Artimanha da Discrição
5 ❀ 5. Sentimentos reservados.
Notas iniciais

Depois de muito esforço, finalmente o prato diante a mim estava vazio. Sentia todos os meus dentes quebrados, mesmo que este não fosse o caso ― de qualquer forma, a sensação era essa. Nunca fui tão fã da comida de minha tia e parecia que, com os anos, ela só havia de piorar ― mas, claro, nunca diria isso em voz alta pois já tinha noção de qual seria a reação de Samantha. E também me sentiria abalada por acabar com seus sonhos de se tornar cozinheira profissional.
Ajeitei os talheres sob o sustento de porcelana com cuidado, virei meu rosto e percebi a feição irritada de Natsu. Ele, com certeza, estava num péssimo humor ― aliás, dava para se notar isso desde a primeira vez que havíamos nos encontrado. Samantha, ao contrário do ruivo, sorria e conversava animadamente com Layla, ela parecia feliz com a presença do filho ― mesmo que ele não sentisse o mesmo.
Ainda estava revoltada pelas últimas decisões de minha mãe. Eu odiava Natsu, e ela sabia disso, não era obrigada à gostar dele assim como ela, afinal, tenho uma visão completamente distinta do garoto. Mesmo que, agora, estivesse curiosa sobre ele, por conta de todo o seu mistério e machucados em seu rosto. O que raios ele estava tramando?
Suspirei, limpando meus lábios com o guardanapo. Igneel e Jude conversavam com muito interesse sobre a madeira em volta das janelas e o piso, estavam animados, mesmo que fosse um assunto sem graça e banal ― pelo menos, para mim. Homens são estranhos. Enquanto isso, Layla e Samantha discutiam sobre roupas. Coloquei meu cotovelo sobre à mesa e apoiei minha cabeça na mão. Estava entediada.
Natsu não parecia tão diferente de mim. Sua expressão dizia em letras maiúsculas seu descontento por estar sentado à mesa de jantar. Ele fitava a tela de seu celular, mas não parecia estar conversando com alguém.
“― Do que estava se escondendo?
― Segredo.”
Sua feição naquele momento e as palavras ditas se repetiam inconscientemente em meus devaneios profundos. Droga! Por que esse garoto tinha que ser tão babaca para me deixar numa situação de extrema curiosidade como essa?
Eu batucava meus dedos na madeira, na tentativa de chamar a atenção de minha mãe para ela finalmente notar o meu desejo de ir embora. Todavia, não fora o olhar de Layla que eu recebera, e sim de minha tia, que levantou as sobrancelhas, como se tivesse lembrado de algo importante.
― Filho, você não havia comentado sobre perguntar à Lucy sobre a matéria de Biologia?
Virei minha cabeça na direção de meu primo. Ele revirou os olhos.
― Qualquer coisa pra sair daqui. ― Levantou-se abruptamente e me encarou. ― Vem.
Suspirei pela milionésima vez naquela noite. Não queria ir mas ao mesmo tempo daria de tudo para sair daquela mesa de jantar repleta de assuntos desinteressantes para uma adolescente como eu. Não tive escolha a não ser segui-lo.
Me ergui e andei atrás do rapaz. O caminho até o quarto de Natsu parecia se estender a cada passo que eu dava, a julgar que aquela mansão era maior por dentro do que a vista por fora. Analisei com cautela a decoração exagerada de pequenas mesas, flores e quadros nos corredores ― a maioria de nossos parentes como, por exemplo, falecidos avós ―, o qual eu, sinceramente, considerava completamente desnecessário. Apenas gasto inútil de dinheiro. Permanecemos quietos por todo o trajeto, o que não era tão desconfortável pois preferia ele quieto do que abrindo a boca apenas para falar asneiras irrelevantes.
E então, estávamos parados em frente à uma porta de madeira. Simples. Estranho, já que Natsu parecia ser o tipo de adolescente chato e rebelde que encheria a passagem com placas escritas “Não entre” ou “Estou ocupado. Venha mais tarde”. Bem a cara dele. Ao lado, na parede, um quadro de nós dois quando tínhamos cinco anos, sentados na grama com os rostos e roupas sujos de lama. Natsu sujava meu cabelo, sorrindo, enquanto eu parecia estar tentando manchar seu cachecol branco preferido.
