As Cinzas Do Amanhecer

3 O Suposto Assalto e a Acusação


Notas iniciais
Espero que gostem e comentem para mais capítulos!

Mal o meu pai saiu de casa, peguei no telemóvel e liguei para Samuel.

– Estou? – respondi ao atender da chamada.

– Fala da Residência dos Moreira. – disse a voz. Não era Samuel, pois este último tinha uma voz ainda meia aguda. A voz era grossa, a de um homem.

– Com quem falo? – perguntei instintivamente.

– Manuel Moreira. Agora pergunto eu, com quem falo?

– Ahm… – engasguei-me – Um colega do Samuel.

– Está bem. Vou chamá-lo.

A voz ausentou-se por pouco tempo. Quando regressou, batia os dedos na mesa como se fosse um tambor.

– Estou Simão?

Agora pude ver que era a voz de Samuel, aguda mas já a mudar para um pouco grossa.

– Estou? – chamou ele.

– Desculpa! – exclamei – Olha, o meu pai foi a uma reu­nião da escola e deixou-me a casa de vago. Pensei que pu­déssemos jantar juntos, eu, tu e o resto do pessoal.

Comecei a roer as unhas de ansiedade. A resposta que que­ria era um enigma para mim. Quereria um sim ou um não? Que parvoíce, era um sim, contudo, os nervos não me deixa­vam pensar direito.

– Bem, vou ter de consultar o meu pai primeiro, depois a minha mãe e de seguida digo-te a resposta. Podes esperar?

Franzi o sobrolho.

– Posso, posso. – disse rapidamente.

Enquanto ele foi perguntar, fui preparando o jantar. Abri o congelador e pude ver duas pizzas. Era um jantar perfeito e toda a gente gosta. Uma era de atum e outra era de fiambre. As duas tinham um bom aspecto na embalagem. A marca era “Priori De-las Pizzas”, uma marca caseira, pois De-las era um erro grotesco em italiano.

Sabia disso porque em Lisboa estudava muitas línguas, como o Inglês e o Espanhol, mas sempre senti um fraquinho pelo Italiano. No primeiro ano, estudei Espanhol. A professo­ra era simpática e tudo, contudo não gostei. Acabei por mu­dar para Inglês. Ainda estudei três anos a língua e aprendi muitas coisas.

O professor foi despedido e veio outra professora da qual nunca soube o nome. Ela era o contraste do professor antigo; era arrogante, má, andava sempre maldisposta, odiava os alunos, batia em tudo o que odiava e simplesmente dava ne­gativa a todos os alunos, sem mais nem menos. Não sei o que é feito dela. Podia ter morrido que não me importava, com toda a certeza do mundo. Quando mudei do Inglês, fui para o Alemão. Foi a única língua no qual nunca fui grande aluno. E para falar a verdade, as aulas eram uma vadiagem autêntica, como se houvesse uma discoteca ali, dentro da sala. O professor era uma espécie de múmia, não via nenhu­ma atitude de mal comportamento e não sabia os nomes dos alunos. Eu era o Sandro – odiava esse nome, sem motivos nenhuns. Depois do Alemão, a minha mãe obrigou-me a vol­tar a estudar o Espanhol até ao fim. Correu-me bem, termi­nei-o. As aulas eram diferentes do que as primeira que tive. Eram mais interactivas, e os trabalhos eram sempre a pares ou em grupos, dando uma alegria e um espírito de convívio. A professora era ruiva e alta. Chamava-se Leonor Gómez. Era espanhola e bastante divertida. Gostava imenso dela e não havia nada como uma aula com boa dose de hu­mor. No final do espanhol, consegui entrar para o Italiano. Foi a melhor disciplina que tive em Lisboa. Foi também na aula de Italiano que conheci todos os meus melhores amigos. O professor, um luso italiano chamado Giovanni Montene­gro, era já de tenra idade, mas era um homem bondoso e fe­liz. Às vezes, quando tinha problemas, ele era o meu ombro. Adorava ouvi-lo falar porque ele tinha aquele acento italia­no, harmonioso e, em certas alturas, engraçado. Depois de me despedir dele na última aula, nunca mais o vi por Lisboa, mesmo que fosse uma grande cidade – a capital.

Lisboa era enorme, com as ruas todas perpendiculares e be­las, cheias de prédios e com um cheiro, no mínimo, tentador. Sempre adorei aquele cheiro, porém, o sol estragava tudo. Era muito frágil ao sol, facilmente apanhava um escaldão que demorava sempre dias e dias a passarem – uma doença genética, diziam os médicos. Nunca podia sair de casa sem colocar o creme protector solar e um boné que me tapasse bem a cabeça. Os meus amigos perguntavam-me como apa­nhava tão facilmente escaldões. Nem mesmo eu conseguia explicar esse facto, no mínimo, estanho. Dizia sempre “Sou sensível, só isso”. Boa desculpa.

Os meus pensamentos foram interrompidos pela atenção que tive repentinamente das pizzas. Sem mais demoras, pe­guei nelas e tirei-as da embalagem de cartão, enfiando-as no forno logo de seguida. Peguei no telemóvel, mas Samuel ain­da não tinha voltado de perguntar aos pais sobre o jantar. Não esperei muito, contudo.

– Estou? Simão? – perguntou Samuel. Regressou e parecia trazer boas novas, pelo tom de voz alegre.

– Estou a ouvir.

– Parece que temos jantar.

– Boa!

– E o que queres que leve?

Quando fui buscar as pizzas, percebi que não havia sumo no frigorífico. Desejei que não fosse incomodo trazer sumos.

– Bem, se puderes trazer sumos, agradecia.

– Sumos. – Samuel pareceu estar a escrever algo. – Certo. Mais alguma coisa?

– Para já não. Vou ligar aos outros e vemo-nos em minha casa às nove e meia da noite? Está bem para ti?

– Sim, certo. Então até logo.

– Claro, até logo.

Ele desligou a chamada de imediato.

Antes de procurar pelos números na minha lista de contac­tos no telemóvel, fui ver as pizzas. Ainda estavam a salvo.

O primeiro contacto a aparecer foi o do Carlos, o rapaz dos óculos redondos. Pressionei o botão para ligar – o verde – e esperei que ele atendesse. Só após o décimo quinto “bip” é que atendeu. Teve sorte, pois já ia desligar a chamada.

– Estou? – atendeu Carlos.

– Carlos – disse eu – é o Simão.

– Simão quem? Não conheço ninguém… Ah, pois! O novo Simão! – exclamou ele.

Aquela frase que ele proferiu fez-me sentir mal. Pareceu-me que senti borboletas no estômago.

– Esse. – disse, parecendo mais que estava a murmurar e não a telefonar a um amigo – acho que já o poderia conside­rar assim.

