As Aventuras de Rin Casaco Marrom

30 Aquele com o sangue de quem ficou


Notas iniciais
Meu Deus, 150 comentários!!! Muito obrigada a todos que acompanham e apoiam a fic, devo tudo a vocês!!! Sério adoro todos vocês !!! :3

Rin chutou as paredes da carruagem até não ter mais forças para ficar de pé. Podia estar enganada, mas achava que era a mesma na qual a enfiaram da última vez.

Um solavanco foi mais que suficiente para que seu rosto fosse de encontro ao chão. Gemeu. Era difícil se proteger das quedas com as mãos presas atrás das costas. Tentou se levantar, mas os músculos das coxas estavam endurecidos e trêmulos. Caiu mais uma vez.

Haviam partido naquela mesma noite, e os guardas não pararam para descansar até que o sol se escondesse novamente. Ela não dormiu, preferindo usar a porta como saco de pancadas. Queria deixá-los arrependidos de não terem trazido uma algema para os pés também. Um guarda veio calar sua boca. Bateu nele, e apanhou dele. Isso se repetiu várias vezes.

Agora só tentavam ignorá-la.

Ficou no chão até que seu rosto aquecesse o metal. O cansaço a atropelou ferozmente. Bocejou, repassando os acontecimentos mais uma vez; Bruno, Clara, Neru e Meiko foram trancados na mesma carruagem. Len, assim como ela, estava isolado. Sua cadeia de quatro rodas, entretanto, não era extraordinária em nada.

Fosse o que fosse, a droga que injetaram nele era forte, para terem tanta confiança de que não acordaria durante toda a viagem.

– Len... – mordeu o lábio com força, até sentir o gosto metálico de sangue, misturado com o salgado de lágrimas – Droga, droga, droga...

Por mais que tentasse evitar tais pensamentos, eles invadiram sua mente sem convite. Ele seria torturado. Isso se o deixassem viver. Dedos dos pés e das mãos, olhos, chifres, orelhas e genitália. Len era o último, quanto não dariam por ele?

Gemeu de novo, mas só porque sua voz pareceu tão pesada e amarga que não foi capaz de reunir forças para fazer com que alguma palavra coerente fosse formada. Nunca na vida desejou tanto poder trocar de lugar com alguém, nem quando via aquelas crianças com pai e mãe.

Não havia planejado dormir, mas foi isso que aconteceu. Acordou sem lembrar bem onde estava, sem saber bem por quanto tempo havia apagado. Julgando pela falta de sede e fome, uma ou duas horas. O rosto ainda estava grudento pelas lágrimas.

Sentou-se na posição mais confortável possível. As pernas estavam dormentes e as costas, doendo. Era melhor guardar energia para quando chegassem em seu destino do que desperdiçá-la chutando uma porta. Encarou a parede de metal, aos poucos organizando seus pensamentos.

– Kaito e Miku – sibilou, um gosto amargo venceu o metálico e salgado.

Como pôde ser tão estúpida? Como acreditou que dois ladrões iriam querer, sem motivo algum, se juntar a eles? E pareceu que seus órgãos decidiram se enrolar um no outro ao pensar no quão burra fora. Fincou as unhas da mão direita com força na esquerda, como se para punir a si mesma. Como se isso fosse reparar seu erro.

– Coloquei não só a mim em perigo – murmurou –, mas Len e Meiko também. Mas Bruno, Clara e Neru também. Deuses, eles nem fazem ideia de quem são essas pessoas.

É tudo culpa minha. Len vai morrer por culpa minha.

Encostou a cabeça na parede. Talvez fossem matá-la também. Na verdade, era quase uma certeza. Só restava descobrir como o fariam. Se tivesse sorte, seria enforcada ou decaptada. Se não, fariam com que Len a atacasse de novo. Ele não suportaria a culpa, e seria outro modo de torturá-lo.

Grunhiu, frustrada. Não sabia o quê fazer. Se é que havia alguma coisa que pudesse fazer.

É tudo culpa minha. Culpa minha.

