As águas de Avonadiv
2 O rei carrasco
O carro que os guiou até a cidade era sustentado por pequenas criaturas curvadas de duas pernas e nenhum braço. A pele era enrugada e a transparência vislumbrava as veias esverdeadas. Sabiam para onde os levava. E essa viagem duraria toda a noite.
Era de conhecimento de todos que o novo rei não pudesse ser visto por ninguém da cidade maior antes de passar pelo ritual de passagem. Era uma forma de conservar a imagem sempre pesada e rígida do poder. O ato de mostrá-lo antes desse importante momento traria para o imaginário do povo um rei fraco e comum.
O trajeto do pretendente a rei era complexo antes de sentar-se ao trono. A primeira coisa a fazer é encontrar-se com os anciãos e receber suas bençãos. E somente reis e ministros possuem permissão de aproximar-se desses homens sagrados.
Já era manhã quando Otsuj era encaminhado para os aposentos do palácio. Suara não podia andar por nenhuma dependência do palácio antes de consolidar-se a coroação e o casamento. Isso, de um certo modo não a incomodava, haja vista que estava cercada por criadas que lhe ofereciam tudo que sentisse necessidade.
Otsuj teve as vestimentas retiradas e fora direcionado até o santuário do palácio completamente nú. Ao entrar no santuário avistou Otseno e o restante dos ministros com as suas melhores roupas para a ocasião. Todos se posicionavam nas laterais do grande salão com os olhos voltado para o jovem recém chegado. Otsuj percebia que alguns o olhavam com uns olhares de incredulidade, como se estivessem se perguntando se aquele jovem tão franzino e sem graça poderia de fato ser um bom rei. Outros só o olhavam com curiosidade, esperando talvez que esse novo reinado durasse mais de um verão sem erros e exageros. Sem mortes.
Otsuj seguia um caminho provavelmente traçado para ele que o levava até o grande altar. Ao chegar a primeira escada conseguiu enxergar coisas que o atormentaram. A primeira delas foram as criaturas literalmente enraizadas nas majestosas cadeiras do altar. Eram no total de onze seres. Pareciam ser uma das criaturas mais velhas que ele imaginou encontrar em vida. A pele ressecada, os ossos expostos e as rugas desenhadas em cada milímetro de seus corpos. Sim, eles estavam presos às cadeiras, como se elas se tornassem parte de seus corpos. E ao centro de tudo, uma espécie de trono dourado, de uma exuberância incomoda. No assento estava uma espécie de roupa, com uma capa e ao lado do trono, uma mesinha contendo a pesada coroa. Eis o maior símbolo do poder e seu peso.
O ancião mais velho levantou a muito custo e de modo cuidadoso o fino braço.
– Pode parar aí, meu rapaz. Deixe-me ver direito a quem confiaremos todo o nosso poder.
Com os enormes olhos amarelos olhou de cima a baixo o rapaz. Em seguida voltou os olhos aos outros anciãos.
– Sinto que fizemos uma boa escolha.
– Temo estarmos cometendo mais um erro.
– Silêncio, velho burro! Você está cego, não consegue enxergar o que eu enxergo na alma desse rapaz. Sua áurea tem a cor da ética. Seu cheiro traz o odor da justiça.
– Tenho pena desses rapazes que você traz para morrer. Sinto saudade de quando éramos os reis e não éramos obrigados a escolher qualquer um para fazer o que podíamos fazer livre e ao nosso modo.
– Você vai o assustar com essas palavras. Me desculpe, meu rapaz. Novecentos anos abalaram a cabeça dele. Por ele essa unidade ainda seria regida pelas anciãs, aquelas bruxas tolas e inúteis.
– Eu nunca disse tal coisa.
Os outros anciãos balançavam a cabeça em desaprovação diante a discussão em pleno ritual de coroação.
– Vocês deveriam parar de discutirem isso e dá continuidade ao que ainda podemos fazer.
Todos concordaram. O ancião mor continuou.
– Sabemos seu novo nome, antes significava o que você era e hoje não significa nada. Portanto, meu rapaz, o significado dele passou para os seus atos. Muito sábia tua mão te dá um nome tão forte. Antes de assumir o verdadeiro poder deverá lavar o trono que fora inundado de vergonha e traição. Meu rapaz… Você está ciente do que você deverá fazer para assumir o trono? Está disposto a isso?
