As Cinco Essências
2 Visitando Gondur
Notas iniciais

“Os homens tentam imitar as feras, mas elas não são levadas a imita-los. Sabem o quão imperfeitos nós somos.”
O início da minha história propriamente dita pouco importa. Quando nasci, meus pais me chamaram de Tomas, não que eu me lembre desse acontecimento, apesar de estar presente nele. São poucas as minhas recordações com eles. Lá pelos cinco anos de idade, fui deixado com a minha tia para ser criado. Ransa era o nome dela, tinha um rosto afável e mãos calejadas, comum de quem trabalhava nos arados da fazenda. Adorava mexer nos seus cabelos loiros, e quando eu puxava muito forte, recebia um cascudo de leve na cabeça. Cuidava sozinha da fazenda, pois meu tio já havia falecido anos antes, por um touro que lhe perfurou o pulmão. Ela tinha um filho quase da mesma idade que eu, alguns anos mais velho, Patrick, que se achava no direito de me atormentar, simplesmente por estar com vontade. Mas nunca o fazia perto da tia, pois sabia que receberia um cascudo.
Entretanto, não tenho nenhuma lembrança ruim desta época. Nós vivíamos em uma vila pequena chamada Gundnar, ao sul da grande cidade de Gondur. Durante o dia, Ransa cuidava da fazenda, arava a terra, cuidava das ovelhas, galinhas e do gado, plantava e colhia. A tarde, ia para a cidade vender e comprar mercadorias. A nós, eu e Patrick, restava cuidar do que fosse possível. Ao nos tornarmos mais velhos, coube-nos fazer tarefas mais difíceis. Passava grande parte do dia observando o modo em que minha tia fazia as coisas, e tentava ajuda-la quando possível. Buscava água, corria atrás do gado, tirava leite da vaca. Entretanto, meu primo sonhava ingressar no exército de Gondur, para depois se tornar um Manto Azul. Então, desperdiçava seu dia batendo com uma espada de madeira em tudo que surgisse à sua frente. E eu era seu alvo preferido é claro, por isso estava sempre perto de Ransa.
A parte do dia que eu realmente apreciava, era quando ela ia vender as mercadorias. Deliciava-me ao ver como ela conseguia ludibriar algumas pessoas, a agilidade nas mãos, os olhares trocados, as expressões feitas. Com o tempo, percebi que não era ao acaso que ela escolhia as pessoas para comprar ou vender, e fui aprendendo suas artimanhas no negócio. O simples modo na fala, e a notar mesmo as mais leves expressões corporais das pessoas. Até o dia em que, conhecer as pessoas pelo modo que elas andavam, virou tão comum quanto respirar.
Gondur é uma cidade litorânea, e extremamente mercantil. Segundo as lendas, a fortaleza foi fundada assim como uma escultura, esculpida de pedra em pedra do próprio planalto. Uma pedra tão branca quanto a luz, podendo ser vista até mesmo depois do anoitecer. O castelo se encontrava na parte superior do litoral, nas falésias. Possuía um porto subterrâneo, dedicado as mercadorias reais, lugar onde poucos tinham acesso. Os outros portos ficavam nas laterais da cidade, a alguns poucos km de distância. As estrades que levavam ao eram, em boa parte, feitas da mesma pedra dos muros brilhantes, entretanto, quanto mais longe da cidade, pior ficavam.
E era exatamente onde eu estava no momento. Subindo a rua principal, em direção à primeira muralha da cidade. Era um belo dia ensolarado, entretanto, o início da primavera ainda trazia um resquício frio do inverno, o que explicava as pessoas agasalhadas pela cidade. Neste dia em particular, meu primo Patrick me acompanhava, conduzindo a égua da família pelas rédeas. Uma égua malhada que eu apelidara de Canela, por conta de suas manchas. Era um tanto mais baixa que outros cavalos, usada para arar o campo e carregar nossas poucas mercadorias ̶ três barris de hidromel e mais outros dois de vinho ̶ que seriam vendidas para uma estalagem da região. Patrick viera sob as ordens da sua mãe, já que o índice de roubos nas estradas estava aumentando, e um homem com sua estatura faria qualquer bandoleiro pensar duas vezes, mesmo que não soubesse usar a espada embainhada na sua cintura. Entretanto, eu sabia que ele aproveitaria a oportunidade para se alistar ao exército do reino.
