As Capas Negras
1 Capitulo Único
Notas iniciais
Boa Leitura!
As Capas Negras
~LightB
Capítulo Único
A pesada porta de madeira foi aberta com um rangido grave, por ela se passaram inúmeras figuras, revestidas por capas de veludo negro, os capuzes cobriam seus rostos pálidos, mas podia-se vislumbrar alguns brilhantes pares de olhos vermelhos, alertas e hipnóticos.
As figuras negras moviam-se suavemente pelo salão, sem nenhum ruído além do farfalhar das pesadas capas enquanto caminhavam em formação de diamante, perfeitamente alinhados, movendo-se em sincronia, parando no mesmo momento, mantendo a mesma postura imóvel, mas preparados para qualquer tipo de ataque.
Seus passos cessaram aos pés da escada que levava até os três, grandes e imponentes, tronos de madeira avermelhada e detalhes em ouro, os lugares do Rei, da Rainha e da Princesa.
Pude ouvir o som abafado de seus joelhos entrando em contato com o chão de pedra acinzentada e polida, todos no mesmo instante, enquanto se ajoelhavam perante o trono e seu rei, suas capas se derramaram como água ao redor de seus corpos.
Me endireitei, sentando o mais ereta que conseguia, com a postura confiante que devia esboçar, tentando disfarçar o medo, mas eu sabia que era em vão, qualquer um que me olhasse saberia o quanto eles me assustavam, estava estampado em meus olhos.
Quando eles finalmente se levantaram seus olhos vermelhos se fixaram no homem a minha direita, inconscientemente olhei para o lado, a postura impecável, as vestes azuis tão escuras que eram quase negras, o cabelo em um castanho tão claro quanto a sua pele e os olhos, verdes brilhantes.
-Á missão foi completada com êxito, Sua Graça – meus olhos se desviaram em direção a voz, o homem a frente do grupo se manifestou, todo o seu corpo estava escondido pela capa negra, mas o capuz quase não cobria mais o seu rosto.
-Houve algum tipo de resistência? – a voz grave do rei soou por todo o salão, afiada como uma navalha, havia um leve sorriso em seu rosto, como seu gostasse da ideia de um massacre.
O homem pareceu pensativo por um breve momento, e então seus olhos vermelhos hipnóticos brilharam ainda mais quando ele lambeu os lábios e sorriu sombriamente, seus olhos se desviaram em minha direção por meio segundo, mas foi o suficiente para fazer um arrepio passar por meu corpo.
-Nada que não possamos lidar – sua voz fria soou levemente divertida, aquele sorriso macabro continuava intacto em seu rosto.
Seus olhos voltaram a se desviar em minha direção, me ajeitei na cadeira, desconfortável enquanto ele olhava novamente em direção ao seu rei, respirei fundo, tentando manter a calma.
-Trouxeram-me as cabeças? – a voz do rei ecoou pelo salão silencioso e eu me forcei a não encara-lo decepcionada, odiava quando ele fazia isso.
A rainha por sua vez não se importou em demonstrar o quanto estava indignada, sua respiração alta deve ter sido ouvida de qualquer canto do salão, ela cruzou os braços sem perder a compostura, seus olhos dourados fixados em qualquer ponto do salão, exceto o rei, que a olhava em uma expressão ilegível.
Do fundo do grupo um rapaz se manifestou, suas mãos apareceram em meio a capa negra, em uma delas ele segurava um pacote de tecido claro, amarelado como o feno dos estábulos, mas ele estava manchado em um vermelho escuro, pegajoso.
O cheiro de ferro me atingiu alguns segundos depois de ver o pacote, a surpresa me fez respirar fundo e graças a isso captei no ar o odor tão único que o sangue possui.
Ele andou calmamente em direção ao rei, seus passos inaudíveis, o único ruído da sala era o farfalhar de sua capa enquanto se movia, se moldando ao seu corpo e então esvoaçando ao seu redor, a cada passo o cheiro ficava mais intenso e podia ver as pequenas gotículas vermelhas pingando no piso de pedra cinzenta.
Quando se encontrava ao lado de seu líder parou, o pacote ainda em sua mão, os pingos caindo no chão, agora formando uma pequena poça de sangue. Soltei o ar que havia prendido, sem mais conseguir segura-lo, meus pulmões queimavam, implorando por oxigênio.
-Isso é totalmente desnecessário – a rainha manifestou-se, sua voz suave ecoou pelo salão, todos os olhos se voltaram para ela, hipnotizados por seu charme, até mesmo o rei a encarou.
Por um breve momento cheguei a acreditar que ela fosse capaz de convencer o rei, fazê-lo mudar e opinião quanto a isso, pelo menos desta vez, mas então, de repente, ele balançou a cabeça negativamente e um sorriso surgiu em seus lábios.
