As Aventuras de Rin Casaco Marrom
22 Aquele com formigas vermelhas.
Notas iniciais
Kaito lembrou-se do dia em que ele e Miku estavam brincando nas pedras que ficavam um pouco acima do nível do mar. Não nevava na pequena ilha em que passaram a vida inteira e, sem nunca ter saído de lá, aquele era todo seu mundo, todo seu universo.
Mas uns velhos marinheiros descreveram um lugar gelado no qual desembarcaram, onde as crianças jogavam bolas de neve uma nas outras, andavam de trenó na neve e faziam bonecos de neve. Ele se lembrou de como Miku ficou encantada com a ideia e de como ele achou que, já era o aniversário de cinco anos dela, poderiam jogar pedrinhas um no outro, para pelo o menos fingir ser neve.
Ela não pareceu se importar. Na verdade, fazia muito tempo que ele não a via tão satisfeita.
A mãe das duas crianças avisara que deveriam ser cuidadosos. Que, mesmo a maré não estando alta, as pedras da borda estavam verdes e escorregadias. Ele se lembrou de quando ela se aproximou demais do fim do monte de pedregulhos, se era para pegar mais pedrinhas ou apenas apreciar a vista do mar, ele nunca descobriu.
Ele escutou um grito e, quando tirou os olhos dos cadarços ainda desamarrados, não viu Miku em lugar nenhum. Ou ela havia sido levada por águias gigantes (ele ainda tinha medo de que fossem reais), ou havia caído no mar agitado lá em baixo.
Se lembrou de como foi até o ponto onde Miku estava há poucos segundos. Se lembrou de olhar para baixo. Se lembrou de ver bracinhos curtos e magros se debatendo, afundando. Miku não sabia nadar.
Se lembrou de que, desesperado e sem ideias, pulou para a água morna do sol escaldante do meio-dia. Ele sabia que também não fazia ideia de como escapar do mar violênto. Mas agora ele tinha a satisfação de que a irmã estava em seus braços, não nos braços da maré.
Se lembrou de como uma onda especialmente grande arrastou os dois para o fundo. De como giravam tanto que ele não sabia o que era fundo e superfície. De como seus pulmões ardiam tanto que pareciam que iam explodir.
Se lembrou de ter ficado com frio. Muito frio. Sentiu as mãos ficarem dormentes, e teve a sensação de que o nariz poderia cair a qualquer minuto. Mas nada daquilo realmente o incomodou. Se lembrou de ter ficado cansado.
Kaito, o Grande, se lembrou da primeira vez que sua habilidade se manifestou.
Ficou acordado até o momento em que percebeu que uma camada de gelo se formou abaixo deles, e que os fez boiar até a superfície. Se lembrou da maravilhosa sensação de repirar de novo, mesmo que tossissem a água salgada ao mesmo tempo. Se lembrou de Miku chamando o seu nome com voz chorosa e o chacoalhando com sua pouca delicadeza de criança, mas parecia cada vez mais distânte. Se lembrou de como pensou que estava morrendo.
Se lembrou de ver finos e frágeis flocos de neve caindo do céu até seu rosto e cabelo. Depois apagou, e acordou em casa.
Mas pareceu que seu subconsciente selecionou aquela lembrança em especial para lembrá-lo de que, se uma vez salvou Miku, poderia salvar novamente. Iria salvar novamente.
Ele não sabia o que faria, só sabia que faria alguma coisa, não importava o quê. Não precisou reunir coragem, porque não estava sentindo medo. Só sentia determinação.
Correu até o local mais próximo do gigante onde estaria livre do perigo de ser esmagado. Mas logo depois desistiu e continuou a avançar, porque seria mais fácil congelar alguma coisa se estivesse tocando nela. Se tentasse fazer isso à distância poderia morrer devido à energia drenada. Como quase acontecera quando salvou Rin e os outros naquele dia na água.
Se eu puder pelo o menos distraí-lo, pensou, abrindo uma garrafa de água. Não havia muita água lá dentro, sem dúvida, insuficiente para cobrir o pé do monstro. Mas toda ajuda é bem-vinda.
Conseguiu aproximar-se sem muitos problemas, já que seu rival não estava prestando atenção nele na hora. Respirou fundo e jogou a água no pé direito do homem. Aquilo foi o suficiente para que olhasse para baixo, cenho franzido.
E a expressão confusa tornou-se uma careta quando metade de seu pé foi coberto por gelo. E esse gelo espalhou-se até o tornozelo. Tentou movê-lo, mas estava bem preso ao chão.
– Incrível! – Miku comemorou, observando o que acontecia lá em baixo – Kaito melhorou bastante! Conseguiu prender o pé desta coisa! – virou o rosto para Neru esperando que carregasse a mesma expressão alegre que tinha. Ao invéz disso, deu de cara com uma Neru horrorizada.
