As Confábulas da Ovelha - O Conto das Duas Irmãs
1 O Conto das Duas Irmãs
Em uma noite de céu estrelado, estavam os Kindred repousando em uma clareira da floresta, próximos a uma lagoa na qual era possível observar perfeitamente o reflexo da lua na água, assim como pontinhos de luz que hora acendiam, hora apagavam. Eram as luzes dos vaga-lumes que oscilavam como pisca-piscas. Recostada sobre um tronco velho caído, a Ovelha assoprava suavemente sua flauta de Pan, da qual extraía uma doce melodia.
Enquanto isso, o Lobo dançava vorazmente ao redor de uma fogueira. Era possível ouvir o tilintar das pequenas fadas e de uma porção de pequeninas criaturas, escondidas nos meios das flores e folhas. Uma brisa refrescante de verão farfalhou por entre as árvores e tudo o que foi possível ouvir depois era o som do silêncio da floresta.
A Ovelha cerrou os olhos, ao perceber a aproximação súbita e desajeitada do amigo Lobo. Encarou-a por alguns segundos com olhos de cachorro pidão e, então, veio o pedido:
— Ovelha, conte uma história?
A Ovelha parou de tocar sua flauta por um instante. Novamente, o silêncio.
Ficaram os dois se encarando por mais algum tempo, até que a Ovelha se absteve e entoou com sua já habitual indiferença:
— Está bem – seguida de uma profunda inspiração e lépida expiração.
Colocou a mão por dentro do tronco oco e guardou a flauta. Vasculhou por mais uns segundos e pegou, por de trás do arco, um grande, grosso e velho grimório de capa dura e ornamentada, com páginas amareladas e desgastadas pelo tempo. Decorreu a mão por cima da capa, removendo o excesso de poeira e, deslizando o dedo no compêndio fechado, abriu-o em uma página aleatória. A Ovelha permanecia com sua face serena, enquanto observava o Lobo dançando de alegria. Limpou a garganta com uma pequena tosse e abriu a boca. O Lobo ficou imóvel, com a atenção voltada completamente para a amiga e, então, ela começou:
— Houve, outrora, um homem pálido com cabelos negros, que estava muito sozinho. Tudo o que exis... – A Ovelha interrompeu a narração com o semblante irritadiço e insatisfeito do Lobo.
—Você já contou essa.
— Está bem. Deixe-me recomeçar. Houve, outrora, dois espíritos-irmãos inseparáveis, que estavam sempre à procura daqueles que haviam chegado a sua hora para levá-los ao outro lado...
— Esses somos nós – reclamou o Lobo, novamente.
— Não... Não são... – rebateu a Ovelha.
— Somos sim.
— Está bem. Houve, outrora, uma criança morrendo de fome, nos braços da mãe...
— OVELHA!
— ... Está... Bem... – suspirou a Ovelha profundamente – A história que irei contar é chamada de O Conto das Duas Irmãs, e aconteceu a muito, muito tempo atrás.
"Houve, outrora, um reino localizado muito além da compreensão humana. Nesse lugar, os habitantes viviam por eternidades e possuíam belíssimas asas. Elas eram chamadas de Anjo. Viviam em uma verdadeira utopia. Ficavam acima das nuvens, com moradias feitas do mais puro e brilhante ouro. E nunca, nunca anoitecia. O dia perdurava para todo o sempre. Era como o paraíso. Todos seguiam as leis. Não havia nenhum tipo de corrupção. Nenhum tipo de maldade. Nenhum tipo de desigualdade. Nenhum tipo contradição. Nenhum tipo de contestação. Nenhum tipo de pensamento que poderia se opor ao das autoridades maiores, sob a pena de morte, ou, pior: exílio. Era como o inferno.
Nesse lugar, havia duas irmãs. Gêmeas. E inseparáveis. Seus nomes eram Kayle e Morgana. A primeira procurava sempre fazer o que achava que era o certo a se fazer e, consequentemente, acabava assumindo o papel de responsável, protetora e exemplo a ser seguido. Mas isso nunca foi um problema para a irmã, Morgana, pois sabia que a irmã a amava, acima de qualquer coisa. Era Kayle quem sempre foi sua confidente e cúmplice, fazendo as duas se safarem de todas as travessuras em que Morgana as colocava. Órfãs, tudo o que elas tinham eram uma a outra. E Morgana sabia que nada podia quebrar as correntes que as uniam. Seriam amigas. Seriam irmãs. Até a morte. E nada, e nem ninguém, jamais, poderia mudar isso.
A verdade é que, a menos que você fizesse parte da Ordem, os habitantes não tinham muitos privilégios. E a vida de órfã não era muito fácil em um lugar esculpido em ouro. Ainda mais para órfãs pobres. Mas isso não importava, pois viviam sob a eterna paz e harmonia. E nada é mais importante do que isso.