Otsuj, na verdade não sabia o que responder. Nunca matou um ser minúsculo e naquele instante ele tinha que dizer que estava disposto a dizimar uma família inteira para se tornar um rei. E ele sabia que não estava preparado para fazer tamanha crueldade. Acreditava que estava começando de um modo completamente errado. Bastasse destronar o rei e ocupar seu lugar.
Otsuj estava pronto a dizer que não, não tinha disposição para tão cruel ato. Eles o deixariam em paz, voltaria pra casa para os braços de sua mãe e levaria consigo sua amada Suara. E voltaria a sua vida normal, sem ter que matar qualquer um que deslizasse uma linha da lei.
– Meu rapaz… Nós compreendemos o que se passa em sua mente. Sabemos o medo que corre em suas veias. Não se preocupe que compreendemos muito bem como se sente. E para lhe ajudar na sua resposta, vamos deixar bem claro que você não tem escolhas. A recusa é a aceitação do sacrifício.
– Entenda… Aquele homem desonrou toda uma unidade. Sujou o nosso nome. Roubou dos seus para o bem próprio. Não bastando tudo que o palácio lhe oferecia. Não é simples vestir o poder sem antes vestir uma grande responsabilidade. Gostamos muito de lembrar aos nossos escolhidos sobre o que oferecemos. Entregamo-lhes o conforto, o poder de escolha, tudo que qualquer homem anseia em vida conquistar. Mas junto a tudo isso, vem o grande peso, a responsabilidade, a condição de líder.
– Não é um ato cruel. É uma necessidade. De alguma forma você terá que passar por isso, e nada melhor do que limpando o trono da traição.
Otsuj levantou as mãos e olhou as palmas como se as enxergasse lavada de sangue. Pensou consigo “Limparei o trono da traição… e sujarei as minhas mãos com sangue inocente...”
– Não será sangue inocente, meu jovem.
O rapaz espantou-se com aquela fala do ancião mor.
– Sim, lemos mentes como quem ouve qualquer voz com os ouvidos.
– Eu não consigo pensar na esposa e nos filhos…
– São descendentes do mesmo sangue… As gerações pagam pelo erro dos pais. Não existe inocentes quando o crime é cometido por um homem possuidor de poder…
– Não conseguirei fazer isso… — disse em lágrimas — Me perdoem! Me perdoem!
– Então não temos escolhas…
– Como eu havia dito… isso nunca foi uma boa ideia. Homens comuns sempre serão homens comuns.
– Cala essa sua boca, seu velho rabugento!
O velho ancião olhou profundamente para a mente do rapaz, pela primeira vez sentiu pena de um candidato a rei. Ele realmente era diferente. Ele conseguiu ver no fundo de sua alma algo que o torna ganancioso e perigoso.
– Meu rapaz… Todas as nossas escolhas tem conseqüências… Sabe que ao escolher não assumir o que é teu de direito, também está escolhendo matar a si e a sua amada rapariga que trouxe contigo.
Essas últimas palavras caíram-lhe como uma rajada de angústia e temores. Aceitava morrer por aquela família… mas jamais permitiria qualquer mal contra Suara, tampouco a morte.
Otseno não se aguentou em seu lugar e aquela ameaça o obrigou a quebrar o protocolo.
– Meus senhores, mil perdões quebrar a ordem da coisa. Sei que sou um humilde servo e minha voz não se torna digna diante tamanha sabedoria… mas, permita-me oferecer-lhes algumas poucas palavras.
– O ministro demonstrou que é conhecedor da pouca importância que suas palavras tem para nós. Mas demonstrou também o quanto ignorante à lei é ao quebrar um protocolo tão sagrado como o silêncio. Volte ao teu lugar se não quiser fazer parte daquela tragédia que não é tua neste instante.
Otseno não teve escolha senão confiar nas ações do rapaz. Otsuj estava mergulhado no mais profundo abismo, buscando alguma saída. Algum modo para se salvar e salvar Suara. Ela que nada tem haver com seus princípios e medos. Não… não será por causa de um medo ou qualquer outra coisa que permitirá que ela morra no ápice de sua maior conquista. Neste instante ele se via diante a vida e a morte. Um ato que para aqueles homens era tão banal e costumeiro, para Otsuj era uma chacina. Matar um homem corrupto era fácil, ou parecia ser fácil. Mas matar uma mulher e crianças… Não fazia sentido para ele.