– Pelos deuses e pelo palácio! Pare já com isso! – berrou, na esperança de que o azulado, de alguma forma, ouvisse seu pedido.
– O que!? Parar!? – questionou a esverdeada – Ele está nos ajudando!
– Você não entende? Esta coisa vai... – não houve tempo de terminar a frase. As duas foram jogadas até a palma da mão imunda do gigante, e perceberam os dedos fechando-se ao seu redor.
Por favor, que ele não nos esmague! Rezou Neru
E, como se o próprio destino quisesse contrariá-la, os dedos foram se fec hando com cada vez mais violência. As duas engoliram em seco quando perceberam que nem podiam mais ficar separadas, devido ao espaço restante. Logo não podiam nem mover os braços e as pernas. O ar estava ficando podre e escasso...
O gigante olhou para a coisinha lá em baixo e focou sua atenção em tentar tirar o pé agora dormente daquela armadilha. Enquanto isso, o mundo de Kaito começou a ficar turvo ao seu redor. Ele quase não conseguia sentir as pernas. Prendeu a respiração e tentou pensar em coisas frias, como uma geleira, um iceberg ou... um boneco de neve.
Manter aquela coisa presa ao chão estava exigindo muito dele, e não sabia quanto tempo aguentaria a pressão.
– Funcionou quando eu era criança! – gemeu, quase sem forças – Funcionou quando eu era criança, maldição!
– Pare! – ele sabia que aquela voz era de Meiko. Não a confundiria com nenhuma outra no mundo – Vai se matar!
– Preciso salvar minha irmã... – ela com certeza não ouviu o que ele disse. Alguma coisa grande e pesada o derrubou, tirando-lhe de seu estado de concentração.
A coisa, que revelou ser ninguém menos que Len, puxou-lhe pela camisa, arrastando-o para longe do perigo.
– Me largue! – forçou-se a falar, mesmo com a garganta seca. Se debateu e cravou as unhas na mão que o puxava, já que era a única coisa que alcançava. Não pareceu fazer muito efeito, resultando apenas em um rosnado de resposta.
Continuou a fazer de tudo para que o soltasse mas, em seu estado, não fazia muita coisa além de irritá-lo. Em certo momento, Kaito gritou em plenos pulmões não porque estava com raiva, mas porque havia uma mão enorme vindo em sua direção, pronto para agarrá-lo.
Só assim Len largou sua camisa e saltou na direção da mão. Um ato que o azulado não sabia se era bravo, ou completamente estúpido. O louro abriu corte e arranhões na pele do gigante, talvez se tivesse mais tempo, pudesse ter quebrado um dedo, ou algo parecido.
O azulado tentou ficar de pé, tonto e cambaleante. Cada passo era um desafio. Sentiu umpar de braços lhe oferecendo apoio, e Meiko assustou-se ao perceber os olhos chorosos de Kaito.
– Ela vai morrer – soluçou – Ela vai morrer e eu não posso fazer nada!
A morena suspirou e limpou-lhe as lágrimas, murmurando um fraco “pare de falar bobagens, Miku vai ficar bem”, que não enganou nem a ela própria. E nesse momento, Len foi arrastado pela terra, deixando uma trilha por onde passava. Nem se lembrava direito o que lhe havia atacado.
Rosnou e se preparou para voltar para o campo de batalha, mas a mão estava novamente fora de alcance, e até ele sabia que era imprudente tentar atacar os pés do monstro. Um chute e estava morto. Olhou para Rin, esperando alguma ordem ou plano.
Mas ela estava completamente sem ideias. Procurava algo ao redor que fosse útil, mas nada era grande o suficiente. E mesmo que fosse, como levantaria tal coisa?
Maldição! Odeio deixar o destino agir sozinho!
O gigante balançou a cabeça e lambeu os cortes causados por Len, sem se importar com os outros lá em baixo. Abriu a mão com as duas presas dentro, que respiravam profundamente pela primeira vez desde que a fechara.
As duas tentaram ficar de pé e esticar os membros doloridos, mas a alegria durou pouco, pois perceberam que estavam na mesma situação de antes, estando prestes a ser devoradas.
– Espero que Kaito não repita o que fez dessa vez! – Neru colocou a mesma flecha na corda.
Respirou fundo e tentou ignorar os incómodos sons que invadiam seus ouvidos (especialmente os gritos desesperados de Miku). Mesmo que isso não a ajudasse a preparar um plano, preferiria morrer no silêncio.
Como fazia sempre que tinha um problema ou precisava se concentrar, cantarolou na própria mente a música que a mãe cantava para fazê-la dormir em uma noite particularmente tempestuosa.
Não se lembrava de ter pedido para a esverdeada segurar-se firme nela (talvez houvesse pedido e não recordava, ou talvez ela o tivesse feito por vontade própria), mas não importava, era exatamente isso que deveria fazer.
