As Aventuras de Rin Casaco Marrom
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Capítulo 07
Aquele com sonhos, fantasmas e canções.
- Para onde nós estamos indo, exatamente? – Meiko esfregou as mãos nos próprios braços, era de manhã cedinho e estava frio, vapor saía de sua boca toda vez que falava.
- Já disse, para a Cidade Fantasma – Rin respondeu, amarrando um lenço vermelho que a outra a havia emprestado no pescoço.
Elas estavam caminhando em direção da cidade mais próxima, a fim de encontrar algum meio de transporte que as levasse para o próximo destino. Meiko colocara uma pequena estátua de tigre no lugar da porta arrombada. Ela dissera que a peça, quando ativada, tinha o poder de manter invasores longe.
Rin duvidou daquilo. Se fosse verdade, por que todo mundo não tinha uma? Mas Meiko esclareceu que elas eram muito caras e difíceis de encontrar, e só funcionavam uma vez.
A menina estava feliz pelo fato do não livro ter feito um pedido que abrangia seus conhecimentos culturais (diferentemente do vinho, em que ela estava completamente perdida). Sim, coroa da princesa fantasma, morta no castelo esquecido, ela mais ou menos sabia onde procurar.
- Nunca ouvi falar desse lugar – Meiko murmurou.
- É que as pessoas evitam falar sobre a cidade – a loura animou-se, todo mundo gosta de mostrar que sabe das coisas – Ela foi amaldiçoada por uma bruxa há muito tempo atrás. Os cidadãos todos perderam a fome, não queriam comer mais nada. Foram ficando cada vez mais pálidos e magros, até que viraram fantasmas. Agora eles se alimentam das almas das pessoas que entram em seus domínios.
- Pelos deuse! Por que você quer ir para lá?! – a morena olhou incrédula para Rin.
- É lá que está o “castelo esquecido” e a coroa da pricesa fantasma – ela continuou – A bruxa amaldiçoou a cidade porque a princesa teve um caso com o filho dela, e, ao meu ver, ela era apaixonada por ele. A bruxa também pôs um feitiço na princesa, só que diferente do das outras pessoas. A maldição fez ela se enforcar com plantas espinhosas nos porões do castelo. Dizem que ela ainda vaga pelo palácio, mas só vendo para acreditar.
- E a coroa está lá com certeza? – Meiko não estava disposta a arriscar a vida por algo que talvez nem estivesse no lugar esperado.
- Bem, imagino que esteja no túmulo dela.
- Espere, nós vamos virar ladras de túmulos?
- Só por um dia, não vai ser tão ruim. E eu sempre quis dar uma olhada nesse castelo.
Meiko passou a mão pelos cabelos com uma careta.
- E onde fica a cidade? — mesmo que ela não estivesse gostando da ideia, ela prometera que acompanharia Rin, e palavra dada era palavra cumprida.
- É vizinha à Cidade da Tempestade – Rin desdobrou um mapa amassado que tirou da mala – Nós podemos ir de trêm, ou de navio. Quando estivermos lá, uma caminhada de meia hora deve ser o suficiente para chegar aos limites da Cidade Fantasma.
- De navio seria mais rápido – Meiko examinou o mapa por cima do ombro da menina – Acho que chegamos lá em menos de dois dias.
Rin concordou com a cabeça. Meiko havia trazido algumas coisas de sua casa, então dinheiro não era problema... por enquanto.
- E quanto aos fantasmas? – a moça quis saber.
- O que têm eles?
- Não vamos precisar de coisas tipo sal ou... sei lá, alho?
- Não, esses fantasmas só vão nos atacar se nós entrarmos nas casas deles ou os ofendermos de algum modo – porém, ela logo acrescentou – Mas talvez nós precisemos tomar algumas providências antes de entrar no castelo. Invadir sua casa, profanar seu túmulo e roubar sua coroa são motivos mais do que suficientes para a princesa nos atacar.
Meiko assentiu lentamente, cenho franzido.
- E, Meiko – Rin deu uma risadinha –, alho é só para vampiros.
A morena apenas bufou em resposta.
. . .
Meiko tentava encontrar um posição confortável na cama que mais parecia uma tábua de madeira. Ela lia um jornal bastante mal escrito e com informações de fontes duvidosas.
