As Cinzas Do Amanhecer

2 As Primeiras Reações


Actualidade


“Que treta de mota!”, pensei enquanto a tentava ligar e ao mesmo tempo, tentava esquecer o facto de que iria ter que enfrentar algumas centenas de olhares indiscretos no meu primeiro dia de aulas na escola de Micaelense, na terra do meu “recém conhecido” pai, Joshua.

Eu sou o Simão Silva, tenho 15 anos e vivo na pequena freguesia de São Micaelense, que fica perto de Braga. Vocês sabiam que Braga é a cidade em que existe maior pluviosi­dade no país? Daí a ser conhecida como o “Penico de Portu­gal” ou o “Penico do Céu”.

Durante treze anos da minha vida, vivi em Lisboa, a capital portuguesa, com a minha mãe e o meu pai – na verdade, era padrasto, mas sempre preferi tratá-lo como pai, pois o facto de não ter nenhum pai perto de mim podia ser alvo de curio­sidade na escola em que estudei na capital.

A história dos meus pais é ridícula e existe uma palavra que a define: traição. É verdade… os meus pais traíram-se mutuamente. O meu pai traiu a minha mãe com a Diana, a minha madrasta, e a minha mãe traiu o meu pai com o meu padrasto, o Zé. Ridículo? Em parte. Divertido? Oh sim.

O meu pai é professor de Ciências na escola de Micaelense, e aos fins-de-semana, trabalha na PJ, como analista forense. Já a minha mãe decidiu seguir a carreira de escritora, parti­cipando activamente num jornal regional com as suas crónicas pouco interessantes (A quem é que interessa saber se a Michelle Obama faz flexões com a Ellen? Sinceramente! Poupem-me!).

Respirei fundo. Não deve ser assim tão complicado ser ob­servado por uma dezena de alunos… ou centenas… ou mi­lhares… ou centenas de milhares… ou milhões… ou… O que é que vem a seguir dos milhões?

Assim que consegui ligar a porcaria da mota, que parecia ter sido resgatada da sucata, montei-a e segui caminho até à Escola Básica dos 2os, 3os ciclos e Secundária de Micaelense, que se localizava no meio de uma clareira gigante.

Com os pavilhões pintados de amarelo, a escola tinha mais de cem anos e não me lembro de qualquer reparação ou qualquer coisa do género feita nesses mesmos pavilhões, que apesar de graciosos e clássicos, estavam a cair de podre. As árvores tapavam a entrada, deixando apenas à vista o par­que de estacionamento, construído dois anos antes, com a ajuda dos alunos, que angariaram dinheiro com as festas que deram (Festas? Aquilo eram mais os “clubes das bebedeiras”, mas enfim…)

O carro do meu pai, que carinhosamente apelidei de “Cai­xote”, era um Volkswagen Golf azul-claro de três portas, co­nhecido por já ser antigo. Uma coisa engraçada nesse carro era que em comparação à garagem da minha casa, esta pare­cia um castelo – sim, era um carro muito pequeno. Para o uso que tinha chegava muito bem (o meu pai apenas o con­duzia para ir para a escola ou para a PJ de Braga). Esse mes­mo carro estava, naquele momento, estacionado no parque de estacionamento escolar.

A minha madrasta, a Diana, estava a falar com uns alunos, quase que a resmungar com eles em tom de brincadeira. Pro­vavelmente da sua direcção de turma. É verdade… o meu pai traiu a minha mãe no seu local de trabalho. Giro? Não, um tédio autêntico.

Peguei na minha mochila e entrei na escola, mostrando o meu novo cartão de estudante ao porteiro, o Senhor Valério.

– Olá! És o Simão, não és? O filho do professor Joshua? – perguntou ele, como se eu fosse um animal novo no jardim zoológico.

Acenei com a cabeça, exibindo o meu sorriso encantador.

– Sim. E você é o Senhor Valério, certo?

– Certíssimo!

Guardei o meu cartão na carteira, que enfiei na mochila, e fui até à secretaria, onde queria ter acesso ao meu novo ho­rário escolar.

Assim que entrei no Bloco A, que ficava na zona mais abaixo da enorme clareira, abri a porta da secretaria, onde encontrei a Dona Dulce, a funcionária responsável pelos as­suntos que me interessavam naquele momento.