Mirou cuidadosamente e escutou o ranger das corda do arco, quando esta foi puxada. Quando estava certa de que acertaria o alvo, deixou a flecha seguir seu caminho.
Não. Não estava mirando nos olhos do gigante.
Foi com grande satisfação que observou a flecha cravar-se bem na úvula do homem colossau. Uma flecha no olho seria um ataque inteligente, mas ninguém aguenta algo preso na garganta.
O monstro soltou um guincho que realmente não condizia com seu tamanho, e em um rápido movimento, soltou o lanchinho, mais preocupado em usar as mãos ou para tirar o graveto de dentro da boca, ou para conter o vômito. Não tinha certeza.
Neru, ao perceber que estavam e queda livre, suspirou exasperadamente. Esquecera, em seu calmo desespero (mas ainda assim, desespero), esse pequeno grande detalhe. Ao contrário do que muitos acreditam, uma flecha com uma corda na ponta não era capaz de suportar o peso de duas mulheres com mais de quarenta quilos cada.
E agora?
Para sua surpresa, Miku itensificou o aperto ao seu redor, e quando procurou o motivo, viu que ela segurava uma corda com a outra mão. Não foi capaz de descobrir onde estava a outra extremidade, mas esperava com todas as forças que estivesse presa em algum lugar na árvore próxima.
– Agora você se segure! – gritou em meio ao ensurdecedor barulho do vento.
– Não vamos conseguir chegar ao chão! – a loura segurou mais firme ainda.
– Vamos, sim! – garantiu Miku – A corda é longa.
E a proxima coisa que sabia era que a queda havia sido agressivamente interrompida, tanto que sua cabeça foi jogada para trás com força perigosa, quase lhe quebrando o pescoço.
Agora avançavam mais para frente que para baixo. A poucos metros, o gigante ainda lutava para se livrar da cruel flecha.
Quando a altura já era o suficiente para que não morresse, Neru desprendeu-se de Miku e foi de encontro ao úmido chão, usando o velho truque de rolar para absorver o impacto. A terra grosseira ralou-lhe o braço, mas não houve machucados graves.
Miku, após alguns segundos, tratou de soltar-se da corda. Sua aterrissagem fez Neru ficar boquiaberta por um momento. Ela não era fácil de impressionar, mas a esverdeada achou um modo de cair sem rolar no chão sujo, e sem sofrer danos.
– Sou uma ladra – explicou, rindo – Ou você aprende a lidar com quedas, ou é preso.
– Por que você carrega uma corda daquelas? – observou o objeto balançando a mando do vento, e descobriu que o cancho prendera em um galho da árvore enrugada à sua direita.
– Nunca se sabe – deu de ombros – Talvez algum dia eu tivesse vontade de roubar o banco central. Precisaria descer do prédio de alguma forma.
Rin ficou feliz ao ver que as duas haviam escapado com vida, mas fez uma careta ao cheirar o ar. Nunca havia sentido o cheiro de vômito de gigante antes, mas apostava tudo que tinha que era exatamente isso que estava causando o odor azedo, que a fazia lacrimejar.
Observou o enorme homem freneticamente procurando um modo de se livrar do desconforto da flecha, até que na última tentativa, a mão saiu de dentro da boca com o palitinho entre o indicador e o polegar. Tossiu, se endireitou e procurou lá em baixo sua comida que escapou. A menina engoliu em seco e olhou para os companheiros, que pareciam tão assustados quanto ela.
E então seu olhar pousou em marcas quase invisíveis, que a terra havia registrado. Pegadas. E pensou, se não poderia vencê-lo com as próprias mãos, outro alguém poderia.
– Separem-se, agora! – berrou – Não fiquem juntos!
Foi com muita relutância que Len obedeceu, mas os outros não perderam tempo em correr para achar abrigo, enquanto a menina ficava onde estava. Todos menos Neru.
– O que está fazendo? – questionou.
– Meu trabalho – a mais velha puxou a manga da roupa, descobrindo a pele lascada –, Protegendo você
– Na verdade seu trabalho é proteger a todos nós – Rin desembaiou a espada, mesmo que não acreditasse que fosse ser muito útil.
– O resto não parece precisar de proteção – provocou, cobrindo o corte no braço.
– Você... – ia responder, mas um grito a fez derrubar a espada e tapar os ouvidos. O gigante estava pronto para reiniciar a batalha.
Ele não estava feliz.
Mais uma vez tentou usar o pé para esmagá-las, mesmo sabendo que as duas moças possuíam uma agilidade maior que de uma formiga. Rin tomou a espada em mãos e pulou para o lado. Foi brava o suficiente para espetar o pé do gigante antes que ele tivesse tempo de tirá-lo do chão.
Tinha um progeto de ideia de como derrotar o inimigo, mas para isso precisaria chamar-lhe a atenção. Por mais que isso teoricamente se tornaria uma tarefa mais fácil se ela tirasse o casaco de Len, preferia usar o metódo de “surrá-lo até que fique com raiva”, porque pelo o menos teria a garantia de que não seria comida, e sim, esmagada.