Rin, que estava no colchão acima do de Meiko, foi para a beira do beliche, para olhar para ela diretamente, só que de cabeça para baixo.
- Pelo o menos, o barco é rápido – lembrou.
- É, mas cheira a vômito, e o bebê da cabine ao lado aparentemente não gosta dos próprios pais – ela fez careta, nesse exato momento a criança voltou a chorar, e, provavelmente, não pararia tão cedo.
- Já estive em situações bem piores – a menina não sabia se a informação serviria de consolo para a outra, mas não custava tentar – Eu dividi um quarto de albergue com uma chimpanzé falante que jogava suas fezes pela janela. Mas ela também gostava de comer ratos, e manteve a peste controlada. Eu não estou mentindo.
-Ah, eu acredito em você – Meiko riu.
A cabine em que estavam não tinha o melhor acabamento do mundo, não tinha carpete nem aquecimento, a escrivaninha era velha e estava sendo atacada por cupins e o banheiro era no fim do corredor.
É nisto que dá transformar um navio pesqueiro em navio de turismo, a menina pensou, pelo o menos, chegaremos na cidade amanhã cedo.
- Ah, Meiko – Rin lembrou – As pessoas na Cidade da Tempestade são bastantes radicais, e não gostam de turistas. Lembre-se disso.
- Eu sei – disse ela – O que? Você acha que eu vou até o palácio real dar uma surra no rei deles?
- Sim, exatamente – a resposta veio rápido demais para o gosto da morena.
Ficaram caladas por um momento. Entenda, essas duas ainda estavam naquela fase da amizade que, mesmo que conseguissem discutir alguns assuntos, haviam aqueles longos e desconfortáveis momentos de silêncio de vez em quando. Porém, Meiko resolveu quebrar o gelo.
- Rin, quantos pedidos mais o livro...
- Não livro – corrigiu.
- ...o não livro vai fazer?
Então Rin deu-se conta de que não fazia a menor ideia. Sentou-se na cama com as pernas cruzadas. Será que teriam que preencher todas as páginas do não livro?
Se for esse o caso, pelo o menos ele não é do tipo frente e verso.
Era uma boa pergunta, que ela não tinha a resposta, o que a deixava frustrada. E Meiko percebeu isso.
- Esqueça – pôs o jornal de lado e deitou-se – É melhor você dormir do que preocupar sua cabeça com questões que não vai resolver agora.
Rin não disse nada, apenas apagou a luz e tentou dormir também, ao som de um bebê chorando.
. . .
Rin e Meiko desembarcaram no porto da Cidade da Tempestade. Um dia e meio dentro de um navio precário não tinha feito nada bem para a morena.
- Aquela foi a pior viagem da minha vida – Meiko olhou com desprezo para o navio que partia.
Rin nem respondeu, apenas a puxou pela manga em direção à cidade. Queria chegar logo ao castelo, e perder tempo para jogar pragas em um barco não ajudava muito a acelerar o passo.
A Cidade da Tempestade não era muito acostumada com turistas, ao contrário da Cidade dos Peixes do Sul ou do Norte. Não havia muitos hotéis, lojas de souveniers ou pessoas simpáticas. Rin já sabia que a população nutria um forte desgosto por estrangeiros, mas nunca imaginou que as coisas fosse tão ruins assim.
Se olhares matassem, pensou Meiko, que nunca se considerou a pessoa mais gentil do mundo.
- O que é isso? Por um acaso eles sentem que não somos daqui? – susurrou Rin, para que ninguém ouvisse.
Elas pretendiam comer alguma coisa no lugar e depois seguir viagem, mas perceberam que pedir informações para aquelas pessoas seria o mesmo que pedir para ser apunhalado ou coisa parecida, então decidiram se sustentar com o que trouxeram do navio.
- Como você acha que é a Cidade Fantasma? – Rin mastigava uma barrinha de cereal com gosto de isopor, sem parar de andar.
- Velha e sombria, imagino – Meiko respondeu, despreocupada, tentando forçar garganta abaixo um pedaço de bolo de morango.