Respirei fundo, e fui ter com ela, envergonhado com todos os olhares que me estavam a cair em cima – esse foi um dos motivos que me levou a ir à secretaria, pois sabia que nin­guém do exterior me poderia ver.

– Bom dia – disse, com a voz trémula, ainda conseguindo acrescentar um tom mais profissional – Gostaria de ter aces­so aos horários da turma B do nono ano. Seria possível?

A rabugenta Dona Dulce resmungou qualquer coisa e le­vantou-se, dirigindo-se a um escritório que ficava mesmo ao seu lado. Após alguns segundos, regressou ao seu posto – resmungando, está claro – e deu-me um papel feito a computador com o meu horário.

Sabia que, precisamente às 8:25 iria ter Físico-química. Quando abri a porta, bati contra alguém.

– Desculpa! – dissemos os dois em coro.

O rapaz, moreno e com os olhos esbugalhados, ficou a olhar para mim durante alguns segundos.

– Olha lá, tu não és o Simão? Do 9ºB?

Aqui vamos nós…

– Sou – Senti a minha pele a ficar corada.

– Ah! Então olá, colega de turma!

Fiquei confuso, franzindo as minhas sobrancelhas.

– Colega… de turma?

– Hello!? Sou da tua turma!?

– Ah… Claro! – Como é que não associei? Ah pois, por causa dos nervos!

– Sou o Samuel – Estendeu-me a sua mão. Cumprimentei-o – Vais ver que vais gostar da escola e da turma. – Sim, espe­ro que sim!

Samuel levou-me até à cantina escolar, que ficava na zona superior da escola. A cantina ficava ao pé do Bar, sendo ape­nas separados por um corredor que levava às casas de banho e à papelaria. Apresentou-me aos meus outros novos cole­gas, todos simpáticos e amigáveis: Lau, Sara Helena, Raquel e Carlos.

Lau era uma rapariga com cabelos oleosos mas belos e cas­tanhos bastante escuros, baixa e uns olhos verdes lindos como cristais. Raquel era a mais baixa de todos, loira, com uns olhos meios esverdeados mas bonitos como tudo e páli­da. Carlos era alto, magro, cabelo curto preto e com uns ócu­los redondos. Sara Helena era um pouco mais baixa do que Carlos, mas não da minha altura, era morena, tal como Samuel, e tinha olhos e cabelos castanhos, com uma madeixa loira.

– Vocês sabem a maior? A Bacelar Júnior veio parar à nossa turma. – comentou Lau, toda animada – Só espero que ela não se venha “armar” em rica, modelo e irmã do bomba da escola!

Coloquei-me atento à conversa, principalmente porque Lau disse aquilo numa maneira engraçada.

– A Cláudia? A sério? – Carlos disse, surpreso.

– Sim, essa mesma. – Samuel confirmou – Será que ela irá olhar para mim? Espero que sim.

– Oh, sim, tenho toda a certeza do mundo! – Sara Helena riu-se. – Samuel, nem a rapariga mais feia da escola olha para ti, quanto mais a mais bonita… – Lau limpou a garganta – a seguir a ti, Lau, está claro!

A conversa continuou, com eles a fazerem-me perguntas sobre a minha vida pessoal e sobre Lisboa. Era uma novidade para eles. O que era estranho no meu ponto de vista. O que é que interessava saber se tinha namorada ou não? Pff… Rídi­culo!

Faltavam perto de dois minutos quando Sara Helena rece­beu uma mensagem.

– É da Marta. – informou ela.

– Marta? Que Marta? – perguntou Carlos.

– A do 12º ano. Parece que o professor Pires faltou e pediu que fôssemos trabalhar para o Clube de Química.

Pegámos nas nossas coisas e fomos ao Bloco B. Entrámos na sala do Clube, que estava cheia de gente “grande”, desde alunos do 10º ano até aos do 12º. Grande parte da minha nova turma já lá se encontrava.

Um grupo de cinco raparigas veio ter comigo. Pareciam es­tar interessadas em saber quem eu era.

