Notas iniciais
Dedico esse capítulo a você Rhay '-' Minha prima que indiretamente (ou diretamente) está me incentivando a continuar com a história. Continue lendo ^^

Meia hora havia se passado desde que Damian e David haviam encontrado o corpo de Henry no beco. Era uma cena horrível que dificilmente os dois esqueceriam, e a julgar pelo estado de Damian ele realmente jamais esqueceria aquilo. O corpo de Henry estava multilado, pendurado na grade que ficava no fim do beco e dava para outra rua. O sangue pingava abundante e formava uma poça fétida e vermelha; os olhos de Henry jaziam abertos fitando o nada e sem brilho, sua boca estava aberta numa careta de horror que David com certeza jamais esqueceria. Mas, além disso tudo, o que mais assustava era o tórax de Henry. O peito do adolescente estava nu, e a pele branca havia sido retalhada deixando toda a musculatura exposta; tiras de pele pendiam do corpo como pedaços de pano retalhado e no lado onde deveria estar o coração do garoto havia um buraco.

David ainda estava atordoado, e agora também tonto com as luzes das viaturas de policia e das duas ambulâncias piscando nas paredes dos prédios. Curiosos haviam chegado e a rua que antes era pacata agora estava apinhada de gente andando de um lado pro outro, pessoas chorando e policiais conversando. O garoto estava sentado no banco do carro da sua mãe enquanto ela papeava com um homem gordo e de bigode grisalho e o olhava preocupada.

Damian estava em choque e ainda não conseguia sequer falar, estava sentado dentro de uma das ambulâncias com um enfermeiro o encarando enquanto ele mesmo encara o vazio atônito e sem expressão.

- Pobre Damian... – David falou consigo mesmo e sua voz parecia vir de longe. – O que vai acontecer agora? O que aconteceu com Henry...

Ele interrompeu a fala sentindo um nó na sua garganta que parecia querer explodir seu corpo inteiro de dentro pra fora. Mas havia uma pergunta na sua cabeça que não se calava nem mesmo com essa agonia que sentia. O que aconteceu com Henry?, ele pensava. Porque fizeram isso logo com ele? Como em resposta as suas perguntas ele ouviu uma voz desconhecida.

- Ei garoto. – Era uma voz áspera e grossa demais. – Eu sou o detetive Lane. – O homem mostrou seu distintivo. – Estou cuidando do caso do seu amigo. Meus pêsames.

David se limitou a acenar com a cabeça para o detetive. Ele parecia o típico policial de TV. Usava um sobretudo bege cheio de bolsos, era gordo e tinha bochechas rechonchudas que o faziam parecer com um bulldog.

Ele enrolou um pouco mais, e parecia desconfortável em falar com David.

- Bem... Você deve imaginar que tenho algumas perguntas pra você. Entendo que você deva estar cansado e... – Ele parecia procurar as palavras certas – chocado com tudo que aconteceu, mas é meu trabalho.

Ele tinha razão. Tudo que David queria agora era ir para casa e dormir. Dormir para sempre e esquecer tudo que havia acontecido essa noite, mas pelo visto isso estava longe de acabar.

- O que o senhor quer saber? – Foi tudo que ele disse.

- Bem... Andei conversando com alguns jovens que conheciam você, o rapaz ali – Ele apontou para Damian ainda na ambulância – e a vítima.

Ele olhou no bloco de notas que carregava consigo e pareceu achar o que procurava:

— Henry Lahey. Parece que vocês estavam em uma festa não é?

- Sim, estávamos.

O detetive se virou para a mãe de David, e só ai ele percebeu que Linda estava ao seu lado.

- Bem minha senhora, eu mandei alguns policiais até a casa da garota que deu a festa – Ele novamente procurava no bloco. – Stacy O’Connel. Meus homens encontraram algumas garrafas de bebida no local: whisky, vodka, cervejas, tequila. – O tom de desaprovação na sua voz era latente. – E algumas testemunhas disseram que viram Henry saindo do local com duas garotas, e uma delas nenhum dos alunos parece conhecer.

David simplesmente ouvia tudo alheio, até agora o detetive não havia chegado a lugar algum.

- Garoto, a fama do seu amigo entre os colegas é de “pegador” e baderneiro. Você sabia se ele usava algum tipo de droga, ou se estava andando com alguém estranho ultimamente?

Levantando a cabeça David fixou o olhar no detetive e parecia furioso. O que ele estava querendo dizer? Que Henry era um drogado e mereceu a morte que teve? Seu rosto que estava branco foi ficando cada vez mais vermelho enquanto ele se levantava do carro indo em direção ao velho gordo a sua frente.

- Você está querendo dizer que Henry é um drogado? – Ele gritava a plenos pulmões. – Lave sua boca antes de falar do meu amigo seu gordo imbecil!

Linda que observava tudo chocada começou a caminhar na direção de David, mas o detetive fez sinal para que ela ficasse onde estava.

