Notas iniciais

A escuridão era absoluta. Estaria cego? Pensou consigo o homem imerso num breu profundo.
Estava em um lugar frio e úmido, e pensamentos angustiosos o assolavam em seu cativeiro. Esforçava-se para lembrar das coisas que lhe aconteceram, mas sua mente estava vazia e confusa. A fome, a sede e a dor das chagas por todo seu corpo o faziam estremecer, tanto quanto o frio que congelava seus ossos.
Com algum esforço tentou se levantar, porém sem sucesso devido à fraqueza. Estava amarrado a ferros. Preso a grilhões, algemas e gargalheira. Pequenos movimentos o faziam agonizar diante das dores, então preferiu ficar imóvel para amenizá-las.
A imagem dos acontecimentos recentes subitamente lhe veio à mente, fazendo-o lembrar com rancor de sua fuga, dos momentos antes de perder a consciência e ser recapturado, sendo alvejado pelas costas e acordar ali, tempos depois.
Com pesar e certa culpa, lembrou-se de sua casa e de sua família, que há essas horas corria grande perigo. Será que já não aconteceu algo a eles? Este pensamento o fez estremecer, pois não fazia ideia de quanto tempo estava ali inconsciente. Poderiam ter se passado dias ou até mesmo semanas.
Seu único desejo e esperança neste momento era de que a carta, enviada em sua breve e desesperada fuga, chegasse nas mãos de seus destinatários: Os Shiltertons. Através dela, seus parentes poderiam se prevenir e até tomar medidas em relação aos planos maléficos recém-descobertos por ele, os quais o levaram a todo esse desfecho culposo.
O prisioneiro, em seus pensamentos, lamentava-se ao recordar de sua família que se encontrava a muitas milhas dali. Sua tristeza tornava-se ainda mais forte quando recordava de seu jovem sobrinho, que aspirava tornar-se um exímio cientista tal como ele era. Lamentava ainda mais ter por tanto tempo alimentado as expectativas dele de que um dia pudesse trabalhar ao seu lado, e quem sabe até se tornar um exímio funcionário da corporação, tal como ele era.
Agora seus sonhos e planos foram completamente extinguidos como uma chama mórbida. Lembrou-se que, em uma de suas cartas, das quais enviava mensalmente, havia informado ao seu sobrinho Ronald sobre as novas contratações da corporação, e sobre a ânsia de que o rapaz aproveitasse a grande inteligência que tinha para se juntar a ele. Seu desejo agora era que o jovem ficasse o mais longe possível daquele lugar nefasto e perigoso.
Rogou com fé aos espíritos elementais para que protegessem a sua casa, sua família e principalmente seu pai, que já estava demasiadamente idoso e poderia vir a se abater com as notícias da carta.
Lembrava-se de quando ainda era uma criança, e seu velho pai sempre lhe contava histórias antes de dormir. Tais recordações afugentavam um pouco os maus agouros e as terríveis dores, dando algum consolo e, ao mesmo tempo, um certo desconforto àquele prisioneiro esquecido na escuridão.
Uma visão lhe transportava a muitos anos atrás, quando ainda era uma criança, deitado em sua cama e seu pai sentado ao seu lado sob uma cadeira. Contava-lhe sobre como o mundo fora criado, as histórias das grandes guerras e rebeliões, a grandeza dos elementais e a história de Kessingan, sua preferida. Dizia que era uma terrível sombra maligna que, há muito tempo, veio a castigar o mundo por seus pecados nos anos do terror. Queimava cidades inteiras com suas chamas negras. Com dois ou três bater de suas asas sombrias, movia-se de cidade em cidade, de continente a continente, assombrando a todos e trazendo desespero e chacina onde quer que passasse. Até o dia em que cinco guerreiros, até então desconhecidos, apareceram e puseram fim a todo esse terror, derrotando de forma surpreendente a maléfica sombra, restaurando assim a paz no mundo.
