As Crônicas da Terra Sombria
1 Capítulo I - Vão Momento
Notas iniciais
"Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez."
William Shakespeare
Acho que as pessoas deveriam parar de sepreocuparem com a busca pela felicidade em grandes coisas materiais, eu mesma sei bem onde encontrá-las, nos livros. Passei os últimos quatro anos em busca por respostas realmente convincentes que pudessem de uma vez por todas esclarecerem a morte estúpida e misteriosa da única pessoa que eu amava verdadeiramente, minha mãe, Cássia. Uma vez me disserem que nos amontoados de folhas amareladas prensadas por duas capas e repletas por palavras impressas eu encontraria a resposta pela morte de mamãe, a princípio não acreditei no que o homem de baixa estatura com uma enorme barba grisalha me dissera, afinal, eu nem o conhecia, mas depois de alguns tempos, decidi que deveria tentar, essa era a única forma de descobrir.
Moro em uma casa antiga de fazenda que deve ter em média uns trocentos anos desde que seu último morador morreu, fica bem afastada do centro de Holambra e sem contar que tenho de andar mais ou menos um a dois quilômetros para chegar até a casa vizinha onde minha melhor amiga mora. Meu pai, o infeliz do meu pai, reside na mesma casa que eu, desde que mamãe morrera ele se entregou de vez ao álcool e de lá para cá essa casa vem se tornando um inferno, não posso mais ir ao cinema com meus amigos, somente ir para a escola e voltar até as duas da tarde, quase todas as lembranças que tinha me restado de mamãe, principalmente os livros que ela amava foram queimados em um dos episódios de bebedeira do meu pai, restara apenas um pequeno opúsculo antigo de capa dura, folhas ásperas de tão velhas inclusive o que estou lendo no momento "A Terra das Florestas Sombrias".
Lembro-me de quando nós três líamos Dom Quixote juntos na sala de estar nos dias chuvosos das férias de verão, aquele tintilar suave das gotículas de chuva caindo sobre as altas e esguias janelas da sala, papai interpretava Dom Quixote de La Mancha todo formoso e pulcro, mamãe era Sancho, morria de rir com sua performance nada inteligente, e eu lia as histórias contente da vida, louvando cada vão momento que passava ao lado deles, da minha família, que agora não possuo mais. Minha mãe morreu, e meu pai a matou. Eu tenho certeza disso.
***
Fale com o autor