As 8 Cartas de Um Crime
1 Capítulo 1 - O Autor
Escrevo agora de um lugar muito distante dos relevantes acontecimentos. Escrevo como passatempo, e como tortura, mas isso não importa. Quem eu sou não importa, o que importa agora é quem eu fui. E minha historia, que vou lhes contar...
Seria muita canalhice da minha parte se lhes dissesse que me lembro de tudo como se fosse ontem, por isso confesso que os detalhes me escapam um pouco, afinal não imaginava que a frenética vida que eu conhecia iria se acabar tão cedo. Por isso não me incomodei em continuar desperdiçando-a em boates, becos e mulheres. Mas de qualquer modo, eu nunca tive outra alternativa; minha alma estava acorrentada, presa eternamente a minha Amada Incógnita, a Deusa das minhas cartas. A sentença que me conformava com essa minha miserável sobrevivência.
Ela, aquela para quem eu escrevia todas as minhas cartas, era na verdade todas as outras que por mim se apaixonavam. Toda, e a única que sempre amei, a única. A Deusa das minhas cartas, de todas elas.
Minha amada já teve muitos rostos e nomes. Eu era um escritor, um apaixonado, mas oficialmente, meu trabalho era satisfazer as donas desses nomes.
Vou tentar ser mais claro de agora em diante, poupá-los um pouco e ir direto aos fatos. Eu era conhecido como “O Autor” e trabalhava de maneira bem discreta e singular: nunca fiz propaganda, nunca nem si quer precisei dizer uma palavra; elas me encontravam, sempre. Mulheres traídas, amarguradas e solitárias, e não apenas pelo sexo que me procuravam, oh não, era pelo amor.
Já disse que sou um escritor, um apaixonado, e toda mulher gosta de receber cartas de um amante. Como um sonho, uma doce irrealidade no cotidiano brutal dos dias de hoje; um amor, um Oasis, uma droga, um vício.
O meu esquema era o seguinte: elas vinham até mim, e eu lhes dava o amor apaixonado e desconhecido de um estranho sem lhes dizer nenhuma palavra ou som. Nenhuma delas jamais ouvira minha voz. Depois, eu desaparecia. Mas elas não me procuravam, conheciam bem o esquema; na manha seguinte, encontravam no travesseiro a primeira carta. Agora a mágica começa: São oito cartas ao todo, e apenas isso.
Regra número um: nunca dormir mais de uma vez com a mesma mulher.
Regra número dois: Nunca trair minha Amada Incógnita.
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