- Olha aqui garoto, eu só estou querendo juntar os fatos. Eu podia prendê-lo por desacato, mas não vou fazer isso já que você passou por uma situação traumática. O que quero saber é se você sabia quem realmente era seu amiguinho.

“Quero saber se você realmente sabia quem era seu amiguinho”. Aquilo foi a gota d’água para David. Antes que pudesse perceber seu punho estava voando em direção ao nariz do detetive Lane. A partir daí tudo aconteceu muito rápido: David ouviu o som abafado da sua mão atingindo um dos lados do rosto balofo do detetive e ao mesmo tempo dois policiais com cara de paspalhos vieram para cima dele, o segurando enquanto Linda gritava com a mão na boca. David estava tremendo de ódio por dentro.

- Levem ele daqui, pra viatura. Vamos pra delegacia!

O detetive estava vermelho e suando como um porco enquanto segurava o local onde recebera o golpe. Saiu caminhando a passos largos.

Linda correu até ele chorando em desespero, não podia deixar que levassem seu filho para uma delegacia, as coisas só iam de mal a pior.

- Detetive, por favor, não leve meu filho pra delegacia. Ele é uma criança!

- Olhe aqui minha senhora – Ele se virou rapidamente para a mulher. – Seu filho não pareceu uma criança quando me atacou. – Ele apontou para o rosto vermelho.

- Ele não é assim... Ele está em choque! Acabou de perder um dos seus melhores amigos, e depois viu o corpo naquele estado... – Linda chorava. – Por favor, deixe que eu o leve para casa e prometo que ele vai conversar com o senhor e ajudar no que for possível depois que isso tudo estiver passando.

O detetive parecia mais calmo agora, ouvindo as palavras de Linda. Ele assoviou para os policiais que levavam David para a viatura e fez sinal para que o soltassem. Em seguida se pôs a caminhar com Linda a tira colo até onde ele estava.

- Preste atenção garoto, sua mãe me convenceu a deixá-lo ir para casa. Mas nós ainda vamos conversar. E da próxima vez não vai ter refresco, você vai passar a noite no xadrez pra esquentar essa cabeça.

Ele passou direto por David indo ao encontro de outros policiais que estavam analisando alguma coisa atrás da faixa amarela de “não ultrapasse, cena do crime”.

David estava calado, ainda olhando para o detetive gordo que se afastava. Esperava ouvir um sermão de Linda, não estava nem um pouco a fim de ouvir sermões agora...

- Vamos querido, vamos pra casa.

Ele ficou surpreso ao ouvir aquilo. Linda era mesmo uma ótima mãe...

Enquanto andavam David viu as luzes da sirene ainda piscando nas paredes e se lembrou de Damian. Precisava vê-lo, saber como o amigo estava. Não podia ir embora sem ao menos falar com ele.

- Não mãe, preciso ver Damian. – Ele disse parando e puxando o braço de Linda.

Ele girou a cabeça procurando pela ambulância onde havia visto Damian sentado minutos atrás, e quando a encontrou se pôs a correr para lá sem esperar pela mãe.

Quando chegou mais perto, diminuindo a velocidade, não podia acreditar que aquele era Damian. Sua fisionomia estava completamente diferente, vazia e morta. Seu rosto estava pálido, o cabelo estava bagunçado e os olhos sem brilho. Não tinha expressão alguma.

David sentou-se ao lado dele na ambulância, e o abraçou. Não esperava ouvir nenhuma palavra dele, só queria que o amigo sentisse que estavam juntos. Não pôde evitar uma lágrima que desceu pelo seu rosto. Agora seriam apenas ele e Damian, sem Henry. Sentiria falta das suas brincadeiras, das piadas e do seu humor sexual. Sentiria sua falta.

- Eu prometo que nós vamos encontrar quem fez isso com ele... – David sussurrou alto o suficiente para que só os dois ouvissem.

No alto do prédio St. Louis, ao lado do beco em que Henry fora encontrado, uma silhueta escura estava em pé. Cabelos longos que desciam até os joelhos balançavam com a leve brisa que corria naquela altura do prédio. Em sua mão havia uma haste longa, que brilhava como se pequenas ondas elétricas a percorressem e no alto uma sombra em forma de lâmina, mais densa que a própria escuridão dava um ar macabro à foice. A lua estava alta e brilhava intensamente, em todo seu esplendor.

Aos seus pés estava um corpo grotesco, cheio de feridas profundas e transfigurado.

- Piedade... – A voz horrenda que sai daquele monstro é quase inaudível.

- Tenho piedade por não te mandar de volta para o inferno, demônio imundo. – Com um golpe certeiro de sua foice o anjo mortífero acertou sua presa e o corpo se desintegrou liberando uma fumaça negra que se dissipou no ar.

- Que Deus tenha piedade da sua alma criança... – Sua voz sumiu junto com a forma angelical e bizarra.

O telhado estava mais uma vez vazio

Notas finais
Espero que tenham gostado de mais um capítulo. Não esqueçam de comentar.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.