As Brumas da Arte
1 As masmorras (da libido?)
Notas iniciais
Boa leitura! ☺
Nada ofusca melhor a sanidade de alguém do que uma pintura fascinante. Sob os raios desgovernados de um tímido sol poente, Fernando Ramos sentia um ressoar em cochichos, sussurros e risadas ao longe anunciando, no espaço que preenchia sua distância de Miquel Moliner com um vazio infinito, o final do período letivo daquele dia. San Gabriel era o exemplo perfeito de procedimentos milenares realizados à risca e com o mínimo de alterações, perpetuando inclusive aquele mesmo anúncio de sempre: nunca correr nos corredores, evitar tumultos na saída e não aguardar sozinho a chegada dos pais no hall de entrada, acessando-o apenas acompanhado de um dos senhores de batina. O pintor em pé à sua frente terminava de retocar aquela nova obra-prima que, num geral, não possuía nada de novo — todos os quadros tinham a mesma pessoa entre brumas —, mas que significava a invenção do século para Fernando: ao contrário de todos, ele sabia que a essência dos quadros daquele prodígio iam muito além de formas e retratos diferentes, portanto sabia não cobrar nada do processo criativo alheio, apreciando-o serenamente e de longe.
— O que você acha, Fernando?
Levantou-se lentamente da poltrona onde há horas esperava aquela frase. Com ela, sentia que uma concessão divina fora feita: era tempo de se aproximar do artista e criticar a obra. Analisou-a de ângulos diferentes; com os dedos, inventou novas projeções; por fim, abriu um sorriso singelo com a sensação de dever cumprido.
— Claro e transparente, Miquel. Muito bem — completou, fechando os olhos como de costume. Sentia sua expressão serena, revelando a paz de espírito pelo quadro (ou seria pelo ambiente?). Nas avenidas de lombadas expostas, as sinalizações seduziam e gracejavam alguns dos que as vissem para um mundo novo, repleto de textos, pinturas manuais e magia. Ministrada pela senhorita-cujo-nome-os-dois-nunca-se-lembravam-qual-era, o motivo de surgir o apelido “Senhorita”, todos os livros estavam milimetricamente organizados pelas letras iniciais do título, depois por autor, via edição e alguns inclusive pela demanda do próprio livro — o importante é que cada universo tinha seu lugar reservado e retirá-lo dali seria profanar o nome daquele santuário em forma de coleção restrita aos estudantes do colégio.
As costas dos dois eram iluminadas pela luz crepuscular que se infiltrava na penumbra da biblioteca. O cômodo, à primeira vista, parecia completamente abandonado. O único detalhe que desmentia essa hipótese era, com um pouco de atenção ou mero costume, observar em olhares ou tatos a brisa fresca vinda da porta que a Senhorita deixava entreaberta e cujo acesso foi feito especialmente para funcionários do colégio: um mistério para Moliner, mas o melhor local para os ramos sem fim de acesso às saídas do colégio. As mesas, perfeitamente lustradas em reflexos temporários dos leitores e estudiosos que as ocupavam, contavam histórias a fio nos arranhados, gravuras e confissões expostas a qualquer um e, ao mesmo tempo, àquela pessoa em especial. Círculos enegrecidos anunciavam as lágrimas agonizantes — no amor ou terror, o final é o mesmo.
A afeição de Miquel pelo quadro não passou despercebida por Ramos. Aquele era um dos poucos, senão o único, momentos em que o artista rebelava-se contra seu bom humor, carisma e até o espírito desafiador para devorar lentamente a verdade contida no sorriso enigmático, na silhueta impecável ou no espírito entre névoas que carregava consigo a epítome do sentido da vida: a mudança constante de absolutamente tudo. Assim como como fizera com todos os funcionários dali, Fernando definia o companheiro com a expressão “quem o viu, quem o vê” — a qual, para Ramos, ainda não definia toda a volatilidade daquele que era garoto nos documentos e homem feito nos pensamentos. Observava-o altivo, orgulhoso, apoiando-se em dedos, braços e lembranças que lhe repicavam a mente, mas não os sonhos, enquanto as badaladas da catedral socavam um minuto com as horas do dia.
