As Armas de Mubilpe
4 O Segundo Quartel
Breno saiu correndo, pulando muros e cercas. Volta e meia um oulin se aproximava e ele tinha que utilizar de sua magia e fazê-los levitar arremessando-os em casas ou em outros oulins. A criatura foi novamente presa em correntes fortes. Breno corria o mais rápido possível e chegou ao seu antigo lar o orfanato. Pulou o muro para se abrigar lá dentro e esperar os oulins passar para continuar a jornada.
Assim que entrou lá dentro, Irmã Taís apareceu repentinamente e enfiou uma espada atrás de onde Breno estava então Breno escutou o barulho de algo caindo, um corpo. Olhou para trás e viu um oulin. Taís o salvara, ele nem ao menos sabia que ela lutava.
— Rápido por aqui — chamou ela abrindo uma pequena porta do convento. Eles entraram nem corredor que Breno não conhecia — Eu sou uma aliada, fazia parte do quartel de Welker. Irmã Ruth era amiga de Welker quando ele era jovem e lutava com os soldados na invasão que ocorreu há tantos anos, mas agora ela se esqueceu de seu propósito.
Breno se surpreendeu, nunca pensou que as duas freiras seriam capazes de brandir armas e matar soldados e monstros. Taís tirou uma estante do corredor revelando uma porta, ela tirou uma varinha do bolso e sacudiu sobre a porta a abrindo.
— Entre — ordenou — essa porta sai dentro de uma igreja, que fica nos limites territoriais da cidade, então vai ser mais fácil para você fugir. E mais uma coisa, estamos treinando todos os órfãos para serem soldados. Quando Cad nos convocar viremos para a guerra.
— Obrigado — respondeu Breno e entrou na passagem que dava em um corredor escuro e mofado, cheio de infiltrações. A porta se fechou atrás dele. E então o corredor se tornou tão escuro eu ele não era capaz de enxergar uma fada a sua frente. Então se lembrou de que aprendeu a enxergar no escuro e saiu correndo pelo corredor a fora.
O corredor parecia que não tinha mais fim. Breno correu e correu, sentiu passos acima de sua cabeça, alguns leves e silenciosos outros mais pesados e outros muito barulhentos, possivelmente de monstros. Escutou até mesmo os silfos do monstro e outros rugidos, alguns de tragos e outros diferentes. Talvez todos os monstros do reino tivessem sido convocados para ir até lá.
Quando pensou que não pararia mais de andar achou uma escadaria que conduzia até uma porta no teto. Ele subiu as escadas até ficar cara a cara com a porta. Tentou abri-la, mas estava trancada. Pegou sua varinha e ordenou: Abra! Ele nunca tinha treinado esse feitiço. A porta estalou e se abriu revelando a sacristia de uma igreja. Breno saiu do buraco e fechou a porta a trancando novamente com magia.
A igreja era pequena uns doze bancos de cada lado. Breno nadou pelo corredor central até a porta, que também estava trancada, sacudiu a varinha e a abriu, depois a fechou e a trancou. Estava andando pelas ruas a passos rápidos. Quando escutou um grito atrás dele:
—Pare! – era uma voz feminina. Breno se virou e deu de cara com a princesa, ela estava descendo de sua carruagem. — Eu quero falar com você.
— Não tenho nada para fala com você — respondeu ele se virando e andando.
— Como ousa? Eu sou a princesa, posso mandar mata-lo — falou ela andando as pressas atrás dele.
— Se continuar na capital aí sim, morrerei.
— Para onde vai? — perguntou — Bem... Eu queria saber como você não se queimou com o fogo e como você o apagou?
— Magia — respondeu Breno se repreendendo veemente por isso, já tinha se esquecido das recomendações de Welker? Welker... Morrera para salvá-lo.
— Me ensine — pediu.
— Olha moça — disse Breno se aproximando e segurando os ombros da princesa. Ela era menor que ele, magra, tinha o cabelo castanho-escuro amarrado em um coque e usava um vestido verde — Eu estou fugindo dos soldados de seu pai, eles acabaram de assassinar meu professor de magia e querem me matar, tudo porque não aceitam outros magos que não eles mesmos, e porque não querem dar direito de opinião ao povo.
— Entre na carruagem — falou a princesa com os olhos esbugalhados.
— O que? — perguntou Breno soltando seus ombros.
— Entre na carruagem!
— Não! Por que entraria?
