederá por todos nós… já se esqueceu do milagre?
— Merlin… já nem sei mais o que estou fazendo… As finanças, os revolucionários, a guerra, a traição… e agora uma rainha estrangeira foi envenenada… no meu palácio… bebendo da taça que eu próprio a ofereci! Deus dos céus… desgracei o meu nome.
— Ora, pare já com isso, rapaz! – disse Arquimedes – É claro que não teve nada haver com aquilo, você foi apenas vítima de uma conspiração: alguém precisa dessa guerra.
Após refletir sobre a questão, Aethel suspirou e olhou para Merlin, com uma expressão de tamanho abatimento que partiu o coração do mago:
— Merlin… porque, mesmo sendo meu conselheiro, você fala tão pouco? Às vezes sinto falta das suas lições e palavras.
—Porque você é o imperador – respondeu o mago – e precisa ser capaz de tomar suas próprias decisões. Dessa forma você evolui como líder e também se torna um homem.
— Homem… – disse Aethel – Felipe é um general vitorioso… Atreu é um político de renome, Danny e Jake são heróis… Juba é, em seu país, um deus e Arthur foi um rei; quanto a mim, sinto que não sou nem mesmo um homem… sou apenas um menino. Um menino que se descuidou e agora vai provocar a morte da garota que gosta e de inúmeras outras pessoas inocentes…
Merlin olhou as estrelas, com um sorriso humilde, depois fitou Aethel, enquanto Arquimedes voava em direção ao rapaz e pousava em seu ombro esquerdo.
— Aethel… lembra da primeira vez em que assou um bolo? – perguntou o mago.
— Porque se lembra de fatos tão antigos?
— Hahaha, não, escute meu jovem – pediu Merlin – Se bem me lembro, você ficou com raiva porque o interior da massa ficou um pouco crú… mas o segundo bolo ficou muito bom. Só precisou de bolo ruim para você nunca mais errar a massa; sabe o que isso quer dizer?
— Que eu não consigo nem assar um bolo? – respondeu Aethel, logo sendo bicado na cabeça por Arquimedes:
— Use a cabeça, Aethel! – disse a ave – Não quer aprender a lição?
Caminhando até a fonte, Merlin se sentou ao lado do rapaz, e disse:
— Aethel, você sofre porque se cobra demais. Seja um bolo mal assado ou uma decisão errada no senado, você precisa entender que nunca será infalível: errar é humano. O máximo que podemos fazer é aprender com os erros. Pensando dessa forma, o erro acaba sendo até positivo, na medida em que ele nos instiga a melhorar, dia após dia…
— “É errando que se aprende”, não é o que as pessoas dizem? – perguntou Arquimedes.
Aethel se levantou e deu alguns passos, mergulhado em sua frustração:
— “Errar é bom, você aprende com os erros”... não é o que ouvi desde a minha mocidade? Mas quando erramos, não sofremos algum tipo de punição? – questionou Aethel – “É errando que se aprende”, diz a boa professora aos seus alunos, mas se algum aluno for mal na prova de aritmética, ele não será castigado? Não haverá repreensões, punições, horas tediosas de recuperação e olhares severos? Merlin… tenho medo de errar, porque a punição dos meus erros cai sobre a minha cabeça e também sobre milhões de outras. Considere isso e verá o quanto esse discurso de “errar é bom” não passa de hipocrisia e estupidez.
Merlin sorriu e bateu palmas; diante do mago, estava alguém no espírito de Arthur, cheio da sabedoria dos grandes mestres!
Raciocínio lógico, análise de problemas e saber sobre os mais variados temas! Era quando demonstrava o poder daquele cérebro abençoado que Aethel transparecia sua maturidade e preparo para a arte do governo.
— Sem punição, ninguém aprende com seus erros, Aethel, isso também faz parte do amadurecimento – respondeu Merlin – É claro que, mesmo com preparo, você pode errar, mas não pode deixar que isso te paralise.
O assunto ainda poderia se estender por mais alguns minutos, porém, um grito foi ouvido na entrada do jardim: Dipper estava ofegante e segurando na mão direita o diário de Sophia.
— Descobri… – disse o garoto, enquanto tentava tomar um pouco de ar.
— Do que está falando, Dipper? – perguntou Aethel.
Após recuperar o fôlego, Dipper respondeu, animadamente:
— Escute, você se lembra do diário 3, que o tivô Ford escreveu? Então… ele tinha várias mensagens escritas com tinta invisível e códigos secretos. Bom, o diário da imperatriz não tinha nenhum criptograma, mas encontrei em uma das páginas uma mensagem… uma mensagem com tinta invisível! Com certeza ela indica onde Sophia escondeu a maçã de ouro! Vamos conseguir salvar a Mabel!
Antes que Aethel pedisse, Dipper lhe mostrou a mensagem, usando uma lanterna azul dada por Beatriz.
Olhando com atenção, Aethel leu a mensagem:
“O presente de ouro…
Herança do grande dragão que se assenta no trono das Eras…
A Rocha marcada com o sangue dos reis, do eterno e legítimo detentor da graça.
Lá, onde o verde impede o passeio de Febo; onde o grande carvalho repousa…
Próximo ao reino de Nimue: lá, meu filho amado, encontrarás o presente de Clito.”
SOPHYA — Imperatriz de Eden-Ghalary, ano VII de meu reinado.
— Porque Sophia escreveria uma mensagem para o filho em seu próprio diário? – perguntou Aethel – Isso não faz sentido.
— Porque o principezinho era um rapaz curioso – respondeu Merlin – e vivia mexendo nos cadernos e anotações de seus pais, hahahaha, entendem? Coisa de criança.
— Ela devia esperar que ele achasse a mensagem e depois procurasse a maçã! – disse Dipper, animado.
— Mas isso seria impossível – disse Aethel – já que eclodiu a revolução e a criança foi executada… Será que Sophia tinha medo que o pomo de Clito caísse nas mãos das tropas revolucionárias? E porque ela escreveu seu nome com “Y” ao invés de usar “I”?
— Ela pode ter errado – disse Arquimedes – o medo devia estar complicando as coisas.
— Ou isso não é apenas uma letra, mas uma pista – respondeu Merlin – Não posso dizer com certeza, mas talvez seja algum tipo de sinal ou código.
A discussão seguiu por mais alguns minutos, até que Aethel fez uma pausa e iniciou suas considerações, mais alegre do que antes, decidindo que deveriam partir amanhã mesmo para encontrar logo o pomo de ouro e salvar Mabel.
Aethel também fez considerações sobre o oráculo da eternidade e falou brevemente sobre o Cavaleiro Verde, porém, ficou em silêncio sobre o problema com Juba; o tirano franco-armaniano podia esperar, mas Mabel não.
Aquela noite ainda seria acompanhada de mais conversas e decisões de Estado, porém, Merlin preferiu voltar para seus aposentos junto de Arquimedes, que perguntava se Aethel conseguiria, realmente, encontrar o pomo das hespérides e resolver todos os outros problemas:
— Aethel está crescendo, Arquimedes – respondeu Merlin – Vamos preservar nossa fé no rapaz… esse aí tem potencial de sobra.
Entre risos, o mago e a coruja continuaram seu caminho, ambos sentindo que, de alguma forma, haviam cumprido sua missão; fosse ela qual fosse…
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