As Areias de Nicor
2 Capítulo 2 - Notas da Aparição
Notas iniciais
Era cedo da alvorada, uma folha caiu entre minhas sobrancelhas como um beijo suave. Acordei com meu peito apertado segurando meu coração ansioso pulsando como se fosse pular para fora. Desci de minha cama calmamente, dobrando os lençóis caros arrumando minha confortável cama.
Abri as cortinas com esforço para ver minha janela de todos os dias, os raios alaranjados acariciavam meu rosto aquecendo-o. Não contive meu sorriso, o céu das manhãs limpos e ruivos traziam o calor de minha liberdade. Corri direto para meu armário talhado no carvalho, aquela árvore crescia livremente em meu quarto, eu ainda me impressiono com seus galhos formando os móveis de meu quarto. Minha larga cama de casal, cujo durmo sozinho, meu guarda-roupas, meu criado mudo... Até mesmo as grades da janela, cujo nem vidro tem... Eu sei que já descrevi meus aposentos ao menos quarenta e nove vezes ao longo dos dias do quais me lembro de escrever, mas amo ter este gosto de liberdade mesmo estando preso em meu castelo, acorrentado por afazeres e chicoteado por preocupações.
Me vesti rapidamente, uma blusa de linho leve e branca, calças castanho escuro, minhas botas de couro e por fim, um capuz floresta, o puxei para cobrir meu rosto e olhei para trás, verificando se havia esquecido qualquer coisa, não me importei se tinha ou não, estava ansioso por este dia de liberdade já faziam meses.
Saí com passos rápidos pelos corredores, apenas poucas aias estavam acordadas, elas nem se importaram com o príncipe fugindo, tão doces, por isso confio meu pescoço a elas... Elas sabem quanto tempo fico trancado pelos aposentos cuidando do reino, pondo meu nome em risco assinando acordos... Mas sei, eu posso me esforçar mais, e devo. Eu ainda não cheguei onde preciso.
Engraçado a passagem deste dia para mim, tento escrevê-lo em detalhes, sem demonstrar a inquietude que estou para chegar a melhor parte do dia, o talvez de minha vida. Sabe, estou a escrever isso sorrindo tanto, os cantos de minha boca doem, estou tão feliz, e isso faz minha alma ficar inquieta, ela se contorce dentro de meu ser, não sei como reagir a tamanha euforia, meus olhos querem lacrimejar. Estou louco para descrever com palavras de um poeta, a mais bela visão cujo um homem poderia sonhar. Ela.
Passei pelo jardim sem pressa, me deleitando das folhas se quebrando aos meus pés, o som acalmava meus pensamentos. Mal sabia por onde começar um dia inteiro livre, sem preocupações e sozinho...
Me lembro de todos os pensamentos naquele momento, eles corriam pela minha mente era como uma enorme represa. Minha mente estava inundada, mas ela não estava preparada, não para ser lida ponta a ponta e ser desmontada e montada de novo.
Passei pelo portão principal quais cercam o castelo separando-o da miséria e ilhando a elite. Fui andando pela vila cumprimentando os poucos aldeões acordados a essa hora eles pareciam felizes em me ver. Pensando bem, olhando para trás, este dia fora tão perfeito, nem sei se estou vendo o dia como foi de verdade, ou está tudo mais brilhante depois de minha mais ilustre visão. Depois de tudo começar a se por no lugar, tua sanidade é varrida pelo otimismo.
Apenas decidi aproveitar a natureza fora dos limites. Me direcionei até o beco mais próximo, procurei rapidamente um cristal escondido em meu bolso, fechei os olhos e o reduzi a poeira em meus dedos.
A mudança súbita de ambiente me desequilibrou, cambaleei e logo me recompus respirando o ar úmido e amadeirado da floresta. Um barulhos e água me atraiu, os baques constantes e fortes de uma possível cachoeira atiçaram minha curiosidade. Abaixei o capuz tentando enxergar, a floresta latifoliada cobria o sol, o qual mão se punha. As árvores de troncos grossos eram brutalmente atravessada por cristais que lá cresciam para iluminar o ambiente quente e extremamente úmido.
Fiz uma concha com minha mãos em minha orelha para ouvir melhor, o som ficou mais nítido, assim como de onde ele vinha. Abri um meio sorriso, sabia exatamente por onde ir.