Ele gruniu, e fez a mesma coisa com o outro pé, mas dessa vez com toda a atenção voltada para a menina. Rin escapou por muito pouco do ataque, mas um sorriso amargo se formou em seu rosto. Empunhou a espada e, em um golpe rápido, cortou fora o menor dedo do pé do gigante.
O sangue era grosso e escuro, e a menina teve que correr para que ele não jorrá-se em todo seu corpo. Os gritos faziam o chão tremer, mas ela estava decidida a não largar a espada novamente. O adversário se afastou alguns passos, e a menina aproveitou para correr o mais rápido que seu corpo permitia.
Isso deveria ser o suficiente. Ele a seguiria.
Precisava se afastar. Seguir as pegadas de gato gigante.
Percebeu que algo se aproximava, e estava prestes a golpear fosse o que fosse com a espada, mas então percebeu que era apenas Neru.
– Com mil demônios! – arfou – O que pretende fazer?!
Rin apontou para as marcas no chão, que se encobriam com folhas e dificultavam a visão, mas com certeza estavam ali.
– Vamos torcer para que seja lá quem for o dono dessas pegadas esteja faminto! – explicou.
– E que não esteja com vontade de comer a nossa carne! – acrescentou.
Pararam em um local onde as pegadas desapareciam.
– Me ajude, Neru – pediu – Me ajude a achá-lo.
Não sabiam quanto tempo o dedo perdido seria motivo de atraso para o gigante, só sabiam que tinham que agir depressa. Não havia sinal de nenhum grande felino na área. Procuraram atrás de todas as árvores e todos os arbustos. Nada.
– Isso é impossível! – Rin ainda não havia desistido de procurar. O chão tremia, passos eram ouvidos – As pegadas acabam aqui, tem que estar por perto!
– Tenha calma, pequena – Neru tentou tranquilizá-la – Controle suas emoções, e tenha sangue frio. Guarde seu desespero para quando ele for útil.
Rin engoliu em seco e em vão tentou controlar seu coração. Talvez aquele conselho tivesse sido dado tarde demais para ser posto em prática naquele momento, mas isso ajudou a menina a limpar sua mente. O que lhe deu a chance de escudar um fraco miado vindo de um galho baixo.
Um filhotinho de pantera (ou seria uma onça?) olhar para ela com olhos curiosos. Por um momento pensou que aquela era a causa das pegadas, mas percebeu que aquelas patinhas não poderiam ter feito isso.
Onde está sua mãe? Não tirou os olhos dos galhos lá em cima, procurando uma pantera maior. Será que eu poderia falar com ela?
Os gritos do gigante ficavam cada vez mais altos, e o filhote se encolhia, um tanto assustado.
– Não, não tenha medo – Rin sabia que ele não entendia, mas falou do mesmo jeito, abanando os braços e pulando – Você está curioso, não? Desça então!
Neru entendeu o que estava acontecendo e pôs-se a tentar chamar a atenção do bichinho ao lado da companheira. O felino miou mais uma vez e desceu, pronto para cutucá-las com as patinhas ainda rosadas.
E foi nesse momento que uma figura grande e monstruosa surgiu em meio as árvores. O gigante bufava, e seus olhos escuros praticamente soltavam fogo. Quando viu o filhote próximo à suas presas, não hesitou em agressivamente puxá-lo pela pele, colocando muita força, e o fazendo choramingar.
E fazer mal àquele bichano foi a última coisa que ele fez na vida.
Vinda dos mais altos galhos, uma pantera adulta surgiu. Não parou para cheirar o ar ou examinar o inimigo. Pulou no pescoço do homem e rasgou todas as veias e quebrou todos os ossos lá localizados. O filhote foi largado e este se escondeu em um arbusto qualquer. Enquanto a mãe dilacerava o gigante já morto desde o primeiro ataque. O sangue quase não era visível no pelo preto.
As duas nem recisaram trocar palavras para saber que ambas queriam se afastar. Olharam de relance para o homem gigante desfigurado e partiram.
– Uma mãe protegendo sua cria é mais temível e mais mortal que qualquer guerreiro no mundo – murmurou Rin, lembrando-se das palavras de um velho de seu vilarejo.
– É, sim – concordou Neru – Ela vai desafiar todos os deuses e todos o demônios da Terra, do Céu e do Inferno. E depois vai matá-lo do pior jeito que puder pensar. E ainda jogará seu corpo para os cães vagabundos do norte.
A menina fitou a mais velha por um longo tempo, mas não recebeu explicação para o desabafo. Como não ousava perguntar diretamente sobre sua família, deceidiu ficar calada.