– Então? O que é que se passa, meu?

– Bem, estava a planear fazer um jantar de boas-vindas para mim próprio com os meus novos amigos. Alinhas?

Ele parou e começou a reflectir.

– Não sei – exprimiu – O que vai ser o jantar?

– Se não queimarem, pizzas.

Tinha algumas dúvidas relativamente ao meu grau de culi­nária. Não me considerava um “cozinheiro básico” mas sim um “cozinheiro drástico”. Da última vez que cozinhei algo, correu-me mal e incendiei uma cortina do apartamento do Zé e da minha mãe. Resultado final: o alarme de incêndio accionou, soou uma enorme barulheira e ouve pânico duran­te horas. Após isso, veio a parte pior; os vizinhos ficaram to­dos zangados e irritados comigo. Até compreendia.

Depois desse episódio, prometi a mim mesmo não voltar a cozinhar. Agora estava a desconsiderar a promessa e espera­va que pelo menos corresse bem.

– Alinho – disse Carlos.

– Óptimo!

– Então a que horas?

– Nove e meia da noite.

– Até já.

Ele desligou a chamada logo após a despedida.

O número que se seguia era o de Raquel.

O botão verde voltou a ser pressionado para mais um con­vite que tinha que fazer por necessidade. Raquel foi a mais rápida de todos a atender, tendo sido só necessário dois “bips” das chamadas.

– Estou?

Raquel não respondeu à primeira vez. Tive de repetir a per­gunta e só depois deu sinal de vida.

– Quem fala?

Ela parecia desconfiada. Talvez não estivesse habituada a fazer chamadas a estranhos. Estranhos não, pois eu conheci­a-a e ela conhecia-me a mim.

– É o Simão. – respondi.

Esperou uns segundos para continuar a falar.

– Simão? O novo Simão?

– É esse mesmo.

Raquel pareceu mais aliviada quando soube que era eu.

– Há algum problema? – perguntou, enquanto olhava para o forno.

– Não, mas queria fazer-te um convite.

– Um convite? – gaguejou.

– Sim… – bem, na realidade, é mais uma proposta.

Saiu-me mal, isto do «convite» e depois «proposta». Raquel percebeu isso depressa, mesmo antes de acabar a frase.

– Não é a mesma coisa?

– Não sei. Talvez. – Atrapalhei-me – Vamos ao que inte­ressa.

– Exactamente!

– Estou a fazer um jantar, pizzas, e convidei o pessoal para vir cá. – expliquei muito calmamente para que ela percebes­se tudo à primeira e para não ter de repetir isto, e além disso, para terminar a chamada mais rapidamente – Um tipo de jantar de boas vindas, estás a ver.

– Pizzas… Estou a fazer dieta, mas…

Pensei de imediato numa maneira de a satisfazer, sem ter que gastar muito dinheiro nem ter de sair de casa.

– Faço uma salada, não há problema.

Raquel pensou durante pouco tempo – porém parecia uma eternidade. Estava com pressa de telefonar também à Lau e à Sara Helena.

– Então, não posso recusar este pedido. – disse ela, alegre­mente – Um jantar de amigos. Soa bem.

– Não te preocupes, para ti e para a Lau faço uma saladi­nha, fresquinha, digna de uma princesa!

– Oh meu Deus! – suspirou ela – Este rapaz mal chegou à terra e já “anda nos copos”.

– Tu estás a insinuar que “ando nos copos”? – respondi, a rir, ao comentário que fez Raquel – Na bebedeira?

– Porque não? Não era a primeira vez que isso acontecia. Nem a primeira, nem a última.

Não estava minimamente interessado em ouvir a história. A pressa fez-me mudar de conversa de imediato.

– Está bem. Então vens ou não vens?

– Vou sim. A que horas é que queres que esteja em tua casa? Vai ser em tua casa, não vai?

Voltei a abanar a cabeça, dando um riso abafado.

– Vai, às nove e meia da noite.

– OK. Então não te esqueças da minha salada – da minha e da Lau, que tenho quase a certeza que ela também vai que­rer. Adeus.

Desta vez, fui eu a desligar a chamada.

Antes de voltar a fazer outro telefonema, fui ver as pizzas. Ainda não estavam prontas. Preparei a mesa, com maior dos cuidados, e depois, com muita calma, peguei outra vez no te­lemóvel e procurei outro número na lista de contactos – Lau.

– Olá! Ligou para o meu número, mas acho que não estou com capacidades para atender a sua chamada. Após o sinal, deixe a sua mensagem. Para mensagens de amor, ligue para… – bip.

Lau não atendeu a chamada. Não era grave… acho.

Pousei o telemóvel e fui buscar copos ao armário, que era o que faltava colocar em cima da mesa. Só depois voltei as minhas atenções para o telemóvel e para as “chamadas-con­vite” que iria fazer.

Mais uma vez, percorri a lista de contactos do meu telemó­vel e encontrei o número para qual iria ligar pela penúltima vez naquele dia.

Fiz novamente o ritual e, de seguida, esperei que alguém atendesse.

– Estou?

Não era a voz de Sara. Deveria ser o pai.

– Quem fala? – perguntei.

– Fala o Professor David Bacelar.

Fiquei pálido rapidamente. Pálido e corado. O meu corpo estremeceu, como se algo de estranho se estivesse a aconte­cer. Suspirei e, inexplicavelmente, senti as mãos suadas.

Ia desligar a chamada de imediato, mas não o fiz.

– Estou? Está alguém aí?

– Ah… – Parecia que tinha ficado abafado de repente. O número dos Bacelar no meu telemóvel e a voz do Doutor no meu ouvido. – Ah… Foi engano!… – Engasguei as palavras na garganta – Desculpe…

E desliguei de imediato a chamada.

Tinha ligado para o número da Sara Helena, no entanto, quem atendeu foi o Professor David Bacelar. Pousei o tele­móvel, virei-me para a frente e sorri, abafado.

O telemóvel tocou. Não me voltei para ver quem era o au­tor da chamada. Seria outra vez ele, o Professor Doutor Ba­celar?

Esperei que algo me acordasse dos sons da chamada.

O telemóvel parou de tocar. Então aí virei-me para ver quem era o autor da chamada. Não era o Professor Bacelar, era Lau.

Esperei que ele tocasse novamente, o que não aconteceu. Não tocou. Tomei a iniciativa de telefonar novamente para ela.

Ela atendeu.

– Simão?

– Sim. É o próprio. – disse, ainda com a voz do Professor Bacelar na minha mente.

O que me fez memorizar aquela voz que ouvi foi o modo como ela saiu melodiosa. Era, tal como o aspecto físico dos filhos – bela e como uma sinfonia em plena concordância.