A estrada que levava para dentro da muralha era feita de pedregulhos bem definidos e encaixados uns nos outros. Anos de desgaste e sujeira impregnada escondiam todo o possível esplendor dos quadrilhos, que segundo alguns diziam, deveriam ser tão brancos quanto o castelo. Casas simples de madeira, com telhados de sapé, amontoavam-se em um vasto pedaço de terra, até o sopé da muralha externa. Era surpreendente como a quantidade de casas havia aumentado desde minha última visita. Um mês atrás, mais da metade daquelas pessoas não estavam ali. Um bocado de vendedores ambulantes fazia suas barracas perto da rua, uns tantos outros carregavam suas carroças para fora da cidade ou para dentro das ruelas. Pessoas de todos os cantos do mundo se encontravam ali, identificados não só pelas suas roupas, mas também sua aparência. Menestréis tocavam todo o tipo de instrumentos, e alguns outros andavam enquanto faziam malabarismo. Um pouco mais adiante à direita, se encontrava uma pequena praça, onde crianças se encontravam para assistir um show de títeres.
Dois homens estavam descendo a rua em nossa direção, cavalgavam em um trote lento, e ambos usavam um casaco carmesim com listras douradas. Conversavam em voz baixa, e olhavam de soslaio para os lados como se checassem de quem ninguém prestava atenção neles. Seus modos atiçaram a minha curiosidade. O homem da direita franziu o cenho para algo que o outro disse, eu já estava perto o suficiente para ouvir a resposta, mas baixei a cabeça e fitei o chão fingindo que não escutava a conversa.
̶ Você sabe que é perigoso sair da cidade a noite Brandon! ̶ Disse o desconhecido irritado.
̶ Deixe de ser idiota, temos que sair da cidade antes que os Ark’ Arlim a cheguem nesta parte da...
O resto da conversa me escapou, estava perdido em pensamentos. Ark’ Arlim? Não faz nenhum sentido, eles são uma lenda antiga. Os adoradores da lua nunca existiram. Alguém cutucou meu ombro. Virei-me para ver Patrick me olhando inquieto. Era notável a confusão nos seus olhos. Só então percebi que tinha me sobressaltado com a conversa dos homens e que eles me examinavam com receio. Sentavam-se rígidos nas selas.
̶ O que está olhando rapaz? Parece que viu um fantasma... ou será que “ouviu” algum? ̶ Disse o homem da esquerda, que havia sido chamado de Brandon pelo companheiro. Sua voz tinha um som sarcástico, mas seus olhos azuis expressavam uma frieza capaz de penetrar na essência de qualquer um. Olhando mais de perto, notei que ambos se vestiam com finas roupas de sedas, e pequenos emblemas estavam alojados nas mangas dos casacos. Um dragão vermelho com as asas aberta, não era um brasão comum da cidade.
̶ Hã... não... ̶ respondi, envergonhado por ter sido pego escutando a conversa. Um pouco tarde, mas acrescentei. ̶ Senhor.
̶ Estou certo de que não ̶ proferiu secamente o outro homem. Este tinha a barba trançada, prendia o cabelo no padrão dos guerreiros. Um rabo de cavalo que pendia até seus ombros. Com uma olhada de canto do olho, notei que ele portava uma adaga longa, presa ao quadril ̶ Não quero ser obrigado a lidar com essa “assombração”.
̶ Não senhor ̶ disse, aproveitando o breve momento para observar um pouco mais aqueles estranhos.
Portavam-se rígidos nas selas. O tal de Brandon possuía um porte físico melhor de que sua companhia. Ombros largos, e mesmo montado, era uma cabeça mais alta que seu companheiro. Também usava o cabelo preso em um rabo de cavalo, mas não possuía barba. Com uma olhada minuciosa, percebi um machado pequeno no seu quadril, um pouco encoberto pelo seu casaco. Com certeza sabe usar a arma que carrega. É melhor não irritar esse grandão. Passou pouco mais de um minuto até que os dois pararam de me encarar, e voltaram a se entreolhar.