Meus membros tomaram uma energia hiperativa me fazendo correr e aproveitar minha tão esperada liberdade. Corri desviando de raízes insistentes tentando me fazer tropeçar, passava minhas mãos pelos cristais fazendo-os brilhar com mais intensidade suas luzes esmeralda. Meu capuz voou com o vento que batia contra o meu corpo, as batidas da água ficavam mais fortes assim com as do meu coração. E foi neste momento.
Já ouvi falar milhares de vezes uma curiosidade sobre espíritos, ou fantasmas. Eles são frios. Por não possuírem matéria, eles te atravessam e a frieza de suas almas desprovidas de vida sobe por sua espinha, arrepiando cada fio de seu corpo. Isto soa mórbido. E aquilo foi diferente.
O frio repentino foi como atravessar uma forte queda d'água em um dia quente. A luz branca do espectro, o qual atravessou minha matéria, cegou meus olhos. Mas a energia foi algo inexprimível. Senti meu sangue fluir mais levemente por minhas veias, senti meu peito relaxar, meus olhos lacrimejarem, senti minha mente ser arquitetada novamente. Minhas mãos pareciam mais leves, as aproximei de meu peito e pude apreciar o novo ritmo das batidas do meu coração.
—Q-Quem está aí? — reconstruí minha postura com delicadeza — Por favor, pode mostrar-se.
Continuei sem resposta.
—Perdão, eu não quero incomodar, poderia apenas mostrar-se?
Um brilho esbranquiçado surgiu no canto da minha visão. Virei minha cabeça vagarosamente até poder ver a entidade se formar a partir da luz. Deuses.
Eu, como príncipe, já vi dezenas de peças de arte, mas nenhuma se comparava a essa.
Era uma beldade. Ela me encarava com seus olhos cinzentos com uma expressão serena e forte. Seus cabelos brancos até os ombros voavam com sua própria aura intensa, deixando a mostra suas longas orelhas élficas. As suas feições eram delicadamente esculpidas em sua pele branca quase translúcida, rosto fino, sobrancelhas albas e franzidas, lábios carnudos e rosados e lembravam uma pétala, seus olhos eram cinzentos e impenetráveis. Seu corpo era perfeito, a silhueta era pequena mas suas curvas eram sinuosas e limpas por baixo de seu leve vestido branco. Em seu busto pude ver um amuleto, uma pequena ampulheta com suas areias descendo infinitamente emitindo uma luz multicolorida.
—Ashidanza¹... — o choque me fez balbuciar em minha língua natal.
—Perdão? — a mulher disse, e sua voz era confiante, mas suave. Ela atingiu meu consciente como uma leve brisa ao anoitecer. Era o mais belo som a ser ouvido, mesmo comparado ao mais bonito instrumento tocado pelo mais habilidoso musicista.
—Digo... Er... — me faltavam palavras. — Você... — inspirei. — Posso me aproximar?
—Você não esta com medo?
—Por que pergunta?
—Normalmente sou temida. Nem mesmo o solo ousa tocar meus pés — Ela estava certa, ela flutuava sobre a grama que evitava curvar-se em sua direção, as raízes e galhos se contorciam para longe da bela visão.
—Então sou uma exceção. — rio nervoso e dou um passo a diante. — Posso?
Ela sorri sem responder e se aproxima de mim, meu corpo parecia querer abraça-la, por algum motivo ele parecia querer consolo, assim como queria a consolar.
—Meu nome é Amane, e você é...?
—Sou Sean, príncipe e principal representante de Magália.
Ela passou a mão em meu rosto, passando seus dedos frígidos por meu queixo atravessando meu ser.
—Ah... Esqueci de manter-me sólida. — Amane tenta novamente mas sua mão agora parece mais rígida e pude sentir seus dedos explorando meu rosto. — Você é quente.
Tomei a liberdade de tocar seu maxilar como ela fez comigo.
—Você é fria.
—Você tem tanta vida... — ela brinca com meu cabelo.
—Você é cadavérica... — digo descendo a mão para seus braços finos e pálidos.
—Você é como o sol... — a ponta de seus dedos tocam meus lábios.
—Você é como uma lua cheia. — a seguro pelos ombros.