-Bem, minha presença não é necessária aqui para essa atrocidade – a rainha levantou-se abruptamente, sua indignação era tão clara como cristal, fez uma breve e fraca reverencia, demonstrando naquele pequeno gesto todo seu descontentamento – com sua licença, sua Graça.
Quando passou a minha frente, em seu caminho para fora do salão, pude ver seu rosto, delicado como de uma boneca, repleto de reprovação, seus olhos dourados se voltaram ao grupo das capas uma vez mais antes de endireitar a postura e caminhar elegantemente, seus passos eram o único som que podia ser ouvido.
Queria ter me levantado também, me curvado perante o rei e saído dali, com a mesma elegância que ela, mas eu jamais seria como a rainha, jamais conseguiria manter minha postura daquela maneira, nunca me tornaria uma dama perfeita, inúmeros serviçais já haviam tentado me controlar, nenhum deles obteve sucesso.
-Mostrem-me o que trouxeram – a voz do rei me tirou de meus devaneios, ele se inclinou para frente, a curiosidade queimando em seus brilhantes olhos verdes.
O rapaz abriu um breve sorriso antes de atirar o pacote a sua frente, assim que atingiu o chão o fio que amarrava a boca do saco de soltou, as cabeças rolaram pelo piso de pedra, o vermelho começou a se acumular, manchando o cinza.
Por mais que eu quisesse desviar meu olhar, não conseguia, meus olhos estavam presos no vermelho que apenas aumentava, tudo o que eu enxergava naquele momento era o sangue, um vermelho escuro e brilhante.
E apenas quando o cheiro chegou até mim, ainda mais forte do que antes, quando pude sentir o sabor em minha boca, esse foi o momento em que acordei do transe que nem percebi estar.
Levantei-me apressada, chamando a atenção de todos para mim, desci as escadas o mais rápido que pude, atrapalhei-me com o longo vestido e por pouco não cai, quando terminei de descer as escadas acelerei o passo visando alcançar a saída o quanto antes.
Não olhei para trás em nenhum momento, tinha medo do que podia acontecer.
Não fui educada, não pedi licença ao rei, nem mesmo fiz uma reverencia como devia, esse fato teria sido motivo o suficiente para significar minha morte, mas não creio que meu pai faria isso, ele sabia o porquê de eu ter saído.
Minha mãe ficara decepcionada quando souber, não segui nenhum de seus conselhos, não me portei como uma dama, nem mesmo segui seu exemplo de minutos atrás, eu não tive a mesma classe que ela, a mesma elegância, simplesmente fugi como uma tola covarde.
Assim que passei pela porta de madeira a fechei, encostei meu corpo na madeira tentando controlar minha respiração acelerada, meu coração batia freneticamente, descompassado.
-Vejo que a princesa é afetada pelo sangue – o homem soou tão divertido que fiquei tão imóvel como uma das estatuas de mármore do castelo.
Meu medo não vinha de suas palavras, mas sim do fato de que eu era capaz de ouvi-lo, mesmo com uma grossa parede de pedra e alguns metros nos separando.
-Ela está atingindo a maturidade – o rei soou indiferente, mas o conhecia bem o suficiente para saber o quão incomodado ele estava com esse fato, meu pai sabia o que significava chegar aos dezoito anos.
-Está na hora de entrega-la a nós – o homem falou, ouvi o farfalhar de sua capa quando ele se moveu, sua voz firme ecoou por minha mente e o pânico dominou meu corpo – ela já sente o sangue Vossa Graça, sabe que é o melhor.
Me obriguei a me mover, fiz meu corpo sair do lugar, não queria continuar a ouvi-los, não queria saber de nada sobre aquilo, apenas queria encontrar uma maneira de remover o gosto do sangue de minha boca, deixar de sentir o cheiro que parecia ter impregnado meus sentidos.
Apertei as minhas mãos contra minha cabeça, agarrando os meus filhos de cabelo fortemente, precisava parar de pensar naquilo ou iria enlouquecer, encostei-me na parede gelada e me deixei escorregar por ela até atingir o chão, fiquei sentada ali por algum tempo, encarando o nada a minha frente.
Não quero ter de me unir a eles, não quero uma daquelas capas negras e pesadas, mas eu havia sentido o sangue e todos sabem o que isso significa.
Oh Nix, por que justo eu?
Não havia escolha, precisava ir, se por um acaso ficasse seria ainda pior do que ir com eles, me forcei a ficar em pé, chega de ser fraca, respirei fundo tomando coragem, comecei a andar novamente, estava na hora de deixar de ser uma criança covarde.
Notas finais
Não é a toa que me rendeu um 10 e um parabéns pela criatividade louca...kkkk
Se gostou não é necessário um comentário, basta apenas deixar um acompanhamento e já vou saber...
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