Elas já estavam nos limites da cidade. Era um lugar pequeno, não demorava muito para ir de uma extremidade à outra. Ambas ficaram felizes com isso, não queriam mais ser alvo dos olhares preconceituosos dos cidadãos.
- Ainda bem que ainda será dia quando chegarmos lá – Rin disse baixinho.
- E ainda será dia quando saírmos de lá, se depender de mim – Meiko acrescentou.
Rin parou de andar quando avistou um pequeno mercadinho.
- Espere, é melhor nós comprarmos um punhado de sal – disse, indo em direção à pequena loja.
Era uma lojinha bastante simples, com prateleiras que pareciam serem feitas em casa. Rin trocou uma caneta azul por dois sacos de sal, e a moça do caixa olhou para ela como se ela a tivesse entregado uma barata viva. A menina não se demorou na loja. Seria algo em seu sotaque que faziam as pessoas perceberem que ela não era de lá?
Queria sair daquele lugar logo. Desconfiava que até mesmo os fantasmas seriam mais simpáticos do que a gente da Cidade da Tempestade.
Felizmente, logo as casas grandes foram substituídas por casinhas pequenas, e as casinhas pequenas foram substituídas por pastos cheios de vacas malhadas. Rin queria ir até uma delas tirar leite fresco, mas desistiu da ideia, pois eram vacas selvagens que coiceariam qualquer um que se atrevesse a roubar o lanche dos bezerrinhos.
Pórem, a medida que avançavam, o cenário amigável tornou-se o cemitério de qualquer coisa que já esteve vivo. Plantas, árvores e animais mortos jaziam no chão. Os únicos seres vivos que lá se encontravam eram abutres, corvos e insetos. Esqueletos de vacas, cavalos e pessoas enfeitavam a estrada. Parecia que até mesmo o sol havia se escondido daquele buraco cheio de névoa. Tudo parecia mais escuro e frio.
- Bastante convidativo – ironizou Meiko, tentando enxergar em meio a fumaça.
- Temos que ficar juntas – Rin segurou a mão da moça com força.
Meiko não tentou escapar do aperto.
Elas andaram até avistar uma casinha com paredes quase desmoronando. E depois outra parecida. E mais duas. E mais três. Até que se viram rodeadas de lojas e casas maiores com janelas quebradas, e andando em calçamento de pedra.
Rin podia jurar que viu pessoas magras e pálidas, com olhos pretos e sorrisos largos, mostrando os dentes, porém forçados, acenando com a mão ossuda pelas janelas.
Postes de luz iluminavam o caminho com o auxílio da lua, naquela noite enevoada e escura sem estrelas.
Foi então que elas perceberam.
Noite.
- Meiko... – a voz da menina saiu quase como um susurro.
- Já percebi, já percebi – ela olhou para o céu, aflita – Ah...
Rin seguiu seu olhar. Lá longe, nos campos onde as vacas pastavam e na Cidade da Tempestade, havia sol e nuvens branquinhas e fofinhas. Dia.
Quando o dia se encontrava com a noite da cidade, formavam um pedaço roxo e laranja no céu.
- Isso não deveria ser possível – Meiko tentou entender – É completamente contra a ordem natural das coisas.
- Deve fazer parte da maldição da bruxa – explicou Rin -, então, sim, faz sentido.
As duas sentiram um arrepio subir pela espinha quando voltaram a olhar para frente. Centenas e centenas de fantasmas as rodeavam. Velhos, crianças, homens e mulheres. Todos com sorrisos retorcidos e olhos negros, acenando para elas como se fossem velhas amigas que vieram passar uma temporada na cidade.
Meiko instintivamente agarrou os cabos das espadas, mas Rin impediu que ela fizesse qualquer outra coisa.
- Se você tentar atacá-los, eles vão ter um motivo para nos atacar também.
Ela assentiu e começaram a andar em direção ao centro da cidade. Os fantasmas davam espaço para que elas passassem, mesmo que, provavelmente, fosse possível atravessá-los sem problemas.
Elas abriam caminho em meio à névoa. Escutavam vozes vindas das casas velhas, chamando-as. Em cada porta, havia um fantasma, fazendo sinal para que entrassem. Alguns tinham cestos de comidas aparentemente deliciosas nas mãos, outros sacos de diamântes. Todos chamavam, imploravam.