O silêncio reinou por quase toda a trilha, sendo interrompido apenas uma vez quando a mais nova perguntou, mais para si mesma do que para a outra, quanto tempo será que demorariam para chegar ao lugar onde foram atacados pelo homem gigante pela primeira vez. E quando o fizeram, Len foi o primeiro a sair de seu esconderijo, que, para surpresa e curiosidade de Rin, era um buraco no chão.
– Você cavou isso... – ela não tinha certeza se era uma pergunta ou afirmação. Ele estava completamente sujo de terra, então não poderia ter sido outra pessoa, mas era difícil acreditar que alguém pudesse ter cavado um buraco grande daqueles em tão pouco tempo. Então ela deu de ombros, lembrando-se de que se tratava de Len.
Ele balançou a cabeça em afirmativa, e se dirigiu até o buraco. Debruçou-se e a próxima coisa que a menina viu foi uma larva gorda e pálida ser retirada do fundo da terra. Onde ela imaginou que deveria ficar a cabeça era uma confusão de entranhas roxeadas.
– E achei comida – um sorriso orgulhoso estava estampado no rosto dele.
– Onde estão os outros? – Neru olhou ao redor.
– Eles disseram que voltariam quando achassem que fosse seguro – o rapaz se sentou e pôs a larva no colo, como se indicasse que estava com fome e que uma pausa para comida nunca machucou ninguém – Só eu fiquei.
Foi com muita alegria que ele percebeu que Rin rasgava uma folha em vários pedaços e que arrastou para perto um pedaço de galho fino o suficiente para ser partido em vários tamanhos. Feito o montinho de palha, tirou um isqueiro do bolso.
– Vai mesmo acender uma fogueira? – Neru fez uma careta
– Teríamos que fazer isso alguma hora – deu de ombros.
Len cortou a larva de modo que as partes com mais carne ficassem com formato de bolo, e as com menos, formato de tiras. Rin, dessa vez, veio preparada, com alguns frascos contendo temperos como sal e pimenta. Ela nunca havia comido carne roxa antes, e teve a triste surpresa de que não tinha gosto de frango, como tudo que era exótico tinha. Na verdade, não tinha gosto de quase nada.
Meiko chegou ao local primeiro que os dois irmãos, e Len já havia devorado quase toda a comida, e só o que restou para a morena eram tiras finas de carne. Kaito e Miku quase não receberam comida. O que foi um problema, porque Kaito estava mais morto que vivo.
– Está ficando escuro – murmurou Miku.
– Aqui já não é o lugar mais iluminado do mundo – Rin salientou – Deve escurecer mais rápido, também.
– Então, especialista em sobrevivência – começou Meiko – Alguma ideia de onde devemos passar a noite?
Neru não respondeu à parte de “especialista em sobrevivência”, e seu olhar parou no buraco de Len.
– Um buraco é uma boa opção – mastigou o último pedaço da carne – Inimigos só podem entrar por um lado e o calor se mantêm — olhou para Len – Será que pode deixá-lo maior? De modo que abrigue todos nós?
O rapaz disse que sim, mas pediu alguns minutos de descanso, porque não queria cavar com estômago cheio. Espreguiçou-se e, com um suspiro satisfeito, deixou-se deslizar até o fundo do buraco. Não sabia se deveria ampliá-lo nas laterais ou na profundidade, então fez os dois. Esperava poder encontrar mais comida no meio do caminho. A cada minuto que se passava, o montinho de terra que se acumulava lá fora ficava maior.
O espaço lá dentro já seria o suficiente, mas ele imaginou que as pessoas iriam apreciar poder esticar as pernas enquanto dormem, por isso continuou o trabalho. Teria que tomar cuidado para que não cavasse fundo demais, de modo que os outros não conseguissem mais sair, por isso ocupou-se mais em aumentar as laterais.
E o chão começou a rachar.
Havia várias coisas que ele considerava que poderiam acontecer enquanto estava cavando. Achar água era uma delas. Achar mais larvas era uma delas. Um deslizamento era uma delas.
Cair em outro buraco, entretanto, não era uma delas.
Mesmo assim, lá estava ele, de bruços, com rosto, peito e mãos doendo e ardendo e uma fina camada de terra ainda caindo em suas costas. Sentou-se, completamente tonto e confuso. Esperou o mundo ao redor parar de girar para olhar para cima. Lá estava, um buraco no teto, que anteriormente havia sido seu chão.
Meiko e Rin chamavam seu nome, querendo saber se estava vivo ou morto. Só conseguia ver o contorno escuro delas, devido ao sol, mesmo este sendo fraco. Respondeu, na verdade, com outra pergunta; um rápido “onde estou?”.
– Já vou descer! – Rin usou as mão em concha, para amplificar a voz. Antes que alguém pudesse impedi-la, a loura deslizou pela fenda no chão e caiu até onde Len estava.
– O que estão vendo?! – Neru quis saber.