Uau. Era tão linda a voz. Senti que nunca mais iria conse­guir esquecê-la.

– Simão?

Lau falava, mas só ouvia “Fala o Professor David Bacelar”.

– Simão! – Lau voltou a chamar.

– Sim? – Fingi estar a ouvir, porém Lau não caiu nessa e mudei de estratégia – Desculpa, desculpa… Estava a pensar… numa coisa.

– Está bem, está bem. – Percebeu que estava a usar estraté­gias para lhe esconder o meu pensamento que me parecia um fenómeno, contudo não parecia ela lá muito interessada em saber qual o pensamento e o porquê dele – Mas para que raios é que me ligaste?

– Ah! Ia-me esquecendo! – Na verdade, esqueci-me do ver­dadeiro motivo por alguns segundos, mas eles, os segundos, comparados com a voz eram milénios de vida e não segun­dos de desperdício – Hoje vou fazer um jantar de amigos e convidei toda a gente. A chamada era para te convidar.

– Está bem. Só salada, para mim e para a Raquel.

– Salada, sim.

Não ouvia nada do que ela dizia. Só aquela voz me ecoava. Só quem a ouve é que percebe. Ela era bonita pelo telefone; ao vivo seria ainda mais?

– SIMÃO! ESTÁS A OUVIR-ME!?

Aquele grito enorme fez-me ouvir um eco e a voz desapa­receu nas minhas memórias. Tentei lembrar-me da harmonio­sa e proporcionada voz, mas só ouvia o eco do gri­to.

– Ah? – perguntei, à procura de um bloco de notas para apontar o número de Sara – Desculpa.

– O que é que tens?

– Nada. Tchau.

Lembrei-me que não lhe dissera a hora e o local.

– Nove e meia em minha casa. Adeus. Minha casa.

– Estás bem? – Ela perguntou, agora com a voz de mulher preocupada. Mulher, deusa, sereia, mas nada comparado com a voz.

– Dá-me o número da Sara Helena.

Quis desligar a chamada de imediato para puder ouvir ou­tra vez a bela voz.

– Liga-lhe tu.

– Estás-te a passar!? Deves estar maluco, não?

– Desculpa, desculpa… Depois explico.

– Ena… Ele não está bem… Bebeste?

Desliguei.

O bloco de notas não foi necessário. Voltei a guardá-lo e olhei para as pizzas. Estavam quase a queimar. Por momen­tos, esqueci a voz de propósito. Abri o forno e retirei-as de imediato. Fechei a porta da fornalha para não haver aciden­tes e incómodos, e pousei as pizas na mesa, bem no centro.

Já eram quase nove e um quarto. Subi para tomar um du­che rápido. Preparei a roupa perfeita e entrei na casa do ba­nho. Mergulhei debaixo da água, e junto com a água foram todas as más recordações. A voz permaneceu lá.

Quando terminei o duche, vesti-me e voltei para a cozinha. Coloquei umas músicas a tocar, de uns CD’s que tinha trazi­do de Lisboa, e esperei um bater na porta da frente.

Nada aconteceu. Simplesmente esperei. As pizzas já esta­vam mornas. E a voz continuava lá, na minha mente.

Quando a nota que saiu do timbre do Professor David Ba­celar estava se a tornar cada vez mais nítida, o que esperava aconteceu. Alguém bateu à porta.

Eram Carlos e Samuel.

Samuel trazia o que tinha pedido, duas garrafas de Sumol de Laranja e Carlos transportava uma caixa de uma pastela­ria. Era a sobremesa. Corri a abrir a porta. Samuel e Carlos entraram rapidamente e sentaram-se na mesa.

– Só nós? – perguntou Samuel.

– Ainda bem, sobra mais para mim. – informou de imedia­to Carlos. Não conhecia aquela faceta dele – a gulosa –, mas talvez porque o acabara de conhecer naquele dia.

Carlos ia a tirar uma fatia quando lhe dei uma palmada na mão.

– Hei! Calminha, está bem? Elas vêm aí.

Ficou desiludido, contudo, numa questão de segundos fez-se luz em cima dele.

– Posso saber se vêm todas? – questionou Carlos.

– Sim, todas. – respondi.

– Todas todinhas?

Suspirei.

– Sim, Carlos. Todas todinhas. Porquê?

Samuel colocou as suas mãos no ombro de Carlos.

– É que o nosso amigo Carlos tem um fraquinho, mas pe­quenino pela Lau. – contou, com uma cara de gozo – Sabes, já a tentou conquistar… dois mil e duzentos e oitenta e três vezes?

Carlos olhou para ele. Estava zangado com o que ele disse­ra.

– Desculpa. Dois mil duzentos e oitenta e três MILHÕES de vezes. – corrigiu na brincadeira Samuel.

– Ela é que não percebe de computadores e eu é que tenho culpa? – justificou-se.

– Vá lá pessoal. Vamos mas é comer!

Comer era melhor opção naquele momento, já que Carlos se iria calar.

Quando íamos a começar, elas chegaram. As três beldades. Carlos foi abrir a porta e começou a tratar Lau como uma rainha, mas ela não gostava desse seu comportamento. Ra­quel olhou para a mesa.

– Simão, a minha salada?

Tinha-me esquecido por completo da salada.

– Ahm… – Tentei inventar uma desculpa de última hora. – Desculpa-me – não tinha ingredientes para fazê-la.

– Bem, não vai ser por um dia que a minha deusa vai en­gordar! – exclamou Carlos, pondo o seu braço atrás das cos­tas de Lau. Esta retirou-o e deu-lhe uma estalada na cara.

– Cala-te ó cabeça de ovo!

– Desculpa minha sereia!

– Cala-te! – berrou, quase que deitando a garrafa de Sumol ao chão – E não sou tua sereia, deusa, rainha ou o tanas que for!

– Ó meu amor, acalma-te… Ficas bonita enervada. – disse Carlos enquanto lhe passava a mão na cara.

– Eu sei, – gloriou-se Lau, com um sorriso de gozo na cara. Na realidade, até era bonita enervada. Os olhos verdes desta­cavam-se no vermelho, que se misturava com a sua cor co­rada, e com o timbre harmonioso que era a sua voz nervosa – nada comparada com a voz do Professor David Bacelar – e não preciso que estejas a dizer isso com tanta regularidade.

– É para reforçar a ideia.

Carlos continuava a insistir na ideia de colocar o braço por detrás das costas de Lau.

– Ai que nervos!!!

– Malta, não se chateiem em minha casa, por favor. – pedi calmamente, enquanto tirava uma fatia de pizza para o prato de Samuel.

– Pedi desculpa! – declarou Carlos, fazendo-se de vítima.