Com esse pensamento em mente, Kayle cresceu agarrada à esperança de fazer parte da Ordem para que ela e Morgana pudessem ter uma vida digna e estável. Ao contrário de Morgana, que nutriu dentro de si um sentimento de repulsa e asco da estrutura social que as desfavorecia e achava que era injusta. Não só para elas, mas para qualquer um que estivesse abaixo da Ordem. Mas parecia que ela era a única a não ter medo de possuir tais sentimentos e assumi-los. E, apesar das insistências de Kayle, Morgana dizia que nunca iria perdoá-los por isso. Mas, que no final, tudo iria ficar bem. Desde que as duas estivessem juntas, nada mais importava.
O tempo passou e o sonho de Kayle de ser uma das seletas integrantes da Ordem parecia cada vez mais próximo, enquanto Morgana vivia perambulando pelas penumbras, fazendo coisas que a irmã desconhecia.
Quando, finalmente, Kayle conseguiu entrar para a Ordem, ela foi encarregada de um importante trabalho de solucionar o caso de uma misteriosa pessoa que, furtivamente, adentrava na Biblioteca da Ordem e tinha acesso a conteúdos sigilosos, que somente as pessoas da mais alta hierarquia tinham permissão para conhecê-los.
Kayle se sentiu feliz como não se sentia há muito tempo. Finalmente ela e Morgana poderiam parar de se espreitar pelos cantos e de serem olhadas de cima. Não foi surpresa para Kayle não conseguir encontrar a irmã para dar-lhe as boas novas. As duas haviam se afastado um pouco no decorrer dos anos. Especialmente nos últimos dias. Mas ela ainda tinha a certeza de que era apenas um problema passageiro, e que logo as duas voltariam a ser tão unidas quanto eram na infância. Morgana sempre foi uma pessoa difícil de se lidar, mas com bom coração.
Como lhe havia sido ordenado, Kayle ficou responsável pela vigilância da área reservada da Biblioteca da Ordem. E mesmo não tendo conseguido fazer contato com a irmã, ela precisava cumprir com suas obrigações. As horas se passavam e a noite parecia não ter fim. E até o momento, não havia nenhum sinal de algum intruso no local. Estava tudo calmo. Até que uma silhueta surge da penumbra. Kayle, prontamente, incendeia sua lâmina, e ergue-a, pronta para atacar, até que percebe uma familiaridade no ser desconhecido.
— M-Morgana...?
— Kayle, irmã! Que surpresa vê-la aqui.
— O que você faz aqui a essa hora?
— Ora essa, eu faço a mesma pergunta.
— Eu fui encarregada de descobrir quem é que estava vasculhando livros proibidos.
— Então você conseguiu entrar para a Ordem? HÁ, HÁ, HÁ.
— Do que está rindo? Você não achou que eu conseguiria?
— É claro que achei. Eu nunca duvidei de sua capacidade, querida irmã. É só que... HÁ, HÁ, HÁ... Esses idiotas... Eles só facilitaram o meu acesso aos livros.
— Do que está falando, irmã?! Você não pode ser... Era você o tempo todo?!
— É claro que era eu. Não tem ninguém com um pingo de senso nessa corja de estúpidos alienados que seria capaz de fazer algo que colocasse em risco as suas pobres reputações. Não passam de um bando de covardes que continuam a dançar conforme mandam, como um bando de macacos imitadores em troca de migalhas.
— Morgana, por que você está fazendo isso?
— Você não entende, irmã? Não há como saber o que é certo ou errado se nos mostram apenas um lado. Precisamos ter livre-arbítrio. Está tudo errado.
— É por isso que você está tão estranha ultimamente? E vive desaparecendo? É por isso que você está lendo sobre magia negra? Olhe o que você fez com você! – exclamou Kayle, segurando a irmã pelo braço e forçando-a a ver seu reflexo em sua armadura, revelando sua pele violeta e asas negras como corvo.
— A minha aparência? Isso é um preço pequeno a se pagar pela liberdade. Eu até prefiro assim. Vermelho e dourado nunca foram as minhas cores HÁ, HÁ, HÁ.
— Como você pode continuar tão indiferente a tudo isso?
— Eu não estou indiferente, irmãzinha. Eu estou repleta de ódio. Eles fizeram isso comigo. Mas eles irão pagar por isso. E com você servindo de sentinela, eu posso concluir o meu plano mais rápido do que eu havia previsto. Você vai ver. Vamos todos saber o que é ser livre, pela primeira vez na vida.
— Eu não contaria com isso, irmã.
— O que quer dizer com isso, Kayle?
— Eu não posso permitir que você faça isso. Você não me deixa escolha... Me desculpe.
— Kayle, você vai me entregar?! A sua própria irmã?! Você não pode fazer isso comigo. Com a gente. Com todos.
— Morgana, eu não vou te entregar. Você vai.
— Você está com uma faca atravessada no crânio, por acaso? Por que eu faria uma idiotice dessas?!
— Morgana, escute! Eu tenho certeza que se você se entregar, eles podem reduzir a sua pena. Logo, você vai ficar livre. E poderemos viver como sempre quisemos!
— Eu não acredito... Eles te pegaram. A minha própria irmã...
— Morgana, me escute...
