As Águas de Veneza
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Lovino estava tentando se concentrar e encontrar uma resposta.
Por algum motivo vieram á sua cabeça todos aqueles mantras que seu patrão turco recitava durante manhãs antes de abrir a loja. “Para dar sorte nos negócios”,dizia ele, mas Lovino nunca acreditou que aquilo realmente funcionasse, e nunca teve disposição o suficiente para discutir com ele sobre o tema.
A lembrança da tapeçaria, de seu chefe, de Kiku, de Herácles e até mesmo dos gatos que apareciam misteriosamente por ali lhe fez sentir confortável uma sensação, o ambiente quentinho, com um leve cheiro de poeira e incenso, onde tudo era estável e tranqüilo... Sem espanhóis bastardos, sem cafés lotados, sem beijos inesperados...
Porém pensar assim não adiantava nada. Ele precisava organizar a sua cabeça e encontrar uma resposta, já não era mais uma criança e não podia continuar fugindo.
Seu coração gritava “Vá em frente! Siga a luz”, enquanto que sua cabeça dizia “vá com calma”, “ pegue o carro e volte para Roma, arranje um emprego decente, pague as contas atrasadas, compre um apartamento com menos de 30 anos de idade, esqueça o espanhol.”
Porém não era isso que Lovino queria, esse era o problema com seu cérebro, a razão sempre dizia aquilo que era correto á se fazer. E Lovino nunca foi do tipo que gostasse de obedecer.
“Então vamos dar uma chance...” Essa foi a resposta que sobrou. “Vamos manter a calma e curtir um pouco, e se não der certo entro no primeiro trem para Roma”
Lovino respirou fundo e olhou determinado para algum ponto aleatório a sua frente, seus olhos brilhavam com uma nova determinação.
Então de algum lugar Lovino começou a ouvir um barulho de celular, o italiano se assustou e remexeu os bolsos, concluindo por fim, que o barulho não vinha dele, e sim de algum lugar á sua direita... Estreitando os olhos para ver melhor Lovino percebeu uma sombra oculta atrás de um pilar.
“Não é possível...”
O italiano foi se aproximando do lugar á passos de gato só para confirmar aquilo que já tinha certeza.
“Aquele bastardo...”
Lovino juntou toda a calma e paciência que conseguiu arrumar, suas mãos estavam cerradas, sua boca salivava quando se posicionou exatamente do outro lado do pilar... e esperou.
Do outro lado da estrutura pôde ouvir a voz cantada e agora sussurrada de Antônio, era impossível que estivesse errado. Lovino apertou ainda mais os pulsos e abaixou a cabeça completamente rubro.
“Porque esse cara vive me seguindo?”
XXX
Antônio estava na mesma posição á uns bons 10 minutos, sua perna esquerda começava a doer de tanto se apoiar nela, mas Lovino continuava parado olhando para seus próprios pés. Sua expressão era franzina e obtusa, daquela distancia ele podia ouvir que o italiano cantava alguma coisa, uma melodia calma e simples, parecia algum tipo de mantra de bom dia...
Na cabeça do espanhol rodava a seguinte pergunta: “Devo me aproximar?”
Ele não sabia.
Na verdade, não sabia de nada... Não sabia se foi certo beija-lo, se foi certo segui-lo, se é certo continuar observando-o. A rosa vermelhíssima em sua mão pedia para ser entregue, mas Antônio tinha certeza, não podia simplesmente aparecer do nada e entrega-la.
“Você vai fugir de mim?”
Então de uma hora para outra seu celular tocou. Antônio quase deixou a rosa cair no chão de susto, por sorte acabou segurando-a antes que tocasse o chão, mas como conseqüência do descuido acabou espetando o dedo em um espinho. Não era uma grande coisa, mas sangrava um pouco...
Por fim colocou a rosa delicadamente no bolso tomando cuidado de deixar o botão pra fora, depois levou o celular á orelha e atendeu-o um pouco nervoso
A Ligação não era de ninguém menos do que Francis.
“Tôni, onde você está?” – O espanhol não teve tempo nem de dizer “alô”.
“Fran! Não dá pra falar agora!” – Diz Antônio aos cochichos, tinha certeza que toda a rua podia ouvi-lo.
“Mas você saiu do nada!”
“Eu não! O Lovi saiu, eu só o segui...”
“Lovi?”
“É bonitinho não? Acabei de inventar, combina com ele!”
(Uma aura maligna começou a sair de trás do pilar, mas como Antônio é tão obtuso quanto uma porta, não sentiu o perigo eminente).
Francis riu do outro lado do telefone...
“Só você mesmo Toni...” –Suspiro-“ Bom, já que você não pode me contar agora... Quero detalhes depois! honhonhonhon”
Antônio rolou os olhos, conhecia bem seu amigo para saber quais eram os preços dos seus favores de cupido.
“sim sim, até Fran” – Disse um pouco abrupto, aquela não era uma boa hora.
“Até Toni, e vá com calma com o pequeno”
Antônio deu uma risadinha.
“Como sempre...”
E desligaram.
Antônio guardou o celular no bolso com um sorriso matreiro no rosto, “tinha que ser o Francis”, e só então se lembrou de Lovino. O espanhol sacou a rosa do bolso e deu uma olhadinha pelo pilar, e para sua surpresa o italiano não estava mais no mesmo ponto de antes.
Seu coração falhou uma batida
“Droga”
Antônio começou uma corrida desembestada pela rua até o local onde Lovino estava á alguns minutos atrás, ele estava tão concentrado que nem percebeu que o italiano em questão estava bem atrás dele.