Parecíamos crianças explorando o desconhecido, eu estava hipnotizado, ela ria e me tocava sem pensar duas vezes, completamente sem importar, enquanto eu tomava cuidado para não assusta-la. A cada toque, minha pulsação tropeçava. Aquele momento era como reaprender a enxergar, escutar, sentir, andar, por fim viver.
Me afastei calmamente.
—Isto foi...- eu disse sorrindo.
—Único! Eu nunca havia tocado nada vivo em toda minha existência! E... — ela sorriu com mais intensidade — Seu sorriso... É muito lindo, nossa!
Pensei comigo mesmo, se aquelo poderia ter sido um flerte, se aquele momento todo poderia ter sido alimentado por uma paixão. Mas fora tudo tão inocente, eu queria conhecê-la, queria me aproximar e poder ouvir sua história.
—O-obrigado. — rio — Isso quase soa como um flerte.
Amane me lançou um olhar curioso.
—Flerte?
—Ahm... Esqueça. Bem, posso te acompanhar?
—Você nem sabe onde estou indo, vossa alteza. — ela disse com um tom debochado
—Não importa, posso te acompanhar?
Amane abriu um largo sorriso e começamos a andar lado a lado sem rumo.
—Estou sem rumo por aqui, explorando um pouco. Você provavelmente também esta, não é?
—Bem, na verdade estava indo até uma cachoeira aqui perto, aproveitando este raro momento que tenho longe das responsabilidades... Ah, a propósito, me chame apenas de Sean.
—Hum, você é bem diferente de outros nobres quais tive o desprazer de encontrar. Todos eles equilibram algo invisível na ponta de seus narizes, provavelmente seu ego, e além disso, nunca nem sequer colocaram os pés no mundo real... Digo, o mundo fora dos muros, sem serventes para lá e pra cá. Trabalho duro.
Tenho de concordar, a maioria dos nobres usam seus títulos para se alienarem do mundo abaixo deles. Eles deveriam usar os títulos para ordenar e aplicar a justiça neste mundo, mas preferem caminhar sobre o mesmo.
—Infelizmente tenho de concordar. — olho para baixo encarando o solo ficando para trás conforme meus passos. — O ambiente não ousa mesmo encostar em ti... Como?
O rosto de Amane se fechou assim como seu punho, seu olhar encontrou com o meu e seus lábios desenharam um leve sorriso sarcástico.
—Sean, sou uma entidade, isto é além de mim, é a culminação de meu ser, de minha existência. Mas tenho de pagar o preço de me sentir tão plena, o preço é estar morta. Mesmo me sentindo mais viva do que nunca, toda a natureza teme o desconhecido, a morte, eu. E com você foi diferente, ainda estou bem surpresa.
—Então é o que acontece quando morremos? — lembro-me de minha curiosidade atiçar-se.
—Bem... É um pouco mais complicado...
—Toquei em algo sensível, não foi?
—Não, nem um pouco... Ao menos não para mim.
O som da cachoeira foi se aproximando em meus ouvidos, a umidade tomava conta de minha respiração. Olhei para cima vendo a queda d'água sobre uma caverna de pedras azuladas, desaguando em um lago pequeno, porém profundo. As paredes e a água cristalina, brilhavam com os raros raios de sol corajosos o bastante para atravessar as enormes folhas da floresta. Em um dia normal, a visão provavelmente roubaria um pouco do meu fôlego, mas meus olhos já tinham acabado de ter o mais belo deslumbre.
—Caramba, aqui é muito bonito, vou lá em cima. — Amane tomou um impulso e flutuou até lá como se fosse algo ordinário, ao menos deveria ser para ela.
Ela se sentou em uma rocha perto de onde começava a queda.
—Ei! — ela gritou lá de cima — Você não vem?
Lembro de ter muita dificuldade ao escalar, talvez estava muito distraído. Mas me lembro perfeitamente da visão recompensadora do topo. Não canso de descrevê-la, de enaltecer sua beleza sobrenatural, pode ser repetitivo ou maçante, mas sinceramente não ligo. Independentemente de quantas vezes eu repita, nunca será o suficiente.
—Nem vem, a subida nem deve ter sido tão difícil. — ela aumentou o tom de sua voz para competir com o som forte da cachoeira.