— NÃO! Você não entende?! Não existe liberdade enquanto essa ditadura permanece no poder! Você está cega, como todos eles!
— Morg...
— CALE-SE! Escute aqui, irmãzinha. Ou você está do meu lado ou está do lado deles.
— Bom, parece que não tenho outra opção, então.
— Eu sabia! Sabia que você não iria me abandonar – Morgana correu para os braços da irmã, para abraçá-la. Porém, Kayle, a empurrou para trás e levantou a sua espada, que brilhava feito ouro, para cima. E, então, soou o alarme – O QUE VOCÊ FEZ?!
— Eu fiz o que era certo.
— Você me arruinou. Arruinou a todos nós!
— Não, você se arruinou. E eu não posso permitir que faça isso com os outros.
— Eu pensei... Eu pensei que você fosse diferente dos outros. Pensei que fosse como eu... PENSEI QUE FÔSSEMOS IRMÃS!
— Se é assim que pensa, Morgana, pode se considerar... Sozinha.
No momento em que tais palavras foram proferidas, uma farpada certeira atingiu o coração de Morgana. O amor que sentia por sua irmã era a única coisa que ainda a mantia nos eixos. A Magia Negra havia consumido com quase toda a sua divindade. E, agora, não lhe restava mais nada. Ela havia se tornado um ser movido apenas por ódio, rancor e um sentimento incontrolável de punir todos pelas injustiças que cometeram com ela.
— Escreva as minhas palavras, Kayle. Você vai cair. A Ordem vai cair. Tudo o que você conhece e acha que é justo vai cair. E quando tudo não passar de ruínas e lembranças do que um dia foi algo dito como perfeito, não terá nada e nem ninguém que apare as suas quedas. E se houver mesmo alguma justiça nesse mundo, todos irão se contorcer de dor e clamar por misericórdia enquanto ardem nas chamas eternas do desespero, acorrentados em seus mais profundos medos! Todos vocês irão sentir a mesma dor que eu sinto agora. A SENTENÇA SERÁ DADA E NINGUÉM ESCAPARÁ DO JULGAMENTO!
— PARADA! – disse um dos membros da Ordem, incendiando sua lâmina e desferindo um golpe de chamas, direto em uma das asas de Morgana, que agora não tinha mais nada do esplendor que um dia já teve.
— AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHH! – berrou Morgana de dor.
— Não! Ela é minha irmã! – implorou Kayle.
— Afaste-se, Kayle! Ela vai pagar pelos seus crimes.
— Marionete insignificante! – Morgana profanou o solo da biblioteca com um gesto e o tornou completamente negro, enquanto os membros da Ordem ergueram vôo para não serem atingidas.
— Não deixem que ela escape!
— Vocês é que não vão a lugar nenhum – enquanto os outros anjos atingiam Morgana com rajadas de energia vermelha que debilitavam os movimentos de quem fosse atingido, ela encobriu-se com um escudo negro que repeliu completamente os ataques – Vocês não podem me parar. Eu irei retornar. E quando isso acontecer, vocês irão se arrepender. Mas já será tarde de mais para misericórdia – Morgana, então, acorrentou a todas, e lançou uma esfera negra de energia no teto da biblioteca, alçando vôo e desaparecendo de vista.
— Essa maldita bruxa!
— Não vamos atrás dela, senhora?
— Não. Ela não tem para onde ir senão fugir d’A Luz. Ela pertence às sombras agora. Ela não vai mais voltar.
— Ela vai voltar. E eu não posso deixar que isso aconteça.
— Kayle, do que você está falando? Você não pode segui-la. Você conhece as regras. Se abandonar o Paraíso nunca mais poderá voltar.
— Eu não tenho escolha. A minha missão aqui terminou. Eu preciso trazer minha irmã de volta à Luz.
— Kayle!
A outra irmã, abriu asas e voou, deixando a Ordem e o lugar onde havia nascido para trás.
— É, você tinha razão. O plano deu certo.
— Com essas duas fora do nosso caminho, nada mais atrapalha o equilíbrio de nosso governo. Tudo irá se restaurar na Ordem. E todos irão enxergar somente a luz. Até ficarem completamente cegos por ela.
— E se elas voltarem?
— Elas não vão voltar. Mas, se voltarem... Nós faremos a mesma coisa que fazemos com todos os problemas que interfiram no equilíbrio. Eliminando-os. De uma vez por todas.
— Certamente, senhora.
E, assim, dessa forma, começou a interminável perseguição entre O Anjo Caído e a Julgadora. Cada qual com o seu senso de justiça, e a sua visão diferente do mundo. Uma rivalidade que nasceu de um amor, e que se transformou em ódio. E que perdura até hoje".
— E fim. Lobo? Lobo??
A Ovelha percebeu então que o pobre Lobinho já estava em um sono profundo, roncando e até mesmo babando. Apagou o fogo da lareira, cobriu-o com uma manta mística e deu-lhe um beijo na testa.
— Boa noite, caro Lobo.
— Boa noite, Ovelhinha.
— Durma bem.
— Durma bem.
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