As Aventuras Bizarras de Beta Fisk
3 Agora estamos quites...
Notas iniciais
Alice perdeu as contas de quantas desculpas Beta pediu enquanto tirava a muralha de papel da parede. Ela o ajudou para acelerar o processo. Quando acabaram, já havia passado do horário do almoço. Formaram um monte de papel em cima da cama de Beta.
– Eu acho um destino para esses papéis na volta. — disse Beta encarando a própria cama enquanto coçava a cabeça. — Vamos comer antes que o restaurante feche.
– Mas, ele não funciona até a noite?
– Não, cara Alice. — o garoto levantou o indicador. — As noites de sábado são reservadas para festas universitárias. — Alice fez uma careta. Tudo o que ela menos queria era passar a noite fugindo de veteranos sacanas. — Mas eu não gosto de festas nesse nível.
– Eu também não curto. — Alice se esquivou de um aluno que entrou no dormitório.
– Ora, então você também sabe como é curtir um sábado como típicos nerds!
Alice soltou um sorriso.
– Nerd? Eu? — ela negou com o indicador. — Meu curso não é só física e matemática, senhor astrônomo. Sendo assim, você é o típico nerd. — Beta abriu a boca e arregalou os olhos numa careta engraçada. Alice levou a mão à boca para abafar sua risada.
– Isso não é justo! — ele exclamou. — Seu curso também tem essas matérias, ok?! E sabe o que eu acho mais injusto ainda?
– O quê? — Alice indagou por detrás das mãos. Beta levou suas mão de encontro com as da garota e as tirou com delicadeza da frente dos lábios carnudos dela.
– Que você esconda esse sorriso lindo.
Alice ficou vermelha da cabeça aos pés. Queria enfiar a cabeça embaixo da terra. Virou o rosto e se desvencilhou das mãos do rapaz. Beta logo percebeu que causou certo incomodo.
– Peço desculpas se o que eu disse não lhe agradou. É que eu costumo falar o que penso para as pessoas. — ele deu um sorriso amarelo encarando o chão.
– Você...não é o culpado, Beta. — Alice colocou o cabelo atrás da orelha. — Eu que sou extremamente tímida.
Os olhos do rapaz retomaram seu brilho comunal. Beta estava sorrindo de novo enquanto conduzia Alice pela esquinas.
– É mesmo? Eu não reparei nenhuma timidez. — ele parou de andar. — É aqui. — Alice olhou na mesma direção que Beta e encontrou um restaurante com tema retrô. No painel luminoso lia-se Anos 60 Hamburguer's. Ao entrar, o sino da porta tocava e os garçons gritavam: Bem-vindos aos tempos da brilhantina! O lugar estava lotado. Por sorte, Beta achou uma mesa perto da janela. Apesar do frio do lado de fora, devido ao aquecedor, o restaurante estava quente. O astrônomo tirou o casaco verde-musgo e colocou no encosto da cadeira. Alice fez o mesmo. Tirou o sobretudo bege e o colocou ao seu lado no banco de couro vermelho. Seu colar com um pingente de pedra azul pequeno agora era visível, apoiado em seu tórax. A blusa vermelha deixava expostos os ombros sardentos.
Alice olhou de relance para Beta e ele estava fazendo aquele movimento hipnótico: passar os dedos no cabelo azul. As mangas da blusa de flanela preta estavam dobradas, deixando à vista as tatuagens de Beta. No braço esquerdo ele possuía as quatro fases da lua e no direito ele possuía uma clave de sol pequena perto do pulso. Eram muito bonitas. Sorrindo, Beta chamou um garçom. Ele veio do fundo do restaurante.
– Betão! — exclamou o homem com um avental de cintura. Seus braços eram cobertos de tatuagens, além de serem gigantes. O cabelo loiro era comprido e estava preso em um coque. Suas orelhas estavam cheias de piercings. — Como foram as férias?
– Foram ótimas, Antony. E as suas?
– Cheia de mulheres. — Antony riu. Sua risada era suave e agradável. — E quem é essa linda moça? Sua namorada, Beta?
– Não, Tony. Essa é Alice Carter. Somos do mesmo clube na universidade.
Alice se levantou para cumprimentá-lo. Antony deu um beijo em seu rosto com medo de quebrar Alice. Seu perfume era doce.
– Prazer, Alice. Sou Antony Müller.
– O prazer é meu. — respondeu Alice.