. . .

Meiko foi obrigada a explicar aos outros três o que estava acontecendo e quem eram aquelas pessoas, mesmo que não estivesse exatamente no humor para falar com qualquer um naquele momento. Demorou muito a dormir a noite, mas ainda assim foi a primeira a acordar, o que não a deixou nem um pouco mais animada.

Indagava se os levariam para a Cidade da Tempestade. Era uma viagem longa, e sinceramente não queria enfrentá-la com aquele trio que pouco conhecia. Teria dado suas espadas em troca de dividir a cela com Rin ou Len.

Agora Neru era a pessoa que estava mais próxima dela, enquanto os outros dois posicionaram-se no canto, sem falar muito. Meiko sentiu pena deles. Não tinham absolutamente nada a ver com aquilo, só queriam ajudar. Teria até parado para conversar com eles se não estivesse tão perdida em seus pensamentos.

E em sua raiva.

Malditos, xingou na própria cabeça, Maldito.

Respirou fundo, procurando controlar suas emoções. Não queria tocar fogo em algo acidentalmente, não dentro daquela caixa de metal. Travou a mandíbula. Sem saber qual sentimento era mais forte, o ódio ou a tristeza.

– Vão machucar Rin? – a voz estranhamente tímida de Clara encheu a carroagem.

Vão. Não sei se emocionalmente, fisicamente ou os dois, mas vão.

– Não tenho certeza – mentiu, admirada com o fato de a primeira pergunta deles não ser “por que nos trouxeram também?”

– Ah...

E essa foi a última palavra que deram em muito tempo. Isso até Neru se manifestar.

– Por essa eu não esperava – riu, e Meiko quis arrancar aquele sorriso de sua cara – Eles fingiram muito bem. Jurei que eram boas pessoas.

Fingiram. Ficou assustada quando se deparou com a possibilidade de nunca os ter conhecido de verdade. Quem eram Kaito e Miku? Há pouco tempo atrás diria “dois ladrões, meio esquisitos, de bom coração”. Bom coração? Tinham mesmo? Não sabia. Não sabia mais.

– O que... O que acha que ganharam com isso? – perguntou a Neru.

– Pelo o que você me explicou – a loura se contorceu para fitar Meiko –, nem me surpreenderia em encontrá-los lá fora fardados com as roupas da guarda.

– Asneiras – rebateu – Se fossem guardas disfarçados teriamos sido presos poucos dias depois de conhecê-los. E além do mais nem saberiam onde procurar.

– Então tem razão – Neru deu de ombros, sem dar a mínima para o que fez Miku e Kaito se voltarem contra eles – Ganharam alguma coisa.

– Você está enfrentando a situação com muito bom humor.

– Já estive em piores.

“Eu também, mas Len não” foi o que quis dizer, mas preferiu deitar-se. Dormiria e rezaria para que as coisas melhorassem. Era a melhor coisa que podia fazer.

Era tudo o que podia fazer.

. . .

A tiraram da carroagem horas depois. Sua garganta estava seca, sua voz rouca. Ainda assim, recusou-se a implorar por água. A puxaram pelo braço com força, mas não foi o guarda da veia.

O sol a cegou depois de tanto tempo no escuro. Mas quando acostumou-se com a claridade, Rin pôde constatar que não estavam nem perto da Cidade da Tempestade. O ar frio cheirava a água salgada, graças ao mar cinza e triste que agitava-se a sua esquerda. Ar frio era muito semelhante ao do Ferro Velho. Não se afastaram tanto assim.

– Não pense que só porque a Jaula dos Renegados está destruída, nossas boas cadeias acabaram – puxou seus cabelos, para que parasse de olhar para o mar – Bem-vinda ao Calabouço.

À primeira vista não parecia um calabouço. Ou recebera esse nome por ironia, ou havia muitas passagens secretas em seu subterrâneo. Eram quatro torres de tijolos vermelhos no total. Sua base era uma negra colina que se erguia da água do mar, e seu topo terminava nos céus. A colina estava desgastada pelo constante bater das ondas, o que dava a impressão de que as construções caíriam e afundariam.