— Por que tem uns oulins vindo para cá! — gritou a princesa correndo de volta para carruagem. Breno correu para lá também. Puxou o cocheiro e o derrubou no chão, Olhou para trás e viu seis oulins correndo na direção dele.
Tomou as rédeas e partiu, conduzindo a carruagem. Os cavalos partiram a galope e a carruagem atrás sacolejava e a princesa reclamava, mas gritava para ir mais rápido.
Breno logo saiu da cidade, mas não diminui a velocidade. NO caminho até Cad, contou a história toda a Lara, que se emocionou muito com a morte de Welker seu velho professor. E revelou um segredo a Breno, que ela mesma não gostava de seu pai, Dieval. Ele era muito autoritário e batia nela e na mãe dela.
Logo chegaram a um vilarejo. Breno desceu da carruagem e usando algumas moedas que Welker colocou em sua arca compra uma roupa de camponesa para Lara, afinal se ela continuasse andando com um vestido daquele chamaria a atenção de todos os soldados. Ela não gostou muito de ter que trocar de roupa, mas como não tinha escolha, assim o fez. Breno pegou o vestido e o vendeu em uma loja por algumas moedas.
Depois Lara também desceu e eles trocaram a carruagem magnífica e graciosa de Lara por uma carroça velha de um camponês, contudo continuaram com os cavalos, afinal nenhum pangaré dali correria tanto quanto os cavalos reais. Depois comeram algumas coisas que Welker colocara na arca. E partiram o mais rápido possível. Em direção a Cad, faltavam ainda, segundo um camponês velho, uns 55 quilômetros.
Não demorou muito logo os oulins chegaram à aldeia, encontraram a carruagem com o velho e o torturaram, pensando estar envolvido no rapto, e ainda encontraram o vestido em uma loja. Agora Breno era duplamente procurado, como mágico ilegal e rebelde e por ter sequestrado Lara. Os oulins pediram todas as informações, uns voltaram a capital para transmitir as noticias e o resto foi atrás dos dois.
Depois de uns minutos eles chegam a Cad. A cidade é grande e bem movimentada, várias casas e comércios lotados de gente. Pessoas iam e vinham de todos os lados para todos os lugares. Um trânsito de carruagens e carroças dominava as ruas. Alguns soldados humanos do reino, mas nenhum oulin a vista, ainda. Mas quanto mais nos aproximávamos do centro, mais soldados eram vistos, carregando longas lanças e pesadas espadas. Mas assim que passamos pela avenida e nos vimos em frente o castelo de Cad, onde um duque residia, vimos oulins.
Eles estavam parados em frente aos portões, armados com couraças e espadas. Aos seus pés, critos e outras criaturas nojentas e outras mamíferas. Outros oulins não estavam armados, se atacados usariam só suas forças. A carroça logo passou pelo castelo, o mais rápido possível entrou na zona comercial da cidade. Breno estacionou a carroça em uma vaga, em frente a uma loja de ervas e especiarias. Se Hulda era uma feiticeira como Welker com certeza procuraria nessas lojas por ervas e plantas mágicas.
— Com licença— falou Breno entrando na loja. Era feita de madeira com uma grande vitrina encardida, cheia de plantas penduradas e outras em vasos espalhados, tudo bagunçado. A loja cheirava a mofo e fungos, o que de fato tinha, e de monte. Várias plantas espalhadas com pequenas placas com os nomes e algumas explicações. A vendedora estava sentada em uma cadeira de balanço atrás de um balcão fumando um cachimbo. Era velha e mal encarada — A senhora conhece a professora Hulda?
— Quem quer saber? — perguntou a velha me olhando temerosa e se levantando para me encarar de perto.
— Sou Breno e gostaria de ser aluno dela.
—Você não sabe onde está se metendo garoto, volte para a casa e esqueça essa ideia! — A velha voltou para a cadeira virando as costas para Breno.
— Onde encontro ela, me responda! — ordenou Breno.
— Ande sete quadras e vire à esquerda, ande mais três e achará a casa. É uma vermelha.
— Obrigado. — Breno saiu correndo da loja, subiu na carroça e voltou a andar. Contou a Lara, que o esperava na carroça, onde ficava a casa de Hulda. Enquanto Lara esperava, ficou lendo o livro das criaturas mágicas de Breno, que lhe emprestara.
