As Águas de Veneza
33 Capítulo 33
Notas iniciais
Deu algum trabalho e foi preciso primeiramente acalmar os ânimos exaltados dos convidados, mas Feliciano conseguiu colocar todo mundo pra dentro de casa e ainda por cima ajudar Roderich com a comida, já que Gilbert estava entretido de mais conversando com Antonio para notar.
Ambos estavam na sala sentados lado a lado no sofá, Gilbert ria escandalosamente (como sempre), enquanto Antonio contava alguma coisa muito engraçada em voz baixa.
Do outro lado estavam Lovino e Roderich que olhavam para os dois sem entender qual era a piada, nenhum dos deles conseguia ver graça na simples menção de um “escocês de saia”.
Aparentemente era alguma piada interna que envolvia seus tempos de colégio.
Com o passar dos minutos Roderich levantou-se e foi para a cozinha ajudar Feliciano e Ludwig. Lovino preferiu ficar, não queria ver aquele “batatão” bastardo tão cedo.
Quando o austríaco chegou ao cômodo, encontrou Ludwig encostado na pia e Feliciano ao lado do fogão, ambos conversando, o alemão demonstrava a expressão mais feliz que ele já vira, era quase inacreditável que conseguisse sorrir daquela maneira.
Assim que perceberam a presença do outro, Ludwig parou de rir quase que instantaneamente e corou, Feliciano por sua vez foi bem mais receptivo.
–Hey, Rodercih, não? – Disse sorrindo e passando uma mão pelos ombros do outro
–Ah... isso... – Respondeu um tanto incomodado pela proximidade
–Está com fome? Mi Fratello fez um macarrão muito bom! Vamos servir já! Você não quer chamar o resto do pessoal? Devem estar com fome tambem...
O italiano disse tudo isso muito rápido, e o austríaco acabou olhando para ele fixamente uns dois ou três segundos antes de captar a mensagem final, assim ele concordou e voltou para sala, onde a situação havia mudado novamente.
Lovino de alguma maneira havia se enfiado entre Gilbert e Antonio, e respondia um tanto timidamente as perguntas do alemão, enquanto o espanhol lhe passava uma mão pela cintura e apertava levemente sua coxa.
–Mas, você e seu irmão costumam se dar bem? – Perguntou Gilbert com uma mão apoiada no encosto do sofá, sentado como um verdadeiro paxá do deserto.
–Bom... sim... As vezes ele é um idiota chorão, mas é... legal – Respondeu Lovino olhando para o chão.
Antonio lhe deu mais um apertão discreto na coxa, e então percebeu que Roderich estava ali.
–Hey Gil! Olha!
O albino se virou para Roderich e deu um grande sorriso, um daqueles sorrisos que significava que teve uma grande ideia.
–Hey Rod, senta aqui! – Disse batendo a mão no braço do sofá e sorrindo.
Roderich fez cara feia e se afastou
–Eu não vou me sentar no braço do sofá, you fool! Vou quebra-lo!
Gilbert de uma risada
–Quebra não jovem mestre! Pode vir!
O austriaco bufou e rolou os olhos.
–Eu não vou fazer isso, desista! Eu só vim avisar que é pra vocês irem se sentar na mesa, Feliciano já vai servir o jantar.
Gilbert mais que depressa se levantou e passou a mão pela cintura de Roderich.
–Vamos então, kesesesesesesesesesesese
O austríaco franziu o cenho.
–Só porque seu amigo está aqui, não significa que você precisa ficar agarrado em mim desse jeito.
–Uh... Mas eu quero mostrar a minha dama pra todo mundo!
–Eu. Não. Sou. Uma. Dama. – E soltou o braço alheio da sua cintura – You fool!
Gilbert rolou os olhos e sorriu, seguindo-o até a sala de jantar.
XXX
Quando todos chegaram à copa, a mesa foi arrumada da seguinte maneira:
Feliciano ficava na cabeceira como dono da casa e promotor do jantar, ele sorria aos convidados e tagarelava animado com Ludwig. O alemão fora colocado ao seu lado esquerdo, e ao mesmo tempo em que prestava atenção em Feliciano e sorria para ele, desviava dos olhares feios de Lovino, que por insistência do irmão, fora colocado á sua frente.
O alemão não sabia o que pensar de Lovino, ele ao mesmo tempo em que mantinha uma aparência elegante, e até mesmo um pouco graciosa, conseguia transforma-la quase que completamente com uma carranca que parecia a do seu avô, quando todas as cervejas acabavam, e não havia nenhum único lugar onde pudessem comprar mais.