— Miquel, acho que é hora de ir. As turmas extracurriculares já foram embora.
— Qual é o problema?
— Meu pai está me esperando na cozinha e, a essa hora, é provável que já esteja tudo limpo. Sem falar que você se lembra bem do que ocorreu da última vez que seu pai teve de esperá-lo por muito tempo lá fora, certo?
— Hm — retrucou com olhos revirados. A desvantagem em se ter um pai cujo acesso a armas era constante e ininterrupto era que, para qualquer acesso de raiva, ele achava um tiro bem dado no meio da testa o espaço necessário para um homem cumprir seu dever, o que por pouco não os expulsou daquela instituição. — Você precisa ficar menos tenso, Fernando. Meu pai é impulsivo, mas não é burro: depois daquele problema com o Reverendo Iago, ele anda bastante calmo e inclusive arrisca às vezes uma conversa qualquer sobre o novo rifle dele com o pai do Diego.
Ouvir aquele nome dava-lhe nojo, para dizer o mínimo. O artista viu a expressão atormentada do rapaz à sua frente, certificou-se de que a biblioteca estivesse cheia deles dois e se aproximou de uma vez, inclinando-se para o tira-fôlego habitual. Separaram-se sob a guarda rósea do crepúsculo e o inflamar de sentimentos virgens à flor da pele, incendiando desde seus lábios até o cinza-chumbo acima de si.
— Carpe diem. A gente se vê amanhã? — Miquel guardou-se em olhadelas rápidas àquele que o encarava de alma aberta e um tímido fôlego de vida. — Certo, vou considerar isso como um “sim”.
A luz na sua mão tamborilava a mesa de madeira num ritmo suave e macabro. Com o tempo, acostumou-se à sensação de ter seus pensamentos envernizados, eternizando-os em pontos, riscos e profundidades. Em linhas, traçava os rasos caminhos de sua relação com Miquel Moliner; com muitas delas, o movimento era perceptível: volúveis, aquilo que um dia não tinha forma ou ao menos cor, naquele momento, sincronizava-se docemente com a valsa flamejante que atiçava o local. Ramos havia aproveitado que seu pai estava ocupado em alguma reunião sobre reformular o cardápio do colégio para o novo mês (o que demoraria meia hora no máximo, não fosse as divergências entre glúten, calorias e o conjunto nutricional de cada prato sugerido) e escapara ao “Palácio da Senhorita”, procurando pelo seu mural de costume.
Entre as brumas de uma mente confusa, a luz artística é o fim do túnel. Sob suspiros apaixonados e tendo o Salvador Dalí em seus pensamentos, concentrou-se no pouco das lembranças que o arrebataram por todo o dia e deixou-se levar pelos desejos da alma. Sôfrego e libertador, o canivete valsou sobre o tom escurecido da madeira, o que rendeu à mesa arranhões, serragem e suspiros apaixonados, refletindo-lhe a honra de dever e missão cumpridos. Sorriu por pouco tempo, pois logo mais veio o incômodo, o fôlego entrecortado, a falta de bons modos do coração: “tudo o que é contraditório cria vida” era mais uma das eternas sensações que, daquela mesa, dali, sabia que estariam expostas a todo aquele que entendesse a linguagem que lhe ardia sem se ver.
A volta para casa foi mais comum do que Moliner esperava. As janelas do Mercedes que seu pai havia comprado há meses não escondiam o caos e a euforia do Primo de Rivera exaltando o aclamado “movimento de homens.” Naquele momento, a situação de Barcelona era um terror estampado em moral e bons costumes para os afetados diretamente pelas mudanças de governo, exaltando assassinos e punindo opositores. O céu cheirava a um ácido silêncio que anunciava a tranquilidade sem explicação. Não havia do que reclamar sem parecer inimigo do governo, o que, àquela altura, era a desculpa perfeita para dizimar a ousadia dos que compunham a oposição.
