As Cores de Vinia

1 Pedra em formato de estrela


O cheiro pútrido era insuportável, o pior odor que Gulivan Capra já havia sentido, a fusão pagã das soluções mais nocivas e nojentas do laboratório do doutor Agalor, eram ótimas comparadas aquilo.
Mas o que se esperava de uma centena de soldados mutilados com armaduras despedaçadas, enferrujadas e infestados de insetos que devoravam eles?

—E o céu não está de luto — A temperatura estava agradável, haviam nuvens, mas o sol ainda tinha força para secar as roupas lavadas — Se espera chuva ou alguma coisa dramática e mórbida diante de tanta tragédia, mas nem tempo não se importava com os mortos- Gulivan disse para ninguém em especial, ele adorava falar sozinho.

O rapaz alto de cabelos esverdeados mal havia conseguido dormir no dia anterior, ansioso para pegar as coisas mais úteis e inúteis dos soldados mortos, uma atitude que muitos diriam ser amoral, mas ele não aprendera sobre tais assuntos.

Há alguns dias esse campo aberto não era tão putrido, eles eram resultado da investida mais tola pensável, pensada por Rikard Teomus, jovem arquegovernante de Farilei que tentou resolver de uma vez por todas suas rivalidades com Volan Sisteri, também arquegovernante, mas um mais competente, ele sabia o quanto essa rixa iria afetar negativamente a cidadela dos dois. Volan era completamente dedicado a Trifestis e seu crescimento, apesar de várias vezes se esquecer das necessidades dos próprio povo. Rikard tinha exércitos ínfimos, não eram necessários, Farilei era apenas uma cidadela pequena e pacifica, todos os jovens que quisessem a emoção da guerra se alistariam à capital. Mas ela tinha prisioneiros, e Rikard achou que usar a milícia local e vários encarcerados contidos em uma investida suicida direta a Trifestis seria uma boa ideia, sessenta por cento deles foram espertos em desertar, o resto foi morto por tiros de canhão e outras coisas que Rikard esqueceu que existiam.

Gulivam só voltou para casa depois de três horas pilhando dos mortos e falando sozinho, ao total ele recolheu pelo menos trinta armas entre espadas, lanças, machados de guerra e outra coisas que ele não sabia usar, todas elas levariam semanas de limpeza para tirar todo o sangue e lama, as lanças tinham as hastes quebradas e ao total tinham pelo menos três armas decentes nesse saque. E é claro que ele pegou varia peças sortidas de armaduras que não combinavam e com sorte protegeriam dois golpes. Nuvem Vermelha estava carregando pelo menos cinquenta quilos a mais, relativamente mais do que o recomendado para um cavalo normal carregar, porém Gulivam só consegui pensar em todas as coisas úteis e maravilhosas que ele poderia fazer com seus novos espólios e tinha certeza que Nuvem Vermelha aguentaria.

O fedor dos cadáveres só ficou menos intenso depois que Gulivan penetrará o coração do Bosque Verde, lugar nomeado por completa ironia, as árvores tinham folhagem azul e nada era verde, as moscas e outros insetos por outro lado ainda perseguiam os dois, e perseguiram por muito tempo, passando o Bosque Verde a cavalgada ainda seguiria até a Selva de Cristal, seja lá quem tenha a nomeado provavelmente só gostava dessa palavra, vendo que não existem cristais nessa selva, só árvores, animais e o laboratório do doutor Agalor.

—Ele é um aposentado tímido, por isso fez uma casa tão longe do resto do mundo, não é como se ele estivesse escondendo alguma coisa.
Gulivan só parou de falar sozinho quando encontrou um homem assando uma galinha serafim no meio da mata.

—Quem é você?! – O homem se levantou em um pulo e sacou sua espada.

—Que? O que que fiz? – Gulivan não se intimidou, apenas ficou confuso, estando montado ele poderia fugir muito mais rápido que esse desconhecido poderia o perseguir.

O homem de meia idade se acalmou ao ver a confusão do jovem, ele tinha a aparência de um mendigo, barba por fazer, roupas desgastadas e sujas. Embainhou a espada, se sentou e pegou uma das seis assas da galinha serafim.

—Esqueça, confundi você com outra pessoa. Mas ainda quero saber, quem é você?

—Gulivan, eu só estava de passagem pra Selva de Cristal.

—A Selva de... – Ele não entendera porque alguém iria a aquela região inabitada – Por quê?

—Eu moro lá.

—Tanto faz, pode continuar. – A figura misteriosa voltou sua atenção a galinha de cinco assas sendo cozida.

—Espera – Gulivan não ficara contente com a ambiguidade da situação – Quem é você? Por que me atacaste?

—Só vaza daqui, isso não é da sua conta.

—Pelo menos pode me dizer seu nome?

—Edmus, garoto que mora numa selva. – Vendo a cordialidade do homem mais jovem, Edmus se sentiu confortável para perguntar algo que o incomodava a meses – Você tem alguma espécie de mensajante?