- É tudo um truque, não é? – Meiko falou consigo mesma, lembrando-se do que Rin dissera – Eles estão tentando nos atrair para suas casas, assim poderão sugar nossas almas.
Rin nada respondeu, apenas continuou caminhando até que avistou uma torre no céu escuro.
- Veja, é o castelo, lá na frente – Rin apontou e começou a correr, puxando a mão da morena.
Elas logo chegaram nos muros do castelo, e Rin tentou abrir as portas. Ela não achou que fosse conseguir, mas os trincos estavam tão velhos e enferrujados, que o portão caiu no chão com um forte estrondo.
- Isso mesmo, agora vamos procurar panelas e colheres de pau para acordar as criaturas que não despertaram com essa barulheira – Meiko desarrumou o cabelo de Rin, sarcástica.
Rin tentou esconder as bochechas vermelhas de vergonha virando o rosto e indo em direção ao castelo. Ele deveria ter sido branco no passado mas, no presente, era cinza de sujeira. O jardim que outrora fora verde e vivo, cheio de flores e animais, agora estava marrom e preto, provavelmente devido à falta de luz.
As portas da frente do palácio já estavam caídas.
Elas entraram no salão principal cautelosamente. Dessa vez Rin não impediu Meiko de sacar uma de suas espadas (ela continuava segurando a mão da menina com a mão livre). Como não tinha uma lanterna, ela acendeu uma vela com cheiro de menta. Meiko não pôs fogo na lâmina, pois, com um pequeno deslize, poderia causar queimaduras em Rin.
As paredes eram de granito cheio de teias de aranha. No chão, um tapede cheio de fungos. No teto, um lustre cheio de morcegos.
Parece tudo normal, Rin pensou, é só um castelo antigo e empoeirado. Nada de estranho.
- Como chegamos até os porões? – a moça perguntou, sussurando.
Rin deu de ombros, apenas continuariam a andar. Evitaram subir a grande escada do salão, pois estavam tentando descer, não subir. Então continuaram o caminho por um corredor escuro no canto da sala.
- Está mais frio aqui do que lá fora – observou a menina, uma fumaça fina saiu de sua boca.
Meiko nem ouviu o que ela disse, estava observando os quadros distribuídos nas paredes. Na maioria deles havia uma moça com cabelos brancos e olhos que inicialmente pareciam castanhos vivos, mas depois podia-se perceber que eram avermelhados.
- Princesa Tei Espírito Nobre – Rin leu o que estava escrito na plaquinha de ouro abaixo do quadro – Veja, ela é a princesa que se enforcou!
- É ela? – desconfiou – Ela não me parece o tipo de moça que teria um caso com um bruxo.
Rin bocejou, dando de ombros. Por algum motivo, ficou com preguiça de dar uma resposta verbalizada. Meiko bocejou também, poucos minutos depois.
A caminhada estava ficando exaustiva, ambas arrastavam os pés vagarosamente. Até a vela parecia querer dormir, suas chamas não estavam tão fortes quanto antes.
- Rin, você está ouvindo uma canção? – Meiko colocou a espada de volta na bainha, pois ela de repente pareceu muito pesada.
- Ãh? – a entorpecida mente da menina demorou um pouco para processar a pergunta – Canção? Não...
- Tente escutar. Tenho certeza que ouvi algo.
Rin tentou aguçar seus sentidos. Escutava as patinhas de ratos caminhando nas paredes, escutava o bater de asas de morcegos e escutava o próprio coração batendo desacelerado. Escutou, também, um suspiro cansado emitido pela morena, que sentou-se no chão sujo. Porém, no meio de tudo isso, ela escutou um coro. Vozes baixas e calmantes vindas do teto.
Ela sorriu por um momento, todas as suas preocupações foram varridas de sua mente.
Isso até ela olhar para o teto.
Dezenas de fantasmas de vestido branco cantavam. Seus sorrisos macabros nunca abandonando seus rostos. Elas não pararam a música quando sua presença foi descoberta. Na verdade, cantaram mais alto.