Tentou sussurrar no ouvido de Lau, contudo, ela empur­rou-o.

– NÃO FALES PARA MIM! – gritou ela.

Ia deixar cair a fatia de pizza de Raquel, se ela não tivesse a mão por baixo a auxiliar.

– Vocês têm sorte em o Simão não ter vizinhança, a sério. – afirmou Samuel – Estão a fazer uma barulheira de primeira classe!

– Ele tem razão. Vamos lá acalmar. – pediu Raquel, en­quanto dava uma trincadela na fatia de pizza dela, sem se importar com o que comia por momentos.

– Raquel!? – disse Lau, baixinho.

– Desculpa, ele tem razão.

– Concordo. – admitiu Sara, exibindo aquele tom de pele moreno.

– Sara Helena!? – exprimiu Lau, novamente num sussurro.

Raquel pousou a fatia no seu prato e levantou-se.

– E que tal animar isto? – pediu-me.

– Animar? – perguntou Carlos, levantando-se e agarrando em Lau, que lutava para ele não lhe tocar.

– Sim! – exclamou Raquel – Música!!!

Pressionei o botão “+” do volume e percebi que a música que tocava era da Lady Gaga, a Just Dance. Nós levantámo-nos e começámos a dançar todos. Carlos insistia em dançar com Lau, sempre saindo a perder.

Samuel era, sem dúvida, o melhor bailarino de todos nós. Parecia que sabia dançar aquilo desde que nasceu.

Estava a divertir-me imenso, mais do que alguma vez tinha feito em Lisboa.

A minha diversão foi interrompida por um telefonema anónimo.

Não sabia se deveria atender. A minha mãe sempre me dis­sera para nunca atender desses números; por outro lado, Zé dizia-me para atender, mas para dizer de imediato que não queria nada e desligar. Os meus colegas diziam para atender e gozar, se não conhecesse a pessoa. Eram, sem dúvida alguma, bons amigos…

Olhei para os meus novos amigos – todos divertidos a dan­çar ao som de Lady Gaga – e avancei, acabando por atender.

Senti algumas borboletas no estômago.

– Estou?

– Simão, acaba com a festa agora. – disse alguém do outro lado da linha. A voz era bela, tal como a do Professor David Bacelar.

Franzi o sobrolho, olhando para os meus amigos. Eles ain­da não tinha percebido.

– Desculpe?

– Acaba agora com a festa. – clamou a voz. Apesar de en­raivecida, era bela. Robusta para a alma.

Um estranho frio gelado atravessou-me o corpo, fazendo com que ele estremecesse mais uma vez.

– Porquê? – questionei, um pouco nervoso, apesar de estar cheio de calor de energia benéfica – Estou a incomodá-lo? Então peço desculpa. Se quiser, ponho o volume mais baixo…

– Acaba com ela! – gritou a voz.

– Quem fala? – respondi também a vozear. A do homem ou jovem era ainda mais forte do que a minha.

– Estás em perigo Simão! Acaba com a festa!

– Diga-me quem fala.

A voz era parecida com aquela que esqueci. Poderia ser qualquer um dos Bacelar. Pouco me importava. Ele dissera que estava em perigo.

Existiam duas coisas na minha vida que temia: 1) Morrer a sofrer, sem puder dizer adeus às pessoas que amo, estimo e que nunca!, jamais!, esqueceria e 2) encontrar coisas que sempre pensei que não existiam perto de mim, como jibóias, que existem só na América do Sul, ou Dragões-de-Komodo, que só existiam para os lados misteriosos da Ásia. Porém, nunca tinha enfrentado nenhuma das situações, nem perto de estar numa.

A única vez que me senti mesmo como se estivesse a en­frentar isso foi quando era pequeno, (quando digo pequeno, digo cerca de cinco anos) em Lisboa, no Jardim Zoológico. Caí dentro de uma área de tartarugas e elas vieram para o meu lado. Não me fizeram mal, como esperei. Apenas igno­raram-me. Não existia.

Tinha sentido a sensação, todavia não estive a enfrentá-la, nem lá perto. Só tinha sentido. A definição de “Sentir” no di­cionário é diferente da definição Enfrentar ou Perto.

– Acaba com ela. – voltou a gritar a voz do telemóvel – Faz isso. Tu não queres morrer ainda, pois não? Prepara-te, vou buscar-te aí a casa.

Fiquei assustado quando ele disse Morrer, dirigindo-se a mim. Tinha a certeza que era um “ele”. A voz era bastante semelhante à anterior, a da minha memória e a da chamada que foi engano para o Doutor David Bacelar.

Pensei por um pouco e desliguei a chamada. Olhei para trás e Sara estava a olhar para mim. O meu corpo voltou ao nor­mal, e o frenesim que me tinha atravessado o corpo à segun­dos atrás desapareceu.

– Pessoal, o meu pai vem a caminho. O melhor é irem em­bora porque ele não gosta de festas. – falseei. – Nem de visi­tas. – Fiz de tudo para que os assustasse.

Eles pararam.

– Assim de repente? – perguntou Carlos. – Estranho.

– Eu sei, houve qualquer coisa na reunião e acabou mais cedo.

Olharam uns para os outros.

– E ele não te disse mais nada? – questionou Lau.

– Não.

Houve um silêncio. Só a música da Lady Gaga tocava, e pa­recia já não dar nenhuma alegria ao local.

– Por favor, saiam. – pedi mais uma vez – Ele já desconfi­ou disto e…

– Espera lá; tu não disseste nada disto ao teu pai? – inda­gou Lau – Não lhe pediste autorização?

– Para a festa não, para o jantar sim.

– O melhor é irmos indo. – disse Sara.

– É melhor é. – exprimiu Samuel com uma cara de assusta­do. – Não gosto de ver o Professor Joshua zangado. Faz-me estremecer.

Torci o nariz.

– Até amanhã. – disseram em coro, enquanto se dirigiam até à cozinha para ir buscar as coisas.

– Até amanhã e… malta, desculpem, mas…

– Não faz mal. – Raquel, já corada de tanto dançar, ainda teve forças para não se sentir desiludida.

– Tudo bem. – bradaram Carlos e Samuel em coro.

– Mas posso levar mais uma fatia de pizza? – pediu Carlos.

– Leva as que tu quiseres.

Pegou numa fatia e sorriu-me

– Obrigado. Era boa.

Eles começaram a pegar nas suas coisas e a sair. Carlos ia deixar cair um pedaço de gordura na carpete da entrada, mas Lau evitou esse evento azarento, dando-lhe um empurrão na cabeça para a frente.

– Tem cuidado! Olha a carpete do Simão!