– Tony, quero o de sempre. Pra mim e pra ela. E é pra ontem! — disse Beta, interrompendo o contato entre os dois.
– Já tô indo, Senhor Apressado. — Tony deu uma piscadela para Alice antes de se virar e gritar o pedido para o cozinheiro.
– Ele é bem mulherengo, caso queira dar uns pega. — disse Beta ao se sentar.
– Para sua informação, Nerd, ele não faz o meu tipo. — Alice levou as mãos ao queixo. Beta se inclinou mais na mesa.
– Ah, é? E qual é o seu tipo?
– Nebulosas.
– Nebulosas? — Beta fez uma careta torcendo o nariz.
– Sim, nós viemos aqui para falar sobre as nebulosas, e não sobre o tipo de homem que eu prefiro.
Com uma expressão de estranheza, Beta se recostou no encosto da cadeira. Encarou Alice por mais alguns segundos, como se quisesse ter certeza do que acabara de ouvir. Então, deu de costas.
– Falemos sobre nebulosas, então.
– Obrigada.
O tempo que passaram no restaurante, comendo um sanduíche super apimentado, e o tempo em que voltavam para o campus foram preenchidos com uma longa conversa sobre não só as nebulosas, como sobre o universo inteiro. Passaram pelo jardim, subiram as escadas do dormitório, sem que Alice notasse as pessoas a sua volta. Ela simplesmente esqueceu o resto do mundo. A conversa de Beta prendia-lhe a atenção.
– Minha nossa, Alice. — disse ele ao entrarem no quarto. — Já são seis horas! — Beta se lançou à cama, pegando um conjunto de moletom. — Quase perdemos o horário! Precisamos nos apressar! Eu vou tomar banho. Nos encontramos aqui ou no lugar que marcamos hoje mais cedo.
Alice apenas assentiu. Assim como Beta, Alice também decidiu colocar um conjunto de moletom. Pegou as coisas necessárias para o seu banho e desceu para o banheiro. Para a sorte dela, estava um pouco cheio. Apenas um pouco cheio. Guardou suas roupas no armário 632 e procurou um box longe de todas aquelas garotas. Encontrou um no final do corredor e se instalou ali. Ligou o chuveiro quente e deixou que a água caísse sobre seu corpo. Quando, de repente, os murmúrios viraram gritos.
– Sai daqui! Seu pervertido! — gritou uma das garotas. Alice desligou o chuveiro e se enrolou na toalha.
– Acalmem-se! Eu estou apenas procurando uma pessoa. — era a voz de Beta. O que, diabos, ele faz aqui? — Alice! — ele gritou. A menina congelou onde estava. Estava procurando por ela. De repente, a cortina de seu box abriu. — Te achei! — Beta estava só de toalha.
– Meu Deus, Beta! O que faz aqui? — ela o puxou para dentro do box para evitar o olhar das garotas. Não sabia onde enfiar a cara.
– É o seguinte: no banheiro dos meninos não tem o armário do 632. É um quarto feminino. Daí pensei que você poderia deixar eu guardar minhas coisas no nosso armário, né?
Alice alcançou a chave dentro da necessaire e a entregou à Beta.
– Cadê a sua chave? — ela cruzou os braços, mais para segurar a toalha do que para parecer brava.
– Ficou no quarto. Mas, obrigado.
– Não bagunce as minhas coisas.
– Não vou. — então, ele saiu do box segurando a toalha. Entretanto, sua parte de trás estava descoberta. Meu, como é possível? Esse cara é maluco. – O que estão olhando? — Alice ouviu Beta gritar. — Voltem aos seus banhos, pervertidas! — os chuveiros ligaram novamente e, pouco a pouco, a meninas terminavam seus banhos. Alice esperou que todas fossem embora para sair do chuveiro. Sentia tanta vergonha que não sabia o que fazer. Após estar só ela no banheiro, Alice desligou o chuveiro e foi pegar suas coisas. Mas, sua necessaire não estava ali. Alice saiu do box e pôs-se a procurar a pequena caixa preta. Ao longe, um chuveiro ligou. Aproximando-se, Alice descobriu sua necessaire ali do lado. Puxou a cortina violentamente para pegar a suposta ladra de surpresa. Mas, quem estava atrás daquela cortina era Beta. O rapaz, com o cabelo azul cheio de xampú, só teve tempo de tapar a parte íntima com as mãos. Seu rosto expressava a sua surpresa na vermelhidão que tomou conta das maçãs do rosto. — Agora estamos quites...
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