As Cores
9 Decepções
Notas iniciais
Espero que gostem do capítulo de hoje e não deixem de comentar, prometo que respondo todos os comentários na próxima vez que eu entrar.
Beijos Isabell
A garota está morta.
Aquilo não parava de soar em minha mente. O senhor Francis William dissera aquilo com tanta certeza que fez parecer que era verdade. Por um segundo tive medo de chegar ao beco e Thalia não estar lá.
Droga de dislexia, droga. – pensei – A notícia do jornal tinha todas as informações sobre o acidente, segundo o senhor William, mas a idiota da minha dislexia me impossibilitava de ler as palavras naquelas letras miúdas. Resultado: fiquei com uma cara de idiota na frente do editor do jornal mais famoso do mundo e acabei por está ali, realmente apenas pra atrapalhar seu trabalho.
Voltei para o beco e agradeci aos céus por Thalia estar lá. Estava sentada com os fones no ouvido e o violão no colo, dedilhando algumas notas.
- Tentando aprender uma música nova? – perguntei dando um leve sorriso. A verdade era que eu estava suando frio por dentro. Queria não ter que contar pra ela sobre o que conversei com o senhor William, mas não era justo mentir.
- Sim. Total Eclipse Of The Heart. É bem difícil, mas eu estou aprendendo.
- Eu gosto dessa música. Quando aprender a tocar, eu quero ouvir, por favor.
- Então... – ela tirou os fones do ouvido e encostou o violão na parede – Você foi lá? O que disseram?
Respirei fundo e então me sentei ao lado dela.
- Thalia, eles não disseram coisas boas. – falei diretamente – O editor chefe do jornal disse que a notícia está totalmente correta. Ele me disse que foram até sua escola e lá disseram que você não estava na aula aquele dia. Eles acham que você está morta.
Ela abaixou a cabeça, abraçou os joelhos e começou a soluçar. Depois olhou de volta pra mim, os olhos lotados de lágrimas.
- É mentira, Luke. Eles estão mentindo. – ela disse – Eu estava lá sim, eu me lembro. Tivemos aula de Álgebra na primeira hora, me lembro de que o professor ficava fazendo piadinhas sobre números, que só ele entendia. E na segunda hora seria o Sr. Janks falando de mitologia grega, mas foi ai que me chamaram na sala da diretoria e recebi a notícia do acidente e de que iriam me buscar para me levarem para o conselho tutelar, então voltei pra sala, peguei minha mochila e despedi dos meus amigos. Só que ao invés de esperar na escola eu fugi. Fui até a minha casa, peguei algumas das coisas. Eu me lembro de tudo isso.
- Eu sei. Eu acredito em você. Mas eu não entendo. Por que eles estariam mentindo? Se você estava lá, por que não falam a verdade?
- Também não entendo. – ela enxugava as lágrimas e tentava controlar o soluço – Eles eram meus amigos. Por que mentiriam?
Dei de ombros. Tirei a folha de jornal da mochila e entreguei a ela.
- O editor chefe disse que a notícia traz todas as informações sobre o acontecido.
- Eu não consigo ler isso. – ela falou sem nem tocar no jornal.
- Entendo... – falei.
- Não, não entende. Eu não disse isso porque é duro demais pra mim. É que eu realmente não consigo ler.
- Você não sabe ler?
- Eu leio as palavras grandes, com letras chamativas, mas não essas coisas pequenas. Eu sou disléxica.
Arregalei os olhos surpreso. Caramba, o que mais eu tinha em comum com essa garota?
- Está falando sério? – ela me olhou brava. Devia estar imaginando que eu ia rir dela ou qualquer coisa parecida – Não, não me olhe assim. Eu quero dizer, porque eu também sou disléxico.
- Não está dizendo isso só pra me fazer sentir melhor, não é?
- Não, eu juro. É verdade. – eu disse – Sei como se sente. É como se as letras estivessem sambando sob seus olhos, as palavras não se formam direito. É horrível.
- Isso sempre me atrapalhou. Minha mãe me colocou numa escola onde só tinha crianças com problemas, mas eu e outro garoto, meu amigo, éramos os únicos disléxicos de lá. Ele também tinha TDAH como eu.
- Também tenho TDAH. – falei surpreso – Thalia, quantas mais coisas temos em comum?
- Não sei. Mas acredite, não queira ir pra uma escola com pessoas problemáticas. Porque pior do que qualquer problema mental ou físico que alguém pode ter, é serem mentirosos. Eu acreditei que eram meus amigos, mas são traidores, mentirosos. E o pior de tudo é que eu nem sei por quê.
- Se eles mentiram é porque não eram de fato seus amigos. Foi melhor você descobrir do que estar enganada a vida toda.
- Mas é ruim sabe? Descobrir que não se pode confiar nas pessoas que diziam serem seus amigos. –ela deu um suspiro triste – Esse meu amigo, que tinha dislexia como eu, ele era tão legal comigo. Éramos tão amigos, não sei por que ele mentiu desse jeito sobre mim, sobre o acidente da minha mãe.
- Eu vou descobrir isso pra você. Amanhã cedo eu vou até a sua escola conversar com seus colegas e professores.
- Vai perguntar por que estão mentindo?
- Não. – falei – Vou perguntar se eles sabem sobre você, assim como fiz na redação do jornal. – ela balançou a cabeça em positivo. Seus olhos azuis estavam baixos e sua expressão era triste. – Thalia, eu não sei o quanto as pessoas te decepcionaram, mas você pode confiar em mim. Sei que não somos amigos há muito tempo, mas eu não vou te decepcionar. Nunca. Eu prometo. – e dessa vez foi ela quem me abraçou.
E eu me senti confuso pela segunda vez naquele dia.
Fale com o autor