Saíram todos da minha casa. Fui ao telemóvel, e olhei duas vezes para ele, sempre esperando pelo som do receber das chamadas. A voz ecoou na minha mente novamente. Voltei a estremecer. O meu corpo parecia estar a produzir adrenali­na em quantidades muito elevadas – assim como um frio suor.

Não era a mesma voz, mas era igualmente saudável, fazia-me bem à alma na mesma – ao corpo não, pelos vistos. Eram únicas as vozes que me vinham à cabeça.

Quando olhei pela janela, estava a chover.

«Coitados», pensei. «Só espero que a chamada seja verdade». Por um lado, desejei que fosse verdade, por outro, esperava que não.

Sentei-me numa cadeira desarrumada e esperei por um si­nal. O meu corpo voltou ao normal. O que se estava a passar comigo?

Olhei pela janela e vi um carro a chegar com uma veloci­dade espantosa e incrível. Fui a correr à porta. Abri-a e Mi­guel Bacelar estava à minha frente.

– Vamos. – ordenou ele, dirigindo-se ao carro.

Fiquei a olhar para ele, espantado. O que estaria ele a tentar fazer?

– Onde? Nem te conheço de lado nenhum. – disse, recuan­do para trás.

– Passas a conhecer. Miguel Bacelar.

O meu nível de transpiração voltou a subir, como se os Ba­celar lançassem uma nuvem de algo que me fazia estremecer e suar, através da voz.

Olhei para o SUV e de novo para Miguel.

– Sim, mas…

Lançou-me um olhar furioso.

– Entra no carro. Já estamos atrasados.

Franzi o sobrolho.

– Atrasados?

Ele veio na minha direcção e agarrou-me no braço. Que coisa era aquela de ele e eu estarmos atrasados? Não estava a perceber nada do que ele dizia. Miguel Bacelar estava a olhar para mim no restaurante como se me quisesse morder e agora estava a raptar-me, ou pelo menos, quase a fazê-lo.

Dei-lhe um empurrão e ele largou-me.

Apesar da beleza – que admito ter inveja –, ele estava a ser rude comigo. Não lhe tinha feito nada, aliás, só tinha chega­do no dia anterior, e apenas o tinha visto no restaurante, na hora do almoço.

– Pára. Não vou a lado nenhum contigo. – Quase lhe bati na cara ao esticar o braço para me livrar dele. – Não te co­nheço!

– Sou de confiança, acredita.

Bela explicação, a sério. Queria sequestrar-me e ainda dizia que era de confiança.

Seria aquele telefonema verdade? Teria me avisado aquele homem sobre este rapto feito pelo Bacelar? Ele dissera-me que me iria vir buscar… Ou seria Miguel o autor da chama­da?

– Devo ter motivos para isso? – perguntei-lhe – Só me dis­seste que eras de confiança e mandaste-me entrar no carro! Por favor! – cuspi.

Ele puxou-me até ao carro e obrigou-me a entrar. A força com que ele me agarrava o braço era violenta, fora do co­mum.

Ao menos, queria ter uma explicação.

– Onde é que vamos? – questionei Miguel, observado o in­terior daquele SUV azul, que parecia mais escuro à noite.

– Para um local seguro.

Apenas foi essa a resposta dele, agora com um tom mais suave e leve… Era uma voz que me fez recordar algo – e vol­tar a vibrar.

Tinha sido ele. Foi Miguel Bacelar quem me teria telefona­do, agora com exactidão, para me colocar pronto, foi ele que me avisou de um perigo, não sei qual, mas um perigo.

Ao perto, os olhos dele eram ainda mais azul-turquesa do que ao longe. Quem me dera ter uns olhos assim.

A sua pele era pálida, muito pálida, como uma estátua que tinha perto do meu apartamento em Lisboa.

Os músculos dele sobressaíam-se na camisa azul. O seu ca­belo era castanho claro, muito claro, mais do que o meu.

Imaginei-me com aquele aspecto. As miúdas todas atrás de mim, no corredor da escola, com uns óculos escuros e elas gritavam “Simão! Quero-te!”, “Simão! És tão lindo!”, “Simão! Amo-te!” “Simão! Namora para mim” “Simão! Adoro-te!”. Mas isso era um mero pensamento. Quem me dera que isso fosse verdade…

Os gritos foram varridos da minha cabeça por um arrancar do carro.

– Qual local? – perguntei.

– Só… – ele disse, dando um sorriso abafado – um local se­guro.

Não achei piada.

– Diz-me o que é que se passa. – Ele nem olhou para mim. Continuou a conduzir o seu carro enquanto estava quase a morrer de medo dele – Miguel, por favor. Não estou a achar piada nenhuma.

– Coloca o cinto de segurança. – avisou-me.

– O quê? É só isso que me queres dizer? Coloca… Uou!

Miguel Bacelar começou a conduzir bastante depressa. Não me conseguia mexer, estava intacto. Quando olhei para o lado, as árvores pareciam ir abaixo com a velocidade. Miguel estava sem cinto de segurança. Era como se nunca tivesse existido ao lado do banco dele. Isso assustou-me – e não foi pouco. Foi o suficiente para lhe tentar chegar e o meter ao longo do seu tronco musculado. Só de pensar em tocar na­quilo, até me arrepiava. Tocar naquilo que queria ter. Quan­do lhe toquei na camisa azul, um arrepio estranho escapou das minhas mãos.

– Quem devia meter o cinto eras tu e não eu! – gritei ten­tando chegar ao local do cinto, sem sucesso.

– Não preciso. Confia em mim.

Miguel devia ser aquele tipo de rapaz que só selava pela segurança dos outros, a dele talvez pouco importasse.

– Já é a segunda vez que me obrigas a confiar em ti. – res­munguei – E ainda não me disseste nada sobre a minha fuga repentina de casa.

– Digamos que há umas pessoas que querem fazer ajustes de contas com a tua família. – explicou, entre os dentes.

– Que ajustes de contas?

– Negócios. – Miguel parou por uns segundos e olhou para mim rapidamente – Maus negócios.

– Obrigado pela informação. – agradeci contrariado – Ex­plica-te. – ordenei.

– Está bem. Negócios maus que existiram entre a minha família e a tua.

– Não entendo.

– Também não é para entenderes.

Ele estava a mentir para me meter medo.

A velocidade era sobrenatural. Miguel conduzia rápido de­mais e sem segurança nenhuma a protegê-lo. Era assustador. Parecia estar a viver um filme do Tom Cruise. Miguel era o Tom, e a mim cabia-me o papel de uma pessoa que ele tenta­va encobrir dos inimigos.

Mais uma vez, fui interrompido por algo que nunca deve­ria acontecer, não na vida real. O carro virou no cruzamento estonteamente, sem qualquer esforço de Miguel. Apesar da velocidade, o carro não capotou, como devia acontecer ver­dadeiramente.