Aparentemente sem mais o que dizer, os dois incitaram os cavalos com os calcanhares. Tive que me jogar para direita para não ser atropelado pelo cavalo. Patrick não foi tão rápido e acabou trombando com a lateral do cavalo.
̶ Que diabos!! ̶ Berrou, colocando a mão na bainha ̶ Se eu encontrar eles de novo...
̶ Você não vai fazer nada primo, ou não viu as armas deles?
̶ Quer saber? Foda-se... Eu vou procurar o lugar para se alistar ao exército.
Sem esperar resposta, pegou sua mochila que estava pendurada na égua, e saiu correndo. Dobrou a direta em uma viela e o perdi de vista no meio da multidão. Sempre impaciente. Peguei a rédea e fiz meu caminho para o portão principal da muralha interna, desviando da incrível multidão que lotava as ruas. Já passava do meio dia, o sol disputava seu brilho com o reflexo intenso da cidade, que de alguma maneira não doía aos olhos. Dois guardas de mantos azuis prostravam na frente do portão interno. É ótimo ver que o rei se preocupou em colocar seus melhores soldados na rua. A muralha interna era menor que a externa, por volta de 3 metros a menos, o portão tinha largura suficiente para passar somente 2 carroças por vez, os muros estavam sempre sendo patrulhados, mas que olhava de baixo não conseguia ver os vigias devidos as ameias. Passei pelo por entre os guardas sem nenhum problema, nem mesmo olharam para mim. Dizem que os mantos azuis podem sentir o perigo de longe. Não é à toa que são os melhores guerreiros do reino.
Entrando na parte mais rica do reino, era impossível não notar a diferença. Os quadrilho da rua estavam totalmente brancos, logo à frente dos portões se encontrava a praça da cidade. Cheia de árvores floridas das mais variadas cores, a fonte no seu centro mostrava os cinco dragões celestiais, que jorravam agua para todos os lados. Pessoas desfrutavam da harmonia do lugar para conversar, ler e jogar cartas. Todos estavam bem vestidos nesta parte da cidade, um vento frio sacudia as folhas das arvores, os pássaros gorjeavam, não se via qualquer sinal de sujeira nessa parte da cidade.
Dobrei a esquerda até encontrar o meu destino, uma taverna de 3 andares, tão brilhante quanto o a cidade. A Flor da Rainha, era o nome que estava entalhado em uma placa em cima da porta. Guiei a égua até os estábulos – uma estrutura de um andar apenas, a direita da estalagem – que estavam quase cheios. Um cavalo em especial chamou minha atenção: um crioulo negro, com uma sela com ornamentos de ouro e prata, e ainda um pequeno brasão com uma rosa no meio, e suas pétalas alternando entre o vermelho e o azul. O símbolo da associação dos trovadores. Um trovador a essa hora? Parece que o dia está mesmo agitado, não é? Atei os arreios de Canela, e fui para uma porta interna no final do estábulo, a qual eu sabia que daria na parte interior da taverna, logo atrás do balcão.
Mesmo antes de abrir a porta, já era possível ouvir o barulho das pessoas. Entrei naquele lugar bastante familiar para mim, que frequentava quase sempre com minha tia Ransa, o cheiro das bebidas e dos fumos não foram sempre agradáveis, mas me acostumei a isso com o tempo. O estalajadeiro se encontrava apoiado no balcão, conversando com algum cliente que não conseguia ver.
– Ei Barddy! – Chamei.
Quando se virou, pude ver que estava igualzinho quando o vi a alguns meses atrás: Gordo, como qualquer outro estalajadeiro que eu conhecia. Em sua cabeça já não crescia nenhum cabelo, e os que lhe restaram, estavam caindo com o tempo. Não tinha barba, e seu nariz parecia fino e pequeno demais para o seu rosto redondo. Seus olhos eram de um castanho quase negro, e tinha olheiras comuns do ofício, tendo que ficar acordado até tarde todos os dias. O avental branco que vestia estava machado de vinho, segurava uma taça com umas das mãos e com a outra passava-lhe um pano.
