Notas iniciais
Prólogo, o primeiro capítulo sai amanhã!

Janeiro

– Simão, como é que foste capaz de fazer aquilo!? – per­guntou a minha mãe, parando bruscamente no semáforo.

Suspirei.

– Alguém tinha que colocar aquele estúpido director na li­nha. – cuspi, tentando esconder o nervosismo que sentia.

Para aqueles que estão a planear acusar o director da esco­la que frequentam, de “desigualdade entre os alunos”, um conselho: pensem bem no assunto antes de avançarem.

– Nem a Andreia fez uma cena daquelas na sua vida aca­démica! – A minha mãe não percebeu o porquê de eu ter fei­to o que fiz.

– Ei! – Andreia guinchou no banco de trás do carro – Estás a tentar dizer o quê, Anabela? Que eu fiz muitas asneiras du­rante a minha vida académica?

Andreia era a minha prima mais velha e morava, tal como eu, em Lisboa com os pais. Porém, eles estavam a maior par­te do tempo fora e ela tinha que ficar connosco. Tem 22 anos e estuda Direito, sendo, inexplicavelmente, bem-sucedi­da na vida académica. E digamos que a sua carreira enquan­to aluna teve, como acontece com todos os miúdos, os seus altos e baixos. Bateu o recorde de escolas onde andou! Varia entre as quatro escolas… e as quinze.

Senti-me quase como se estivesse preso num ecrã de televi­são, onde era o protagonista e agora chegava o clímax do episódio.

– Eu prometo que isto não vai voltar a acontecer. – afir­mei.

A minha mãe olhou-me de canto, fixando o olhar em mim, e então esperou alguns segundos…

– Ok, qual é a piada?

Suspirei.

– Prometo que isto não vai voltar a acontecer se tu me ma­triculares noutra escola.

– Eu sabia perfeitamente que havia algo por detrás dessa promessa. E a resposta a esse pedido é não. Está fora de questão.

Cruzei os braços, fazendo beicinho.

– Tudo bem. Eu falo com o pai.

– O teu pai não é para aqui chamado! Deixa-o estar lá na terrinha dele…

– Ao menos ele compreende-me!

Deu uma gargalhada aguda.

– Sim, Simão, muito… Foi por isso que nunca quis saber de ti!

Ok… aqui vamos nós…

– Tens a certeza que a história é mesmo essa? A mim não me parece. E podemos mudar de assunto? Por favor?

Três meses depois…

Abri os olhos.

Era hoje – o dia da minha mudança. Ia finalmente sair des­ta cidade que tanto odiava. Nunca tinha percebido realmente se era uma boa ideia, mas era por mim – e pela minha saúde. O meu destino era a casa do meu pai, Joshua, em São Micae­lense.

São Micaelense é uma aldeia pequena, perto de Braga. Ofi­cialmente, ela não fazia parte de nenhum concelho. Era uma freguesia com liberdade. Tal como acontece em Braga, chove regularmente, não sempre, ainda que com alguma frequên­cia. Não me importava com isso, aliás, gostava disso. O sol nem sempre era o meu melhor amigo. Apanhava escaldões estando dois minutos exposto àquilo a que todos diziam que dava cor à pele. Sim, dava-me cor – uma cor vermelha que ardia de noite e quando se tem contacto com água.

Levantei-me lentamente e olhei para todos os lados. O quarto já estava vazio – as estantes sem os livros que estive­ram ali quase treze anos, os móveis sem nada a ornamentá-los, os posters já embrulhados para irem para a reciclagem.

Restavam apenas alguns e-mails do meu pai, que tinha im­primido meses antes. “Simão,” começava um muito simples.

Simão,

Espero que esteja tudo bem. Já falta pouco para regressa­res à tua terra natal, São Micaelense! A escola aqui já reco­meçou, no entanto, com a neve que está a cair, as aulas fo­ram suspensas por mais duas semanas. É verdade, gostas de motas? É que tenho aqui umas ideias e preciso de saber isso.

Com muitas saudades (e ansiedade),

Pai

P.S.: Não digas à tua mãe que considerei São Micaelense a tua terra natal. Ela odeia isso!

Relembrar esse último e-mail enviado pelo meu pai foi es­sencial. Só de pensar que logo à noite estaria com ele… Até era um crime adorá-lo tão fortemente!

Peguei no meu LG Cookie e procurei um número muito es­pecial para mim. Era o da minha prima Andreia, que, na ver­dade, tinha 22 anos – ou seja, era mais velha do que eu cer­ca de 8 anos – no entanto parecia ter uns 10.

O telemóvel deu alguns bips e depois ouvi uma voz do ou­tro lado da linha. Era da Andreia, sem dúvida, pela maneira como ela tinha aberto a sua despedida:

– Velho, é hoje, não é? Então olha, boa sorte lá para a Norte! – Ela disse “Nórti” em vez de “Norte”. Percebi o que ela quis dizer com aquilo – estava a gozar com o sotaque dos portugueses nortenhos. Mas não tinha esse sotaque, e duvi­dava que o viria a ter.

– Sim, é hoje. Era só para dizer umas palavras antes de ir “lá para o Norte”.

– Ah óptimo. Podes começar.

– Primeiro de tudo: não vou ter sotaque do norte…

– Está claro que não. – ela respondeu rapidamente.

– E segundo: só nos vamos ver nas férias de Verão.

– Ah, ok. Sem problemas com isso. Devem existir mais Si­mãos com a tua idade aqui pela capital.