– Como é que aprendeste a conduzir assim? – Assustado, ainda consegui tirar umas palavras da minha garganta que se tinha cedido a um nó.

– Digamos que foi com a idade.

Com a idade? Com quantos anos é que ele deveria ter co­meçado a conduzir? Dois ou três?

– Tens, quê, duzentos anos para conduzires assim?

– Quase, mas não. – respondeu Miguel, sorrindo a olhar para a frente.

– Engraçadinho.

– Não tem piada, Simão.

Miguel parecia divertido com a fuga e com o facto de me estar a meter medo.

O sorriso desapareceu rapidamente.

Quando Miguel olhou para trás, vinha outro carro atrás de nós, tão veloz como o seu carro.

– Estamos a ser perseguidos. – disse eu, feliz.

Finalmente alguém me vinha ajudar!…

– Exactamente. Prepara-te para passares para o outro car­ro.

…Ou então comprar-me para tráfico. Fiquei chocado. Esta­va a ser raptado, de certeza.

Primeiro, maus negócios entre a minha humilde família e a dele – essa parte era mentira, de certeza –, depois passarem-me para outro carro. Que vinha a seguir? Ele era da Máfia Italiana!?

– AJUDEM-ME!!! AJUDEM-ME!!! – gritei, batendo com as mãos nos vidros.

Os meus pulmões pareciam cheios de força, a minha gar­ganta ardia de tanto gritar, os meus punhos pareciam não parar de tentar salvar-me. O meu corpo estava em harmonia para me salvar – como se todos aqueles arrepios involuntári­os me tivessem mudado o corpo.

Chama-se “instinto humano” ao facto de me tentar defen­der da morte e do perigo. O meu corpo já sabia o que fazer, parecia ter treinado segundo após segundo para isto. Isso não me importava, queria era sair daqui com vida!

– Porque é que queres ajuda? – perguntou-me Miguel.

Olhei para ele. Apetecia-me matá-lo.

– Vocês… – parei todos os movimentos e pensei como é que o havia de enfrentar – querem raptar-me!

Ele riu-se.

– Disse que podias confiar em mim – como amigo, não como raptor.

Amigo? Oh por favor…

– Então porque é que me queres passar para o outro carro?

– Para tua segurança.

Suspirei.

– Agora é tudo para minha segurança. – murmurei. E reco­mecei os movimentos dos punhos – Bonito.

Ele encostou o carro velozmente e abriu o vidro, sempre em andamento. No outro carro, estava Bia Semedo, a namo­rada de Miguel.

Os seus olhos estavam azul-turquesa como os de Miguel. Nem pareciam namorados, mas sim irmãos. Ela agiu como Miguel; abriu o vidro e olhou sempre para a sua frente.

– Não tenhas medo, vou levar-te para um lugar seguro. – disse-me ela, sem olhar para mim.

O meu corpo estremeceu mais uma vez, ao ouvir a sua voz. Pensei por um bocado e olhei para Miguel. Ele fez-me um gesto encorajador e sorriu, mais uma vez.

O filme estava agora na parte emocionante – a mudança para outro carro, o do cúmplice de Tom Cruise. Por instantes, pensei que ia desmaiar.

– Está bem. – respondi a Bia, endireitando-me.

Miguel olhou para mim e com uma mão agarrou-me o tronco. Estava extremamente fria.

– Deixa aqui umas roupas por favor. – pediu ele.

Queria virar-me para ele logo após a pergunta, contudo, o meu medo apoderou-se.

– O quê?!

Ele queria que me despisse em frente a uma rapariga e na­quela chuva forte?

– Deixa aqui para iludir o inimigo.

– O inimigo?

Para que é que ele queria as minhas roupas? O inimigo não tinha faro apurado!

– Despachem-se e passa-o para aqui! – gritou Bia do outro SUV azul.

Olhei para ela. Bia tinha deixado o volante e agarrado em mim, também com a mão totalmente fria. Mas isso não me importava. Podia morrer se ela não agarra-se o volante do carro.

– Bia! – clamei.

– Não te preocupes, está tudo bem!

– Não, não está! O volante…!

Ela pareceu ficar zangada com o meu medo e decidiu pren­de-lo com uma mão e ajudar-me a passar com a outra para dentro do seu carro.

– Raios! – murmurei, quando bati com a cabeça no tejadi­lho.

Suspirei e limpei todo o suor que tinha na minha cara ao sweater.

– Estás bem? – Miguel parecia estar tão preocupado como eu – isto porque ele perguntou se estava bem.

– Ele está bem. – murmurou Bia,

Esta voltou a agarrar o volante.

­­– Vou virar para Barcelos, – gritou Miguel – tu leva-lo para a nossa casa.

– Está bem.

Miguel fechou o vidro e avançou com aquela velocidade rápida. Bia olhou para mim calma e com uma cara divertida, parecendo ter esquecido tudo. Tirou-me a camisola e fiquei em tronco nu, em frente dela.

– Isto é para os apanhados?

Ela soltou uma gargalhada e olhou para o meu tronco nu.

– Não, mas antes fosse.

Olhava para o meu corpo e ria-se para dentro, parecendo estar a divertir-se com o facto de estar seminu em frente dela.

– Que piadinha, Bianca!

– Só Bia, ok?

– Como quiseres!

Ela continuou a conduzir e virou para um caminho que era em terra batida.

O carro acelerava cada vez mais e só queria fugir e saber o que se passava.

– Explica-me o que se passa Bia!

– Nada.

– Nada… – sussurrei, extremamente irritado – Só se passa “nada”. Interessante.

– Preciso que te acalmes. – Bia parecia calma e relaxada quanto aquela fuga. – Veste a camisola que está aí atrás, a do Miguel.

OK, isto era o limite. Já tinha passado de um carro para outro, em andamento, e agora estava prestes a vestir uma camisola que nem sequer sabia se me servia.

– Desculpa? Não vou vestir rigorosamente nada!

– Vá lá!

Ela passou-me a camisola quase atirando-ma à cara. Pare­cia velha.

– Porque é que tenho de vestir isto? Diz-me porque haveria de o fazer.

– Porque não queres morrer.

Morrer era o meu medo, mas isso… pouco… importava na­quele momento. Não iria vestir aquela camisola. Era de Mi­guel Bacelar, o rapaz mais ambicionado na escola. Bastava-me ter isso como desculpa.

– Bela desculpa. – disse.

– Eu sei. Veste.

– Com uma condição.

Ela não respondeu e parecia estar a concentrar-se em algo – em mim. Após alguns segundos, ela voltou a falar.

– Não te vou contar o motivo desta fuga.