— Oh, olá Tom quanto tempo! – falou, já abrindo um largo sorriso e me olhando de cima a baixo. – Como você cresceu! Está quase do tamanho de um touro... se bem que esse touro seria meio baixo.
– E você continua igual Barddy, embora com menos cabelo – retruquei rindo.
– O mesmo grande e gordo? – respondeu entre uma gargalhada. Deu-me uma piscadela e continuou – mas lembre-se: sempre desconfie se o estalajadeiro assim não for.
– Nuca vi um que assim não seja – assenti. – Mas que tal irmos aos negócios agora?
– Mas é claro, o que vossa senhoria me trouxe hoje?
– Trouxe-lhe as melhores bebidas da cidade, provindas direto da grande senhora Ransa – respondi, aceitando a brincadeira.
– Já não era sem tempo, meu estoque está indo rápido demais com o movimento. – Disse ele, dando uma olhada envolta como para confirmar a sua fala. – E quando a majestosa quer pelos barris? Espero que o mesmo de sempre.
– No momento em que você diz “o mesmo de sempre” espero que esteja falando em vinte moedas de ouro. Não é? – respondi erguendo as sobrancelhas para dar ênfase.
– Bem, pelo que me lembre eram somente quinze moedas.
E ele estava certo, é claro. Minha tia dissera para vender os barris a não mais, não menos que quinze moedas de outro. Todavia, estava praticando o ato da barganha, adorava a sensação. Se não conseguisse vender por mais que quinze moedas não haveria problema algum, mas uns trocados extras serviriam para minha poupança pessoal.
– Mas você já está ficando velho, as memorias tendem a se embaralhar. Principalmente as que tem dinheiro envolvidas.
– E os jovens tendem a ser ligeiros demais não?
– Sim, mas como você mesmo disse – estufei minha barriga e me inclinei levemente para trás afim de imitar sua postura. – “Meu estoque já está quase vazio”
– Eu não disse exatamente assim, e sei muito bem que a sua tia...
– Dê logo o dinheiro ao rapaz Barddy – intrometeu-se uma voz desconhecida. – Convenhamos que ele sabe como barganhar.
Somente no momento em que Barddy virou-se para responder o estranho, que pude visualiza-lo. Estava apoiado com os cotovelos na bancada, e com uma das mãos balançava suavemente uma taça de vinho já pela metade. Olhava para mim com um largo sorriso brilhante. Tinha cabelos negros e despenteados que lhe tampavam a sobrancelha, e grandes olhos verdes. Vestia um casaco de veludo colorido, alternando entre a coloração vermelha e azulada. Eu sabia, sem ter que olhar para a parte de trás do seu agasalho, que a bela rosa da associação dos trovadores estaria ali estampada.
– Ligeiro como um rato esse aqui. Está aprendendo muito bem com a tia. – disse o estalajadeiro enquanto tirava e contava as moedas do bolso. – Vou lhe dar dezessete moedas, e acho melhor que se dê por satisfeito Tom.
— Muito bem, muito bem. – estendi a mão direita para pegar as moedas, e dei-lhe uma piscadela.
Depois de me entregar o dinheiro, chamou seu filho – um garoto franzino de onze anos – para que retirasse a mercadoria e colocasse na adega.
– Acho que você ainda não conhece o meu hóspede. O grande contador de estórias: Kethae
Fez um gesto apontando para o homem na bancada. Dei a volta na bancada para me sentar ao lado do trovador, e cumprimentei-o. Um odor suave de groselha emanava dele. Ao seu lado, encostado na bancada, estava um alaúde tão branco quanto a neve, brilhante e encantador. Meus olhos vidraram no objeto, e é claro que ele notou.
– Não olhe tão obsessivo para a minha donzela, sei que ela é bela. Mas esta já pertence a outra pessoa. – pude sentir a leve rispidez em sua voz.
– Mil desculpas eu fazia ideia, não tive a intenção... – apresei em me desculpar, sentindo um calor surgir nas bochechas.
– Não faça isso com o garoto Ket, está deixando-o envergonhado – intrometeu-se Barddy rindo.
