As Cores
13 A Proposta
Notas iniciais
Beijos Bell
Queria saber como eu sobrevivi uma noite inteira no frio e naquele banco duro da praça. Pode parecer brincadeira, mas juro que o chão do beco é mais macio que esse banco. Acho que devo ter me envolvido demais naquele sonho da casa de Thalia com ela paralisada e o quadro dos deuses falando comigo. Aquele sonho que ainda me assustava e me deixava intrigado.
Calma, Luke é só um sonho. Não é real. Só um sonho. – eu dizia pra mim mesmo.
Talvez não. – “A voz” da minha cabeça falou.
- É sim. Você tá dizendo isso só pra me deixar assustado. É só um sonho. – eu respondi em voz alta. Legal, Luke. A que ponto você chegou pra falar sozinho no meio da rua com sua própria mente? Não se assuste se em breve você estiver em um hospício.
Levantei-me do banco e coloquei a mochila nas costas. Reparo uma senhora do outro lado da praça sentada em outro banco. Ela tinha um jornal no colo, mas não prestava atenção nele. Ela olhava para mim e então fez um sinal para que eu me aproximasse. Fiquei com um pouco de medo no início. Mas o que uma senhora idosa podia fazer comigo, não é? Espero que ela não seja uma ninja contratada pelo orfanato para me arrastar de volta até lá. Ou pior, uma ninja contratada por Thalia pra me dar uma surra. Eu não estou louco, eu estou paranoico. Bem, de qualquer forma eu tenho a tal faca misteriosa na minha mochila. Estou rezando para não ter que usa-la.
Felizmente, quando eu me aproximei, a senhora não pulou em mim, ou qualquer coisa parecida. Ela simplesmente perguntou o meu nome, o que podia ser tão ruim quanto, mas respondi corretamente.
- É Luke, senhora.
- Luke. – a senhora repetiu – É um nome bonito. Seus pais que escolheram?
- Não sei senhora. Não conheço meus pais.
- Sente-se aqui Luke. – ela abriu espaço no banco para que eu me sentasse. Eu estava um pouco desconfortável com a situação, mas fiz o que ela mandou.
- A senhora deseja alguma coisa de mim? – perguntei.
- Você parece um bom garoto. Mas vive sozinho por ai, não é? – assenti com a cabeça. Pensei no pouco tempo que passei com Thalia, quando eu não estava sozinho, mas agora eu estava solitário novamente. – Bem, a verdade é que eu quero sim uma coisa sua. Eu vivo em uma casa há alguns minutos daqui com os meus netos e eu preciso de alguém que me ajude com a limpeza. Você sabe, eu estou velha e cansada e meus netos são muito novinhos, não sabem mexer com isso. Eu não estou disposta a pagar um salário, mas se você aceitar, eu lhe dou comida, roupas e um quartinho pra você na minha casa.
Tive que pensar um pouco. Não era uma proposta ruim, mas ei... Uma pessoa desconhecida está lhe oferecendo pra pagar suas contas e te abrigar na casa dela, você vai confiar? Por que não, né? O que pode acontecer de errado? Ela não vai te sequestrar, até porque, pra quem ela iria pedir reembolso? Não é uma ideia muito inteligente sequestrar um garoto da rua.
- A senhora quer que eu more com você e seus netos e em troca eu tenho que manter a casa limpa? – perguntei pra confirmar.
- Sim, querido. Não é uma boa ideia?
- Eu... Acho que sim. – respondi meio inseguro.
- Eu vi você deitado naquele banco duro e fiquei com pena. Eu sempre trabalhei para o bem das pessoas e não gosto de ver um menino tão novo e cheio de saúde como você, dormindo na rua. Tenho certeza que minha casa é melhor do que aqui.
- Com certeza. Bem... Eu acho que aceito. – falei. Eu ainda não estava totalmente seguro da minha escolha. Mas aposto que aquela senhora não teria o dia todo pra esperar eu decidir.
- Ah, ótimo. Vai se muito bom. – ela respondeu com entusiasmo – Tenho certeza de que você vai gostar. – então ela se levantou do banco e pegou um táxi que estava parado na rotatória da praça. Obviamente fui com ela.
Dentro do carro, ela disparava a falar sobre seus netos.
- Você vai adorar os meus netos. Eles são tão lindos, tão engraçadinhos. Adoram brincar. Uma vez, quando eu... – e tagarelou. Não parou de falar até que chegássemos a sua casa.
Mas eu mal prestava atenção. O máximo que eu fazia era, balançar a cabeça como se estivesse interessado e dar uns risinhos quando ela contava coisas, sem o mínimo de humor, sobre os netos. Meus pensamentos eram sobre outras coisas. Sobre as consequências de eu estar indo morar com aquela senhora, que, por sinal, eu nem sabia o nome. Eu devo ser realmente louco. Louco ou suicida. Se por acaso, alguém do orfanato, ou da polícia descobrissem que eu estava na casa dela nós dois estávamos ferrados. Mas ela escaparia fácil simplesmente dizendo: “Encontrei esse garoto sozinho na rua.”, já eu teria que responder uma série de perguntas de “Por que você fugiu?” ou, “Por que você é um menor de idade morando sozinho na rua?” ou pior “Onde estão seus pais?” E sabe o que aconteceria no fim? Eu voltaria para aquele orfanato nojento e mal cheiroso. Então eu espero que tudo dê certo.
Pode pensar que eu sou dramático, meloso ou qualquer coisa do tipo, mas a pior de todas as consequências era que provavelmente eu nunca mais ira ver Thalia. Porque morando na rua, mesmo que ela não quisesse que eu vivesse com ela no beco, poderíamos nos cruzar acidentalmente por ai. Entretanto, enquanto eu vivesse na casa daquela senhora, isso seria praticamente impossível.
Eu realmente tinha perdido a única amiga que já tive na vida.
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