—Claro que sim – Gulivan tivera esses comunicadores por teto por toda a sua curta vida, infelizmente nunca tivera muitas pessoas para conversar tirando seus irmãos – Você precisa de um?

—Sim, talvez eu nunca mais possa ver família, mas com um desses eu vou poder disse aos meu filho o quanto o amo.

Gulivan sabia como era estar longe de sua família, ele conhecia essa dor, com certeza ajudaria esse desconhecido.

—Com uma condição eu vou te dar um mensajante; eu quero uma recompensa – Vlakin entendia tudo sobre aventuras e fazer coisas irrelevantes para estranhos por recompensas triviais e Gulivan se apaixonara por esse conceito.

—Justo. Tudo o que tenho são cinquenta gansos de quartzo –O dinheiro de Farilei.

—E algum item?

—Um item? — Gulivan assentiu – De que tipo?

—Qualquer coisa útil – Qualquer coisa era útil para Gulivan.

—Hum – Edmus ponderou sobre isso, que tipo de objeto satisfaria o jovem? – Que tal isso? – Disse ele erguendo uma pequena pedra com formato perfeito de estrela.

O homem à cavalo deu o seu melhor para não parecer interessado, mas ele estava fascinado, aficionado e apaixonado; sua mente viajou pelo universo de todas as coisas que ele poderia fazer com aquela pedra, sua vida não mais fazia sentido, viver sem aquela pedra era a pior tortura que qualquer alma poderia sofrer, como ele conseguirá viver até hoje sem essa maravilha?

—Que bom que eu não disse isso em voz alta, enfim, o trato parece... Bom -Ele não conseguirá pensar em um adjetivo erudito para isso — Eu volto daqui a algumas horas.

—Pedra, pedra pedra, pedra em formato de estrela, ela é uma pedra e ela tem um formato de estrela — Entre as poucas habilidades de Gulivan não estava a de criar canções — Solo de alaúde — Ele então tomou enorme prazer em fazer sons incompreensíveis e horrendos.

Uma hora de cavalgada depois de adentrar a selva de cristal ele alcançará o lugar onde o laboratório do doutor Agalor ficava escondido, do que ele se escondia nunca preocupou Guliver, ele sempre pensará no doutor apenas como um velho tímido.

Depois de selar Nuvem Vermelha ele carregou a bolsa com todos os seus espólios para o quarto onde guardava toda uma vida de coleções inúteis.

No meio do caminho estava o próprio doutor Agalor, uma figura que mesmo depois de alcançar os cabelos grisalhos, mantia uma postura ereta, confiante e amedrontadora, seus pijamas e pantufas somavam ainda mais ao visual de cientista amedrontador.

—Gul... — Fez uma longa pausa enquanto fitava o jovem.

Mas ele estava sem tempo pra essas brincadeiras, suspirou e continuou andando a seu quarto.

—O meu almoço! — O doutor quebrou a postura intimidante — Eu tô com fome Gul.

A passeio de Gulivan havia deixado ele longe de casa por muito tempo, ele esquecerá que tinha de cozinhar para o doutor.

—Eu tô com muita fome — Agalor continuou enquanto colocava suas mãos nos ombros do jovem e implorava.

A cozinha estava muito diferente do jeito que Gulivan a deixará. Pedaços de carne boiavam no molho que inundará o chão, várias partes da parede estavam carbonizadas e pequenos vegetais de todos os tipos se encontravam pela cozinha.

Gulivan deu um longo suspiro quando se lembrou que era seu trabalho alimentar o doutor e por alguma razão incompreensível para o jovem Agalor não conseguia preparar a própria comida.

—Desculpa, eu esqueci desse problema.

—Eu fiquei comendo vegetais crus enquanto você esteve fora — Normalmente Agalor tinha uma postura mais séria e responsável, mas a fome destruirá essa imagem — CRUS!

Depois de limpar a cozinha e preparar um ensopado eles sentaram e Agalor pode finalmente e comer e Gulivan, descansar.

—Achou alguma coisa útil Gul? — O doutor atacava a comida enquanto o jovem encarava um pouco de molho que se fixou no teto e julgava se algum dia o tiraria de lá.

—É óbvio que sim, não viu o quão cheio a minha bolsa estava?

—Você não encheu ela de pedaços inúteis de armaduras, não?

—Quase, só que tudo que eu peguei é totalmente útil.

Agalor deu de ombros.

—Você viu a Jil e o Vlak nesse passeio?

—Não, eu não vi meus dois irmãos que vazaram e nunca deram notícias.