– Bom, rapaz… Esperava mais de você. Vou pedir que levem você e sua rapariga para a prisão junto aos condenados.
– Espera. Por favor espera… Poupe Suara, ela não merece isso.
– Não fazemos isso… A única coisa que nos cabe poupar é a unidade e a honra nela estabelecida. Qualquer um que ameaçasse o equilíbrio de nossa terra, condenamos com a morte. Sempre foi assim e assim sempre será.
– Se eu assassinar aquele homem, sua esposa e seus filhos… manterão a primeira promessa?
– Não considere as coisas dessa forma, rapaz. Não veja isso como um ato criminoso, mas sim de purificação e passagem.
– Veja meu jovem. Depois de tudo isso você se sentirá mais confiante em levar uma unidade à prosperidade. Se sentirá mais seguro em tomar decisões acertadas. E pode ter certeza, que no exato momento que você puser aquela coroa sobre sua cabeça, não poderemos lhe ordenar em nada. Esses ministros estarão à sua disposição. Nós só assumimos a voz na unidade se você cometer qualquer deslize.
– Hoje é apenas um ritual de reconhecimento e aceitação. O verdadeiro ritual de passagem será amanhã, quando de fato poderá vestir a coroa que é de direito tua.
Otsuj então encarou um por um dos anciãos, deu-lhes as costas e olhou nos olhos um por um dos ministros e, principalmente, os de Otseno. Um rancor subiu-lhe as veias dos braços como se desejasse que seu pai jamais tivesse conhecido aquele homem. Tampouco recebesse tão desgraçado nome. E, enfim, voltou os olhos para o ancião mor.
– Assassinarei, sem escrúpulos ou piedade uma família inteira. Como me obriga a lei. Mas não por essa coroa que nunca foi de minha vontade possuir, nem por esse poder destrutivo que me oferece. Mas por Suara, sim, quero que vocês todos ouçam, é por Suara. É a ela quem quero proteger. Hoje morrerá o homem que minha mãe, aquela que vocês me fizeram abandonar, me tornou. E nascerá um carrasco. Quero ser lembrado assim, como o rei carrasco. O rei que pela lei, pelo costume antiquado e mesquinho, cometeu o assassinato de uma família inteira. Um homem condenado, sua esposa e filhos inocentes. Sim, meus senhores. Aceito, aceito esse pesado fardo que me fora obrigado vestir. E mesmo que eu deixe de ser aquele homem que eu esperava ser lá em minha terra. Continuarei a levar o significado de meu nome, também me tirado, em meus atos e escolhas.
Um sorriso brotou no rosto do velho ancião.
– Eis o verdadeiro rei! Eis as palavras que meus ouvidos embeberam-se como a um mel adocicado de verdades e honestidade. Que não seja o ódio o teu guia, meu rapaz. Mas esse sentimento de justiça e sabedoria.
Mesmo se encontrando tomado pelo terror daquela circunstâncias, a fala daquele velho ancião lhe descera como uma tremenda confusão. Não conseguia encontrar o sentido de justiça em sua fala tampouco de sabedoria. Ajoelhou-se em reverenda aos anciões e permitiu-se ser vestido com a pesada vestimenta que os ministros traziam.
– Essa roupa é a lembrança de suas escolhas e atos que cometera para vesti-la. É o primeiro passo. Quanto à coroa, será pesada sobre tua cabeça após o rito de passagem. Os ministros lhe encaminharão ao seu aposento, onde poderá se preparar para o grande momento.
Otseno foi o primeiro a aproximar-se do rapaz. Sem dizer qualquer coisa não saiu de perto de Otsuj por nenhum momento até a entrada do quarto nobre. Esperou que os outros ministros se retirassem e entrou no quarto. O rapaz estava sentado na cama, intacto, com os olhos no vazio. Talvez desejando estar em casa ou pelo menos, ter ali ao seu lado, sua amada Suara.
Otseno andou alguns minutos de um lado a outro até sentir que podia aproximar-se daquela fera furiosa.