Ronald e Dimitry. Esses eram os nomes dos dois guerreiros principais que derrotaram aquela sombra, inspirando Lorde Alexander Shilterton a homenageá-los, nomeando os netos com seus nomes. Nesse momento, o prisioneiro sentiu tomado por uma enorme tristeza, pois percebia que não viveria o suficiente para se casar e dar mais netos ao seu pai, tal como Elise e Adam, seus irmãos.
As horas eram terrivelmente longas. Não conseguia decifrar se era dia ou noite. Caía no sono, e logo após acordava novamente, sobressaltado de algum ruído que, de vez em quando, escutava na escuridão. Ratos, pensava.
Algumas vezes dormia longa e profundamente, esquecendo-se de tudo, como se sua existência tivesse sido finalmente extinta, pondo um fim a toda sua angústia e dor. Outras vezes sonhava, pesadelos enevoados e terríveis lhe torturavam tanto quanto as feridas em seu corpo. Via todos seus familiares sendo cruelmente assassinados por soldados de armadura montados em seus cavalos igualmente terríveis. Eles dirigiam golpes mortais e certeiros em todos os empregados, mulheres, crianças e velhos de sua fortaleza. Quando acordava abruptamente, assustado diante de tais pesadelos, corriam-lhe lágrimas dos olhos, com o temor de que tamanhas catástrofes viessem a se concretizar. E por certo se concretizariam de fato, caso sua carta se perdesse e não chegasse nas mãos de seus parentes a tempo.
– Por que não me matam logo? – assustou-se com o próprio grito, um tanto quanto involuntário. Somente o eco da pequena prisão o respondeu, devolvendo sua voz fraca e desfalecida naquela escuridão.
Passados alguns minutos, subitamente seus olhos se arderam ao ver um facho de luz surgir da fenda da porta, que se abrira com um longo ranger na pequena sala, dando forma ao lugar onde estava e aos ferros que lhe mantinham preso ali. Aos poucos, sua visão foi se normalizando, materializando a silhueta corpulenta que adentrara o lugar com um archote numa das mãos e um odre na outra.
– Vejo que esta melhor do que nunca, doutor Valter – disse o jovem enquanto arremessava o odre ao prisioneiro que, desajeitado pelas algemas, o levou ferozmente a boca e tomou seu conteúdo com frenesi, fazendo escorrer água pelos lábios e tossindo logo em seguida. – Tirem lhe os ferros, mantenham somente as algemas – ordenou aos dois outros homens que surgiram logo depois. Eram altos e bastante corpulentos. A julgar pela aparência, pareciam ser capazes de esmagar um crânio com o punho.
– Seu sofrimento esta prestes a acabar – disse o rapaz com certo escárnio –, ou começar, depende do seu ponto de vista.
– O que vão fazer comigo? – perguntou, enquanto os grandalhões a serviço do jovem colocavam-no em pé segurando-o um de cada lado pelos braços.
– Não se preocupe, seu sofrimento não vai demorar muito agora – virou-se sobre os calcanhares em direção à porta de onde saíra. Os grandalhões trouxeram o seu prisioneiro logo atrás.
– O que pretendem fazer? – perguntou o prisioneiro escoltado pelos homens.
– Acalme-se, doutor. Tenha paciência.
Saíram da pequena sala que servira de cativeiro para Valter e andaram por um bom tempo pelo extenso corredor escuro e estreito. Suas pernas formigavam muito pelo tempo que estivera preso, fazendo-o caminhar com certa dificuldade, além da terrível fome e da sede que, mesmo com a pouca água que tomara, ainda era demasiadamente cruel.
Você sempre almejou meu cargo, Roger, pensou Valter com certo rancor, observando o seu antigo assistente que seguia a sua frente, guiando e iluminando o caminho. Você sempre quis ser um pesquisador renomado como eu era. Veremos se conseguirá me substituir realmente.
– Está feliz, Roger? – perguntou enfim o prisioneiro, rompendo o silêncio. – Agora que conseguiu tomar meu lugar?