Eram todas distintas, desde uma alta até a uma mais baixi­nha. A mais baixa tinha óculos quadrados azuis que exibi­am, por detrás das lentes, um olhar de chocolate, e um cabe­lo castanho liso comprido, preso num rabo-de-cavalo. Outra tinha cabelos negros como o céu à noite, ondulados, com o olhar preto que exibia… perigo… Depois havia uma com o olhar azul ou verde, não conseguia distinguir, os cabelos castanhos que cobriam o pescoço chamavam a atenção. A morena, que estava no meio, tinha uns olhos meigos, com uma tonalidade cor de café, e era extremamente parecida com a jovem que se encontrava ao seu lado.

– Hum… Gatos na turma… Rrraaaauu! – A rapariga do olhar negro disse.

Franzi as sobrancelhas.

– Oi gato. – Desta vez foi a que tinha olhos azuis que falou – Chama-me Sá. Sara… Sá.

– Eu sou a Manuela. – A jovem de óculos disse – Mas para ti é, única e exclusivamente, Nelinha. Já agora, acho-te um garanhão… dás-me o teu número?

– Não me parece. – respondi-lhe, com algumas dúvidas quanto à sua sanidade mental.

A morena aproximou-se:

– Já ouviste aquela música? “Ai se eu te pego…”? Sou a Andreia, mas podes chamar-me “Gatinha”. Arrepias-me quando dizes isso…

Esta Andreia não tinha nada a ver com a minha prima. Quem eram este gang feminino puro?

– Sou a Ana Cristina da Silva Araújo. Mas tudo se resume a duas palavras: Sexy Bomb.

– Somos a J.A.M.A.S.: Joana, Ana, Manuela, Andreia e Sara Sá.

– Muito prazer. – foi a única coisa que consegui dizer. – Desculpem, mas tenho que ir.

Ana aproximou-se de mim.

– Já sabes que podes contar com nós…

– Connosco, oh labrega! – Andreia corrigiu-a.

– Isso! Para o que quiseres…

Fui ter com Samuel e os outros novamente. Lau estava chocada.

– Ok, não é por nada, mas será que os Bacelar me andam a perseguir? – resmungou, quando avistou uma pessoa que não estava no meu ângulo de visão.

Olhei para o meu lado, onde vi um jovem pouco mais alto do que eu, com um cabelo desalinhado castanho claro e com um sorriso que me deixava com inveja. Tinha um corpo ma­gro, com os músculos pouco salientes e quase podia passar por um jovem da minha idade. A sua pele assemelhava-se a chocolate branco. Nas suas mãos, era notável uma aliança de… espera, aquilo era uma aliança de casado?

Mas então apareceram-me duas raparigas à frente: uma com olhos verdes que combinava perfeitamente com o tom loiro do seu cabelo de cetim, e a outra com os olhos também verdes, mas que se assemelhavam a dois cristais, o cabelo num tom castanho.

– Olha, és o Simão? – a loira disse. – És o filho do stôr Joshua? – Acenei com a cabeça, e preparei-me mentalmente para o questionário que se iria seguir. No entanto, a rapariga virou-se para a sua comparsa – Oh Cátia! Ele ‘tá aqui!

A outra rapariga virou-se para mim.

– Fogo! És mesmo a cara chapada do teu pai!!! – exclamou Cátia – Se precisares de ajuda, podes contar comigo e com a minha prima, a Rita.

– Obrigado. – agradeci rapidamente. Porém, não tinha bem a certeza se iria querer a ajuda delas.

– Já agora, dás-me o teu número?

– Ouh! Este aqui é meu! – Rita resmungou.

Pensei por um pouco e reflecti nas palavras de Rita. Perce­bi de imediato que estas duas eram tal como as J.A.M.A.S..

– Meninas, eu tenho que ir para a aula…

– Queres que te ajude a encontrar a sala? – ofereceu-se Cá­tia.

– A sala é mesmo aqui.

– Ai, oh João Pedro! – Rita vociferou quando um rapaz a empurrou e depois se desatou a rir – Levas-me um murro nesses dentes que até andas de lado!

– Ooohhh… coitada!

– Coitada, o tanás!

– Vê lá se deixas a minha prima em paz! Não me queiras ver enervada! – Cátia defendeu-a.