A menina acendeu uma lanterna que havia comprado na Aldeia do Marfim. Não viu nada além de um tunel claramente resistente, feito com capricho. Usou as dobras dos dedos para bater na parede, mas nem uma lasquinha se soltou. O buraco do teto só foi criado porque Len o deixou muito fino.
– Só um tunel! – respondeu.
Sem aviso Meiko desceu até onde estavam. Tão sem aviso quanto sua chegada, uma trilha de fogo se formou. Em uma extensão de vários metros, o chão foi coberto por um tapete de chamas, mas não ouviram ninguém agonizando no meio delas.
– Parece estar vazio – a morena deu de ombros.
Neru foi a próxima a pular no buraco. Limpou a sujeira das mãos, usadas na aterrissagem, e examinou os dois lados do tunel. Nenhum deles aparentava possuir uma saída, ambos se perdendo em escuridão em certo momento, mesmo iluminados pelo fogo de Meiko.
– Devia ser a casa de algum animal – a arqueira preparou uma flecha, aguçando a audição.
– Larva? – opinou Len.
– Não – respondeu – Parece mais com um formigueiro. Mas, a julgar pelo fato de não termos sido atacados, imagino que esteja abandonado.
– Então podemos passar a noite aí em baixo? – a voz de Miku reverberou-se por entre as paredes estreitas. Pelo o visto, ela tinha uma exelente audição.
– Melhor que isso – respondeu Neru – Às vezes, esses formigueiros se extendem por quilômetros. Podemos chegar ao centro da floresta por meio dele.
O rosto de Rin se iluminou. Era uma das melhores notícias que ouvia em um bom tempo.
– Então vamos! – comemorou – O que estamos esperando?
– É claro, cruzar uma floresta sem dormir é completamente viável – Neru usou um tom sarcástico – Existem milhares de passagens e saídas aqui dentro. Precisamos estar completamente alertas e preparados para enfrentar um labirinto.
– Ah... – Rin passou a mão pelos cabelos, a ponta das orelhas esquentando – Verdade. Perdão.
– Mas não é má ideia darmos uma olhada pelos arredores – Meiko defendeu a menina – Pode haver alguém, ou alguma coisa, por aqui.
Neru cruzou os braços, em um suspiro. Depois olhou para Rin, sobrancelhas arqueadas, como se esperasse alguma coisa dela.
– O quê? – deu de ombros sem entender.
– O que faremos? – verbalizou a pergunta – Parece que, por mais estranho que isso seja à meu ver, é você que dá a palavra final.
Rin olhou para os lados, mordendo os lábios, depois decidiu.
– Meiko e eu vamos dar uma volta – começou – Vocês ficam aqui e, caso nos percamos, gritaremos, e vocês gritam de volta, tudo bem?
O resto murmurou um fraco “entendido”. Len pareceu ferido ao não ser convidado para ir com ela, então explicou que ele precisava ficar porque Kaito estava cansado e Miku precisava ajudá-lo e, mesmo que as flechas de Neru fossem eficiente com diversos inimigos, ela estaria em mortal desvantagem se fossem atacados por algo com carapaça dura, que era o caso da maioria dos insetos cavadores.
E assim Rin e Meiko adentraram nos escuros túneis, a menina deixando para trás sua lanterna e a morena iluminando o caminho com uma das espadas.
– Parece que voltamos para o começo – riu a loura.
– É, mas agora você não é mais aquela pirralha desajeitada que eu encontrei à beira da morte no meu quintal – Meiko mordeu os lábios, sorrindo também – É uma pirralha da qual me orgulho.
Rin sentiu um bom sentimento percorrer seu corpo. Era como se um pedaço de si que não sabia que estava faltando fosse preenchido. E se perguntou se aquela era a sensação de ter uma mãe.
Mas depois percebeu que não conseguia ver Meiko como uma mãe, não só pelo fato de ela não ter idade para isso, mas também por vários outros motivos. Talvez a visse como uma irmã? Um modelo?
Em toda sua vida de órfão Rin nunca teve um modelo para “admirar”. Aquele normalmente era papel das mães ou irmãs mais velhas, quando se é uma menina, e pais e irmãos mais velhos, no caso dos meninos. Não se lembrava de nenhuma menina mais velha que fosse próxima a ponto de ser tão especial.
Na verdade, a única pessoa mais velha que realmente tinha intimidade era Piko, um moleque com uma diferença de três anos dela. Ele era magrelo e esquisito, e o único que tinha coragem de participar de seus planos para enfrentar o tédio (entrar na casa da bruxa, por exemplo, que na verdade era só uma velha rica e esnobe, que até lhes deu bolinhos de chocolate).
Piko contava piadas como ninguém e gostava de caçar minhocas. Dissera-lhe, uma vez, que pegou uma com mais de cinco metros de comprimento, mas ela sabia que ele não tinha noção nenhuma de quanto valia um metro (nem ela tinha). Também lembrava de que ele precisava passar protetor solar o tempo todo porque ficava vermelho de sol muito rápido, e que tinha alergia a gatos, mas ainda assim gostava muito deles.
