As estrelas costumam trazer um sentimento de ternura para a maioria das pessoas. Elas sentem-se fascinadas por aqueles inúmeros pontos brilhantes na escuridão do espaço, adorando-as por sua beleza e pela fraca luz que proporcionam em contraste com as trevas. As pessoas escrevem inúmeras histórias para exaltar o seu amor, desde os tempos primordiais, onde as estrelas eram deuses e mensageiros do destino.

Mas eu nunca compartilhei desse sentimento. Elas me causam inquietação, fazem meu estômago revirar de ansiedade, e despertam em mim uma mistura de medo e adrenalina. Meus instintos gritam, imploram para que eu faça algo, mas não há nada a ser feito. Eu sou pequeno demais, insignificante demais para lutar contra o terror oculto naqueles pontos brilhantes.

Esse sentimento apenas cresceu a medida em que eu envelhecia. Eu lembro que só conseguia dormir se as cortinas estivessem bem fechadas, e ainda assim eu me sentia estranho, como se alguém estivesse observando. Agora, eu não consigo sair de casa a noite. Após recusar muitas e muitas vezes, meus amigos desistiram de me chamar para sair, e me apelidaram de Lobisomem: eu só saía quando a noite estava nublada.

Por outro lado, o Sol nunca me incomodou. Ele era a nossa estrela, nosso protetor, o reluzente olho de rá. Ele não nos destruiria — não porque se importasse conosco, longe disso. Ele protegeria nosso Sistema porque aquele canto do universo era o seu ninho.

Quando todas as estrelas rachassem, liberariam grotescas bestas cósmicas, que travariam uma batalha de proporções monstruosas enquanto lutavam para devorar os cantos do nosso universo. Quanto tempo nosso Sol iria durar? Mesmo que destruísse milhares de estrelas, que destruísse toda as anãs vermelhas naquele canto do infinito, o que ele faria quando tivesse de enfrentar o filhote daquele ovo chamado Cephei? E o que Cephei faria, quando eclodisse a besta de Canis Majoris, e com seu latido furioso despedaçasse todos os outros terrores naquela arena cósmica? E se houvesse algo ainda maior, muito além das fronteiras onde podemos observar? Outra besta descomunal, que pudesse destruir até mesmo o furioso cão universal!

Nós éramos apenas parasitas no calor daqueles ovos. Nós e todas as outras formas de vida que habitavam no espaço infinito, orbitando seus próprios monstros. Insignificantes para o universo, nós não tínhamos qualquer papel a desempenhar, éramos totalmente irrelevantes para aquele universo, qualquer que fosse o seu propósito. Ainda assim, alguém, de alguma forma lembraria de nós, os vermes que se desenvolveram no pior cenário possível, com vidas curtas e sem sentido em pedaços de rocha suspensos nas dobras do espaço.

As pessoas sempre riram de mim quando lhes disse isso. Acho que é melhor assim, já que não há nada que possamos fazer. Talvez as pessoas se sintam tão fascinadas justamente pelo terror que o céu representa, ou porque as estrelas detêm o poder e relevância que a humanidade almeja, mas não pode alcançar. Talvez elas não se importem de morrer nas garras dos monstros porque assim poderão devolver a vida que só possuem porque emprestaram o calor das bestas.

Eu não sei. Talvez acho que sou egoísta demais pra entender esse sentimento de reciprocidade que mantém o equilíbrio no universo ou essa adoração por seres que não estão cientes da nossa existência mesmo sendo os criadores dela. É por isso que eu tenho medo de estrelas.

Notas finais
-Anãs Vermelhas são estrelas "pequenas", bem menores que o Sol (Geralmente com 1/3 do tamanho).
-VV Cephei A, é uma super gigante vermelha, das maiores estrelas conhecidas.
-VY Canis Majoris é uma hiper gigante vermelha. Atualmente, é a maior estrela que conhecemos.

-Obrigado por ler. (:
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!