– Me chame de doutor Roger – disse, sem interromper seus ligeiros passos no escuro. – Não tomei seu lugar de propósito, doutor Valter. Sabe que sempre o admirei muito pela sua incrível inteligência. Foi o senhor mesmo quem abdicou as oportunidades.
– Quais oportunidades? – murmurou com indignação. – As de fazer mal? Tem ideia dos planos maléficos que a corporação está arquitetando?
– Eu soube dos projetos muito tempo antes de você. A corporação previa que você iria se negar a dar continuidade às suas pesquisas depois que soubesse suas finalidades. Por isso nós fizemos o possível para esconder a verdade, mas eu já previa que nosso segredo não tardaria a ser descoberto por você.
– Eu desconfiei dessa corporação desde que pus os pés nesse continente. Não sei como fui me deixar enganar pelos discursos mentirosos deles, dizendo que seus objetivos eram para benefício da humanidade, quando na verdade o que eles realmente queriam era o contrário.
– Você é o cientista mais inteligente que já conheci – disse calmamente. – Contribuiu para vários dos projetos grandiosos da corporação. Mas ainda assim, é um desperdício tanta inteligência em alguém tão tolo. Você se importa demais com a escória da humanidade, um bando de ignorantes que mal sabem ler ou escrever. Qual problema em usá-los como cobaias? Essas criaturas têm tanta utilidade quanto animais.
– Vejo que decorou as palavras asquerosas deles também – disse Valter. – Continue assim. Logo eles o substituirão e o descartarão como fizeram comigo, e ai verá quem é o tolo.
Subitamente, Roger parou a longa caminhada, virou-se para o seu prisioneiro e o esbofeteou.
– Não me tome por um fanático religioso como você, doutor Valter – bufou ele em seguida. – Não cometerei os mesmos erros que cometeu...
Após dizer isso, quando Roger tencionava dizer algo mais, um dos homens musculosos que seguravam o prisioneiro tombou, emitindo um baque estrondoso pelo gorjal de sua armadura. O som do aço batendo no corredor ecoou pelo corredor
– Levante-se... – ordenou Roger, furioso. – ...Anda! – gritou dando-lhe pontapés, mas o homem jazia caído como se estivesse morto. – Imprestável! Deixe-o aí.
Roger, retomando a caminhada com certa frustração, seguiu novamente seu trajeto, ignorando o homem que ficara caído logo atrás. Doutor Valter, hesitante, observou-o por cima dos ombros, pensando em quão cruel havia se tornado seu antigo assistente.
Ele se lembrava com angustia de quando havia sido enviado para a corporação neste continente chamado Tytanes, a muitas léguas de sua casa e de seus parentes. Seu primeiro amigo quando chegara foi justamente Roger, que fora indicado para ajudá-lo em suas pesquisas. Era um rapaz altivo e ansioso em aprender novas coisas, um jovem aplicado e se dedicava inteiramente aos livros e aos ensinamentos de Valter. Considerava o jovem como seu braço direito, pois sempre o ajudava em tudo. Pouco sabia sobre ele, quem eram seus familiares e de onde vinha. Mas isso nunca fizera diferença para Valter, pois o jovem lhe servia muito bem e não tardou muito em se tornar tão capacitado e audaz quanto ele.
De repente, Valter foi pego de um susto quando olhou para o soldado remanescente que o escoltava pelo braço. Sentiu gelar seu coração ao ver o rosto daquele homem por entre o seu elmo: era horrível, tinha uma expressão vaga, com os olhos totalmente negros preenchendo toda a esclera ocular. Parecia uma criatura fantasmagórica. Jamais havia visto algo parecido em toda sua vida. Parecia-se com as criaturas que habitavam a floresta de Lutésia, segundo a narração dos contadores de histórias, dos criados de sua casa e das canções dos bardos pelos bordéis do sul de Loteram.
– O que isso significa? – resfolegou Valter. – O que diabos estão fazendo com esses pobres homens?
