As Crônicas Fantasmagóricas
4 Flames into the Garden
A caminho da floresta já, os dois se entreolhavam instigados com a proximidade que haviam criado em apenas alguns minutos passados. Neste momento para Charlie já não existia um professor guiando o carro, apenas um cara. Um jovem como ele com desejos intensos e que sabia esconde-los até de si mesmo. Mas por pensar isso, logo Charlie se repreendeu, afinal, não era educado pensar essas coisas.
Alexander fazia as curvas com uma precisão sobre-humana, ele corria com seu volvo talvez se sentindo um daqueles moleques que acabam de tirar a carteira, e estão indo para sua primeira aventura. Mas não era o fato de dirigir que o instigava, porque convenhamos; ele ja tinha dirigido muito nessa vida. O que o deixava instigado era Charlie.
"O menino da profecia em meu carro, meu aluno mais charmoso e maduro em meu carro em busca das criaturas magicas da floresta.. Isso só pode ser coisa do destino" ele pensava consigo mesmo.
Enfim chegaram a floresta, sem pessoas ao redor, sem vento entre as sequoias, sem canto de pássaros. Apenas o silêncio. Mas naquele momento nada falava mais alto do que o silêncio, era reconfortante. Os dois saíram do carro e se entreolharam.
–Você realmente quer fazer isso? Alexander perguntou a Charlie.
– Eu preciso fazer isso.. -respondeu charlie
A entrada para as inúmeras trilhas entre a floresta já fora muito bela quando recém construída, as armações do portão lembravam o ouro mais puro, seu dourado era estonteante . Agora mais parecia um emaranhado de sucata, que fora tomado pelas ervas daninhas e esquecido pelos pensamentos dos moradores. A trilha principal era coberta de cascalho, com pedras até bonitas para serem cascalho. Incrível que mesmo com o indelicado e sorrateiro silêncio, tinha um clima mágico, como se estivessem prestes a entrar no País das maravilhas.
Charlie olhou bem para o caminho a sua frente, tinha a mínima idéia das coisas que encontraria naquela floresta, mas não sabia como aquela ida mudaria tudo. As coisas iriam ir de assustadoras para macabras. Seus pés seguiam sua vontade cerebral com lerdeza, ele não conseguia andar tão rápido, era aquela maldita sensação de temor pela vida. Será que Deus não percebia que isso afastava as pessoas de maravilhosas aventuras, para ser mais sincero era o sentimento que afastava as pessoas da morte. Mas naquele momento esse sentimento não era oportuno.
De passo em passo eles se embrenhavam em meio à mata, quase intocada pelo homem, na verdade esquecida. As flores começavam a ter uma cor mais vivida do que no começo de sua caminhada, agora sim tudo parecia mais mágico.
–Parece que as coisas estão começando a mudar aqui, não? Disse seu professor
– E como estão, posso até jurar que vi algo estranhamente colorido voando para aqueles rochedos– Charlie apontou para algumas rochas, enormes e imponentes.
– Pode ter certeza que o que vc pensou ter visto, é o mínimo que encontrara aqui.
Um ar gélido tomou a atmosfera, entraram as 15h00min da tarde na floresta, magicamente já se passava das 19h00min, nenhum dos dois se lembravam de a lua ter emergido entre as sombras. Nem como os raios solares deram lugar à vinda das estrelas, das constelações.
– Posso reconhecer uma constelação. -disse Charlie.
– Deixe-me adivinhar! Órion?– Alexander riu.
– Como sabia?–Charlie parecia realmente surpreso.
–Ah, é extremamente fácil de compreender, porque eu também só reconheço essa.
Os dois caíram na risada ao zombarem de sua ignorância em relação aos astros luminosos. Já tinham andado por milhas e milhas, mas haviam cansaço em seu fôlego. Aquilo era magia.
Posso descrever os detalhes com a máxima perfeição. E devo descrever essa cena com a maior minúcia que eu puder. Porque o que viram foi de tal importância para que a história flua em suas mentes.
Pela primeira vez depois de tantas curvas únicas na mata, chegaram a uma bifurcação. Um carvalho de tamanho presunçoso estava parado em meio dos dois caminhos, em um mastro de madeira haviam duas setas apontando para cada direção.
Para a esquerda havia um caminho de puro brilho, os montes de grama e de folhas secas pareciam ligados em uma espécie de luzes de Natal. Era tudo tão mágico, tão suave. Nesta placa estava escrito, “lights way”. Uma pessoa em sã consciência escolheria aquele caminho. Sim, em sã consciência! Mas nossos heróis escolheriam o outro caminho.
À direita, era tudo trevas. Já não se via mais as árvores com vida, tudo parecia ter morrido, havia mais pedregulhos do que terra, ou até mesmo do que ar puro. Eles não sabiam como, mas podiam ver uma montanha vulcânica ao horizonte. Deveriam estar no leito mágico da floresta, protegido pela magia das fadas para que os humanos não suspeitassem de sua moradia. Era certamente um caminho de puro térreo e quase nenhuma esperança. Até sua placa indicava a morte iminente, “highway to hel”l.
