As 8 Cartas de Um Crime
2 Capítulo 2 - Swim Horse
Para aqueles que não conhecem minha história dos jornais e noticiários, eu fui preso condenado como assassino psicopata louco e sanguinário.
Um demônio.
Um monstro.
Mas nada disso é verdade, meu crime foi amar demais, e sei que vocês acreditam em mim, mas as coisas não funcionam assim no mundo lá fora não é mesmo? Alguém sempre tem que pagar, para que as pessoas se sintam melhores. Afinal isso é que a justiça.
Está certo.
Estamos todos quites agora.
Ah Justiça! Bela, cega e retardada Justiça, o que fizeram a você? Estaria assim tão apaixonada como eu, a ponto de cometer tamanhas controvérsias como essa? Culpando reles piões enquanto o verdadeiro criminoso sai à solta pela noite, fazendo mais vitimas a cada olhar, a cada palpitar de corações... Quantos mais, assim como eu terão que ser condenados pelos seus crimes?
Mas essas perguntas não tem mais sentido agora, não mais.
Voltemos então a minha história, agora que vocês sabem que sou inocente, agora que acreditam em minhas palavras, vou lhes contar exatamente o que aconteceu.
***
Tudo começou quando eu a conheci, tão linda, tão jovem, tão impossível e inalcançável. Eu trabalhava como desenhista a época, fazia tirinhas sarcásticas para um jornal até que de bom nome, o mesmo que ironicamente iria noticiar a minha injusta sentença para o mundo.
Mas não ainda, naqueles dias eu ainda era um homem livre, livre da mordaça do amor, livre para aproveitar minha própria existência e seus pequenos e tão significantes prazeres! Ó, que dádiva eu possuía e não sabia! A verdadeira fortuna só faz-se notada quando já é tarde de mais para se olhar para traz.
Meus dias tão cheios de cores, tão brilhantes e vivos! Tão dinâmicos e mutantes;tão diferentes! Eu caminhava por entre eles como um garoto em um jardim indo em direção a sua mãe, sorrindo para as belezas a sua volta; cada flor, cada gota de orvalho. Porem continuando a caminhar sempre em direção a seu destino.
Meu destino era claro e brilhante. Minha vida, transparente como o cristal. Cada dia, tão perfeitamente sincronizado e certo que não eu não precisava planejar para que as coisas acontecessem como deviam, elas simplesmente aconteciam e tudo sempre dava certo. E eu sorria.
Dizendo assim desse modo, até parece que minha vida era monótona! Minha culpa por nunca ter me dado bem com as palavras, ironicamente — ultimamente essa minha vida tem me aturdido com uma serie de antigas ironias.
Mas não senhores, minha vida era um mar de emoções, muito mais do que qualquer outro desenhista de tirinhas de um jornal poderia se permitir ou desfrutar.
Tinha o costume de derramar minhas noites em um bar perto de minha casa, o famoso e mal freqüentado “Swim Horse”, aonde fiz mais amigos e mais inimigos do que em qualquer outro lugar que me lembre; Lá era a minha casa,
minha terra,
meu mundo.
As vezes as pessoas se perguntavam como eu conseguia tudo o que queria, tenho certeza que todos sempre suspeitaram mas para sorte deles, sempre foram espertos o bastante para manterem-se fora do meu caminho. E mesmo suspeitando das mais criativas e cabíveis teorias, elas nunca duravam muito tempo. Pois toda a imaginação que possuíam não era suficiente para entenderem como eu poderia fazer parte de qualquer tipo de esquema maluco de conspiração internacional secreto passando tanto tempo dormindo e bebendo, para a maioria delas eu acabava por ser apenas um bêbado filha da puta de sortudo, e elas sempre me esqueciam, talvez até por inveja ou frustração. Por isso nunca fui de muitos amigos.
Na realidade não tinha ver com o bar, nem com a bebida, lá era apenas o meu ponto de trabalho. Não como um playboy como vocês devem estar imaginando, éramos uma organização. Infelizmente ainda não posso revelar muitos detalhes sobre o que fazíamos exatamente – apesar de tudo, ainda preso por esta minha miserável vida nesta cela -, mas pode-se dizer que éramos nós que fazíamos o “trabalho sujo” para aqueles que podiam pagar. E aceitávamos qualquer serviço, mas não era barato.
Eu ainda não era conhecido como o “Autor”; era grande mais minha especialidade era outra. Nunca tinham me aparecido com aquele tipo de serviço antes. Nunca, até aquela chuvosa e fatídica noite...
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