Para compensar tudo isso, ao seu lado estava sentado Antonio, um homem simples a primeira vista e estupidamente agradável. Ele ficara surpreso ao saber que estavam juntos mesmo tendo personalidades opostas.
Ao lado de Ludwig e de frente para Antonio estava Gilbert que ria escandalosamente como sempre fazia desde que chegaram, ele e o espanhol engajaram-se numa conversação que ao que parecia não tinha fim, e mesmo com todas as pessoas á sua volta, pareciam ignorar o mundo.
E por ultimo, na cabeceira oposta da mesa estava Roderich, o único ser do recinto que não estava tagarelando, (Lovino apesar de não estar conversando com ninguém especificamente, resmungava baixinho como um velho) o austríaco mantinha um sorriso diplomático no rosto, enquanto perfurava Feliciano com o olhar esperando que ele começasse a servi-los.
Mas ao final de quase dez minutos, ninguém se manifestou com relação á comida. Ao que parecia todos os convidados voltaram a conversar como faziam antes, só que dessa vez sentados a mesa... Até mesmo Lovino, que agora em vez de resmungar, grudara no ombro de Antonio e interagia (á sua forma) com Gilbert...
Isso o deixava profundamente irritado, até mesmo seu próprio namorado o estava deixando de lado.
Então, sem perder a pompa que lhe era natural. Roderich levantou-se, pegou um copo e bateu nele levemente como se fosse fazer um brinde. Quase que instantaneamente todos na mesa pararam de conversar e olharam diretamente para si, ele corou um pouco.
–Ah... bom... – Limpou a garganta, não tinha o que dizer – Eu... queria... arh.... – Olhou para Feliciano em desespero – Parabenizar meu caro amigo Feliciano pelo jantar e... – olhou para Gilbert – dizer que é muito bom que nós todos tenhamos nos reencontrado... É... muito bom estar perto de quem se ama.
O austríaco sorriu meigo ao concluir, e Gilbert levantou-se em um pulo e agarrando a face do outro com alguma brusquidão, deu lhe um beijo estalado na bochecha.
O outro ficou carmesim
Feliciano deu um pequeno risinho e anunciou
– Podem se servir, pessoal! O jantar está na mesa!
E todos se precipitaram para as panelas.
Lovino foi quem agarrou primeiro a colher e começou a servir a todos. Mesmo que derrubasse metade do molho na toalha, ninguém reclamou visto que ele estava tentando ser prestativo, uma coisa muito rara de se ver.
E quando depois de servidos, os convidados iam começar a finalmente comer, Gilbert lembrou-se de uma coisa importante.
–E as bebidas? Cadê?
Roderich o chutou por baixo da mesa, o albino soltou um muxoxo.
–Ve! – Exclamou Feliciano – Estão na adega! Lovi, vem comigo pegar?
Lovino mais do que depressa se levantou, e foi ajudar o irmão. Ele se sentia muito especial por ter sido ELE o escolhido, e não o batatão bastardo.
XXX
Quando a luz da adega foi acesa, os italianos desceram com algum cuidado a escada de madeira.
A adega na verdade era um micro-porão, que não servia para mais nada, e nem cabia nada que realmente valesse a pena, então para não abandonar o lugar Lovino e Feliciano decidiram assim que herdaram a casa fazer de lá uma adega, e colocaram algumas estantes na parede.
Quase todas elas estavam vazias, é claro. Mas nos finais de ano, Feliciano sempre dava um jeito de repor os vinhos para que amadurecessem lá dentro.
Assim que ambos desceram a escadinha, Feliciano se prontificou em encontrar o vinho certo, e Lovino por sua vez permaneceu sentado em um dos degraus, já que era praticamente impossível que os dois ficassem lá dentro sem se esbarrar.
–E então – Começou Feliciano falando de costas para o outro – O que achou dele?
–Hm – Disse Lovino indiferente – Dele quem?
–Do Lud!
–É um batatão bastardo – Lovino foi sutil como sempre.
Feliciano se virou quase que na mesma hora, seus olhos estava moles e caídos
–Mas...mas...por que???
O outro bufou
–Sei lá... Ele... Não parece bom pra você... Ele é muito...batatal...
–Mas é ELE fratello! –Começou Feliciano – O menino do orfanato que eu te falei...
Lovino fez uma cara de descrente
–Não pode ser ELE... Aquele batatão... dá medo!
–Mas é! E o Lud é super sensível! Ele só é um pouquinho fechado...
O mais velho deu os ombros
–Bom, faça o que você quiser... Mas depois não diga que eu não avisei...