De repente sentiu saudades do melhor amigo, que foi adotado sabe-se lá por quem. Quando tudo aquilo acabasse, estava decidida a procurá-lo, para contar-lhe todas as novidades. Esperava com todas as forças que ele ainda se lembrasse dela.
Além de lembranças antigas, Rin não encontrou nada de muito especial nos túneis. Uns fungos aqui, uns pedaços de folhas ali. E só. Não ficou exatamente decepcionada, porque nem mesmo sabia o que achava que iria encontrar.
Estava esperando que Neru fizesse alguma piadinha por terem voltado de mãos vazias, mas só o que fez foi balançar um pouco a cabeça, indicando que percebeu que retornaram. E a menina chegou a conclusão de que aquela era a diferença entre ela e Meiko. Meiko poderia ser rígida e responsável, mas ela possuía seu humor sárcastico (e um pouco cruel) para aliviar essa imagem.
Neru não.
Imaginava se ela estava passando por alguma dificuldade.
A arqueira deitou e enrolou-se nas cobertas, mas manteve seu arco bem ao seu lado. Kaito já estava adormecido desde a hora em que saíram. A loura colocou seu saco de dormir entre o de Len e o de Meiko.
Esticou o corpo cansado, e caiu no sono rápidamente. Teve um daqueles sonhos em que se está caindo e acordou. Dormiu de novo logo depois, e sonhou com jardins e rosas vermelhas como sangue. No meio do sonho, alguém chamou seu nome. Não dentro de sua cabeça, mas fora.
Abriu os olhos e bocejou. Ainda era noite.
– Rin... – a voz feminina chamou de novo. Vinha das sombras do túnel.
Todos ainda dormiam.
– Rin...
A menina levantou-se, grogue de sono e cambaleante. Talvez fosse exatamente por causa de sua mente ainda turva que não teve medo.
– Miku? – falou em meio a um outro bocejo. A voz era fina demais para pertencer a Meiko.
– Rin...
– Neru? – tentou de novo, indo em direção a voz. Infelizmente não havia vestido o casaco, e não havia nada que iluminasse seu caminho. Tateou as paredes e acabou encontrando a dona da voz.
– Olá – agora que estava mais acordada percebeu que não era a voz de ninguém que conhecia.
Engoliu em seco e deu um passo para trás.
– Qual é o problema? – questionou – Não se lembra de mim?
– N-nem consigo vê-la nesse escuro – protestou a loura, sem conseguir conter o gaguejo no ínicio da frase – Nem consigo ver minhas próprias mãos.
– Ah, me perdoe – desculpou-se – Às vezes me esqueço que nem todos são como eu – vasculhou em uma sacola até achar uma caixa de fósforos. A luz criada era fraca e trêmula, e fez com que o rosto da moça ficasse fantasmagórico.
Os cabelos eram lisos no começo, mas ficavam um tanto ondulados nas pontas que chegavam até suas coxas. Também era loura, e também tinha olhos azuis. Grandes olhos azuis. As pupilas, ao invéz de serem arredondadas, mais pareciam fendas escuras. Usava um manto branco como vestido.
– Com todo o respeito, não me lembro de tê-la visto antes... – e então uma memória atingiu sua cabeça quando percebeu as orelhas peludas e escuras da moça. Orelhas de gato – E-espere... SeeU...?
– Vejo que não sou tão insignificante assim – sorriu, revelando os dentes pontudos – A maioria das pessoas não me reconhece sem uma dica ou outra.
– O que faz aqui – gesticulou não apenas indicando o túnel, mas a floresta inteira.
– Gumi pediu para que eu falasse com você – Rin inclinou-se para frente, pedindo que continuasse. A gata acendeu um fósforo novo e passou a chama para uma vela preta – Por que não nos disse que levava a armadilha consigo?
– Armadilha? – repetiu.
– Essa coisa em formato de livro – explicou.
– Ah... – a menina sentiu a garganta seca, imaginando se deveria falar ou não corrigí-la – ... o não livro.
– Alguns preferem chamá-lo assim – concordou a gata – Mas Gumi o chama de “armadilha”.
– Gumi conhece o não livro – não foi uma pergunta.
– Gumi estava lá quando foi criado – garantiu SeeU.
– O que ele é, exatamente? – as mãos de Rin estavam ficando suadas, o sono, já esquecido – Por favor, me diga.
SeeU coçou a cabeça, mordendo a parte de dentro da boca.
– Eu não sei – admitiu – Mas Gumi sabe, e eu vou levá-lo para ela agora, enquanto você continua com sua vida normal.
– O que?!
– Você me ouviu. Essa coisa é perigosa, e eu vou levá-la comigo – SeeU a tirou do caminho, indo em direção ao saco de dormir da menina, em busca do que procurava.