Chegando em casa, Miquel tentou se recolher para seu quarto, mas foi interrompido por seu pai, que o aguardava próximo ao batente da porta de entrada.
— Você. Aqui embaixo. Agora.
Não era a primeira vez que seu pai agia daquele jeito. Virou-se lentamente para encarar brevemente seu pai ou, por mais tempo, a reverência respeitosa que um dos empregados fazia ao passar por ele. Viu-o ordenar algo inaudível e encará-lo como vítima de suas presas.
— Quem é aquele seu amigo?
Miquel sorriu. A mesma conversa de sempre.
— Um amigo, apenas. Por quê?
— Você sabe bem o porquê disso.
Toda vez que seu pai se incomodava com algo, era comum que a desconfiança se anunciasse no cinismo amargo e sobrancelhas arqueadas. Como um homem de negócios, no entanto, disfarçava sua cólera em expressões amaciadas e dotes teatrais natos do século XX. A geração Moliner mais recente, no entanto, não se importava em parecer de vidro: aquele sorriso de vitória, estampado no seu rosto à Rivera, deixava claro suas intenções.
— Conversei com Diego hoje.
“Agora, além de vendedor, ainda virou fofoqueiro?”, o artista pensou consigo.
— E…
— Eles estão desconfiando, Miquel.
— De quê? Você está tenso, relaxe um pouco, meu pai.
Seu pai odiava o sarcasmo tóxico do filho.
— E onde você acha que isso vai te levar? Onde você se vê quando crescer?
— Eu não vou crescer.
Depois de um breve silêncio eterno, anunciou:
— A sua sorte é que você é meu filho, senão já teria pintado esse chão com as suas vísceras.
“Uma pena, mesmo.”
O santuário do casal sem dúvida era a seção de livros didáticos. Além dos dois, a única visita regular àquelas prateleiras era a Senhorita para, como sempre, manter o alinhamento e ordem dos volumes impecáveis, o que, pela falta de uso, ocupava-lhe no máximo vinte minutos. Aquele espaço, no colégio, fora apelidado como “as masmorras do proibido” e, via de regra, todos estavam eticamente proibidos de entrar ali — principalmente os alunos, até porque quem seria louco de ler sobre as influências do grego arcaico no espanhol moderno?
Apesar disso, Miquel e Fernando oficializaram-se naqueles metros quadrados e era para ali que recorriam toda vez que um pouco de calma e muita privacidade eram necessários. Entre a Guerra dos Trinta Anos e as Guerra da Sucessão Espanhola, tinham certeza de que a batalha que eles travavam contra a instituição eclesiástica significava, é claro, nada: com aquelas preocupações os rondando, como se alarmar com os sermões de Inferno dos professores — que, sutilmente, condenavam o casal ao fogo eterno e ardente?
Naquele chão, cobertos pela vergonha societária e sob a proteção divina da Senhorita, descobriam-se amantes eternos entre si: sob o jogo de luz dos paineis de vidro em frente a eles, devoravam as nuances um do outro, possuindo-se em pontos que desejavam ser infinitos e curvas que os levavam à loucura. Uniam-se em beijos, toques e contatos mais íntimos, gravando, sob as brumas da arte, aquele que (para sempre?) seria o nirvana do infinito, construído entre eles por aquilo que mais lhes importava: o casal.
Sabiam que, por certo, as facilidades da vida foram deixadas de lado a partir do “eu amo você”, mas os pesos das prioridades clareavam suas mentes: acima das obrigações de infância, a arte da vida estava a favor deles... e era isso que importava.
Fim
Notas finais
Deixem seus comentários, leitores! Eu não mordo não, relaxem, HAHAHA XD
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