As Cartas do Futuro
8 Carta Nº 08: M
Notas iniciais
Essa carta vem de alguém que te conhece profundamente.
Estou sempre aí: quando você cometeu erros na infância, adolescência e juventude. Quando você deu esperança a algumas pessoas e depois tirou. Quando os amigos começaram a se afastar porque você fez eles se afastarem. Mas eu estava com você. Me lembro quanto ódio você tinha no peito na época do colégio e ensino médio. E eu compreendo que, para alguém com fobia social, ansiedade e transtornos intermitentes de depressão, você fez um bom trabalho.
Podia ter sido pior: poucas pessoas saíram feridas.
De fato, apenas uma saiu ferida fisicamente. Mas algumas outras se feriram e magoaram de forma profunda, e já deixaram pra trás. Está na hora de você fazer o mesmo. Está na hora de aceitar que seus transtornos causaram tudo de ruim, perdoar-se, e buscar ajuda. Sim, ajuda. Eu te conheço e você vai preferir morrer a fazer isso. Mas eu te peço que o faça. Na segunda feira. Logo pela manhã. Acorde pensando "hoje é o meu primeiro passo". Acorde lembrando de mim. Acorde com muitas dessas palavras dessa última carta em sua cabeça.
Sempre vemos aquelas frases: se você pudesse falar algo para seu eu jovem, o que diria? Essa é uma versão mais dolorosa e derradeira, mas é isso: eu peço pra minha versão jovem tentar controlar seus medos, suas ansiedades, seus problemas psicológicos, seu ódio, sua impulsividade, seus desejos incabíveis. Peço que se livre dos lixos, da tralha. Daquilo que os outros colocaram em você. Quero que se lembre que você só será são se parar de permitir que os outros abusem, usem, e lhe encham de pedidos, que você vai se sentir obrigado a aceitar.
Não se sinta. Não precisa se sentir.
Mande eles resolverem por si sós, como você sempre fez. Ou cobre pelos serviços. Nas probabilidades da vida, você pode ou não ter trabalho, emprego e filhos, certo, filhas, se deseja assim. Viagens e todas essas coisas. Mas eu tive algumas, então sua vida vai ser mais leve se impedir as responsabilidades dos outros de se empilharem em suas costas. Você não é Atlas. Você não é Deus, nem semideus, nem nada disso: você é humano.
Tome um descanso. Tome um banho. Tome um vinho.
Compre o que for necessário. Se organize. Viva. Beba. Dance. Cante. Você só tem uma vida.
Você pode me perguntar: qual a sua idade? Eu falei das probabilidades, e essa é minha resposta. Eu posso ter de 8 a 80, mas acredito que falaria a mesma coisa em qualquer idade que tivesse. Sou decidido, apesar de tudo. Quero que você durma, descanse, e tente relaxar e se manter vivo até a segunda. A partir dela sei que o futuro não precisará te dar mais estímulos. Sei que você construirá algo melhor, algo que vai substituir meu final. Seu final. Nossos meios.
Então, chego ao fim da carta. Quando você se ver no espelho ou em reflexos, mesmo odiando a si mesmo, sei que o amor aí dentro não permitirá o ódio de te fazer machucar a si e seus semelhantes. Então espero que o que você tem de bom consiga domar os fantasmas ruins. Eu te amo, e você merece um abraço para preencher seu peito, que é literalmente oco, mas que não precisa ser pra sempre. Saiba disso.
M.
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