– Eu sei que você me culpa e deseja que eu seja a última pessoa a estar aqui do seu lado. Eu sei o quão difícil está sendo tudo isso. Mas, filho, peço que você aja com cautela. Seja cuidadoso, pelo menos por esse momento em que a coroa ainda não se encontra sobre sua cabeça. Qualquer deslize colocará você e Suara em risco. — suspirou — Não foi minha escolha. Bem a verdade, foi um pedido de seu pai. E por tamanha a dívida para com ele, eu me senti obrigado a aceitar. Mesmo orientando o quão duro é essa vida. Os riscos que envolve possuir tal posição. Por mias honesto e justo seja um rei, sempre há alguém que o derrubará. Por isso estou aqui, para ajudá-lo, foi isso que prometi a seu pai caso se tornasse você o escolhido.
Otsuj encarou o velho e não soube distinguir se sentia dele pena ou ódio. Mas ainda assim alguma coisa nele lhe inspirava admiração e respeito. Talvez por lhe trazer uma sensação partenal que sempre lhe faltou ou por ser a última pessoa depois de sua mãe a ter em seu pai o respeito que ele sempre mereceu.
Otsuj não tinha muito o que dizer. Sentiu vontade de perguntar sobre em qual circunstâncias seu pai salvou a vida de Otseno. Mas o medo de se arrepender do que iria ouvir o fizera desistir. A única coisa que conseguiu dizer foi:
– Acho que preciso descansar… Amanhã tenho uma chacina para cometer como forma de coroar a amizade sua e de meu pai.
– Não diga uma coisa dessas, se ainda tem respeito por seu pai. Vou deixá-lo a vontade. Mas antes quero dizer que, me sinto honrado em servir a alguém como você. Engraçado que hoje será a última vez que o chamarei de “você”. — soltou uma risadinha.
Otsuj soltou um sorriso asco e em seguida deitou-se à cama. Enquanto Otseno retirava-se fechando atrás de si as portas do quarto.
A noite foi bem longa para Otsuj, não conseguia fechar os olhos diante a visão das vítimas que faria pela manhã lhe assombrando. Enquanto que no quarto da outra extremidade do palácio, Suara dormia o mais tranqüilo sono, não imaginava os tormentos que o Otsuj passava e passaria. Teve um dia cheio experimentando os vestidos que ganhava de presente das criadas. Feitos por elas ali mesmo no quarto. E antes de dormir imaginou como seria o outro dia. E quais presentes ganharia. E como seria a coroa que lhe cairia sobre a cabeça. Estava vivendo um sonho. Pensou em agradecer Otsuj por aquela oportunidade. Não sabia como, mas sentia essa grande necessidade. Como se adivinhasse que sua vida estivesse por um fio, e essa sensação de gratidão ao jovem rei fosse por tê-la salvo da morte iminente.
O dia fora anunciado pelas trombetas dos anunciantes do reino. Essas trombetas anunciavam sempre uma boa nova. Mas com uma conseqüente tragédia. O novo rei que chegava e matava o destronado. Apesar de aparentar algo fúnebre, era um evento estrondoso, de grande euforia e comemorações. Pessoas de várias vilas vinham à cidade para presenciar o importante evento. E festejar como o restante do povo o grande festival da coroação. As ruas eram enfeitadas. As barracas espalhadas com ofertas de guloseimas e bebidas tradicionais. Era um dia de festa!
Uma gaiola suspensa mantinha os prisioneiros aguardando a hora da ceifa. Dentro havia um homem despido, uma mulher também despida e duas crianças vestindo a pele de seus pais. As pessoas estavam tão preocupadas em se bebedarem e comemorar que não notavam nos olhares daqueles o horror e a angústia. Estavam ali expostos desde a chegada do novo pretendente a rei, que todos iriam conhecer naquele dia, cometendo o maior ato que todos os reis cometem antes de vestir a coroa. Uma das crianças reclamava à mãe de forme. A outra ficava encolhida enxugando as lágrimas que lhe jorravam. Não sei se elas estavam cientes de seus destinos. Mas algo nelas estava claro que não esperavam algo menos pior que a morte.
Otsuj fora acordado pelos criados que deixara sua vestimenta imperial pronta para que ele possa se vestir. E, mesmo descansado, sentiu o quão pesada era aquela roupa, e para deixá-la ainda mais pesada vinha uma espécie de capa de veludo grosso presa ao ombro. Otseno foi o primeiro ministro a cumprimentá-lo. Abraçou-o e sussurrou-lhe ao ouvido:
– Meu filho, não importa o que aconteça lá fora, estarei contigo.