Teria ela lido a minha mente? Já era a segunda vez que me acontecia em São Micaelense, por isso, podia ser um típico poder dos micaelenses.

– Porquê? – perguntei, não querendo saber de mais nada sobre ler mentes ou algo parecido.

– Esquece.

– Nem pensar! – gritei irritado dentro do carro – Expulsei os meus amigos de casa com uma mentira, e acho que mere­cia pelo menos uma explicação!

– Ele explicou-te.

Bia parecia estar ligada a nós, eu e Miguel, quando ia no carro deste.

– O Miguel? Não me disse nada. – respondi a Bia num tom de voz fora do comum para a minha garganta. – Mas se que­res dizer um “Não sei quê de negócios de família…”, tudo bem.

Ela não respondeu e continuou a guiar o carro.

Só parou quando chegámos a uma casa moderna e bela, feita de madeira de várias cores no seu exterior selvagem.

Bia saiu do carro e foi abrir a minha porta. Saí e entrámos na casa.

A casa era totalmente moderna, com duas escadas, uma com direcção para baixo e outra para a direcção contrária.

À minha espera estava Carina Bacelar e Cláudia Bacelar, as duas sentadas na escada a conversarem.

Cláudia era linda, assim como a irmã. Tinha um cabelo com uma cor de caramelo, mas com uma tonalidade lumino­sa. Mais baixa do que eu poucos centímetros, Cláudia mos­trava um sorriso lindo e perfeito, combinado com os olhos azuis-turquesas. A minha respiração aumentou de repente. O meu corpo estava a reagir de maneira estranha.

Mal entrei lá, elas vieram para o meu lado e começaram aos saltos.

– Boa! Visitas! – disse Carina.

– Sim, óptimo! – Cláudia exclamou.

Elas amarraram em mim e levaram-me para uma cozinha também moderna, como o exterior.

– Porquê tanta coisa? – perguntei.

– És uma visita! – Cláudia disse, quase que num sussurro.

– São raras aqui. – ajudou Carina.

Elas eram as duas muito bonitas e muito parecidas. Dava mesmo para perceber que eram irmãs. Bia deu-me uma gar­rafa de água para a mão. A cor dos seus olhos era ainda mais bonita iluminada pela luz do interior. O azul-turquesa ficava resplandecente e meigo.

– Afinal o que se passou? – interroguei baixo.

Bia sentou-se na mesa e pegou numa maçã e mordeu-a, muito esfomeada. Até eu estava após aquela correria toda cheia de perigos e aventuras!

– Nada demais. Apenas te salvámos de um assaltante.

Fiquei chocado com a tranquilidade com que Bia dissera aquilo. Era muito mau ter sido salvo por pessoas que não co­nhecia. Parecia, por segundos, que não sentia as pernas. Es­tava aberto para todas as doenças me atacarem.

– A minha casa foi assaltada?

– Não, mas por pouco. – comentou Carina Bacelar, saltan­do de um lado para o outro na cozinha rapidamente, imitan­do perfeitamente Catwoman, num estilo que só em sonhos alguma vez ia ver, embora naquela noite tudo pudesse acon­tecer.

Naquela situação, só conseguia pensar no meu pai a re­gressar a casa e a ser alvejado.

Não! Tinha que voltar para casa!

– Quero voltar! – gritei com todas as minhas forças.

– Tu vais regressar mal Miguel o faça perder-se e ficar longe daqui.

Parei de respirar. Sentei-me nas escadas e esperei por algo. O meu pai estava imune a tudo; ao perigo, ao sofrimento – Pior! À morte.

– O que é que queres dizer com isso? O meu pai está bem? Está protegido? DIZ-ME!!!

Carina pareceu estar a pensar em algo.

– Está. – respondeu, por fim, lançando-me um sorriso – O perigo já passou.

Respirei fundo e acalmei-me.

– Ele era assim tão perigoso?

– Um pouco.

– O que é que queres dizer com “um pouco”?

– Quero dizer “um pouco”.

– Já percebi. Não me querem contar porque não existia nada.

Cláudia aproximou-se de mim.

– Não! Não é isso! Existia mesmo! – pronunciou ela.

O meu coração acelerou de repente. Algo de estranho se passava comigo.

– Então…? Porque não me contam?

– Não posso. – Bia queria contar-me, porém, havia algo que a impedia de o fazer. – Desculpa.

– Tudo bem. – disse, evitando uma explosão de pânico.

A porta de entrada abriu-se. Olhei para trás para contem­plar a face Miguel. Ele entrou apressadamente e levantei-me, à espera de respostas.

– Conseguiste? – perguntou-lhe Bia.

– Sim. Não voltará a ser um problema.

Miguel procurou-me e quando me encontrou, olhou para mim.

– Vamos. – ele ordenou. Desta vez, não o iria negar.

– Sim. Quero ir.

Entrei no carro e em dois minutos estava em casa – sem brincar. Ainda ninguém tinha chegado. Não havia sinais de vida lá. Vazio como o céu, que não estrelava.

– Obrigado. – agradeci a Miguel.

– Tchau. – disse, com a voz fria.

Revirei os olhos.

– Que bom humor… – disse para mim, sussurrando.

Saí do carro e bati a porta com muita violência. Miguel arrancou.

Fiquei à espera que a luz das traseiras do carro dele desa­parecesse.

Não demorou muito até que isso acontecesse. Entrei em casa e fui logo para a cama, só tive tempo de vestir o pijama e lavar os dentes.

***

Na manhã seguinte, cheguei à escola rapidamente. Não precisei de apanhar boleia do meu pai pois a scooter ligou sem problemas e sem nada que pusesse em perigo a minha viagem.

Nem acreditava no que me tinha acontecido na noite ante­rior. Não preguei olho toda a noite, sempre a pensar no facto de um ladrão entrar em minha casa e percorrê-la, comigo, com o meu pai e a Diana lá.

Antes de sair da cama, fechei os olhos e pedi para que tudo não tivesse passado de um sonho, um pesadelo.

A voz do Professor David Bacelar ecoava na minha mente, como um túmulo que ficara preso nos rastos do tempo de­baixo das areias egípcias. Inexplicavelmente, um tremor as­sombrou-me ao relembrar-me.

Quando cheguei à escola, Lau e Samuel já estavam à minha espera.

– Bom dia – disse, tentando parecer normal.

– Bom dia. – disseram os dois em coro.

Samuel olhou para a Lau, com um olhar que nunca tinha visto desde que o conhecia.

– Conto eu ou contas tu? – Samuel perguntou.

– Não sei. – retribuiu Lau. – Vamos fazer sorteio?

– Esquece, eu conto. – antepôs ele.

Olhei para eles com um olhar estranho. O que iriam eles contar-me?