Duas delas, as mais próximas da água, eram esverdeadas na base, musgos e algas fincaram-se ali, e não pareciam querer sair. Gaivotas gritavam e faziam seus ninhos em qualquer brecha que encontrassem nos tijolos da cadeia. Aquilo lembrou muito os corvos na Torre do Relógio.

Rin bufou, cansada de torres.

Centenas de pessoas encaravam os novos visitantes. Mendigos ou doentes prestes a morrer, tentando achar uma ventilação melhor perto do mar. Observavam as carruagens e os guardas sem interesse, como se já estivessem conformados que não ganhariam nada com eles.

Rin não prestou atenção nem nas pessoas em farrapos nem nas pessoas em uniformes, olhava por cima do ombro, em busca de Len. Levou outro puxão do guarda.

– Todos já estão lá dentro. Se tropeçar, vou arrastá-la pelos cabelos.

Passaram por muros grossos, onde homens montados em cavalos os observavam de cima, com bestas preparadas. No pátio igualmente vermelho, homens treinavam com espadas de aço e madeira. Lá dentro guardas em treinamento transportavam caixas com mantimentos, enquanto os fardados, vestindo suas roupas de couro e armados com lanças, gritavam-lhes ordens.

Agora que estava mais próxima das paredes vermelhas, tinha medo de tocá-las. Davam a impressão de que estavam pegando fogo.

A loura esperava ser levada para alguma cela na torre, mas foi surpreendida quando a arrastaram por uma escada que parecia descer até o centro da Terra. Passaram por arcos de pedras e por mais escadarias, sempre para baixo. Os tijolos ainda eram os mesmos, e as lanternas de óleo os faziam parecer ainda mais com fogo.

– Os quartos de cima são para os soldados e para os mantimentos – o guarda leu sua mente – Os criminosos ficam aqui em baixo.

– Criminosos – ainda que não fosse uma pergunta, sua voz soou como tal – Curioso, até onde me lembro, não fui eu quem manteve um homem inocente preso por quase vinte anos.

– Morda essa língua – aconselhou – Ou o capitão irá cortá-la fora.

Caminharam até chegar a um corredor largo. Não havia lanternas ali e estava escuro como a noite. O guarda parecia conhecer o lugar, porque primeiro tirou-lhe as algemas e a jogou em uma cela, e depois acendeu uma lanterna que estava pendurada na parede do corredor oposto ao de Rin.

Como era de se esperar, tratava-se de uma cela do tipo calabouço, onde as grades em forma de arco encontravam-se no chão do lugar, de modo que a menina conseguia apenas ver o teto e, com algum esforço, parte da parede oposta. Não havia qualquer tipo de ventilação, e o cheiro da palha velha que cobria o chão era tudo que podia respirar.

– Não há nenhuma outra cela neste corredor – adiantou-se o guarda – Não adianta pedir ajuda ou tentar planejar uma fuga coletiva. Ninguém vai ouvir – pisou nas grades algumas vezes, para indicar que ia embora.

Rin expeliu o ar, cansada e derrotada. Sentou-se no chão e afundou o rosto nas mãos, assim como o fez no labirinto de espelhos.

– O quê faço agora? – mordeu os lábios – Deuses, o quê faço agora?

. . .

Len acordou aos poucos.

Sua cabeça e costas doíam de modo insuportável, e ele decidiu dormir mais duas ou três vezes, só para esperar que passasse. Não conseguiu prestar atenção em onde estava no primeiro momento, ainda que a luz que escapava por baixo de uma porta fosse o suficiente para ele.

Só depois deu-se conta de que seus pulsos estavam bem presos em algemas. Encontrava-se pendurado no meio de uma caixa gigante, bem maior que sua antiga e sem a janela perto do teto. Seus dedos dos pés descalços estavam pelo o menos quinze centímetros longe do chão.

