As Árvores Trigêmeas
4 A história que não foi contada
Notas iniciais
A sala era grande e não havia janelas, a pouca luz provinha de uma lareira e de algumas velas espalhadas pelo recinto. As paredes eram repletas por prateleiras de livros e bem no centro havia uma mesa comprida de madeira com algumas cadeiras, e atrás dela um homem estava sentado com as pernas por cima do tampo, provavelmente era Ducalion.
– Ora, ora, senão é o meu prodígio, Josh – riu o homem de forma maliciosa, mas que no fundo mostrava certa satisfação – Sente-se e me apresente os seus novos amiguinhos.
Josh ficou de pé, mas indicou para os irmãos se sentarem.
–E os encontrei na floresta, estavam nas Ruínas, e acho que eles quebraram o selo.
O sorriso antes estampado no rosto de Ducalion sumiu, como se nunca tivesse estado lá e levantou-se de um pulo.
– Ah, Josh. A única coisa que você tinha que fazer era proteger a árvore. – e assumindo um tom muito alto, continuou: — Mas nem isso você soube fazer! Pra que você nasceu? Foi treinado e mesmo assim falhou.
Diante de tal reprimenda Josh vacilou, abriu e fechou a boca duas vezes, mas nada encontrou para dizer, e quando encontrou os olhos de Ducalion percebeu que deveria permanecer quieto e retirou-se para se sentar no canto da sala.
– Agora... quem são vocês? – perguntou o homem.
– Sou Raphael, e essa é a Livie.
– A menina não tem língua? – vociferou
– Meu no-nome é Livie. – murmurou a garotinha
– Tudo bem, garotos. Creio que vocês saibam o que fizeram. Vocês conhecem a história da bruxa, certo? – o homem não esperou resposta e pôs-se a andar de um lado para o outro dentro da sala, parecia estar falando mais consigo mesmo do que com os outros — Acontece que vocês não sabem da outra parte da história...
(Flashback Evangeline)
Era uma noite fria, a bruxa caminhava pelos arredores do castelo, apenas esperando que a grande comemoração acabasse. Havia guardas por todos os lados, o som da música e de risadas estridentes podia ser ouvido por toda a cidade. Eles comemoravam a vitória de uma batalha pequena que lhes rendeu mais terras para que pudessem governar. Eles não teriam felicidade por muito mais tempo.
Evangeline ainda tremendo de frio por baixo de suas várias camadas de lã tratou de por seu plano em prática, seu filho morrera, eles deviam pagar por isso. Sid pagaria e toda sua família também.
A dor da perda, ninguém podia senti-la, apenas ela, a Bruxa.
Assim como o esperado os convidados do castelo saíram ao ar livre para que pudessem assistir às justas que decidiria qual senhor teria posse das novas terras. Após todos terem se sentado, com as fogueiras já acesas, e com Sid e sua família tomando seus lugares de honra, a bruxa andou até o meio da arena e pôs-se a recitar desenhando um círculo na terra em sua volta:
– Eis aqui o momento de minha vingança, contra o homem que eu mais amei e que jurou amar-me sem fim.
O rei vendo tal cena horrorizou-se e ordenou aos guardas que a tirassem dali o mais rápido possível. A família real não podia ser exposta daquela maneira, já bastavam os rumores sobre aquela mulher que havia sido a amante de Sid, o herdeiro do rei. Os guardas, que estavam de prontidão avançaram contra a mulher com as espadas em punho.
– Vocês não podem me tocar – sibilou Evangeline
Os homens pararam abruptamente, não conseguiam dar um passo que fosse para dentro daquele círculo maldito. A bruxa vendo que eles não desistiam de tentar matá-la, fez com que seus corações acelerassem e explodissem, caindo mortos ao chão.
A cena fez com que a multidão se agitasse em completo terror, mas ninguém conseguia fugir, ninguém se moveria até que Evangeline permitisse, todos deveriam ver como a família Griffits seria amaldiçoada por uma mulher feiticeira, a amante do príncipe.
– Eu lhe dei meu coração – continuou a moça olhando nos olhos de Sid, que mesmo a distância pôde perceber a dor e a raiva dentro da mulher – dei-lhe um filho, e você o matou!
– Eu apenas me protegi! Foi traição, ele tentou me apunhalar! – gritou Sid ainda sentado em seu lugar
– Não importa! Ele era meu, meu, meu, MEU! – e por um momento se deixou perder entre as lágrimas e os desespero – Vocês o mataram! Amaldiçoados sejam! Que sua família viva em total desgraça, e que toda vez que um Griffits estiver às portas da felicidade, que o infortúnio venha a visitar-lhes!
E para selar sua praga Evageline sacou uma lâmina que carregava com consigo e cortou sua própria garganta, para que todos vissem que a maldição fora consagrada com seu sangue.
(Flashback Sid Griffits)
Sid já dentro do castelo, trancado em seu quarto permitiu-se chorar. Como chegara naquele ponto? Evangeline era uma mulher boa, como fora tornar-se tão vil e cruel? Já lhe bastava a dor que Oliver fazia e agora, ela.
– Eu tentei protegê-los – disse o príncipe para o seu fiel escudeiro, Ducalion – e pra que? Sou um inútil! Como serei rei se não consegui nem mesmo cuidar do que me era precioso?
– Se acalme, meu senhor, você fez tudo o que poderia ter feito. Você tentou salvar seu filho, a morte dele foi apenas obra do acaso. Eu lamento.
– Não, meu caro amigo, sou eu que lamento. Vamos! Traga-me toda a bebida que puder.
– Você esta me dizendo que Sid tentou salvar Oliver? – perguntou Raphael incrédulo – Como pode saber disso? Só porque seu nome é igual ao do escudeiro do Príncipe, não quer dizer que...
– Eu sou aquele Ducalion. Não acredita em mim? Deveria depois do que viu hoje. Você não percebe, garoto? As três árvores representam as três mortes: Oliver, Evangeline e depois Sid. Agora a bruxa foi liberta, ela esta cega pelo ódio e pela vingança, ela vai matar quem estiver na sua frente. Vocês a libertaram, então vocês terão que detê-la.
Raphael deixou que aquela frase surtisse seu efeito. Era impossível, como ele e sua irmã fariam para deter uma feiticeira louca que queria matar todos? E aquela história que lhes fora contada era improvável, se Sid tentou salvar seu filho, como ele morrera e porque Evangeline não tinha conhecimento disso?
– Deixe com que eles descansem – aconselhou Josh com uma expressão muito perturbada – Amanhã, devemos começar a nossa caçada contra Evangeline.
– Esperem – disse Ducalion com uma voz grave – Todos acham que Sid se matou, mas a verdade é que ele morrera no momento em que a maldição fora proferida. Agora descansem, pois o dia que está por vir será longo.
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