– Isto, meu caro – respondeu o outro –, são os resultados práticos de suas pesquisas sobre as hemophises.
– Vocês estão completamente loucos – disse Valter sobressaltado. – Isso explica o porquê desses homens estarem assim: vocês estão transplantando hemophises de várias pessoas diretamente no sangue de uma única.
– Temos feito testes com as quatro hemophises diferentes que encontramos em várias de nossas cobaias, e aos poucos estamos conseguindo entende-las – sua voz transbordava um orgulho febril. – Suas pesquisas contribuíram muito para que nós conseguimos entender a estrutura do sangue. O seu erro foi ter se acovardado tanto em relação ao uso de cobaias humanas. Mas agora com a sua ajuda, poderemos conclui-las.
– Eu me nego a contribuir com seus planos maléficos – disse com ardor. – Já contribuí demasiadamente sem saber que estavam tramando essas coisas horríveis.
– De fato contribuiu – voltou-se para trás e entregou ao seu antigo mestre um pequeno caderno de anotações que estava dentro de seu bolso, aberto em uma certa página. Valter apanhou o objeto desajeitadamente por causa das algemas, depois firmou os olhos nele com certa dificuldade devido à baixa luminosidade. – Conseguimos comprovar várias de suas teorias, mas duas delas foram essencialmente importantes. A primeira delas é a de que os Zelotes são descendentes de Logan, curiosamente e inexplicavelmente ela parece estar certa. A segunda e mais importante, de que o sangue é produzido pelo “tutano” dos ossos.
Valter observou expressiva e minuciosamente o pequeno livro que lhe fora entregue até franzir as sobrancelhas e dirigir um olhar de dúvida ao seu antigo assistente, que esbanjava vitória com um sorriso orgulhoso.
– As hemophises são produzidas nas vértebras? – perguntou um tanto quanto surpreso pela descoberta de seu antigo assistente.
– De fato, a hemophise existe e é encontrada no sangue somente nos descentes de Logan. – disse com voz exaltada voltando a caminhar sobre o corredor parcialmente escuro. – Depois de sua tese sobre a produção de sangue, fomos logo ao ponto que nos interessava: as hemophises. Com meses de árduos estudos, nós descobrimos que ela é produzida na décima segunda vértebra da região torácica, a t12.
– De que forma isso acontece? – perguntou retomando a leitura das anotações, buscando encontrar a veracidade de tais relatos. – Nas vértebras de indivíduos adultos não há quantidades relevantes de tutano.
– Aí que você se engana, meu caro – disse orgulhoso de si mesmo. – Na vértebra t12 dos zelotes é produzida uma quantidade significativa. Detectamos isso depois de termos estudado alguns de nossos cadáveres zelotes. Mas você jamais descobria isso usando apenas animais como cobaias. Quem diria, doutor Valter: o aprendiz se sobressai ao mestre.
– Já entendi – disse franzindo uma sobrancelha, mas sem surpresa. – Vocês estão retirando o tutano da vértebra dos zelotes e infundindo diretamente no sangue dessas pobres cobaias. Vocês conseguiram finalizar pesquisas das quais eu já estava desenvolvendo. Eu já havia tentado o infundir o tutano do fêmur e bacia de alguns dos animais. Porém não repassei essas informações à corporação, pois já estava suspeitando das verdadeiras intenções de vocês, e agora vejo que bem fiz em não fazê-lo.
– Onde estão esses registros? – perguntou o jovem.
– No meu breve período de fuga, dei cabo de todos eles para que vocês não os conseguissem.
– Não me importo com isso – disse tomando bruscamente o caderno das mãos de seu prisioneiro e devolvendo-o ao bolso de onde o retirara –, em breve eu mesmo trarei avanço às nossas pesquisas, e descobrirei uma forma de controlar todos esses malditos efeitos colaterais.
Não disseram mais nada por algum tempo, que para Valter, perdido em seus devaneios enquanto caminhava sabe-se lá para onde, parecia uma eternidade.