– Eu sei, fiz de propósito! – deu uma gargalhada e acrescentou – Mas nem todos são assim, lembre-se nunca olhar dessa forma para os instrumentos de uma pessoa, elas sentem ciúmes.
Assenti. Conversamos um pouco e ele contou-me sobre sua história. Kethae era um homem bom, era o mais novo de seis filho de uma família pobre da região. Ainda quando criança, um trovador se encantou pelo fato de o menino ter uma memória incrível, e logo acabou por ensina-lo. Levou-o por toda a parte do mundo, contando histórias e ensinando como era a vida de um trovador, mas principalmente como tocar o alaúde. Cuidou dele como um bom pai faria, e aquele instrumento que estava ali no chão agora, lhe foi dado por este mesmo homem, seu mentor.
Logo quando começou a atuar como um verdadeiro trovador, tornou-se famoso pela sua bela voz e não tardou muito para ser aceito na associação. Frequentou os mais variados castelos, de norte a sul do continente, conheceu reis e rainhas, príncipes e princesas. Mas vive a vida de um jeito simples, não possui terras em seu nome, e passa a as noites em qualquer lugar que puder abriga-lo. Diz que gosta da sensação de liberdade, mas reclamou da insegurança nas estradas ultimamente.
Não demorou muito para que eu o considerasse um amigo. E me senti obrigado a perguntar.
– Você vai contar alguma história para nós hoje?
– Já que você insiste... – respondeu sorrido com o canto da boca. Se ajeitou na bancada, virando para mim – Têm alguma especifica em mente?
Não esperava que me perguntasse isso, e por algum motivo lembrei do encontro com os dois estranhos mais cedo. Haviam mencionado algo que realmente me deixou curioso. Uma Ordem que existia somente nas histórias em que a tia contava. Talvez Kethae soubesse algo a mais sobre eles.
– Estava pensando alguma sobre os Ark’Arlim, quem sabe?
– Hmmm... interessante. Posso saber o motivo? – indagou. Seu cabelo tampava as sobrancelhas, das quais eu tinha certeza, estariam erguidas.
– Nada em especial, na realidade era das poucas histórias que a tia Ransa me contava, e adoraria ouvi-la de um trovador famoso! – menti.
– Está bem – disse ele mordendo o lábio inferior, pensativo. – Acho que eu tenho uma boa história na cabeça para isso. Não é uma das minhas favoritas, mas vou tentar não errar.
Levantou-se, estralou os dedos da mão, e juntou seu alaúde. E nesse momento foi que me lembrei de olhar ao redor na taverna. A freguesia era grande em duas coisas: quantidade e qualidade. As quinze mesas estavam todas ocupadas por pessoas bem vestidas, que conversavam, bebiam e ainda fumavam cachimbo. Garçonetes serviam os mais variados pratos: sopa de ganso, porco assado, e peixes e veados cozidos.
Kethae dirigiu-se ao palco de madeira, que ficava no canto esquerdo do estabelecimento. As pessoas começaram a diminuir as vozes ao notar o movimento do trovador, passaram de uma conversa agitada para cochichos hesitantes. Sentou-se em um banquinho no meio do palco, segurou seu alaúde, e tocou umas notas soltas para testar o som. Depois de um certo tempo, os únicos sons que se pode ouvir no estabelecimenteo eram os leves acordes sendo afinados. Parecendo satisfeito com o resultado, ajeitou-se no banquinho, olhou em volta para multidão e deu um sorriso.
– Para aqueles que não me conhecem, me chamo Kethae, e eu não pretendia me apresentar aqui hoje, pois acabei de retornar a cidade. Entretanto, um amigo meu foi muito insistente para que fizesse. Nesse caso, vou lhes contar uma história antiga, no tempo em que as essências ainda existiam, na grande Era do nosso mundo. Mas não irei falar dos grandes heróis, ou do bem e do mal, uma vez que nada é absoluto, e pessoas são movidas por emoções ou uma razão que segue através de uma compreensão de fatos ocorridos. Contar-lhes-ei sobre o surgimento dos adoradores de Onídrian, também conhecidos como os Ark’Arlim, conhecedores da luz e das estrelas.
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