—Nossa... Foi... Fácil... — dizia já arfante.
—Sente aqui comigo.
Me sentei para observar com ela os abundantes frondes das árvores. Lá cima, a temperatura abaixou criticamente, e minhas roupas, já encharcadas, não me aqueciam. E estar perto da aura fria de Amane não ajudava. Tirei meu casaco e meu colete encharcados e os estendi na mesma rocha que sentava. Conversar com ela era fácil, falávamos sobre o ambiente, trocávamos experiências de vida (no cado dela de pós vida), até algumas piadas sobre anões. Com o tempo, o mesmo qual voou, pude perceber o quão sábia ela poderia ser. O seu senso de humor me roubou diversas risadas e seu conhecimento e ignorância sobre a própria vida me deixava cada vez mais encantado.
—Como é ser um nobre? — ela me perguntou
—É um estresse contínuo, se sentir claustrofóbico com tantas responsabilidades ao redor. Também é seguir tradições desnecessárias, forçar sorrisos, ver a desgraça de seu povo sem conseguir fazer nada e ser amarrado à pessoas falsas... Ás vezes... Casar com elas.
—Ah... Casamento arranjado, eu sinto muito...
—Hm? — fiquei surpreso com seus comentário sobre meu casamento.
—É horrível... Estar preso a alguém cujo você não ama, imagino agora em casamento... Imagina ter de dorm...
—Não! — a interrompi sem perceber — Perdão. Eu não durmo com Marinne, minha futura esposa, ainda não estamos oficialmente casados, mas daqui algumas viradas estaremos. Mas de qualquer jeito não planejo...Você sabe, nada disso.
Ela olhava intensamente para meus olhos, me deixando... Tímido?
—Não precisa ficar sem graça, não estou te jugando ou algo assim. — ela riu me empurrando levemente no ombro.
—Eu não esto sem graça! — menti.
—Não tem culpa ha! — ela riu — Provavelmente toquei em um ponto fraco — Amane se deitou suspirando. — Então em troca, me pergunte qualquer coisa.
—Tipo...? — mirei com admiração sua expressão serena.
—Você nunca escutou aqueles absurdos sobre espíritos? Nunca pergunte como um espírito morreu, nunca faça perguntas sobre sua vida, nunca coma pêssegos antes de encontrar um espírito... — ela listou fazendo uma voz debochada, e lembrando da voz me fez rir e respingar um pouco da tinta sobre o papel inteiro, espero ainda estar legível.
—Pêssegos?
—Eu sei lá.
Essa era minha chance de desvendá-la, de descobrir de onde todo aquele mistério vinha, sua aura, seu passado. Pensei por um tempo, pareciam éons, e estava ficando desconfortável.
—Como é depois da morte?
—Hm... Nicor talvez fique chateado... — ela ponderou sobre responder minha pergunta
—Nicor?! — perguntei surpreso — V-Você o conhece?
Nicor, deus da morte e do tempo. Nicor era pregado como um demônio nas igrejas, para assustar ingênuos cidadãos e manipulá-los a fazer qualquer coisa. Tive a sorte de ser educado sobre a natureza do universo e a necessidade de seu equilíbrio, afinal, sem ele o Caos reinaria, como já aconteceu milhares e milhares de anos atrás, antes mesmo da primeira geração de deuses, já faz tanto tantos éons e boa parte da história de seu reinado sumiu, até mesmo a própria descrição do Caos, isto é, se é possível descrevê-lo...
—Eu tenho muita história para contar a você... Quer mesmo ouvir? Você será um dos poucos mortais a saber de tudo isto.
—Muita pressão...
—Certamente.
—Parece errado, sabe, você mal sabe minha história, algo simples e mortal, e já vai revelar ponta a ponta um segredo no qual nós mortais temos nos matado para descobrir. Não parece errado e contra as leis da natureza?
—Não — ela respondeu de forma direta, me assustou um pouco tenho de admitir...
—Mas...
—Errado é vocês temerem algo tão simples. Você existe, os vidros das âmbulas se quebra espalhando a sua areia vital por todo o lugar, e dependendo da sua vida você é ceifado por um... Bem, agora entendi, é meio complicado sim.
—Vai mesmo me contar? Por que eu?
—Porque eu quero.
—Simples assim?
—Por que não seria?
[...]
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