Não podia puxar as correntes, mas podia contorcer-se e, de algum modo, forçá-las. Estavam apertadas, e arranhavam seus braços. Demorou pouco até sentir um líquido quente escorrer até os cotovelos e um cheiro metálico invadir suas narinas. Ainda assim, continuou.

Lutou por vários minutos, até que ficou tonto demais para continuar. Pôs-se imóvel, o queixo encostado no peito. Por um minuto temeu ter voltado no tempo. Temeu que tudo que havia acontecido com ele nas últimas semanas não passasse de um sonho.

– Rin – chamou – Rin, Rin, Rin...

Repetiu o nome até que ele não fizesse mais sentido, como se fosse apenas uma palavra que criou para não cair no sono. Repetiu até que viu que nada mudaria. Repetiu até que sua voz se tornasse um gemido angustiado.

A única coisa que quebrou sua concentração foi a porta de metal sendo aberta. Levantou a cabeça em um susto. A luz fraca que vinha de fora não foi capaz de atrapalhar sua visão, e o cheiro que sentiu era inconfundível.

Sua decepção deveria ter sido clara como água.

– Desculpe se não sou o que esperava – o homem que conhecia bem caminhou até ele com passos demorados, como se quisesse deixá-lo mais aflito ainda.

Len puxou as correntes de novo, de novo e de novo. Sua ansiedade podia ser cortada com uma faca de manteiga. Quando o homem de roupa igual finalmente estava próximo o suficiente para tocá-lo, o rapaz estava à beira das lágrimas ou dos gritos. Não sabia dizer direito qual.

– Não faça isso – disse, segurando seu rosto com uma mão só, para que o louro olhasse diretamente – Vai morrer sem sangue – mas ele só puxou com mais energia ainda – Deuses, terei mesmo que mandar acolchoar essas coisas?

Ele claramente não ficou alegre quando Len ainda assim persistiu.

– Ótimo, continue. Eu darei a notícia de sua morte a garota. Ela vai pular de alegria quando souber de sua estupidez.

Len ficou imóvel. Era verdade, eles tinham Rin. Podiam ameaçá-lo à vontade agora. Finalmente ele tinha algo a perder.

– Veja, como é fácil usando as palavras certas – comemorou, deu a volta no rapaz, examinando-o com tanta intensidade que ele se sentiu nu – Você cresceu, ficou mais forte.

Voltou a encará-lo, cara a cara. Puxou o tecido da blusa que ele usava.

– Barba feita, cabelo cortado, roupa nova – estalou a língua – O quê mais ela fez por você? Deu-lhe um nome? Qual é? Totó? Felpudo? – riu, alto. Como se a piada fosse a mais engraçada de todas – Levou-lhe para passear? Comprou ração? Jogou um graveto para você buscar?

Riu mais ainda. Len se encolheu, não entendendo o motivo do gargalhar. Quando menos esperava, entretanto, recebeu como presente de boas vindas um soco no rosto. Sentiu gosto de sangue, que escorria pelo nariz.

– Ouça, falarei apenas uma vez – o puxou mais para perto – Sugiro que esqueça tudo isso que viveu. Brincou de ser gente por mais tempo do que merecia. Este aqui é o seu lugar. Este aqui sempre foi o seu lugar

Deixou as palavras pesarem, e Len achou que seria capaz de tocá-las.

– Não vamos mais confiar naquela maldita coleira. O Ferro Velho garantiu que era perfeita para controlar animais grandes, mas eu sempre tive uma ideia melhor para discipliná-lo — seus lábios se tornaram uma linha fina. Seu rosto, duro — Farei com que sinta saudades de sua vida antiga.

Soltou suas roupas, deixando que o louro balançasse à sabor das correntes.

– Você não tem nome. Você não tem família. Você não tem nada – aproximou-se da porta, e fez um sinal para que alguém entrasse.

Len se encolheu mais ainda quando quando mais homens de roupa igual adentraram na caixa gigante vermelha. Eles traziam coisa estranhas, como espetos enfiados dentro de um balde com pedras pretas em chamas e uma corda grossa, que fazia um barulho assustador quando a esticavam rapidamente.