Passaram por fim pelas sete quadras e viraram à esquerda. Breno olhou para o céu e viu uma serpente alada emplumada de uns três metros de comprimento voando em direção ao castelo, na sua boca estava um pergaminho, possivelmente uma carta de rei ao duque falando sobre os rebeldes, para ele tomar cuidado. A essa altura, os oulins deveriam estar chegando à Cad. Se Breno bem se lembrava daquela criatura era uma herensugue, mensageiras do rei.
Por fim chegaram à casa de Hulda era bem grande, mas não tanto quanto a casa dos nobres. Ao lado da casa havia uma ferraria, que pelo visto pertencia a Hulda, três ferreiros trabalhavam lá e nos encaravam. Do outro lado da casa havia uma loja de armas e uma livraria. Tudo pertencente à Hulda e ligados pelo mesmo quintal. Breno parou a carroça e desceu junto de Lara.
Bateu a porta. Um homem abriu uma portinhola na porta e os olhou mal encarado.
— O que querem?
— Falar com Hulda e entrar no 2º quartel. — respondeu Breno, segurando a arca que Welker lhe deu.
— Não sei do que está falando.
— Viemos em nome de Welker e do 1º quartel — respondeu Breno convicto que agora o homem lhe abriria a porta, contudo ele fechou a portinhola. Breno já estava quase desistindo quando ele abriu de novo.
— Então só basta dizer a senha — respondeu e sorriu — lembrando que se você errar você morre. Têm treze arqueiros apontando seus arcos para vocês agora mesmo.
Breno se desesperou. Qual seria a palavra mágica? Poderiam ser tantas. De repente a arca começou a se sacudir e a esquentar. Breno olhou espantado para a arca e se deparou com estranhas palavras que brilhavam em dourado: Despertar.
— Despertar — disse Breno. O velho lhe olhou e sorriu diabolicamente e fechou a portinhola. Breno sentiu todas suas forças se esvaziarem. Perdeu completamente a esperança. Lara desesperada olhou para os lados e para cima procurando os arqueiros. Breno fechou os olhos. Mas então a porta se abriu. O velho sorriu para eles, vestia uma armadura completa, espada na bainha.
— Entrem, Hulda os aguarda.
Breno e Lara entraram no hall de entrada. O velho fechou a porta. Tinha uma longa barba branca, olhos negros, e um cabelo grisalho também incrivelmente longo. Várias cadeiras se espalhavam pela sala, quadros enfeitavam as paredes. E um tapete encobria o chão. De uma escadaria desceram oito pessoas armadas de arcos com aljavas.
— Você disse que eram treze — falou Lara encarando o velho. Que gargalhou bem como os arqueiros.
— Intimidação minha cara — respondeu o velho. Lara ficou emburrada.
— Não se preocupe Lara, filha de Dieval. Logo você será capaz de dar o troco — respondeu uma voz feminina velha, porém harmoniosa. Breno e Lara olharam para a escada do centro de onde descia uma mulher vestida com um longo vestido cor de vinho. O cabelo era negro com algumas mechas brancas na altura dos ombros. Contudo seus dedos possuíam garras como as de uma águia.
— Eis quem vocês procuravam: professora Hulda — disse o velho.
— Hulda — Breno correu até a mulher a cumprimentando — Welker nos mandou até aqui. Mandou-lhe também algumas cartas para a senhora e...
— Onde está ele? — perguntou Hulda olhando por trás do ombro de Breno – Onde está Welker?
— Senhora, Welker morreu — respondeu Breno pesaroso. E foi como um golpe para Hulda. Ela se apoiou no corrimão, e começou a chorar. Eles deveriam ser amigos há muito tempo. Os outros abaixaram a cabeça, em sinal de luto. O velho porteiro também começou a chorar, mas mais silencioso do que Hulda, deixando escapar uma ou outra lágrima.
— Lúcio arranje um quarto para Breno e o leve para lá. Margareth faça o mesmo com Lara. Ficarei em meus aposentos me recuperando do choque. Daqui três horas nos reunimos para uma reunião. Morton e Elsa comuniquem aos outros dois comandantes a morte de Welker, e os convoquem para a reunião. Até daqui a pouco.
Hulda subiu as escadas e o porteiro a seguiu segurando seus ombros.
Um homem pálido e loiro com orelhas pontudas, alto e forte, acompanhou Breno por outra escada, sem ser a de Hulda ou as dos arqueiros. Uma mulher de cabelos esverdeados, bem alta e magra acompanhou Lara por outra escada. Eles chegaram a seus devidos quartos, tomaram banho, comeram e esperaram as horas passarem para Hulda os convocar novamente.
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