Saber que a corporação dificilmente encontraria uma solução para sanar o problema das reações alérgicas das cobaias, pelo menos não a tempo de que os seus planos maléficos fossem descobertos, dava a Valter um pingo de esperança.
Lembrou-se que, na carta que enviara aos seus parentes, havia indicado o lugar onde escondera o livro com os registros de suas descobertas científicas, para que somente eles pudessem encontra-los de alguma forma e, com isso, essas informações pudessem ser entregues nas mãos certas; de algum cientista que pudesse concluir suas pesquisas em benefício da humanidade, e não para fins bélicos e maléficos como os desta corporação.
Um tutano formado por uma vértebra, lembrou-se. Se tivesse descoberto isso em outras circunstâncias, poderia ter estudado uma forma eficaz de controlar os efeitos colaterais e depois poderia usar as hemophises para curar as doenças mais complicadas, seria um grande passo para a medicina. Com elas, poderia descobrir uma forma de curar definitivamente os portadores da doença de Kessi, como ele mesmo, seu pai, a irmã e seu querido sobrinho.
Esses pensamentos melancólicos traziam a Valter uma lembrança, outrora doce como um mel de esperança, agora azeda como um vinho estragado. Recordava-se de quando havia salvo o filho do lorde Evan Gemalton que, em sua visita a Loteram, sofrera um ataque proveniente de uma rebelião dos fanáticos religiosos do norte, os autoproclamados Imaculados. Estes, ao saberem que o nobre iria vir a Loteram para visitar seu centro de pesquisas, decidem se rebelar contra ele, alegando ser um difamador dos deuses elementais.
Nessa rebelião, eles conseguiram matar o filho do meio do lorde e ferir gravemente seu progenitor. Vendo a vida do filho esvair-se pelo ferimento que o fez perder muito sangue, Lorde Gemalton apelou para todos os sábios, curandeiros e médicos da região para que o salvassem. Depois de vários procedimentos terem sido tentados, porém apenas com o agravo do estado do rapaz, Valter, que ainda era um mero aprendiz, se dispôs a realizar um procedimento que poderia salvar a vida do homem, mas que também poderia resultar numa morte mais rápida ainda. Sem muita opção, o lorde decidi arriscar no jovem aprendiz, que já havia se destacado antes em sua corporação ao desenvolver pesquisas e teorias importantes. Foi então que Valter, com fortes receios do nobre, retirou uma quantidade de sangue do lorde com um dos seus instrumentos médicos, e transferiu ao rapaz. Em poucas horas o rapaz já apresentava visíveis melhoras, a cor logo lhe retornara a pele, a febre diminuía gradativamente e até a sua respiração se normalizou. No dia seguinte já recobrava a consciência e, no outro, já estava completamente revigorado.
Com isso, Valter se destacou ainda mais, e logo foi indicado para se juntar a corporação Briston, o maio centro de pesquisas do mundo. Mal sabia ele onde estava se metendo.
Subiram longas e duras escadas de degraus altíssimos, dificultosas para Valter devido a sua fraqueza e a seus ferimentos. A escada terminara; seguiram por um novo corredor com paredes de pedras ásperas e rugosas. Adentraram uma longa porta curvada que dava acesso a outra escada, circular com degraus menores.
Subitamente a escada terminava e então entraram em um grande salão iluminado por incontáveis archotes, presos entre toda a extensão da parede das enormes janelas que se erguiam paralelas às tochas. Valter espreitou por elas para fora, observando o horizonte e vendo o longo céu azul escuro e límpido, que dava os seus últimos resquícios da luz da tarde e os primeiros sinais da chegada da noite.
Olhou ao seu redor e percebeu que se tratava de um laboratório e, a julgar pela vista da janela, notou que estava no alto de alguma fortaleza ou torre. Não se lembrava de alguma vez ter posto os pés naquele lugar. Havia uma longa mesa no centro da sala com inúmeros materiais cirúrgicos e alquímicos sobre ela: bisturis de vários tamanhos, frascos vazios e cheios, incontáveis bacias de alumínio também de vários tamanhos e uma porção de outros objetos até então desconhecidos por ele.