A manhã correu bem, terminando com a aula de Visual, com o professor Lourenço.

Após Visual, Samuel pediu-me para irmos almoçar a um restaurante ali perto.

Sara, Raquel, Carlos e Lau também foram. Fomos a pé, era perto e já não chovia.

Quando chegámos ao restaurante, Samuel avisou que a co­mida era boa demais e que depois não íamos conseguir parar de comer.

Entrámos e sentámo-nos na mesa do meio. O empregado veio na nossa direcção. Ele tinha um chapéu verde com o nome do restaurante – pelos vistos “Decadência Quente” (mas que nome, pelo menos, estranho) – e um avental verde. O bloco de notas era totalmente branco e a caneta era tam­bém do restaurante.

– O que vai ser? – perguntou ele.

Vi a ementa e pedi um hambúrguer de frango com ketchup e mostarda, com queijo e alface e uma Cola para beber. Sara pediu o mesmo, mas Ice Tea em vez de Cola. Já Carlos pediu um cachorro quente com tudo incluído e uma Seven Up. Ra­quel e Lau pediram uma salada de atum e uma água. “Para manter a linha”, justificaram ambas.

Os pedidos vieram rapidamente. Realmente o que Samuel tinha dito relativamente era verdade, a comida era boa, mui­to boa.

Pedimos todos um gelado dos grandes para sobremesa. Quando eles vieram, entraram cinco jovens que conhecia de algum lado.

– Olha, chegaram os Bacelar. – Samuel disse aquilo num tom melancólico.

Tinha os visto de manhã na cantina a tomar o pequeno-al­moço. No total, eles eram cinco, todos diferentes. A jovem que entrou em primeiro lugar, alta e com um tom de pele marmóreo (mas ao mesmo tempo moreno), sentou-se na mesa à minha frente. O seu cabelo, comprido porém preso num rabo-de-cavalo, balançava à medida que ela dava pas­sos graciosos, parecendo a Halle Berry no filme Catwoman. O segundo, que agarrou na mão desta última, era um ruivo ar­dente, com um corpo longo e magro, parecendo ter algumas sardas no meio do seu tom de pele ténue. Os dois jovens que se seguiram, sentaram-se ao lado dos outros dois. O rapaz era moreno e débil, com músculos longos e magros, ombros largos (apesar de relaxados), combinava perfeitamente com a rapariga que o acompanhava, que era uma versão feminina do rapaz que seguiu a Catwoman: ruiva, com leves sardas espalhadas na cara pálida perfeita, tinha um corpo magro e esguio cuidado.

O último dos cinco era o mesmo rapaz que estava no Clube de Química, o dos olhos azuis-turquesas.

– Os Bacelar? – perguntei.

– Sim. Eles são os irmãos do Prof. Bacelar, David Bacelar – ele é professor numa escola secundária bracarense qualquer, mas acho que já trabalhou no Hospital Garcia Horta, – Sara torceu o nariz – e o David é casado com a Vera Luz Bacelar – ela é dona de casa, se não me engano. São três irmãos mais velhos, Miguel, Carina e Paulo Bacelar. Depois têm uma irmã mais nova, a Cláudia.

– E quem são os outros dois? – perguntei novamente, apontando superficialmente para os ruivos.

– A Electra, que é namorada do Paulo, é irmã do Dário, o que está ao lado da Carina… São primos afastados da Vera Luz.

Lau olhou para eles. Depois, gargalhou abafadamente.

– Olha, olha! – disse ela, baixinho – O Miguel está a olhar para ti Simão!

– O quê?

Olhei disfarçadamente. Era verdade. Miguel Bacelar olhava para mim. Os olhos dele eram estranhos, no mínimo. Eram um azul-turquesa. Não me admirava nada que não tivesse nenhuma namorada – ele era… bonito demais para elas. Aquele olhar de predador estava, numa maneira muito estra­nha, a deixar-me calmo. Tão calmo que só conseguia imagi­nar momentos com ele, como a estudarmos juntos ou a jo­garmos consola. A sensação tranquilizante deixou-me dis­tante da mesa onde estavam os meus amigos.