Eram bons tempos. Lembrava desse dia como se fosse ontem.
― Ei, loira, vai demorar muito? Ou prefere ficar sozinha no corredor?
Abri os olhos para a realidade. É mesmo, Natsu era um babaca, e os tempos haviam mudado.
Entrei no quarto, que era surpreendentemente arrumado. Em sua cama estava mochila e alguns livros depositados sobre. Era um cômodo normal, com um armário, escrivaninha, criado mudo e uma prateleira de livros ― mais um segredo de Natsu Dragneel que eu não suspeitava sobre; ele gostava de leitura. Um gato estava deitado sobre um puf vermelho e dormia serenamente.
― Happy! ― Exclamei acariciando a cabeça do felino. Natsu bufou e andou até a outra porta que havia no quarto.
― Vou me trocar. Você... apenas fique aí, sei lá. Apenas não cheire minhas roupas ― resmungou. Antes que pudesse retrucar, ele fechou a porta do provável banheiro.
Aproveitei a chance para explorar. Caminhei até a estante de livros, examinando quais estilos e títulos ele se interessava no mundo da leitura. Haviam alguns volumes de Sherlock Holmes e grande quantidade de livros do autor Edgar Allan Poe. Ele era fã de mistério e terror? Também, entre eles, poucos livros de História e arquitetura. Por intromissão peguei com cuidado o livro “A Guerra dos Tronos” de George R. R. Martin. Revirei as páginas, não era tão fã deste gênero, eu preferia o velho romance meloso pão de mel com açúcar. Entretanto assistia o seriado destes livros.
Abandonei meu fanatismo por literatura e voltei-me para a realidade, na qual Natsu ficaria puto caso me encontrasse mexendo em seus livros. Estremeci só de pensar na discussão que teríamos. Fechei-o no intuito de colocá-lo novamente em seu lugar, mas, bem no fundo da prateleira, havia uma pequena bolsinha de pano. Minúscula, por melhor dizer, do tamanho de meu dedo. Em volta, conseguia enxergar algo que se aproximava da cor branca, mas não era possível confirmar por conta da escuridão. Estiquei meu braço para alcançar.
― O que pensa que está fazendo?
De súbito me virei, quase que no automático. Natsu estava no meio do quarto, me fitando com olhar acusatório, e dava a intenção de que iria queimar-me com suas orbes escuras, quase que em chamas. Os band-aids de antes haviam sido retirados e substituídos por outros, e, agora, os machucados em seu braço também estavam cobertos com os curativos. Ele trocara de roupa também, agora vestia uma regata branca, todavia as mesmas jeans de antes. Derrubei o livro que tinha em mãos por conta do susto.
― Ah, me desculpe! ― Exclamei, agachando para acatar o livro caído no chão.
Quando me levantei, senti um peso ser jogado contra mim e me empurrando contra a parede. Abraçava o livro com força. Meu primo estava diante a mim, me prendendo na divisão pintada de branco. Senti que o quadro que estava em cima de mim fosse cair por conta do choque. Natsu me encarava, com sua expressão mórbida ― ele iria me matar?
O ruivo estava próximo. Perto demais. Eu podia sentir o hálito de menta misturado com o cheiro de sangue dos seus ferimentos no rosto. Relembrei-me da cena na minha janela.
“― Segredo.”, suas palavras voltaram à minha mente.
Senti a necessidade de chutar suas partes íntimas, no entanto, estava assustada demais para mexer qualquer músculo. Quando que aquele garoto inocente do quadro havia se tornado tão... assustador?
― Não mexa nas minhas coisas, princesa ― murmurou. Sua voz calma contradizia com seu semblante temível. Pensei em retrucar. Imaginei diversificadas maneiras de responde-lo, insultá-lo, fazê-lo sofrer com a verdade. Natsu merecia, no entanto minhas cordas vocais não obedeciam aos comandos exercidos. Pigarreei internamente, droga de covardia!
