As Cabeças da Guerra Fria
1 One shot
Notas iniciais
Bailamos ao som da valsa, que não é de longe uma dança difícil. Três passos para lá e depois mais três para o outro lado, num eterno triângulo, balançando suavemente conforme a maré de pessoas vai.
Assim como na vida real, basta entrar no ritmo para saber dançar com os outros no salão da vida. Siga o compasso, arrume um parceiro e não esbarre nos outros – o efeito dominó é catastrófico.
Você me gira, na vontade de passar a perna e fazer-me cair. Mas não o faz.
Eu me inclino, ansiando por puxar-te ao chão numa queda eminente. Mas não puxo.
Deixamos de seguir nossos instintos agressivos primordiais do ódio e ganância da natureza humana para adotar uma civilidade forçada, pois sabemos que vamos destruir o mundo se seguíssemo-nos.
Apesar disso, sua faca tem a ponta afiada colada nas minhas costas e o cano da minha arma está beijando sua têmpora. Eu controlo metade deste salão e você a outra metade; qualquer pessoa aqui é uma mísera peça do nosso jogo de xadrez. Já separamos irmãos com um muro enorme sem hesitar, podemos rasgar o mundo ao meio se nos der vontade. Basta um passo em falso para colocarmos a eternidade por um fio.
Se você enfiar a faca nas minhas costas, eu atiro. Seu eu puxar o gatilho, você me esfaqueia. Estamos numa ameaça congelada, a paranoia nos mantém inertes ao mundo como moscas no âmbar.
Dançamos como se não houvesse amanhã, pois dependendo do que fizermos, não haverá.
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