–Ei bastardo, o que está procurando? – Lovino disse com seu tom rude usual, Antônio se virou na mesma hora com os olhos arregalados, o italiano deu um sorriso pelo canto do lábio.
–Lovino! Eu estava te procurando! – Disse o espanhol, naquele instante sua aura mudou de: “mortalmente preocupada” para: “absurdamente feliz”, com um sorriso no rosto, Antonio veio se aproximando de maneira leve e alegre, a rosa foi escondida atrás das costas.
–Então – Começou Antônio — Isso é pra você! – E estendeu a rosa com o sorriso mais galanteador que conseguiu dar.
Lovino sentiu as pernas bambas, suas bochechas passaram de róseas para vermelho tomate. O italiano pegou a rosa e a girou-a nos dedos enquanto contemplava aquela pequena flor um tanto extasiado...
“Faz muito tempo que não recebo flores...”
E o menor fica lá, rodando a flor entre dos dedos e absurdamente corado por uns bons minutos, Lovino não disse nenhuma palavra de agradecimento,não por falta de educação, mas porque tinha certeza que se tentasse sairia gaguejado, assim se limitou a olhar timidamente para Antônio, este que ainda lhe transmitia uma aura de extrema segurança.
–Gostou? – Perguntou finalmente
Lovino concordou com a cabeça, o outro sorriu.
–Você está bravo comigo? Por ter te seguido?
Lovino não respondeu, estava constrangido de mais para admitir que no fundo estava feliz por Antonio ter feito isso, porque assim, de alguma forma muito estranha, Lovino sentia que havia alguém que se importava consigo.
Mas o espanhol não pensou dessa maneira, e admitindo o silêncio do outro como um sinal de tristeza ou irritação, começou a se desculpar no mesmo segundo.
–Olha, é que você sempre foge... – Seus olhos buscavam os do outro, mas esse olhava para a rosa em suas mãos – Desde a época da fazenda, você sempre fugiu de mim, sempre que um me aproximava você saia correndo. – Ele agitava muito as mãos enquanto falava, não sabia se devia tocar no menor ou não.
O (pequeno) lado romântico do cérebro de Lovino começou a funcionar nesse exato momento, e por conta disso uma hipótese absurdamente ridícula passou pela sua cabeça. O italiano não teve tempo de frear suas palavras antes de sapirem da boca.
–E-e-e-então – Lovino limpou a garganta – Quer dizer que você sempre me seguiu? Tipo, desde aquela época?
O Espanhol encarou o outro e sorriu um pouco, desviando o olhar
–Sim...
–Por que?
Antônio ficou instantaneamente rubro e começou a coçar instintivamente a nuca com a mão direita, o pé esquerdo começou a bater o bico do tênis inconscientemente no chão.
–Você acharia muito estranho se eu dissesse sempre gostei muito de você? E... Talvez... seja.... –Antonio sacudiu as mãos e a cabeça loucamente – M-mas não sou maluco, ok? Eu só quero ficar perto de você!
Lovino levantou o olhar na hora e o encarou o outro extremamente consternado. Seu cérebro estava mil, e enquanto uma parte de si soltava rojões e bombinhas, a outra queria sair correndo e pular no canal de Veneza com o intuito de se matar afogado. A mão direita pressionou a rosa contra seu peito enquanto a esquerda tampou a boca para conter um grito.
Há muito tempo atrás Lovino sempre fugia porque achava que Antônio, por se uma criança maior, pudesse ser mau com ele, assim como todas as outras eram, e além disso o espanhol tinha motivo para bater no italiano, visto que este sempre roubava tomates de sua fazenda.
A cabeça de Lovino rodava.
–E-e-eu fugia de vo-o-ocê porque... sempre a-achei que me odiasse e... que fosse me b-a-ater... Por roubar seus tomates – seu olhar se desviou para algum ponto aleatório no chão, o menor se sentia encurralado entre Antônio e aquele pilar, maldita hora em que resolveu se esconder ali.
O espanhol por sua vez começou a gargalhar estrondosamente, um gato que passava li por perto se assustou e saiu correndo tamanho o barulho.
–Eu nunca bateria em você – Lovino levantou o olhar – Você é fofo de mais para isso.
Antônio passou a mão pelo rosto de Lovino e este retesou um pouco.
–E no café? Porque você fugiu?
–P-p-p-porque eu não saio por aí beijando estranhos, bastardo!
O pele do italiano queimava com o toque do outro, e ele discretamente afastou a mão de Antônio, o espanhol desceu o toque até sua mão esquerda, que permanecia livre enquanto a outra segurava a rosa.
–Então se não formos mais estranhos, eu poderia te beijar?
Lovino ficou ainda mais vermelho com a proposta, não respondeu com palavras, seu olhar estava longe, sabia que não conseguiria encarar Antônio nessa hora.
–V-v-vou pensar no seu caso... – Respondeu finalmente com um fio de voz, o rosto de Antônio se iluminou com um sorriso de orelha á orelha.
–Então vamos andar! – Se animou o outro puxando o pequeno italiano pela mão.
–Oi! Aonde vamos, bastardo? Não fique me puxando assim!
–Temos muitos lugares de Veneza para ver! Conheço muitos lugares legais! Garanto que até o final do dia não seremos mais estranhos!
Lovino enrubesceu com a última frase e puxou a mão com força, Antonio não pareceu abalado com isso, pois o olhava com um sorriso terno.
–Eu vou sozinho, obrigado! – Disse Lovino levantando o nariz e caminhando ao lado de Antônio.
O espanhol sorriu mais e começou a passar o roteiro do passeio á uma velocidade muito rápida.
O céu naquele dia começou a ficar mais claro, porque toda tempestade uma hora passa.
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