Antes que ele fizesse o próximo passo ― provavelmente me matar ―, ouvi a voz berrante de Layla no andar inferior.
― Filha, estamos indo!
Num momento de coragem ― a qual ainda me indagava de onde havia tirado ―, empurrei-o. Me fitou atônico e apertei a alça da bolsa que eu segurava com força. Dei passos cautelosos até a porta sem quebrar a troca de olhares.
― Não me chame desse jeito. ― Falei. ― O único príncipe mimado por aqui é você.
Virei-me e fui embora. Definitivamente, ele deveria ter algum problema, estava escondendo algo, eu sabia disso e iria descobrir.
❀
Na noite de sábado para domingo, sonhei com Natsu.
No sonho, eu caminhava sozinha pelas ruas do Brooklyn. Escutava o prazer de mulheres gemendo e o som de pessoas espancando umas às outras, além de risadas masculinas, porém, a rua a qual eu andava estava deserta. Sentia o aroma das drogas e da fumaça, junto com o cheiro degradante de esgoto misturado com vômito. Estava frio.
Sem rumo, segui meu instinto para encontrar minha casa, e, em um dos becos sem saída, pude notar uma criança caída no chão, sozinha. Era um garoto que chorava alto, coberto de machucados em seu corpo. Pude notar quem era pelo cabelo que, mesmo sujo, não perdia o tom ruivo.
Natsu gritava e clamava por ajuda.
Aproximei o suficiente para alcançar seu ombro, no entanto, abri os olhos e notei que estava em meu quarto. Diferente daquele pesadelo, estava de dia ― provavelmente eram oito da manhã ―, pude notar pelo brilho entrando pelas cortinas semi fechadas. Eu suava por debaixo daqueles cobertores grossos.
O que aquilo significava? Não tinha ideia.
Demorei instantes para acostumar-me com a claridade omitida no cômodo, porque, apesar do frio, o sol parecia querer mostrar seu brilho entre as nuvens espessas. Sentei na cama e pus em meus pés um par de pantufa azul. Levantei e empurrei as cortinas, ainda usando pijama: estava um dia bonito, apesar de ainda estar um pouco zonza com o sonho que acabara de ter, por seguinte abri a janela para sentir a brisa fria em meu rosto para tentar me acalmar e amenizar o suor em meu pescoço. Caminhei tonta pelo o quarto e abri a porta que dava ao corredor, indo até a cozinha a procura de meus pais e pronta para comer meu café da manhã.
Não esbarrei com minha mãe preparando bacons, somente Jude, que estava sentado no sofá tomando café numa caneca escrita “Melhor pai do mundo”, a qual fora um presente de dia dos pais dada por mim. Ele assistia um filme matinal ― o qual, particularmente, não era meu gosto ―, e parecia se divertir com o conteúdo apresentado na televisão.
― Acordou cedo, filha ― comentou, me fitando, eu estava em frente à geladeira, pegando uma jarra com água. ― Dormiu bem?
― Bom dia ― o cumprimentei com um sorriso. ― Sim, de certa forma. Onde está a mamãe?
Concluí que omitir o pesadelo para meu pai seria mais simples do que explicar. Provavelmente ele ficaria o domingo inteiro divagando e me fazendo perguntas para tentar compreender. Não, definitivamente não. Queria paz já no início da semana.
― Foi comprar algumas coisas para fazer o almoço. Está com fome? Tem comida em cima da mesa, ainda.
― Ah, na verdade, não. Vou esperar o almoço. ― Respondi assim que terminei de tomar meu copo d’água. O que havia sobre a mesa eram coisas pouco apetitosas, na verdade, que fazia com que meu estômago revirasse lembrando do jantar do dia anterior. Nunca mais comeria nada feito pela tia Samantha.