Rin gritaria, alertaria Meiko, correria e se esconderia. Ela faria tudo isso se suas pálpebras não estivessem tão pesadas, ou se suas pernas não a tivessem traído, fazendo-a desabar. A vela foi apagada antes mesmo de atingir o chão, e o corredor merguhou na escuridão.
Tanto Rin quanto Meiko adormeceram ao som da canção de ninar.
. . .
Rin acordou em um lugar escuro, ao som de gritos e correntes sendo puxadas. Ela não sentia que estava acordada, sua cabeça estava leve demais. Na verdade, todo o seu corpo estava leve demais. Olhou para a própria mão e percebeu que ela estava transparente, podendo-se ver o que estava atrás.
Ela não sentiu medo.
O chão em que estava deitada era de pedra escura. Estaria ainda no castelo? Não, aquele chão era ainda mais sujo. E o cheiro daquele lugar não era só de velhice e bolor. Era um cheiro azedo e nauseante.
Ela não se sentiu enjoada.
Rin levantou-se, mais por não querer que seu rosto ficasse encostado em um chão nojento como aquele do que por qualquer outro motivo. Seguiu o som dos gritos, que foram a única coisa que realmente despertaram alguma emoção nela desde que acordara.
Eram gritos de desespero, misturado com raiva, dor e medo, que vinham em intervalos bem divididos. Primeiro as correntes eram puxadas e depois os gritos.
Uma luz vinda de uma minúscula janelinha gradeada iluminava um rapaz. Ele tinha um rosto jovem, mas uma barba suja e desigual o fazia parecer mais velho, assim como as olheiras escuras. O cabelo longo chegava até abaixo dos ombros. Rin tentou imaginar qual seria a cor do cabelo se não estivesse todo sujo. Louro, talvez? Só um pouquinho mais escuro que o dela, imaginou.
Mas o que realmente chamava atenção nele eram as pesadas correntes presas em seus pulsos. Estava bastante apertado, ela viu manchas roxas ao redor delas, assim como sangue seco.
Por que ele estaria preso? Será que fez alguma coisa errada? Será que matou alguém?
Antes que ela pudesse criar outra hipótese, o rapaz levantou-se. Ele era alto, e alguma coisa em sua aparência a lembrava um urso (talvez a postura, os olhos azuis selvagens ou as presas que tinha no lugar de caninos normais) Ele usava uma bermuda e uma blusa simples, rasgadas e sujas de sangue.
O rapaz rosnou e começou a forçar as correntes, andando para frente. De início Rin imaginou que quisesse atacá-la, mas percebeu que ele nem olhava para ela, parecia mais concentrado em quebrar as correntes.
Os olhos de Rin se arregalaram. As correntes não iam aguentar por muito tempo, estavam cedendo! Pelos deuses e pelo palácio, o quão forte ele era?!
Mas antes que as correntes quebrassem, o rapaz parou de puxar, caindo abruptamente no chão e gritando em plenos pulmões. Seu corpo tremia, punhos fechados. Ele parecia estar tendo uma convulsão!
Porém, Rin avistou algo em seu pescoço. Parecia uma coleira, com uma luzinha piscando.
Ele estava levando um choque!
Ela pensou na possibilidade de ajudá-lo, mas não havia nada que pudesse fazer. Se ela o tocasse também acabaria na mesma situação que ele. Só o que podia fazer era vê-lo sofrer, sentindo-se uma inútil.
Quando o choque parou, o rapaz tossiu, seu rosto vermelho. Respirava pela boca, trazendo a maior quantidade possível de ar para os pulmões.
Levantou-se cambaleante e começou a puxar as correntes de novo. O mesmo resultado: caiu no chão, sendo submetido à tratamento de choque. Tentou de dovo, e de novo, e de novo, e de novo. Tudo terminava do mesmo modo.
Rin queria desviar o olhar, fechar os olhos e tapar os ouvidos, mas não conseguia. Ela pedia para ele parar, implorava, não aguentava mais vê-lo se matar aos poucos. Ele não ouvia, ou talvez a estivesse ignorando.
Ela tentou segurar sua blusa, para impedir que ele continuasse puxando as correntes, mas suas mãos o atravessaram.