No lado oposto às janelas, havia várias estantes repletas de livros e utensílios de pesquisas, e também alguns pequenos frascos de várias cores, distribuídos por toda sua extensão.
Roger caminhou até uma porta nos fundos daquela grande sala e retirou uma chave presa a um cordão pendurado em seu pescoço. Com ela abriu a grande porta com um ranger sonoro.
– Que os elementais tenham pena de nós – praguejou Valter, perplexo e assustado ao olhar para dentro daquela sala comprida e estreita, e deparar-se com centenas de enormes tubos de vidro, alguns cheios de água com homens, mulheres e crianças inconscientes e nus dentro deles; alguns deformados parecendo-se com monstros terríveis e assustadores. Então é aqui que estão utilizando secretamente as cobaias humanas? Pensou, sentindo calafrios.
Para qualquer sábio, alquimista, cientista, médico ou qualquer outro servidor, sempre fora repudiado o uso de cobaias humanas. Mesmo o uso de animais era restrito, permitido apenas quando se havia plena certeza e legitimidade que as pesquisas seriam inofensivas. Para isso eram
exigidos relatórios bem detalhados dos experimentos a que os animais seriam submetidos.
Realizar experimentos como esses em humanos, era terminantemente proibido e punível nos três continentes de Valatus. Mas a corporação chegara ao ápice de sua maldade: usar cobaias de homens, mulheres e até crianças? Parecia não haver limites para tanta maldade, contanto que alcançassem seus objetivos.
– Reconhece esse lugar, Dr.Valter? – perguntou o jovem doutor resgatando-o de seus pensamentos.
– Não – murmurou secamente.
– É óbvio que não – disse o outro sombriamente. – Os laboratórios nos quais você já trabalhou eram apenas secundários, “de fachada”, por assim dizer. Este é o laboratório principal, onde as nossas cobaias humanas são armazenadas e testadas.
– Torturadas, você quer dizer – retrucou Valter.
– Torturas cientificas – murmurou o outro. – São para um bem maior. Além das experiências com as hemophises, também realizamos outros procedimentos para aumento da força, resistência e habilidades mágicas. Nunca se perguntou porque várias pessoas; adultos e crianças desaparecem todos os dias?
– Seus cretinos – resmungou. – Vocês estão apenas perdendo tempo e matando inocentes. De que adianta criar soldados mutantes incapazes de raciocinar. Possuem força física, mas sem nenhum discernimento do que fazem e por que fazem, e que não tardarão em sofrer reações alérgicas fatais. Serão como mortos-vivos. Seria mais fácil treinar o físico de soldados aumentando sua massa muscular naturalmente, do que realizar todos esses procedimentos cruéis para obter soldados parcialmente mortos.
– Em breve encontraremos uma forma de resolver o problema das alergias – prometeu. – Quanto a incapacidade de raciocinar, logo conseguiremos entender e encontrar a quinta hemophise rara.
– A HP5 pura – completou Valter. – Em minhas pesquisas eu nunca consegui descobrir onde obter, se é que realmente existe algum indivíduo capaz de produzi-la. A HP5 foi uma benção que o Espírito da Luz não quis compartilhar conosco.
– Deixa de dizer tolices – cuspiu o jovem. – A corporação nunca lhe revelou, mas sempre considerou suas ligações cientificas com religiosas completamente infundadas.
– E é por isso que nunca conseguirão encontrar a HP5 pura – disse Valter. – Muito menos desenvolver uma solução para as reações alérgicas. Uma coisa está atrelada a outra.
– No que diz respeito as reações, farei algum soro antialérgico para eles. Vê... – disse apontando para os tubos de vidro com as cobaias humanas que estendiam-se até onde os olhos alcançavam. – Temos várias cobaias para utilizar e, quando estas acabarem, encontraremos novos corpos para implantar hemophises até que consigamos criar um exército perfeito. Essa é a verdadeira essência para novas descobertas. Você era bondoso demais e tinha pena até dos animais que utilizava. Suas pesquisas nunca gerariam frutos assim.