– Bem vindo ao inferno.

. . .

Rin berrou e socou as barras da cela.

Malditos, malditos, malditos!

Fizeram de propósito, para machucá-la. Havia pelo o menos meia hora desde que os gritos começaram. Gritos de Len.

Escutou alguém se aproximando. Berrou mais uma vez, sua voz era algo quase animal. Os passos chegaram mais perto, e o rosto que ela menos queria ver surgiu, cortado pelas barras. O guarda da veia se ajoelhou para vê-la mais claramente.

– Deuses, fique quieta, não é você quem está sendo tortura... – ele engasgou quando mãos rápidas o puxaram para baixo pelas roupas. Seu rosto pressionado contra as barras.

Demônio! – sibilou, com veneno na voz.

O homem tentou se libertar usando os braços como em uma flexão desajeitada, mas foi surpreendido pela súbita força da menina.

O que estão fazendo com ele? – falou pausadamente, nunca quebrando o contato visual.

– Nada que ele não mereça – respondeu, como se fosse uma mãe que acabou de ter dados umas pancadinhas no filho por ter roubado um biscoito da padaria. O ar foi arrancado de seus pulmões quando a menina o levantou um pouco e o puxou de volta, em uma pancada.

Escute, se não o deixarem em paz eu vou...

Vai o que? – ele incentivou – Não pode fazer muito presa aí.

– Devia tê-lo matado quando tive a chance! – xingou entre os dentes.

– E eu sou grato por não ter feito isso, menina, não pense o contrário – garantiu – Podia tê-la chicoteado também, mas cá está você, ilesa. Na verdade, puni os guardas que a bateram no caminho. De nada.

Mais um grito de Len foi ouvido. Foi como uma facada no coração de Rin, e suas mãos fraquejaram, assim como suas pernas. O guarda da veia aproveitou a oportunidade para escapulir, pondo-se de pé.

– Não vão matá-lo – limpou a sujeira da roupa – Ainda.

– Por que estão fazendo isso?! – perguntou, implorou por uma resposta – Ele não vai causar nenhum problema em sua maldita cidade! Ficaremos longe dela!

O guarda ficou longe das barras, temendo ser puxado novamente.

– Ele não causaria. Mas os dele causaram.

– E daí?! – explodiu – Mataram a todos mesmo!

– Fala como se eles não tivessem matado dos nossos – ele não se surpreendeu que ela conhecesse a história – Tem muita gente que queria o rapaz morto. Achamos melhor usá-lo para outra coisa, mas agora começo a acreditar que eles estavam certos. É perigoso.

– Perigoso?! – trovejou – Perigoso?! Você é infinitas vezes mais perigoso que Len!

– Poupe-me de suas mentiras – os tijolos vermelhos refletiam sua cor em seu rosto, tornando-o quase demoníaco – Não sabe o que seu “Len” é capaz de fazer. Ele é como um animal, criança. Dá ouvidos a você, porque é a dona. Mas qualquer outro que lhe esticar o braço não vai receber nada em troca além de pele caída e ossos expostos.

“Engana-se, tolo. Não é um animal, tampouco sou sua dona” foi o que quis dizer, mas em vez disso, o perfurou com o olhar. Odiou como as coisas estavam desiguais, com ela lá em baixo, e ele pairando lá em cima, alto como um rei.

Organizou seus pensamentos, suas perguntas, suas emoções.

– Quem perdeu?

– Perdão?

– Quem perdeu, droga? – repetiu, afetada – Na Era da Dor.

Ele inspirou, cansado, mas não fraquejou. Não sabia que ela sabia tanto.

– Como sabe, criança? – perguntou, curioso.

– Para tratá-lo dessa maneira... – outro grito de Len foi escutado, e ela inspirou, cansada, mas não fraquejou – Para tratá-lo dessa maneira, não é ódio desmotivado.

Ele observou o nada por vários segundos, e fez a menina começar a acreditar que iria embora sem dizer mais nada.