Só voltei à vida real quando o copo de Sara caiu ao chão, produzindo um eco irritante na minha mente longínqua.

– Oh! Fónix! – Sara usou a típica expressão de Braga, que só os jovens conseguiam entender como um substituto de “Fogo” ou um outro palavrão.

O tom de pele deles assemelhava-se a neve; era uma cor pálida, branca como mármore, o que lhes dava um ar ainda mais misterioso.

– Ele não tem namorada, pois não? – perguntei.

– Tem, Bianca Semedo. Ou melhor, Bia.

Imaginei como deveria ser Bia. Talvez fosse tão bela como ele, ou ainda mais. Era a família perfeita, sem dúvida.

Assim que a porta se abriu, senti a minha boca a abrir-se e o queixo a cair-me. A jovem alta e com um corpo de modelo profissional estava a caminhar tão graciosamente que quase que caí para o lado. Os estranhos olhos azuis num tom que parecia um violeta muito claro davam uma combinação fatal com o seu tom de pele pálido, com um tom rosado nas bo­chechas.

– Olha, é ela. – sussurrou Carlos.

– Ela? – gaguejei, assim que ela caminhou felinamente até ao lado dos outros Bacelar – Quem?

– A bonitona da Bia Semedo!

Tinha que ser ela a namorada de Miguel, sem dúvida. Bela e com uma estrutura corporal perfeita. Simplesmente, com­pleta.

Bia deu um leve beijo a Miguel. Sentou-se ao lado dele. Ele continuava a fixar-me o olhar. Disfarçava para que ele não reparasse que o olhava. Depois disso, Bia sussurrou-lhe ao ouvido e os dois olharam para mim. Eles falavam de mim. Pelo menos, parecia.

O empregado foi à mesa dos irmãos Bacelar e depois veio à nossa mesa receber o pagamento dos pedidos.

– São treze euros ao total.

Dividimos o pagamento entre nós e depois saímos.

Lembrei-me quando ia a meio do caminho de volta para a escola que tinha deixado a mochila no restaurante. Voltei para trás e entrei. Eles já não estavam lá.

Os Bacelar tinham saído do restaurante. Peguei na minha mochila e saí do restaurante.

Apressei o passo para apanhar Samuel e os outros. Não tar­dei muito a apanhá-los.

Pouco tempo depois, cerca de vinte minutos, estávamos na escola. Quando entrámos pelo portão, um homem com uns óculos bem redondos, longe de serem iguais aos do Carlos, de estrutura média e cabelos brancos estava lá.

– Então a comida do refeitório não é suficiente boa para os meninos? – perguntou o homem, num tom severo, bastante severo. – Espero não vos voltar a ver fora da escola na hora do almoço, faço-me entender?

Todos nós acenámos com a cabeça. Ele foi embora, sem mais nenhuma palavra.

– Este professor António é mesmo… cruel! – resmungou Lau – Podia ser despedido que não me importava.

– Já vi que é mesmo cruel. – disse.

– E ainda não viste tudo! Nunca ninguém conseguiu esca­par daquelas punições das duras. Ninguém! – Samuel parecia assustado com a visita inesperada do professor António.

– Foi uma sorte não termos sido castigados. E ainda por cima com este problema dos grafites. – disse Carlos, que também parecia chocado com a visita do professor.

– Qual problema? – perguntei.

– Uma longa, longa, longa história!

– Conta! – pedi. – Anda lá!

– Então é assim… – Carlos foi interrompido pelo soar da campainha. – Conto-te na aula.

Fomos para o pavilhão e sentámo-nos distantes uns dos outros. O professor era o professor Lourenço. Era um homem de reverência, alto, pacato, cabelo branco, uma camisa bran­ca com uma calça de seda belas e caras, pelos vistos.

A minha atenção foi interrompida pela Joana, que estavam à minha frente. Era alta, com um corpo muito belo e uns olhos pretos – ou castanhos, não conseguia distinguir – a condizer com o cabelo ondulado lindo.

Carlos tinha-me mandado um papel. Abri cuidadosamente e li o que estava escrito.