– Qual o propósito da ciência, se não para obter melhorias para a humanidade? – perguntou.
– Alguém se beneficiara com isso, com certeza – o jovem encolheu os ombros. – Iremos usar o mundo inteiro se for preciso, até conseguirmos atingir nossos objetivos. E você terá a honra de ser um deles.
– Então é isso. Pretendem me colocar em uma dessas câmaras?
– É ai que você entra meu caro. – disse com sorriso sardônico. – Baseado em sua própria teoria de que os zelotes são descendentes de Logan, posso afirmar que você também é um, já que também é de uma linhagem de reis. Sua inigualável inteligência só pode estar relacionada a alguma habilidade incomum dos zelotes, e quem sabe até ser possuidor da HP5 pura. Por isso, você ainda poderá contribuir amplamente para o avanço de nossos planos.
– Conspiração você quer dizer? – cuspiu com desprezo. – E o que pensam fazer em seguida, caso eu seja mesmo portador da hemophise pura?
– Testaremos seu tutano em outras cobaias descentes de Logan – o rapaz deu um leve sorriso. – Assim, poderemos entender mais como as hemophises se comportam no sangue de pessoas da mesma linhagem. Assim poderemos encontrar uma forma de inibir as reações alérgicas
– Você está completamente louco – bufou Valter. – Como você pode ter tanta certeza que eu possuo hemophise pura? – perguntou.
– Não temos certeza – disse ele. – Mas iremos usar todos os descendentes do Rei Logan se for preciso. – dirigiu a Valter um olhar malicioso. – Podemos começar com os Shilterton em Alcedres, o que acha?
– Seu verme asqueroso. – disse Valter com fúria. Tencionou partir para cima deste que ameaçava a sua família, mas fora segurado pelo soldado que o acompanhava. – Deixe meus parentes em paz.
– Nós até poderíamos deixá-los por último, sendo Alcedres um lugar tão longe e esquecido – disse com certo desânimo – Mas você fez algo repugnante que nos obrigou a mudar o curso das coisas. Achou que não descobriríamos sobre sua carta? – perguntou Roger, tomando Valter de surpresa. – O mercador pelo qual você enviou a maldita carta está sendo perseguido neste momento, logo nossas tropas irão capturar o seu amigo. Mas como castigo, iremos testar nossas armas em Alcedres e recrutar os demais Shiltons e Shiltertons como cobaias.
– Vocês não conseguirão interceptar a minha carta! – rugiu ardentemente. – Quando vocês chegarem a Alcredres, haverá um exército dos suseranos de meu pai, e até o do próprio imperador de Loteram aguardando a chegada de vocês.
– Eu não teria tanta esperança se fosse você – disse com desdém. – Caso nós não consigamos capturar o mercador por quem você mandou a carta, os portos de Loteram serão todos muito bem vigiados por nós. Com isso ninguém conseguirá chegar até Alcedres sem ser descoberto. Diremos ao imperador que sua família planeja se aliar aos Imaculados para uma nova rebelião contra ele.
– Os espíritos elementais serão bons e não permitirão que vocês se safem das suas atrocidades – murmurou com esperança.
– Seus deuses de merda não são nada mais que lendas, Dr. Valter! – cuspiu o homem com desprezo. – Se tivesse deixado esses mitos que só trazem regresso para a humanidade, talvez não estivesse nessa situação. Eu acredito na ciência, esse é o deus verdadeiro.
– Pro limbo com sua ciência! – bufou com arrogância. – Veremos se o seu deus vai te ajudar a concluir as pesquisas que foram iniciadas por mim – desafiou. – Traga esse traste para cá antes que eu o esfole vivo – ordenou ao seu subordinado com fúria. – Coloque-o em um dos tubos, deixe que eu me encarregue do resto.
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