– Minha esposa, meus dois filhos – seu olhar caiu nela, mas não a viu – Uma doce esposa, um menino e uma menina. A menina, foi da peste. Lembro bem, não pude dizer-lhe adeus, nem dar-lhe uma boneca que mandei fazer, parecida com ela. Cabelos negros, olhos claros.

Os olhos do homem ficaram vermelhos, mas não chorou.

– O menino quis enterrá-la do jeito certo, mas no cemitério não havia mais espaço. Disse que a irmã não merecia ser jogada no rio – a voz tremeu, ele fraquejava. Len gritou – A mãe o ajudou a levar o corpo para a floresta, eu levei um machado, para proteção. Enterramos, rezamos e horas depois, estavamos voltando. Voltando para casa. Ele apareceu, apenas um. Apenas um!

Rin observou as lágrimas dele caírem. Lágrimas de um pai e de um marido.

– Eles não fizeram nada! – gritou, soluçando – Nada! Tentaram ir embora, mas aquele monstro os matou! Matou, matou, matou! Ainda lembro-me dele, cabelos castanhos, pele clara, olhos verdes. Vestia pele de urso! Como ia esquecer?! Tirou-me o que me restava! Tirei sua vida também! Voltei com o corpo, para queimar, destruit, tanto fazia! Nada me fez feliz! Nada mais me fez feliz! Nada além de ver o sangue deles jorrar!

Rin cerrou os punhos. Imbecil!

– Ótimo! Perfeito! Matou centenas deles! – rebateu Rin – Isso trouxe sua família de volta?! Isso trouxe qualquer pessoa de volta?! O primeiro que matou, ele viu que você tinha um machado, pelos deuses! Quem não se sentiria ameaçado por um machado?! Também deveria ter um bando, uma parceira, um filhote para proteger! Uma família que esperava por ele! Matá-lo trouxe a sua de volta?! Torturar Len vai trazer sua felicidade de volta?!

Dessa vez foi Rin que engasgou de susto, seu casaco foi puxado, e se encontrava suspensa no chão.

– Quer saber porque não matei seu bichinho? Por que não vendi seus dedos ao mercado negro? Por que gosto tanto de vê-lo sofrer? Quer? – ela não respondeu, não conseguia – Quer?! – ela foi obrigada a fazer que sim com a cabeça, o que foi extremamente difícil considerando que estava grudada nas barras – Não sabe o quanto ele me lembra... o quanto me lembra...

– A mãe...? – completou Rin, com tom duvidoso, mas algo dentro dela fez um “clique”, e achou que compreendeu tudo.

– Não... O primeiro, criança. O primeiro que matei – ele a soltou, como se junto soltasse uma verdade que escondeu há muito tempo. Um segredo sombrio. Rin caiu de costas, incrédula, com um gosto amargo na boca.

– Os chifres, a voz e o formato do rosto... são... são iguais. Não estou enganado. Não posso estar enganado – apertou as barras, até que seus dedos ficassem brancos.

Rin ficou de pé de novo. Não iria demonstrar fraqueza ali. Só o que fez foi limpar a sujeira da roupa e voltar a encará-lo. Os dois pareciam querer se recompor, acalmar-se.

– Não sei como sabe de tudo isso, criança. Vou deixar que seu bichinho lhe dê um último adeus. Vai morrer primeiro que ele – deu meia volta, pronto para partir – Quero que ele a abrace, quero que chore de alegria ao vê-la, quero que pense que sou misericordioso. Direi a ele “deixo-a viver, se conseguir protegê-la nesse estado”. Vai ser lindo. Soltarei feras. O pobrezinho vai enlouquecer, não vai?

– O que? — voltou às barras — Espere! Volte aqui, covarde! Covarde!

Rin olhou para o local onde uma vez esteve o homem, ele não voltara. Não importava. Nada mais importava. A dor que sentia por Len era maior que qualquer medo que pudesse sentir da morte. Seus gritos pararam, mas o que a atormentava agora eram os gritos do futuro, que quase podia ouvir naquele exato momento.