– Simão, – começou Samuel, a olhar para os pés dele – o professor António desconfia de ti.

– De mim? E de quê? – perguntei de imediato.

– Ele desconfia que foste tu que estragaste aquele muro ali, o que foi grafitado. – explicou Lau ainda mais depressa do que Samuel.

Como é que é?!

– Não… Não pode!

Eles olharam para mim e depois para atrás. Lá estava o Professor António, com aquele ar de severo a fitar-me o olhar. Engoli em seco.

– Sr. Silva fiquei decepcionado. – disse ele – Nunca pensei isto de si. E eu a dizer que você era o exemplo para a turma. Vemo-nos no meu gabinete.

Não podia ser. Estava inocente! Nunca teria feito aquilo, mas o severo professor pensava que tinha sido eu. Sem de­moras, dirigi-me ao gabinete do professor António para pro­var a minha inocência.

Já tinha ouvido histórias do professor – quando culpava alguém, essa pessoa jamais conseguia provar a inocência e era castigado injustamente.

Bati à porta, com as mãos a tremer. E rapidamente me apercebi que não eram os nervos que me faziam tremer. Olhei para o lado e Miguel Bacelar estava lá.

– O que é que se passou? – perguntou-me ele.

Fiquei admirado por ele falar para mim. Pensei em não res­ponder, mas um instinto que estaria oculto em tratou de o fazer.

– O Professor pensa que grafitei a parede ali fora.

A porta abriu-se e entrei. Logo atrás de mim penetrou Mi­guel. O gabinete do Professor António era o típico de um professor severo: folhas ordenadas em cima da mesa, cheias de carimbos e escritas com “Não Satisfaz” ou “Insuficiente” – eram testes –, quadros enormes com certificados da formatu­ra dele e uma carpete no chão vermelha de pele artificial. A secretária era enorme, com o computador portátil e com li­vros enormes e velhos, alguns até tinham folhas soltas de tão velhos que eram.

– Trouxe companhia, Sr. Silva. – disse o professor com os óculos na ponta do nariz bicudo.

– Ele não está comigo. – justifiquei.

– Estou sim.

Olhei para ele.

Bonito. Agora tinha dois a quererem-me tramar. Desta não escapava. O que iria dizer o meu pai quando soubesse disto? Embora não o tivesse feito, era sempre uma maneira de ficar de castigo durante os próximos meses.

– Você foi acusado de pintar o muro lá fora. Confirma as acusações? – questionou o professor António. – Não espera­va estas atitudes da sua parte.

– Estou inocente! – exclamei.

Parecia um tribunal. Para minha infelicidade, era o argui­do.

– Professor, – interrompeu Miguel Bacelar, que pareceu ter sumido dali por uns segundos – ele diz a verdade.

O professor olhou para ele, sempre com aquele olhar severo que assustava qualquer um.

Cheguei há um dia, e já estava a ser acusado de uma coisa que não fizera. Era de loucos.

Na noite anterior, uma aventura. Naquele momento, uma acusação.

– Tem provas, Sr. Bacelar?

– Tenho sim.

Olhei para ele. Ele tinha uns olhos azul-turquesa belos, um cabelo castanho curto e despenteado e uma pele pálida. Era alto, mais do que eu, e uns músculo que faziam raparigas cair aos pés dele. Que inveja…

Resumindo, era o tipo de homem que todas as mulheres querem como namorado ou marido. Porém, ele não era mui­to sociável, pouco falava e estava sempre com os irmãos.

– Pode falar, Sr. Bacelar.

Miguel olhou para mim e piscou-me o olho direito para que o professor António não visse o movimento. Estava a agir como se nada fosse, como se nada se tivesse acontecido na noite anterior.

– Ele esteve comigo toda a tarde no dia em que a parede foi pintada, a tirar dúvidas sobre a sua matéria, professor. Depois, jantou connosco e teve toda a noite em nossa casa. Dormiu lá, ao meu lado.

Ele estava ali para me proteger, e não para me enterrar até à cabeça. Estava ali para me salvar daquela situação, mais uma vez. Apesar de me estar a proteger, não gostei da ma­neira que ele o fez – Dormi ao lado dele? Ena, parecia mais uma rapariga perdida de amores por Miguel (só mais uma) e não um rapaz que estava prestes a levar uma punição. Podia dizer simplesmente a verdade, sem lhe contar a parte da fuga, claro.

– Não me admira que tenha tirado a melhor nota da turma, Sr. Silva.

Esbocei um sorriso feliz falso pois não tinha a mínima ideia de como é que isso era possível, pois não tinha feito nenhum teste nem nada que merecesse uma nota.

– Então, ele está livre, professor António? – perguntou Miguel, dando um leve sorriso.

O professor colocou os óculos bem colocados e depois fa­lou, num tom ainda mais severo do que estava.

– Por enquanto está. – Depois dirigiu-se a mim – E espero nunca mais ter nenhuma acusação sua a respeito de mais nada. Foi o meu primeiro aluno a livrar-se de uma punição dura.

Tinham acontecido dois milagres: para começar, fui o pri­meiro aluno em vinte e seis anos de aulas do professor Antó­nio a livrar-me de uma punição das duras, e segundo, Mi­guel Bacelar, o não sociável, salvou-me e protegeu-me da punição, tal como fizera pela segunda vez.

– Podem sair. – pediu o professor António educadamente, agora sem o tom de voz severo que assombrava os alunos de São Micaelense – e às vezes pais também – por noites e dias consecutivos.

Miguel Bacelar e eu saímos do gabinete. Mal saímos do ga­binete, ele virou para a direita, começando a caminhar com um ar esperançado, como os cowboys.

– Até logo. – disse-me ele.

Olhei para ele com muita atenção. Nem tive tempo de lhe agradecer. Corri atrás dele.

– Miguel! – chamei.

Ele parou e olhou para mim.

– Sim?

– Obrigado. – disse eu – Foste um… herói. – Ugh… que vó­mito. Como fora capaz de dizer isto? – Ontem e hoje.

Miguel olhou para mim com um olhar e um sorriso não forçado e alegre.

– Pareces uma rapariga a falar.

Um acesso de fúria vinha a caminho, contudo, consegui acalmar-me antes que ele explodisse.

– Isso parecias tu a falar de mim no gabinete do professor!

Ele sorriu ainda mais e continuou a andar.

– Miguel podes esperar? – perguntei. – Não te consegui agradecer de ontem me…

Ele não me ouviu. Continuou a andar sempre em frente, ignorando-me por completo, como se nada tivesse aconteci­do.

– Obrigado mais uma vez, acho. – murmurei entre dentes.

Notas finais
Gostaram? Por favor comentem!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.