Em outros tempos no laboratório do doutor Agalor moravam três homúnculos, Gulivan, Jihas e Vlakin, os três criados em laboratório pelo próprio Agalor, Vlakin, que leva brincadeiras muito a sério, Jihas, que não conhece a consequência de suas ações e Gulivan, escravo do materialismo e acumulador de coisas inúteis. A principal função dos três era a de cuidar do seu criador e fazer as tarefas que eram impossíveis a ele, enquanto no tempo livre eles encenavam aventuras, destruíam coisas e lembravam o velho doutor de sua infância. Infância por sua vez foi algo que os homúnculos não tiveram, nascendo de seus frascos-casulos com o corpo físico e maturidade esperado de um jovem adulto, nascimento arquitetado pelo doutor Agalor para que ele não tivesse que cuidar de homúnculos bebês e homúnculos adolescentes, não existe coisa pior que um homúnculo adolescente.

—Doutor, eu vo sai de novo, e acho que só volto amanhã — Ir até o ponto de encontro e voltar demoraria muito, ele e cavalo teriam de descansar e acampar — Eu vo deixa comida preparada pra você.

—Por favor, mas o que exatamente tu vai fazê? — Disse Agalor descontente com a ambiguidade do jovem.

—Eu achei um homem na floresta e ele vai me dá dinheiro se eu der pra ele um mensajante — Gulivan falava como se tudo aquilo fosse normal.

—Mas pra que você quer dinheiro? Todas as cidades ficam a uma distância absurda daqui e a gente consegue comida da floresta.

—Talvez porque seja legal receber recompensas e... e essas coisas? — Ele deu um longo suspiro — Eu só tava animado que eu poderia ajudar ele, e poderia fazer alguma coisa em geral. Ultimamente as coisas são tão quietas.

O jovem abraçava suas pernas enquanto fitava os joelhos e a comida, pensando nos seus irmãos que haviam o deixado para conhecer as cidades e explorar esse mundo que era tão desconhecido para eles, o deixando sozinho para cuidar de seu pai.

Gulivan não percebera que Agalor deixará a mesa, e também não percebeu quando foi surpreendido pelo doutor oferecendo-o o mensajante de que ele precisava.

—Eu sei como você esteve sozinho, pega as suas coisas e vai lá se divertir. — Disse com uma mão no ombro do jovem.

Gulivan correu até sua bolsa e com esforço carregou até seu quarto, um espaço enorme quando vazio, porém ele parecia pequeno diante de todos os tipos de lixo que enchiam o quarto. Primeiro ele analisou seus mais novos espólios, nenhuma das armas e armaduras estavam em inteiras, ele escolheu levar um meio elmo que antes de ser destruído era um elmo completo, a espada menos enferrujada, guardada em uma bainha muito maior que a arma. Gulivan não pensou por que se armou, apenas o fez porque a idéia parecia legal.

Um isqueiro, um apito para afastar cães e uma foto do arquegovernante Rikard foram julgadas extremamente úteis e levadas também. Por fim ele pegou o próprio mensajante esperando recados de seus irmãos, aos quais nenhum foram encontrados, suspirou e guardou o mensajante decepcionado.

Depois de preparar comida para o doutor, ele selou Cavalo Voador e foi até o ponto de encontro. Alguns esperariam que Cavalo Voador voasse até lá, mas infelizmente esse nome foi dado por ironia quando Jihas estava inspirado na pessoa que nomeará a Selva de Cristal e o Bosque Verde.

Gulivan se encontrou com Edmus no ponto marcado, ele ficou profundamente contente quando viu que sua encomenda chegara e tomou imenso prazer em conduzir o jovem ao acampamento dos desertores.

O acampamento não tinha luzes, elas atrairiam muita atenção, coisa que eles queriam evitar ao máximo, todas as barracas eram feitas de galhos, troncos e folhas e a única coisa a disposição a comer eram frutas e animais silvestres, nenhum dos renegados estava treinando ou fazendo alguma coisa relevante, eles só descansavam da longa caminhada, e ela ainda seria muito mais longa, a viagem a pé para Detris duraria pelo menos mais um mês.

—Obrigado, muito obrigado, eu finalmente vou poder falar com a minha família, não só eu, mas todos os não afortunados que estão nessa situação, você nos salvou. — Ele pegou cinquenta gansos de quartzo do bolso e entregou a seu salvador.

—E a pedra?

—Pedra? — Edmus acabou de lembrar dessa piada — Hahaha, claro a pedra.

—Cade ela? — Gulivan ficou preocupado com o fato do desertor rir do trato da missão.

—Eu deixei ela lá. Sabe o que legal de pedras com formato de estrela? É quebrar os bracinhos dela em pequenos triângulos — Edmus estava se divertindo muito.

—É... — Gulivan tinha seu coração partido, ele alimentará expectativa por essa pedra o dia todo, e agora o universo negará sua recompensa.

—Ei, por que você não dorme aqui? Se você for voltar agora só vai chegar em casa de madrugada e tá nublado, o seu cavalo pode se machucar.

—É... Eu vo durmo aqui — Gulivan fora inundado por decepção.

Edmus continuou falando sobre o acampamento, as pessoas, o que eles iriam fazer; mas o garoto de cabelos esverdeados e coração partido nada ouvia.

—Boa noite Gulivan — Aquela seria uma péssima noite.