As Cinco Essências
3 História dos Ark'Arlim, os adoradores de Onídrian
“Dizem que, junto com o surgimento do homem, surgiu o tempo e com ele, o fim da perfeição do nosso mundo.”
Kethae começou a dedilhar seu alaúde em um ritmo suave, o som leve e calmo preencheu toda a taberna. A história que narra a vida e morte de dois amantes é tida como um clássico das eras antigas que todos conhecem. Uma estória simples, mas que é capaz de tocar o coração de qualquer um quando bem recitada.
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Landraos, um simples camponês que nascido no reino de Kent, sonhava em ser um guerreiro capaz de derrotar exércitos e mudar o crescente caos no seu mundo. Mas não é possível prever quando o destino alterará o rumo de nossa vida, coisas acontecem sem qualquer razão aparente, pessoas saem e surgem em nossos traços, e foi exatamente isso que aconteceu com Landraos naquele dia. Ele estava praticando arco e flecha em uma floresta, sempre atento e acostumando com o terreno escutou gritos. Correu em direção aos sons, e o que viu foi uma mulher sendo acuada por um lobo negro. Sem hesitar, disparou habilmente três flechas no tempo de uma batida do coração.
Após matar o lobo, ele pode observar melhor a mulher que estava aos prantos em sua frente. Tinha um roso lindo como as estrelas e um cabelo branco como a lua, é impossível negar que ele se apaixonou à primeira vista. O vestido da garota estava rasgado mostrando seu tornozelo, no qual, um corte profundo era visível. Tirou simples ervas e bandagens da sua mochila.
– Respire fundo que vai doer um pouco – ele avisou enquanto limpava o ferimento com água. – Qual o seu nome?
– Oni...Onídrian
– Onídrian? Pensei que era proibido uma pessoa receber o nome dos deuses... mas isso não importa agora, o que uma garota como você faz no meio dessa floresta?
– Eu me perdi – disse ela com uma voz triste e encantadora.
– Você está mentindo... aquele era um lobo negro, encantado por algum domador. – Respondeu enquanto terminava de enfaixar o machucado. – Não precisa me contar se não quiser, tudo bem. Agora vejamos... parece que você também torceu o tornozelo, vou te levar para minha casa e lá podemos ajeitar isso
– Obrigado.
Landraos carregou-a no colo até sua casa sem dizer uma palavra, admirou de fininho a beleza da garota, longos cabelos brancos, olhos azuis, corpo esbelto, e um doce aroma de mel.
Levou quase uma semana para que o tornozelo de Onídrian melhorasse, nesse período, a intimidade entre os dois cresceu cada vez mais. Apesar de não contar toda a sua história, ela admitiu estar fugindo de algumas pessoas poderosas, e ele prometeu defendê-la.
Onídrian pareceu encontrar um pedaço de felicidade nesse mundo turbulento, a paixão os tornou em um casal em constante alegria. Mas ela sabia que isso não seria para sempre, então resolveu aproveitar enquanto pode. E durou mais do que esperado, somente após um mês foi que o destino resolveu pôr um fim naquilo.
Landraos estava descansando em uma pequena colina, havia caçado raposas durante a tarde toda e estava exausto. Enquanto apreciava as nuvens no céu azul, a suave brisa e os cânticos dos pássaros, uma intensa luz roxa subiu aos céus no horizonte. Levantou-se em um salto, pois aquela luz vinha da mesma direção de sua casa, deixou toda a caça para trás e correu somente com seu arco e flecha.
Chegou no local ofegante, a porta e janelas estavam estraçalhadas, o que ele viu dentro foi algo que tirou o ar de seus pulmões. As lagrimas lhe correram seus olhos enquanto via o corpo sem vida de sua amada, o longo cabelo branco tornara-se vermelho de tanto sangue. O vestido rasgado expondo seus seios nus, e no centro, uma marca roxa, símbolo de magia. Um grande urro pode ser ouvido por toda uma grande área no momento em que Landraos berrou jurando matar todos os Essenciais que disturbam esse mundo.
No ano seguinte, uma lenda surgiu pelo mundo. Um ser humano normal, caçador de Essências. De alguma forma ele conseguia matar magos sem uso de magia, sua vingança inundando cegamente todos os lugares que passava, procurando aquele que matou sua mulher. Após cada morte, desenhava um símbolo de lua crescente na testa do morto. Considerava seu símbolo pessoal, a adoração de Onídrian(Deusa) seu único amor. Até que certo dia, conseguiu uma pista do provável assassino que tanto desejava, um Essêncial de Zusgal poderoso que vivia no sul.
Landraos preparou uma emboscada sozinho em uma encosta, recebera a informação de que o alvo estaria viajando para outro reino e passaria ali como sua rotina. Cerca de trinta pessoas apareceram no local, todas vestiam um robe vermelho com manchas roxas. A grande diferença é que um deles possuía um colar de outro com uma gema vermelha pendida bem no centro de seu peito, grande o suficiente para ser vista até mesmo de onde ele estava.
O caçador de Essenciais sabia que não poderia matar todos, mas ele só precisava matar um alvo e depois poderia morrer em paz. Tirou seu arco das costas e pegou a sua flecha de ponta negra, o seu segredo para matar os magos. No momento em que Landraos puxou a corda do arco, todos os magos pararam e estenderam suas mãos para o céu, e ele soube que sua informação havia vazado. Entretanto, não precisava de mais tempo, sua mira já estava ajustada, soltou a corda e a flecha sibilou.