Não acreditava.

Não apenas aquele homem matara não apenas a mãe de Len.

Mas o pai também.

. . .

Len estava tonto quando foi libertado das correntes que o prendiam. Não aguentou-se em pé, tombando logo depois. Nem sentiu a dor, seu corpo já estava sobrecarregado com uma agonia maior. Gemeu, sem conseguir nem mesmo pensar direito.

A porta de metal fechou-se, fazendo-o mergulhar em escuridão. Não se importou, adorou ver os homens de roupa igual partirem.

Não havia absolutamente nenhuma posição verdadeiramente confortável. O chão áspero sempre machucava um de seus cortes. Eles ardiam e pareciam queimar, principalmente os causados pelos espetos brilhantes. Esses doíam como um inferno, não eram como as cordas, que tinham que puxar e bater de novo. Os espetos eles podiam deixar na sua pele até que esfriassem.

Sentiu o corpo pesar, como se o chão o estivesse sugando para baixo. Talvez estivesse morrendo, não tinha certeza de nada.

Não dormiu, era impossível. Usava o resto de sua força para rastejar, deixando uma trilha vermelha por onde passava, sem saber bem por quê estava caminhando como um verme. A agonia o chamava e demandava ser sentida, não o deixava distrair-se.

Escutou vozes conversando do lado de fora, rindo. Quis gritar com elas, quis fazer qualquer coisa para descarregar a aflição. Mas algo o impediu, uma voz conhecida, um cheiro conhecido.

Sua visão estava turva e seus sentidos, fracos. E por isso julgou estar sendo vitíma de uma brincadeira cruel criada por si mesmo. Virou a cabeça com dificuldades. Se fosse uma mentira, seria frágil demais para suportar.

Quando a menina foi jogada dentro da caixa gigante, com a porta batendo atrás, ele pensou que poderia morrer feliz. Com um barulhinho agudo de filhote escapando pela garganta, pôs-se a rastejar até ela, mesmo sabendo que ela própria chegaria até ele primeiro.

– Len... – Rin atravessou a caixa gigante para alcançá-lo tão rápido que o rapaz não se lembrou de tê-la visto correr – Pelos deuses, Len.

Um abraço. Foi o que bastou para fazê-lo sorrir, para fazê-lo chorar.

– Lenny... – ela segurou sua mão – O que fizeram com você...?

Era quase impossível para ela ver pele não castigada. Marcas frescas o enfeitavam, sobrepondo-se às cicatrizes antigas. Sangue escuro e grosso escorria vagarosamente pelas feridas de chicote nas costas, marcas de correntes deixavam trilhos avermelhados por ombros e braços e pele queimada por ferro quente lançava um odor estranho no ar. As queimaduras se espalhavam por qualquer lugar onde Len não havia sido ferido pelas outras armas.

E essas eram só as que reconhecia. Havia outras marcas que nem fazia ideia do que as poderia ter causado. Só sabia que devia ter doído. Muito.

Mais um grunhido baixo foi ouvido. Ele não conseguia ou não queria falar direito. Rastejou ainda mais para perto dela. Seu porto seguro.

– Tenha... tenha calma, por favor – ela pediu, procurando algo nos bolsos. Ataduras e remédio. No começo sentiu-se humilhada por nem mesmo ter sido revistada (acreditavam tanto assim que não era ameaça?), mas agora, era grata.

Ele iria se debater bastante com o remédio, mas não havia outro jeito. Ajudou-o a sentar-se, mas ele não aguentou. Tentou de novo, e começou pelas costas, dando-lhe apoio. Deixaram-lhe ferimentos da cabeça às solas dos pés. O par de calças, a única peça de roupa que lhe deixaram, nem servia mais para cobrí-lo direito, reduzida à farrapos.

– Len, quieto! – pediu, assim que colocou a substância grossa em um dos cortes. Len claramente não gostou – Você precisa disto!