O outro sorriu, Lovino nunca fora muito bom com palavras, por isso um “faça o que quiser”, era como um “ Eu não aprovo, mas não vou te impedir”. Mas Feliciano com essa frase acabara de criar uma nova meta, fazer com que Lovino aprovasse seu namoro até o final da noite, e para isso usaria qualquer método possível.
Assim, quando os italianos voltaram para a mesa com algumas garrafas de vinho, Lovino se encarregou de servir os convidados, já que estava querendo ser realmente prestativo e impressionar a todos. Dessa vez ele não derrubou nada na toalha, pois por mais irônico que seja, ele podia não estar habituado á servir macarrão sem derrubar, mas vinho... Toda minuscula gota lhe era preciosa.
Enquanto assistia seu irmão servir, Feliciano conseguiu pensar em qual seria o seu glorioso “plano”. Ele sabia que Ludwig era bom e extremamente zeloso consigo, porém na maior parte do tempo só demonstrava isso quando estavam ambos a sós, caso contrário agia... “batatalmente”... como diria Lovino.
Tudo o que Feliciano precisava fazer era força-lo a mostrar esse seu lado zeloso...E o melhor jeito de conseguir isso, era colocando-se em perigo
E nada era mais perigoso que um bêbado á solta.
Conforme o tempo passava, as pessoas da mesa percebiam que ele ficava cada vez mais animado, e seus copos iam se enchendo e se esvaziando com uma velocidade assustadora, no final de uma hora, Feliciano estava no estágio “bêbado alegre”
–Luuuuuuud! Me dá meu copo! — Gritava ele apoiando-se perigosamente em cima do outro.
–Não Feli! – Respondeu ele no automático, Lovino levantou a sobrancelha — ...ciano — corrigiu-se – Você já bebeu muito por hoje!
O alemão tirou o copo meio cheio do italiano e o ergueu, impedindo que este o tomasse, Roderich olhava atentamente a cena com uma cara que misturava desgosto com tristeza.
“ Ele não deveria ficar bêbado assim ”
Gilbert por sua vez apoiava a bebedeira, até porque ele tambem estava um pouco alterado, mas no lugar de vinho, ele brotou de algum lugar com um fardo de cerveja, e tinha bebido até acabarem todas.
–Deixa ele ser feliz Bruder! – Exclamou Gilbert levantando o copo – O jantar sem bebedeira não é um jantar.
Gilbert foi brutalmente chutado por baixo da mesa.
Antonio por sua vez estava feliz... Na verdade mais feliz que o normal (se é que é possível), ele havia tomado pouco mais de dois copos, não o suficiente para embebeda-lo, mas sim para deixa-lo FELIZ.
Sua aura estava tão colorida e tão alegre, que Lovino olhava para ele como se estivesse com lepra.
Mas voltando á situação inicial, Ludwig tirou o copo de Feliciano, e este um pouco trópego levantou-se pronto para pegar, o alemão por sua vez afastou mais o copo, e o outro por estar com os reflexos lentos, tentou apoiar-se na sua própria cadeira vazia, e esta por sua vez desequilibrou-se e virou, derrubando o italiano no chão.
Feliciano bateu a cabeça e ficou desacordado.
Todos olharam quase que imediatamente para Ludwig (que continuava com o copo na mão), e Lovino.
Só havia um sentimento na sala
Pânico.
XXX
Quando Feliciano caiu, todos pararam de conversar instantaneamente, e depois de dois segundos de puro silêncio, Lovino foi o primeiro a se manifestar
–O QUE VOCÊ FEZ? SEU BATATÃO BASTARDO!?
E no minuto seguinte se atirava no chão ao lado do irmão.
–FELI!!! – Choramingava e gritava ao mesmo tempo – FELI! FALA COMIGO FELI! ME RESPONDA!
Ele balançava o irmão de um lado para o outro como se fosse um saco, e logo Antonio apareceu ao seu lado, colocando uma mão no seu ombro
–Lovino, acalme-se... – Disse com uma voz suave, como a que os adultos usam para acalmar uma criança. Lovino o soltou com lágrimas nos olhos e Antonio ao mesmo tempo em que acalmava o namorado, colocou o dedo em baixo do nariz do italiano
–Ele ainda está respirando... Gil, vem me ajudar!
Gilbert que até então só observava a cena com um olhar preocupado, se adiantou deixando o copo em cima da mesa e foi até Antonio
–Me ajude a carrega-lo, ele é mais pesado do que parece – Disse o espanhol o pegando pelos braços e fazendo força para ergue-lo.