O chão arenoso sobre seus pés tremeu, um enorme pilar de terra o envolveu fechando totalmente sobre os ares, morreu sufocado e impossibilitado de ver se a sua flecha havia ou não atingido seu alvo. O pilar tornou-se sua sepultura, e nela, imagens das faces da Lua surgiram: Crescente, Minguante, Cheia e Nova.
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Quando o som do alaúde parou, nenhum aplauso, somente lágrimas vieram do público. É claro que não foi diferente comigo, que nunca havia escutado alguém recita-la de jeito tão belo. Kethae desculpou-se com a plateia e avisou que a rainha lhe aguardava, guardou seu alaúde e levantou-se para sair. Nossos olhos se encontraram e ele acenou com a cabeça e eu retribuí o gesto.
̶ Bem Tom, pretende passar a noite aqui? ̶ Perguntou Barddy limpando as lagrimas com seu avental, sem querer expondo um pedaço da sua barriga.
̶ Não tenho certeza, estou esperando Patrick concluir seu teste no exército, mas o quarto do sótão está vago?
̶ Dizem que o teste dura boa parte do dia, e contando com o tempo que vocês levariam para voltar, melhor ficar por aqui. Sorte sua que eu não aluguei ele hoje. ̶ Tirou do bolso uma chavezinha enferrujada e entrou para mim. ̶ Você sabe o caminho, se quiser esperar por ele lá em cima tudo bem.
̶ Eu gosto de lugares movimentados como este, acho que vou ficar mais um pouco aqui.
̶ Você é que sabe garoto.
Após a pequena conversa, o estalajadeiro voltou a sua rotina de arrumar as prateleiras e servir bebidas. O movimento não diminuiu, pelo contrário, parecia aumentar a cada hora que passava. Fiquei concentrado distinguindo conversas em meio as gargalhadas, ruídos de talheres e canecas batendo nas mesas. É interessante perceber a quantidade de informação que podemos obter ao escutar conversas alheias, claro que algumas devem ser julgadas a sua veracidade. Descobri que uma grande embarcação de tecidos naufragou ao caminho de Gondur, algo que inflaria o preço das mercadorias restantes no mercado. Fofocas também eram alvo dos meus ouvidos atentos, uma das filhas da duquesa de Natrigg parecia estar se relacionando às escondidas com um escudeiro desconhecido qualquer, péssimo para sua reputação. Ouvi também um debate entre bêbados sobre onde ficavam as melhores prostitutas da cidade, e as do Campos Lírios ganharam com consentimento geral, não que isso me interessasse aos quatorze anos de idade. Tornou-se claro para mim o descontentamento das pessoas com o aumento dos pobres na cidade. Isso claro para a classe alta que era importunada pelos pedintes na rua e até mesmo enganada por charlatões.
Esperei por mais algumas horas no salão distraindo-me com as conversas, e percebi as horas quando Barddy me trouxe uma caneca com café quente. Por fim, decidi subir e esperar por Patick no quarto. O sótão seria tecnicamente o quarto andar da taverna, algo não visível pelo lado de fora. Pequenino, dispunha somente uma cama de casal e um criado mudo, me lembrando das várias viagens com a tia Ransa, onde passávamos a noite neste mesmo quartinho. Deitei-me sem pensar muito e cochilei.
Acordei com o barulho da porta rangendo e passos pesados, era meu primo. Entrou com os ombros baixos, roupa suja com alguns rasgos, com a cara fechada, uns arranhões e um olho roxo. Qualquer idiota conseguiria ver que ele se meteu em uma briga.
̶ O que houve dessa vez? ̶ indaguei. Ele costumava a se meter em brigas por qualquer coisa, algumas renderam boas risadas.
̶ Ah, um riquinho desgraçado me encheu o saco, então eu dei um soco nele. ̶ Disse ele franzindo as sobrancelhas. ̶ E depois os amigos dele me surraram, mas o professor nos separou. Eu odeio esses esnobes.
̶ Bem, então vá logo tomar um banho, eu vou dormir. ̶ falei encostando a cabeça no travesseiro. Nunca tinha ligado muito para a cabeça quente do meu primo, e consegui entender parcialmente o que aconteceu.
̶ Mas ai todo mundo vai saber que eu apanhei...
̶ Foi contra mais de uma pessoa né? Então é motivo de ter orgulho e não vergonha.
Terminei a frase fechando os olhos, não precisava olhar para ele para saber que suas expressões aliviariam e que desceria a escada com o peito estufado. Essa era a personalidade do meu primo.
Levantamos cedo no dia seguinte, nos despedimos de Barddy e fizemos o caminho de volta tranquilamente. Saímos da cidade movimentada e resolvemos pegar o caminho da estrada real, mais longo por contornar o desfiladeiro dos Mil Passos, porém muito mais seguro. Muitas vezes eu havia cortado caminho pelo desfiladeiro com algumas caravanas, mas era impossível não encontrar bandidos no meio do caminho.
Canela não carregava nenhum peso, portanto nós revisávamos na montaria. Era início de tarde quando chegamos na entrada da vila, e logo de cara notamos a movimentação estranha e a fumaça negra subindo aos céus. Algumas pessoas corriam com baldes cheios de água para tentar apagar as chamas. Patrick, agora vestido com roupas do filho mais velho de Barddy, conseguiu interceptar um velho que corria com um balde vazio para encher. Nós conhecíamos ele, era centenário Gill, ninguém sabia se ele havia realmente passado dos cem anos, mas estava na vila a mais tempo que qualquer um e sua grande barba branca atestava isso.
Ele olhou para nós com espanto, e disse gritando:
̶ A casa de vocês está pegando fogo! Não sabemos se a Ransa ainda está lá dentro!
Foi nesse momento que minha vida mudou completamente pela primeira vez.
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