“Parece que andam a grafitar as paredes da escola. O pro­fessor odeia isso, mas não sabe quem terá sido. Já existem boatos de que ele apanhou um suspeito, mas era mentira. Só espero que apanhe depressa o autor, ou autora, desta estupi­dez e se acalme até ao fim do ano!”-


Explicava no papel tudo o que queria saber. Guardei o pa­pel no meu bolso para não me esquecer de o ler com mais atenção em casa.

A aula acabou e fui esperar pelo meu pai para lhe pergun­tar pelo Jonas – o meu melhor amigo de infância.

Durante o dia todo, não o tinha visto. Esqueci-me comple­tamente dele. Se calhar estraguei a minha amizade com ele. Esperava bem que não.

Era daqueles que qualquer coisa podia dar num final infe­liz. Não me admirava que pensasse que a minha amizade com Jonas tivesse acabado.

Fui à sala dos professores e avisaram-me que o meu pai ti­nha ido para casa.

Peguei no meu telemóvel e procurei pelo número do Jonas. Fiquei algum tempo no número, e dizia, andando para trás e para a frente «Ligo, não ligo, ligo, não ligo».

Após uma infinidade de vezes a repetir as mesmas pala­vras, decidi ligar-lhe. Esperei que ele atendesse. Foi então que a voz dele soou no meu ouvido.

– Olá Jonas.

– Olá. O que é que se passa?

– Isso pergunto eu! Não te vi nem um segundo na escola!

Ele parou para pensar, só ouvia uns “Ah…” longos.

– É que o meu irmão está pior ainda, mas não é grave.

– O que é que ele tem? – perguntei. – É sério?

– É gripe. Não te preocupes, está tudo controlado. O médi­co já veio aqui e disse que amanhã posso ir à escola outra vez.

– És tu ou é ele que está doente?

Mesmo que o irmão dele estivesse doente, não era desculpa para não vir à escola.

– É o meu irmão. É que… ele adora-me e quis que ficasse. Percebes?

Pensei por um pouco para poder responder à pergunta dele.

– Percebo. Então até amanhã.

– Sim, até amanhã.

Desliguei e guardei o telemóvel no meu bolso. Dirigi-me à scooter que permanecia no mesmo local.

Liguei-a e fui sempre em frente até chegar a casa. Entrei e o meu pai apareceu de imediato.

– Então o primeiro dia de aulas? – perguntou-me ele, pare­cendo pronto para sair de casa.

– Foi bom.

– Óptimo. – Notei que ele estava a tentar meter conversa – E arranjaste novos amigos? Acho que te vi com o grupo do Samuel.

– É verdade. Eles são porreiros.

– Sim, são. Nunca vi rapaziada como aquela. É raro haver rapazes que se misturem com raparigas durante a adolescên­cia.

– Em Lisboa não.

Assim que ia a recomeçar a conversa, com uma interlocu­ção da minha parte, reparei num pormenor que me fez parar. A sua expressão. Triste. Magoado. Deprimido. Uma fusão de emoções melancólicas.

– Desculpa – pedi.

Senti-me mal por isto. Sabia que lhe custava tocar no as­sunto. Era algo muito doloroso. Afinal de contas, o seu único filho tinha vivido durante treze anos longe dele. Iria reagir da mesma maneira se estivesse na sua pele.

– Não faz mal. Devia ter planeado que irias falar em Lis­boa.

– Vou tentar não falar no meu passado.

– Como quiseres.

Peguei num copo e enchi-o com água, e peguei num pão que estava numa saca e enfiei dentro uma fatia de fiambre e outra de queijo com óptimo aspecto.

– Vais sair de casa? – perguntei.

– Vou. – Mostrou-me uns papéis que metia dentro da pasta dele – Reuniões. Não contes comigo nem com a Diana para jantar.

– Está bem. Posso convidar os meus amigos para vir cá a casa jantar? Sabes, para não jantar sozinho.

O meu pai pensou um pouco e acabou por aceitar.

– Com uma condição – disse calmamente, enquanto trinca­va um pouco do meu pão com queijo e fiambre. – Nada de ir para o meu escritório.

– Condição aceite.

Ele saiu de casa. Iria ter toda a noite para me divertir com os meus novos colegas e esquecer Lisboa, aproveitar a chuva e distrair-me. Nada podia correr mal agora.