–C-certo – Respondeu Gilbert pegando Feliciano pelos pés, quando estavam prestes a levanta-lo do chão, Ludwig interferiu.
–Espera – Todos se viraram para ele, ele corou – Eu carrego.
O albino levantou a sobrancelha olhando para o irmão, enquanto Antonio apenas sorria.
Eles re-colocaram o corpo de Feliciano no chão e Ludwig se aproximou para pega-lo. Antes que ele o fizesse, o alemão olhou significativamente para Lovino, encostado em um dos cantos da mesa, apoiando-se nela. Houve uma rápida troca de olhares entre os dois, e depois um consentimento mutuo.
Ambos estavam igualmente preocupados com Feliciano.
Ludwig arregaçou as mangas da camisa e levantou o corpo do outro sem problemas, ele carregou o italiano como um bebê escada a cima, e pousou-o na sua cama. Lovino subiu ao seu encalço, fechando e trancando a porta na cara de Antonio e Gilbert que vinham logo a trás.
Precisavam ficar um pouco sozinhos.
XXX
Assim que colocaram Feliciano na cama, Ludwig lhe retirou os sapatos, e desabotoou os primeiro botões da camisa, para que o outro pudesse respirar melhor.
Lovino por sua vez se jogou em uma cadeira, que originalmente servia para colocar roupas e observava toda a cena com uma mistura de preocupação e entendimento.
Quando acabou o que estava fazendo, o alemão sentou-se em uma das pontas da cama de frente para Lovino e o olhou por cerca de dois segundos antes de colocar as mãos na cabeça e bagunçar os cabelos.
Em seguida bufou.
Lovino rolou os olhos e disse:
–Ele não costuma beber tanto assim... – Ludwig levantou os olhos surpreso, não pelas palavras mas sim pelo tom em que foram ditas, não era um tom irritado, ou rabugento, mas sim sincero e franco.
O outro continuou:
–Não sei o que deu nele hoje... – Silêncio. Lovino soltou um suspiro e fixou seus olhos nos de Ludwig – Obrigado por cuidar dele, eu achava que você era... outro tipo de pessoa, mas percebi que realmente se importa com o meu irmão...Pude ver isso pela forma com que carregou-o até aqui, ou como tirou-lhe os sapatos.
E virando o rosto para o lado
– Eu aprovo o relacionamento de vocês
Ludwig sorriu sincero
–O-obrigado, e você tambem... É uma pessoa melhor do que eu imaginava...
Ambos sorriram um para o outro, e a sala caiu em um silêncio confortável...
Até ele ser abruptamente interrompido pela porta sendo aberta com toda brutalidade, neste momento Antonio e Gilbert entraram na sala junto com Roderich, o primeiro carregando uma chave, o segundo gritando, e o autríaco trazendo um kit de primeiros socorros.
–ELE ESTÁ BEM???? – Gritou Gilbert em desespero
–NÓS ACHAMOS A CHAVE MESTRA – Dizia Antonio para Lovino enquanto apontava a chave, o italiano fechou a cara.
–FIQUEM QUIETOS FOOLS! NÃO VEEM QUE ELE PRECISA DE DESCANSO? — Roderich gritou inda mais alto apontando para Feliciano, todos na sala olharam para ele surpreso.
Ele limpou a garganta
–Muito bem – Disse se aproximando da cama e olhando para Ludwig – Temos que acudi-lo.
XXX
Dada meia hora Feliciano recobrou a consciência, todos estavam sentados ao lado da cama no quarto. Quando tentou se levantar, sentiu uma serie de ferroadas na cabeça, e regrediu, soltando um muxoxo.
–Você vai sentir alguma dor agora por causa da bebida, mas está tudo bem – Disse Roderich bem próximo – Eu trouxe um chá, vai melhorar um pouco.
Feliciano se sentou e agradeceu comando o chá devagar, em seguida passou os olhos pela sala e percebeu que todos o olhavam preocupados. Isso fez com que lele se sentisse um pouco culpado pelo que ocorrera, mas então um detalhe lhe chamou a atenção, Ludwig e Lovno estavam sentados lado a lado, ambos olhando para si. Não havia nenhum vestígio de rivalidade entre os dois, e ao que parecia, seu plano dera certo.
O italiano sorriu para ambos, e por uma fração de segundos , lhe pareceu que eles assentiram para si.
Feliz consigo mesmo, Feliciano pediu desculpas a todos e deixou os convidados sob a tutela de seu irmão, sua cabeça ainda doía muito para que pensasse em alguma coisa, então virou-se para o lado e voltou a dormir.
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