– Oh que bom! – exprimi ironia nas minhas palavras – E devem existir mais com a minha aparência e com a minha personalidade, certo Andreia?

– Ora nem mais!

Ficámos uns segundos sem nos dar uma resposta. Era um silêncio vazio, sem nenhum sentido. Não aguentava aquele mutismo e quebrei-o, com toda a minha força:

– Então, é agora.

– É agora. – e pausou, continuando de seguida – Adeus!

E desligou a chamada.

Olhei para o telemóvel. Não tinha percebido aquilo.

Onde é que tinha ficado a parte em que ela parecia ter 10 anos e não 22? Ignorei então.

Fui tomar um banho e para isso preparei uma t-shirt e umas calças de ganga escuras, pegando nos meus ténis escu­ros, para me vestir depois do banho. Dirigi-me à casa de ba­nho, que ficava mesmo ao lado do meu quarto, liguei o chu­veiro. Alguns minutos mais tarde, estava a acabar de apertar o cordão dos ténis e a entrar de volta para o quarto.

Abri a porta e fui para o corredor, percorrendo-o até che­gar à cozinha. Iluminada pelo sol, a mesa estava cheia de coisas boas – croissants, um bolo de chocolate, pães frescos, fiambre, queijo e tudo o que se pode esperar de um pequeno-almoço – daqueles das telenovelas.

– Tudo de bom para o meu menino. – disse a minha mãe, entrando para a cozinha.

O Zé entrou de seguida.

– O último pequeno-almoço aqui, em Lisboa, tinha que ser algo em grande, não achas?

Esbocei um sorriso, evitando as lágrimas.

A minha mãe tinha à volta de um metro e setenta, cabelos loiros e olhos verdes, perto do azul. Era uma mulher moder­na, que apesar dos erros que cometeu no passado, se sentia feliz – confesso que a minha presença constante na sua vida também contribuía um pouco. Contudo, eu achava que lhe fazia lembrar o meu pai, pois nós éramos muito semelhantes.

Ela não tem nada de parecido comigo, nada mesmo. Era bastante parecido com o meu pai, com os meus cabelos cas­tanhos e olhos levemente castanhos, perto do verde. O cabelo do meu pai era curto, enquanto o meu era ligeiramente gran­de.

Depois do pequeno-almoço, saímos do prédio. Olhei para a sala de estar pela última vez – pelo menos, pela última vez como um dos seus proprietários. Fechei a porta, devagar, e quando ela se fechou de vez, olhei para o chão. Desci as es­cadas do prédio, um passo de cada vez, e depois, cheguei ao primeiro andar. A porteira, uma senhora de idade, sorriu-me. Abri a porta e olhei para o céu, com a porcaria do sol a ba­ter-me nos olhos.

Nem sabia quantos graus estavam. Uns 30º, talvez. Não im­portava. Iria de viagem para um lugar que amava – São Mi­caelense.

Lembrei-me que estava vestido com a t-shirt que o meu pai me deu e que ele queria que vestisse quando fosse viver com ele e com a minha madrasta – Diana. Obrigatoriamente, le­vava também um monte de roupa comigo, por parte da mi­nha mãe, nas malas.

Estava ansioso por chegar a São Micaelense. Não queria largar a minha mãe nem o meu padrasto, o Zé, mas se qui­sesse viver sem me preocupar com o sol, iria ter que o fazer.

Quando olhei para a minha mãe, os seus olhos pareciam estar quase a chorar.

– Simão, porque é que queres ir viver para lá? – disse-me a minha mãe enquanto metia as coisas no carro de Zé.

– Mãe, estás a chorar? – perguntei-lhe. – Zé, trás uns len­ços de papel para a mãe.

A minha mãe sorriu misturada com o espanto. Chamei ao Zé tal como nunca chamei – Zé.

– Chamaste-lhe “Zé”?

– Sim, porquê? Não querias? – respondi, confuso.

– Não é isso. Soa estranho.

– Bem chamo-lhe «Pai», se isso te deixa mais alegre.

– Deixa estar.

– Tudo bem.

Sempre tinha chamado ao meu padrasto de Pai, pois para a minha mãe, ele era o único pai que eu tinha. Era também por esse mesmo motivo que o facto de ir viver com o meu pai lhe custava tanto. O meu pai.

Ela sorriu e as lágrimas caíram dos seus olhos. Seria um sacrifício para ela viver sem mim. Compreendia o seu lado – cuidou de mim durante quinze anos, e agora via-me a sair da sua vida de repente, como um cão que morre de idade, de um dia para o outro.

Ela ajudou-me a meter as coisas na mala do carro. Quando acabamos, ela olhou para mim e abraçou-me. Retribuí.

– Anabela, nós temos que ir. – disse Zé quando entrou no carro.

– Sim, vamos.

A viagem de carro até chegarmos à estação de comboios durou cerca de vinte minutos. Quando lá chegámos, tivemos que esperar algum tempo para entrar no comboio, um ritual normal em Lisboa, com tanta gente. Antes de entrar, a mi­nha mãe deu-me outro abraço e Zé despediu-se de uma for­ma igualmente cheia de ternura – um abraço.

– Sabes que quando quiseres, – sussurrou ele ao meu ouvi­do – podes vir ter connosco a Lisboa, certo?

– Vou ficar bem, não te preocupes.

Ele largou-me e depois, cheio de coragem entrei no com­boio.

Notas finais
Espero que tenham gostado!