Charlie estava maravilhado, e ao mesmo tempo assustado. Foi quando aquela voz sussurrou ao seu ouvido:
–Siga a direita– era a mesma menina que havia lhe pedido ajuda.
–Mas é o pior caminho a se seguir, é só olhar para ver como é o caminho errado a se seguir.- Charlie retrucou com o vento, nervoso com o que acabara de ouvir.
–Siga a direita, só assim você verá o que deve enfrentar.
Só nessa conversa, o ar tinha caído uns 15 graus. Seu professor havia tirado a jaqueta que mais se comparava com blazer e oferecido a Charlie.
– Com quem vc estava falando?– Alexander espantado de inicio com a cena.
– Com a voz que me botou nessa confusão toda.
– Entendo, mas o que ela disse?– seu rosto demonstrava uma certa apreensão
.
– Disse que devemos seguir a direita, mas me parece tão errado. Parece-me suicídio.
– Vamos a direita então, seres de luz sabem indicar o caminho. Pegue meu casaco, assim manterá você mais aquecido. — Alexander entregou o casaco nas mão de Charlie.
–Não mesmo, assim você ficara com frio. – Charlie disse com relutância.
Alexander tinha esperado a hora certa para mostrar o que tanto escondia até de si mesmo. Ele se virou de costas, e começou a se despir, ficar literalmente nu. E então, seu corpo começando dos pés se transformou, sua pele agora era dourada como ouro, e mais parecia como a de um dragão. Ele brilhava, intensamente. Era lindo de se ver. Seus olhos eram feitos de labaredas, e seu cabelo era literalmente fogo, suas partes intimas que deveriam estar expostas, se escondiam em uma maravilhosa nebulosa. O mais impressionante estava para acontecer. Asas começaram a sair de suas costas, eram majestosas e incrivelmente grandes. Eram laranja e lembravam combustão instantânea.
–PELO AMOR DE DEUS!! O QUE VOCÊ É? UM DEMÔNIO? UM ANJO CAIDO? -Charlie nunca estivera tão alterado.
Alexander deu uma risada encantadora e então respondeu:
–Estou mais para uma Fênix macho. Sabe, aquela criatura que queima e nasce das cinzas, que chora a cura.– Alexander segurou as mãos de Charlie e no mesmo instante ele não sentiu mais frio, foi envolvido por um calor supremo.
Ele estava pronto para fazer o que desejara desde o instante que vira Charlie. Naquela bifurcação mágica, em frente aquele carvalho, com brilho e fogo a todo lado. Em uma noite estrelada onde vagalumes dançavam no caminho de luzes. Alexander se aproximou de Charlie, um pobre coração não podia agüentar tanta expectativa.
( Vou deixar que conte a partir daqui)
E então, ele, uma fênix. Estava próximo de mim, eu podia sentir o calor que emanava de sua respiração, podia me perder olhando aqueles olhos de labaredas. Ele me beijou. E não foi um beijo comum, minha boca foi tomada por uma estranha dormência, como se pimentas a deixassem desse jeito. Eu sentia o calor vindo de seu hálito, e podia implorar para que ele não percebesse como eu estava trêmulo e quase inconsciente em meus pensamentos.
–Espero não ter estragado tudo com isso. -disse ele a mim.
–Você não estragou. Digo. Você. Bom, não sei resumir isso, não sei nem explicar o que eu senti. -Charlie estava bestificado, ou pior. Estava apaixonado.
–Charlie, você esta na minha mente desde o momento que eu te conheci, você queima meus pensamentos com sua voz, embriaga meus sentidos com seu sorriso de anjo. Eu só, não posso viver mais longe de você.
( Voltando ao escritor/narrador dessa história)
Os dois emanavam uma sintonia perfeita, era de total veracidade o momento de sentimentos confusos e certa esperança. Uma vontade de que tudo parasse naquele momento, que tudo congelasse mesmo quando estava pegando fogo, emanando chamas.
–Então, tem mais uma coisa que preciso fazer?- disse Alexander
– O que mais agora? Vai mudar de forma e sair voando?- ironicamente Charlie presumia o futuro.
–Embora eu posso fazer isso. –ele riu de sua própria piada.- Eu não irei, vou chamar sua carruagem senhor.
Ele assobiou em um som perfeito e sem titubear, parecia uma nota de um instrumento angelical. E em poucos segundos um belíssimo animal que poderia ser chamado de cavalo se não fosse pelo seu estridente único chifre. Que na ponta brilhava como uma estrela. Era um unicórnio.
–Um unicórnio. – agora as coisas estavam ficando um pouco loucas para Charlie.
–Não só um unicórnio, ele é Cairo o Rei dos Unicórnios.
Charlie se aproximou da criatura e passou a mão nele, sua pelagem era sedosa e macia. Era uma dádiva tocá-lo. Charlie montou em Cairo e seguiram pelo caminho de sombras e total desolação.
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