– Eu não vou simplesmente deixá-la levá-lo embora depois de tudo o que passei! – Rin segurou o braço da outra – E principalmente com essa porcaria de desculpa! “Ele é perigoso”, oras, tudo ao meu redor é perigoso ultimamente! – continuou – Se quer tanto o não livro, por que a própria Gumi não vem buscá-lo? Vejo que, no final das contas, ela é minha inimiga!
SeeU virou-se para encará-la, irritada. Os olhos felinos lendo sua alma.
– Gumi não é sua inimiga – falou lentamente – Está salvando sua maldita vida. A armadilha não deve estar na posse de uma pessoa tola como você!
– Por que é tão perigoso? – Rin sibilou – Se é tão mortal, diga-me a razão!
– Eu já disse que não sei – SeeU apróximou a vela da mão que segurava seu braço, obrigando-a a soltar-se – Gumi deu informações vagas.
– Então vamos fazer assim – a menina fechou os punhos – Quando eu terminar o que tenho que fazer aqui, você me leva até sua mestra... dona... seja lá o que Gumi é para você. E ela vai me dar um bom motivo para acreditar em sua palavra, entendido?
SeeU mostrou os dentes, e estava prestes a dizer alguma coisa quando uma voz que não pertencia a Rin se pronunciou.
– Pequena? O que faz acordada? – Neru. Só podia ser.
A gata largou a vela em um pulo, e novamente a escuridão tomou conta do mundo ao redor da menina. Isso até a lanterna de Neru quase cegá-la ao ser apontada para seu rosto.
– Pequena? – repetiu – Com quem estava falando?
Rin engoliu em seco, um calafrio lhe subindo a espinha. Não queria falar nada sobre o ocorrido com ninguém, pelo o menos não até que as coisas estivessem esclarecidas. E um miado foi ouvido ao seus pés.
– Eu achei uma gatinha – pensou rápido, tomando SeeU nas mãos – Estava falando com ela.
– De onde veio esse gato? – impressionou-se a arqueira, depois viu o manto branco no chão e a sacola logo ao lado – Será que a dona foi morta?
– Deve ter sido isso – coçou o queixo da gata, que ronronou feliz. Muito mais amigável nessa forma, pensou.
– Então podemos comê-lo no café da manhã?
SeeU enfiou as unhas no braço de Rin, que pulou de susto, mas conseguiu esconder isso da outra.
– Por que fariamos isso? – riu nervosamente – Se fosse pelo o menos um gato gordo... Ela é só pele e osso.
Neru arqueou uma sobrancelha, mas deu de ombros no final de contas.
– Volte a dormir, temos um longo caminho pela frente.
Rin obedeceu, e seguiu a mais velha até onde estavam os outros. Ficou surpresa quando SeeU se encolheu em uma bolinha em sua barriga assim que deitou-se. Pôs o não livro debaixo do travesseiro, onde a gata não poderia furtá-lo. Mas o bichano já estava adormecido há muito tempo.
Eu devo cheirar muito bem, olhou para Len ao seu lado, dormindo profundamente.
– Por que o não livro é perigoso? – foi a última coisa que susurrou antes de pegar em um sono pesado.
. . .
Rin acordou com um par de patinha lhe arranhando o rosto, a ponto de fazê-lo sangrar em alguns pontos. Bufou e usou as mãos para tirar SeeU do rosto, olhos quase se fechando novamente. Mas a gata voltou a arrancar sua pele poucos segundos depois. Foi empurrada de novo. E depois voltou.
– Será que você não vai me deixar dormir nunca?! – resmungou, mas arregalou os olhos ao ver que o túnel não estava tão vazio quanto pensavam.
Chacoalhou Len e Meiko até que acordassem. Maldição, por que não deixaram ninguém para vigiar enquanto os outros repousavam? Os dois pareciam tão grogues quanto ela, mas o sono foi perdido quando deram uma olhada ao redor.
As paredes, o chão, o teto, estavam todos cobertos por formigas vermelhas. As pinças que poderiam cortar um homem em dois batendo, ameaçadoras, os olhinhos negros observando tudo, as antenas agitando-se com energia.
O buraco no teto por onde vieram estava tão cheio delas que foi difícil de encontrá-lo. Completamente entupido de formigas, quase não deixava passar luz. Só o suficiente para entenderem o que acontecia.
Meiko acordou os outros, e o círculos que os insetos fizeram entre eles se fechava cada vez mais. Para qualquer direção que olhassem, só o que viam era o mar vermelho criados por aqueles monstros. Rin engoliu em seco quando percebeu que suas costas bateram contra as de Kaito. Não havia mais para onde recuar.
SeeU se enroscou em sua perna, costas arqueadas, pelos eriçados, dentes à mostra.
– Obrigada pela a ajuda, SeeU – murmurou Rin –, mas acho que vamos precisar de mais que isso...
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