As 11 poesias de Halicarnasso
6 Chuva de balões negros: Parte II
Notas iniciais
VI
A garota de cabelos vermelhos parecia completamente imersa em sua jornada por entre as lápides e a névoa alva. Ela caminhava cabisbaixa e imprimia passos vagarosos e tristes, enquanto exalava uma aura mórbida e triste. Karina parou e observou o céu e, mesmo com a distância, era possível enxergar seus olhos inchados e vermelhos. Chorara muito, com certeza.
Saí de perto da janela quebrada e coloquei Laika no chão. Ela percorreu o ambiente procurando uma saída (tem uma porta, sua esperta) e encontrou uma chave (ah, isso faz sentido). Percorreu o caminho de volta e mostrou com uma carinha risonha o pequeno objeto que segurava entre seus dentes. Vocês devem estar pensando em como foi possível que etéreo e terreno conseguissem interagir naquele momento, como aconteceu no caso das tartarugas velhinhas, quando meu empurrão jogou-as para dentro da fonte (voltem para a água: a terra de vocês), entretanto, não fazia ideia. Foi mal, povo. A explicação fica para uma próxima.
Laika cuspiu a chave em minhas mãos (eu também conseguia interagir com objetos! Entretanto, a chave estava escorregadia e estranha ao toque, como se quisesse... atravessar minhas mãos) e aproximei-me da porta de madeira. Segurei a maçaneta e encaxei a chave no seu devido lugar. Girei o chaveiro com o nome “Homer” inscrito em letra bastão e o trinco gritou e, logo, a porta estava aberta. Os feixes de luz inundaram o ambiente, permitindo que partículas de poeira fossem notadas. Saí do recinto, enquanto cantarolava. “Quem precisa de solução, quando se tem... um cão... fantaaasma?”.
Fui em direção ás lápides. Eu lançava minhas botas contra a grama verde e a lama fofa que preenchiam o solo entre os túmulos. Não precisava me esconder, pois eu era um fantasma, é claro. Porém, minhas botas emitiam sons de sucção, enquanto eu andava. E eu sentia cheiro... de cinzas e mofo. Isso não era normal. Não podia ser normal! Minha sorte foi que Karina resolvera sentar numa das lápides (uma com flores azuis e próxima a uma árvore) e, devido a isso, nunca me notaria.
A garota de chapéu engraçado levantou-se rapidamente e encarou todas as direções. Parecia ter notado algo de errado (impossível!). Alternava entre norte, sul, leste e oeste com uma velocidade quase frenética. Parecia assustada, mas preparada para fugir do perigo iminente. Recolheu uma pá perdida que estava jogada no chão (filha de coveiro é corvo como o breu) e segurava-a igual a uma arma espadachim.
Quando ela olhava diretamente para onde eu estava, jogava-me contra o chão ou atrás de uma lápide ou, simplesmente, parava e ficava torcendo para me tornar cada vez mais invisível (as vantagens de ser um fantasma). Sempre que olhava para a região onde eu estava, demonstrava curiosidade. Talvez compreendendo que o pique esconde estava próximo de acabar, mas não sabia onde, exatamente, estava sua vítima. Entretanto, algo bizarro aconteceu, quando me situava a poucos metros de distância.
Karina estava de costas pra mim, procurando algum possível meliante e, subitamente, ficou paralisada, igual a quando estamos numa floresta e escutamos o som de um graveto se partindo e sabemos que vai dar merda. “Ah, claro, Halicarnasso. Como se todo mundo já tivesse passado por isso, okay”, refleti. Enfim, ela virou-se e olhou para onde eu estava.
Sua boca escancarou-se de espanto e suas pupilas dilatadas acenavam o medo. Ela segurou o cabo de madeira da pá com muita força (os nós de seus dedos ficaram esbranquiçados e rígidos). Engoli a seco. Algo estava muito, muito errado.
Ela imprimiu dois passos para trás, distanciando-se de mim. A garota balançava a cabeça em negativa e parecia em estado de choque. A incredulidade estampada em seu rosto a denunciou: ela podia me ver! Por mais que eu tentasse negar isso com todas as minhas forças (juro pra vocês, galera)... ELA PODIA ME VER! Não sabia se ficava triste ou alegre.
– Quem... é... você? – Karina perguntou. Sua voz era mais fina do que eu tinha imaginado.
– Rapaz! Não acredito que consegue mesmo me ver – sorri amistosamente. – Prazer, eu me chamo Halicarnasso – disse, enquanto partia em sua direção para cumprimentá-la.
– Não se aproxime! Por favor, não se aproxime! – ela gritou. – Ou eu juro que te mato, garoto!
– Ei, ei. Relaxa, gata. Não vou te machucar – continuei a estreitar a distância que nos separava. – Eu sou do bem! Juro pra você. Juro juradinho.
Quando estava a um passo de distância de ficar muito próximo dela, a garota, num acesso de fúria, começou a golpear o ar com aquela sua pá do mal, provavelmente, querendo me acertar. Eu pedi que ficasse tranquila, mas ela me ignorou por completo. Karina fez um arco com sua espada improvisada (menina gótica ninja modo ativado) e golpeou onde ela, considerava, que estaria minha cabeç...