Até que chegou uma hora que ele se encolheu na parede, derrotado, com o rosto enterrado nas mãos. Pôde-se ouvir soluços e gemidos tristes. Ele chorava, e chorava alto, abraçando a si mesmo, porque sabia que seria o único abraço que receberia.
Rin logo teve que enxugar as próprias lágrimas. Ela nunca tinha visto um homem chorar tanto na vida. E era de partir o coração, quase podia sentir a tristesa e a derrota. Ela só queria que tudo isso parasse.
Até que parou.
O mundo a sua volta ficou mudo e escuro. Rin sentiu-se acordando. Aquilo era um sonho? Mas não parecia um sonho. Tampouco parecia real.
Mas não importava. Real ou não, só o que importava é que ela estava indo embora. Ainda assim... Ainda assim...
Queria ter trazido o rapaz consigo.
. . .
Rin acordou com um gosto salgado na boca e o rosto marcado com lágrimas. Estava deitada em uma cama velha com lençois empoeirados. A sujeira a fez espirrar diversas vezes.
Um candelabro com velas acesas permitia que ela desse uma olhada no quarto em que estava. Deveria ser um dos quartos do castelo, devido a janela enorme, os quadros nas paredes, os tapetes no chão e os móveis caros.
Sua mala não estava em lugar nenhum, mas pelo o menos o casaco estava com ela.
Levantou-se cambaleante e foi em direção à porta. Trancada. Estranhamente, a madeira e os trincos não pareciam velhos. Suas tentativas de arrombamento da porta foram inúteis.
Foi até a janela que exibia o jardim morto do palácio, a mais ou menos cinquenta metros lá embaixo. Suspirou, morte ou cárcere?
Não, Rin, ela repreendeu a si mesma, nada de suicídio antes de realmente conhecer sua situação.
Então sentou-se na borda da cama e apoiou a cabeça nas mãos, encarando o chão. Ainda estava tonta e abalada, o sonho ainda estava fresco em sua mente. Podia até escutar os gritos e o choro do rapaz.
Ficou assim por vários minutos, até que sentiu um calafrio. Levantou a cabeça, apenas para ver uma fantasma. Ela tinha cabelos lisos e usava um vestido longo e branco. Acenou para a menina como todos os fantasmas e fez menção de partir, mas Rin tinha perguntas a fazer.
- Espere! – a voz da menina soou fina e trêmula, por mais que ela tivesse tentado evitar isso – Onde está Meiko?
A fantasma fitou seus olhos tão intensamente que Rin teve a sensação de que ela estava olhando dentro de sua alma.
A outra humana está no quarto ao lado. Está bem e respirando. Ela nem mexia os lábios para falar. A voz simplismente podia ser ouvida.
- O que vocês vão fazer conosco? – a loura tentou conter o desespero – Vão se alimentar das nossas almas?
A fantasma demorou tanto para responder, que Rin pensou que ela não tivesse entendido a pergunta. Até que veio a resposta.
Não, não vamos. Seu tom indiferente, mesmo que ela estivesse morta, irritava Rin Vocês duas terão a honra de ser nossas escravas. Farão viagens periódicas às cidades e trarão pessoas vivas para nós. E aí, sim, nos alimentaremos das almas dessas pessoas.
- E por que, com mil demônios, vocês acham que nós faremos isso?!
Vocês não terão muita escolha depois do ritual. A fantasma acrescentou outra coisa antes de sair. A limpeza de mente terá início em algumas horas.
Rin queria fazer mais perguntas, porém a fantasma atravessou a parede sem dizer mais nada. A menina esmurrou a porta diversas vezes, gritando para que o espírito voltasse, mas de nada adiantou.
Sentou-se na cama de novo, levantando uma boa quantidade de poeira, e enterrou o rosto nas mãos, frustrada. O sal estava em sua mala e Meiko não estava com ela. Mas ela se recusava a desistir. Sua mente arquitetava vários planos, cada um visando uma situação diferente para que, quando os fantasmas a tirassem daquele quarto para fazer o tal ritual, pelo o menos um deles se encaixasse com a realidade.
E, enquanto sua cabeça trabalhava, Rin pensou em como gostava mais dos cidadãos da Cidade da Tempestade do que dos fantasmas.
Notas finais
P.S. Aquele sonho tem uma razão para existir.
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