Os outros vieram e apertaram-lhe a mão simplesmente. Otsuj sentira que o único que lhe tinha qualquer espécie de estima era o amigo de seu pai. Olhou em volta buscando encontrar Suara. Mas, no momento em que mais necessitava dela, ela não estava ali. Sabia que não era por sua culpa, conhecia as regras. Era para ser assim. Era uma forma de poupá-la do peso que ele carrega. Ele desejou que as vestimentas de sua queria amada não fosse tão pesada quanto a sua. Queria ver em Suara a sempre presente leveza e delicadeza de mulher que ela demonstrava ter. Desejou profundamente que este dia acabasse para poder colher os frutos dessa árvore tão espinhosa. Eles deveriam ser mais saborosos deu os espinhos que a formam.
Otsuj recebera um papel contendo os juramentos e o primeiro discurso que faria como rei de Avonadiv. Seguiu até o palco onde se encontravam os ministros e os condenados a morte. Assim que pisou no palco o povo entrou em euforia com a chegada do novo rei. Otsuj desejou profundamente que sua mãe não tivesse ido ver-lhe cometer aquela atrossidade àquela família. Olhou em torno da multidão, e mesmo se ela estivesse ali, seria impossível encontrá-la. E voltou os olhos para o destronado e sua família. Um arrepio rasgou seu peito de modo que não conteve uma lágrima que derramou deliberadamente de seu olho. Evitou olhar para as crianças. Queria fazer aquilo de uma forma rápida e se possível de um modo indolor, para as vítimas e para si mesmo.
Mas as pessoas foram ali assistir a um espetáculo. Um massacre repleto de sangue. Cabeça voando e sendo sorteadas ao primeiro que pegar, como se faziam antigamente nos casamentos quando a noiva jogava o buquê. As pessoas estavam desejosas de ver uma morte mais horrível que a outra para aqueles que sujaram o trono de Avonadiv. E elas iriam se decepcionar. Porque Otsuj não preparara este esperado show.
Um dos ministros perguntou a Otsuj de como ele queria posicionar os condenados no palco. Otsuj pediu que os colocassem juntos, pois pretendia causar-lhe uma morte rápida a todos. Não estaria certo uma mãe ver os filhos serem assassinados tampouco os filhos presenciarem a morte dos pais.
– Mas, meu senhor, isso é muito sem graça. As pessoas esperam justamente isso! Quanto mais dores você causar nesses miseráveis, mais respeito você conseguirá de seu povo.
– O combinado foi limpar o trono com o sangue deles. Então farei isso, mas da forma mais justa possível. Não é isso que esperam de mim? Justiça?
O ministro descontente, direcionou-se até as vítimas e violentamente os levou até Otsuj. Otsuj, por sua vez, tomou os quatro do ministro e disse que assumiria dali. Colocou todos ajoelhados um do lado do outro, e enquanto fazia isso, baixinho, pedia perdão pelo que iria fazer. Pegou a espada, fechou os olhos e decepou cegamente a cabeça de cada um deles. Bem rápido de modo que nenhum presenciasse a morte do outro.
Um silencio absurdo tomou conta da cidade inteira. As pessoas esperavam as cabeças voarem. Esperavam um espetáculo de sangue. Dor, muita dor. No máximo que conseguiram, algumas mortes rápidas e indolores. Os olhos estagnados e angustiados acompanhavam cada movimento do pretendente a rei. Este homem, deitava os cadáveres um do lado do outro, posicionando a cabeça de cada um em seu devido lugar. Sim, ele chorava. Sentia muito por aquelas vidas que acabara de tirar. Após esses atos, Otsuj posicionou-se diante Otseno com um ar desafiador.
– Você fez o que tinha que ser feito, à sua forma rapaz. As pessoas ficaram decepcionadas por ora, por não presenciar um espetáculo como os anteriores realizados pelos antigos reis destronados. Admiro, de verdade, seu respeito e sua lealdade aos mortos. Logo essas pessoas esquecerão esse desapontamento. A noite será só festas para eles e para você. É necessário, meu rapaz, que antes de terminar o rito de passagem ler os juramentos e o discurso. Seja forte. Está quase acabando.
– Eu sou obrigado a ler isso?
– Você tem que ler meu filho. Ou o ritual não estará completo.
Fale com o autor