Caí. Meu corpo rodopiou e uma dor absurda latejou no lado do meu crânio. MAS QUE MERDA FOI ESSA? Meu rosto estava de encontro com a lama do chão, pois eu desabei com a barriga para baixo. Eu estava completamente zonzo e o mundo girava, girava e girava. No meu campo de visão desfocado, pude ver uma macha preta e vermelha correndo para bem longe. Suas botas faziam um “ploft ploft” ritimado a cada vez que pisava apressadamente no chão fofo e lamacento.
Laika surgiu (onde você se meteu por todo esse tempo, sua maldita?) e lambeu o meu rosto. Eu pude sentir a umidade de seu ato carinhoso. Desconhecia o que estava acontecendo. “Eu me tornei humano? COMO?”, raciocinei. Poderia ficar horas e horas discutindo o porquê de, naquele momento, estar fisicamente presente no mundo terreno, mas um assunto mais importante dominou-me por completo: não podia deixar aquela garota sumir.
Levantei-me e corri o mais rápido possível. Laika seguiu-me e me ultrapassou com suas pernas de foguetinho. Pulei lápides e escorreguei na grama, mas logo encontrei a saída. Um arco de bronze e gradeado estava encaixado no chão lamacento, igual a um enorme portal (anjos cantam no céu. Aleluia!). Uma parede grotesca e cinza delimitava o cemitério, logo, aquele portal era a única saída.
Debaixo daquela estrutura, um homem grande (por favor, grande é apelido) e deveras cabeludo me olhava nem um pouco amistoso. Bom, ferrou. Foi bom conhecer vocês. Presas ao arco haviam inúmeras bexigas e uma faixa que dizia “Parabéns, Karina” situava-se colada na parte mais alta da estrutura.
O homem-monstro segurava uma motherfucking mesa e jogou-a na minha direção. Arqueei para o lado e consegui desviar (FILHO DA...). Não houve tempo para xingamentos, pois ele começou a lançar as cadeiras também!
– Joga a festa inteira, porra! Joga a mãe também! – gritei, antes de pensar que isso só pioraria minha situação.
O cara (Abominável Homem das Festas) lançou seu corpo maciço em minha direção, afundando seus pés no chão lamacento. Rolei por entre suas pernas e surgi atrás dele. Comecei a fugir em direção ao além-cemitério, mas o homem agarrou a ponta solta do meu cachecol (por que sempre fazem isso?). Entretanto, passados alguns segundos, nada aconteceu. A força que me puxava para trás por meio do tecido desapareceu como mágica.
Olhei para trás e o monstrengo admirava-se com o que tinha acontecido, tentando entender o que raios fora aquilo. Encarava suas mãos e o pedaço de tecido que nela estava presente, mas que não conseguia agarrar nem a pau.
Eu estava fora dos limites do cemitério e meu corpo voltara a possuir sua essência etérea. Provavelmente, porque o cemitério era tão (TÃO!) próximo da morte a ponto de os mortos serem a realidade naquele ambiente. Nos domínios dos fantasmas, os humanos que eram intrusos. Agradeci a minha sorte e retornei a perseguir Karina.
. . .
A garota não conseguira fugir para muito longe. Após virar a primeira esquina, vi um grupo de adolescentes em volta de um corpo caído: Karina Beuregard. Eles chutavam a garota, enquanto ela implorava para que eles parassem. Um deles sorriu e enfiou sua bota bem na face da garota, abrindo um corte em seu supercílio.
O lado do rosto da garota preencheu-se de sangue. E eles não pararam por aí.
O mais baixinho dos adolescentes arrancava-lhe pedaços de sua roupa e sorria loucamente, como se aquilo fosse a coisa mais cômica do mundo. A garota chorava e gritava por piedade. Um deles (o líder da gangue) a levantou e a empurrou contra a parede cinza e fria do muro. Pressionou o dedo indicador contra o seus lábios, enquanto sua mão esquerda deslizava pelo seu ombro, pescoço e...
Admirei as pessoas que olhavam o que estava acontecendo. Apenas... observavam uma menina próxima de ser estuprada em público. Ajudem ela, porra! Façam algo de útil. Um homem de terno e barba por fazer e dono de uma mala preta bem brega passou a poucos centímetros do grupo e não se importou. Fingiu que nada estava acontecendo e continuou a falar qualquer coisa inútil no seu aparelho celular.
Os malditos adolescentes impregnavam cada milímetro da cidade com atitudes repugnantes. E as pessoas fingiam que estava tudo bem. “Qual o problema de vocês?”, gritei. Assistia aquela cena em estado de choque. Karina sussurrava frases jogadas ao vento.
Por favor, não façam isso.
Por favor...
Certa vez, Kurt Cobain disse que eu não deveria ajudar humanos. Avancei em direção ao grupo rebelde com toda minha ira concentrada em punhos.
Foda-se, Kurt.
Eu faço as regras.
Não tenho medo de tornar-me uma aparição.
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