Sentei-me ao lado de meu pai, tentando esquecer minha fome com o filme que passava na televisão, o qual se tratava de um homem que havia sido congelado durante a segunda guerra mundial, e agora vive no mundo real salvando a Terra de forças maiores. Mais um filme sem graça e com possibilidades impossíveis sobre super heróis ― não me interessava tanto. Diferente de mim, Jude amava.
― Papai, tem algo que eu possa fazer? ― Indaguei, na alternativa de fazer algo mais divertido do que ficar parada assistindo um filme horrível.
― Bem... se quiser, pode tirar o lixo.
Suspirei. Não era a escolha divertida que eu esperava, mas, ao menos, era algo. Levantei-me e caminhei em direção à cozinha, pegando o saco de lixo. Em seguida saí do apartamento, logo descendo as escadas.
Ew, que cheiro horrível.
Fora do prédio estava frio de congelar meus dedos e nariz. As pessoas que passavam usavam roupas quentes e pesadas. O sol batia em meu rosto e senti o calor emanar em minha pele, era um ótimo sentimento, e tinha de aproveitar antes que a semana de Natal chegasse e a neve começasse a cair.
Com o lixo em seu devido lugar, voltei para dentro do prédio, dando pequenos pulos para tentar me aquecer apropriadamente ― pular não era tão apropriado para uma garota de dezesseis anos feito a mim, mas vamos ignorar estes fatos. Um velhinho que recolhia suas cartas me encarava assustado.
― Cale a boca! Estou saindo de casa agora, babaca. Não me culpe se é domingo e estou cansado!
Fitei as escadas e lá surgiu um rapaz. Usava uma jaqueta de couro, o que eu não julgava ser a melhor escolha para um dia frio como o que estávamos vivenciando. Ele estava gritando no celular, correndo enquanto descia e segurando com força uma guitarra preta. Portava cabelos tão claros quanto os meus.
Nos encaramos. Ele estava na minha frente.
― Com licença ― disse, dessa vez mais calmo. Tinha uma voz bonita. ― Você está no caminho.
Me dei conta de que estava na frente da porta de entrada e automaticamente dei espaço para ele passar, corada. Droga, Lucy, por que tão burra?
― Desculpe ― falei. O jovem continuou a me fitar, sua expressão estava tensa, fazia a mesma cara que eu aos meus doze anos em dia de prova de matemática, enquanto me esforçava para lembrar a fórmula de resolução de questões.
― Você é a garota do 211, não?
Ergui uma sobrancelha e dei um passo para trás.
― Sim, como sabe?
― Uma vez vi você gritando e saindo do apartamento, dizendo que havia esquecido seus livros na escola ― respondeu, sorrindo. Corei da cabeça aos pés, lembrando deste dia, em que eu tinha prova no dia seguinte e acabara esquecendo os cadernos na escola, ficando sem maneiras de estudar. Bela maneira de se conhecer alguém.
― Sou Lucy, prazer.
― Sting ― em seguida ele se despediu e saiu do prédio.
Merda, esse cara era gostoso.
Subi as escadas. Como eu não sabia a existência desse loiro no meu prédio? Bem, convenhamos que eu seja bastante anti social e pouco interessada em conhecer vizinhos, mas, de qualquer forma, ignoremos estes fatos.
Entrei no apartamento e encontrei meu pai colocando o telefone no guincho. Ele sorria.
― Quem era, pai? ― Indaguei, fechando a porta e procurando algum saco para substituir o antigo no lixo.
― Era Samantha. Ela disse que amanhã Natsu irá te buscar às sete. ― Disse. ― Fico feliz que você e seu primo estejam se dando bem!
Havia esquecido daquilo, todavia, nessas alturas do campeonato, imaginava que não iria rolar essa saída entre mim e Natsu. Digo, depois daquele drama em seu quarto, não esperava mais. Revirei os olhos, definitivamente não queria ir. Se bem que era uma ótima chance para tentar descobrir algo sobre suas aparições inesperadas no Brooklyn, aquela bolsinha de pano no fundo de sua estante de livros e todo seu mistério desnecessário.
Natsu Dragneel, eu vou descobrir seu segredo.
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