Não sabia que ele ainda tinha energia para lutar desse jeito contra os medicamentos. Era um ardor incómodo, isso era verdade, mas a menina achou que ele estivesse fazendo aquilo porque estava com raiva. Não dela, mas de tudo mais.

Len tentava afastá-la com os braços pesado. Mesmo naquele estado, era forte, e a loura teve que achar um jeito de segurar-lhe com uma mão e tratar dos ferimentos com a outra. Teria sido um trabalho muito mais difícil se ele não estivesse tão ferido.

Quando terminou, limpou as lágrimas quentes de seu rosto surrado. Lágrimas de dor, lágrimas de raiva, lágrimas de tristeza. Ele se aninhou em seu colo, mas ainda estava tenso, sem conseguir relaxar o corpo para que pudesse dormir um pouco.

Tinha febre, tremia e parecia que não dormia há dias. Deuses, o que fizeram com ele?

Rin daria qualquer coisa para ter o velho Len de volta. Curioso, alegre, feroz. Vivo.

Ele gemeu baixinho, olhando para o teto com seus olhos mortos. Rin mordeu os lábios, quase deixando um soluço escapar, e penteou-lhe os cabelos cheios de nós.

Seus dedos caminharam pela sua testa quente, olhos, lábios. Colou os seus próprios nos dele. Pensou que ele a morderia, mas nem disso parecia ser capaz, então ela mesma o fez.

Ele precisava lembrar que mesmo que um infinito de pessoas o odiassem, uma amava mais que tudo. E era isso que importava.

Sentiu com a língua um dente faltando, um dos pontudos, provavelmente arrancado para causar-lhe dor. Len iria querer ficar mastigando alguma coisa quando voltasse a crescer. Talvez pudessem achar um mordedor por aí quando estivessem livres.

Não iriam morrer ali. Rin decidira naquele momento que não deixaria.

Beijou-lhe o rosto inteiro diversas vezes. Len tentou se erguer, mas era fácil ver que não iria conseguir. Era de partir o coração, o jeito que ele tremia e desistia, só para voltar a tentar poucos segundos depois, seus pequenos grunhidos frustrados nunca cessando.

– Calma – ela pediu, voz embargada. Deuses, como doía... Tentou mantê-lo quieto da forma mais doce possível, do modo que menos o machucaria – Isso, feche os olhos. Só vai doer mais se não ficar parado.

A febre dele piorava, e a menina temeu que fosse pegar fogo a qualquer momento. Deveria ter frio, e ela vasculhou o casaco, até que seus dedos tocaram em pêlos macios. Desdobrou a pele, e o cobriu com ela.

Ficou bonito, combinava com ele.

Len cheirou o ar. Respirou fundo, e fechou os olhos como Rin havia pedido, sem querer abrí-los tão cedo. Tinha cheiro de carinho. Carinho e leite. Não perguntou de onde vinha, não tinha condições para isso. Abriu os olhos cansados, uma onda de dor o assaltou. Fez uma careta, e Rin o abraçou.

– E-eu... – pôs para fora, sua visão ficou pior ainda, e sua cabeça parecia querer explodir. Falar parecia uma tarefa impossível – Eu...

– Você... – parecendo perceber, Rin massageou suas têmporas, aliviando um pouco a cabeça.

– Eu a-amo você – murmurou.

Ela sorriu, tirando os cabelos molhados de suor da testa do louro.

– E eu você – beijou-lhe, uma, duas, três vezes – Muito.

Ele tentou de novo se levantar.

– Pare, Len! — ela implorou, fazendo com que voltasse a se deitar — Por favor, pare com isso!

– Eu n-não gosto daqui — disse, como se fosse um segredo — Podemos i-ir embo... — tossiu, e seu corpo todo tremeu. Era terrível ver alguém como Len naquele estado — ... embora?

– Eu vou pensar em algo — garantiu — Vou pensar em algo.

E os dois, cientes de que não podiam fazer mais nada, esperaram.

E rezaram.

Notas finais
Pobre Len.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.