Art Déco
3 A Morte

Não era possível distinguir se o calor que Wanda notava no broche, no centro do peito, era causado pelos sentimentos mornos em seu coração ou pelo medo crescente conforme avançavam os dias. Por mais que encontrasse aquilo que poderia chamar de paz durante a tarde, o restante do seu dia era composto por tensão e receio. E depois, até suas horas amenas durante aquele Outono desbotaram um pouco da cor, adquiriram um sabor mais agridoce.
Em meio aos belos desenhos e fotografias de Steve, existiam também figuras de miséria, más condições de trabalho enquanto os prédios impressionantes continuavam a se erguer, imponentes e inacessíveis. Vinham primeiro os ossos, sua carcaça de metal; depois sua carne de concreto e então a carapaça de sua decoração. Quando Wanda enxergava aves distantes empoleiradas naqueles prédios, tinha a impressão que eram todas de penas pretas. Talvez fosse a distância, talvez fossem realmente daquela cor. Imaginava que fossem corvos. Só não conseguia decidir se queria que tais aves a ensinassem a voar para longe ou se desejava que logo se banqueteassem de seu corpo.
Steve Rogers não pensava exatamente em ser jornalista, mas como ex-combatente da Grande Guerra e dono de memórias dolorosas, era inevitável que se sentisse no dever de fazer alguma coisa. Bucky o chamava de encrenqueiro por acabar se envolvendo em brigas que não eram exatamente suas — acabando muitas vezes em brigas em becos — mas, ao fim, Bucky sempre estava ao seu lado. A oficina tinha agora um espaço reservado para revelação de fotos de forma amadora. Natasha também estava engajada, uma vez que o pior lado de Nova York se mostrava à imigrantes; e Sam tinha todos os motivos para para ser o maior interessado naquilo: fazia relativo sucesso na música, no entanto — mesmo que muitos apreciassem o ritmo do jazz e charleston — o tom de sua pele ainda era razão de ser tratado de forma muito diferente.
Wanda também achava que os pensamentos daquele autor, Goddard, estavam perigosamente enraizados nas pessoas e tendiam a crescer, afinal, não era só ele que pensava assim. Como descendente de judeus e roms, ela compreendia o quanto tudo aquilo era perigoso — o quanto muitos acreditavam ou queriam acreditar que essa ou aquela raça eram os únicos culpados pelos problemas que a ganância e ignorância traziam — e que seus amigos estavam corretos em suas reivindicações. E apesar de controlar seu medo e ajudar da maneira que podia, apoiando-os na oficina e sugerindo ideias para angariar fundos aos mais vulneráveis, ela sabia que as coisas não melhorariam. Não agora, talvez não em muito tempo. Era mais fácil serem chamados de desordeiros, anarquistas e comunistas e ao fim acabarem presos ou pior.
Ela pensava nisso durante o piquenique no Prospect Park, um dos últimos que ela e James Barnes poderiam aproveitar antes que o frio do Outono fosse mais severo. Ao menos o parque não estava cheio como na Primavera. Sentada na toalha acima da grama, a jovem acariciava num gesto vago o pesado broche vermelho em seu peito, calculando os riscos e as probabilidades de seu destino. Já se arriscava demais envolvendo-se com Bucky, justamente o mecânico que estivera presente no episódio da sabotagem do Ford de Declan Dane; e apesar de manter seu relacionamento na discrição absoluta, era difícil não supor que alguma hora isso viria à tona e seu chefe era simplesmente esperto demais para não ligar um ponto e outro. Os únicos que sabiam disso além de seus amigos da oficina eram Pietro, Agatha, Emilija e Ebony.
Remy LeBeau descobriu também, mas não era nenhuma surpresa: Ele sempre descobria tudo.
Enquanto Bucky servia-se de mais um gole de café morno, Wanda pegou uma fatia de pão de abóbora de dentro da cesta de vime e se pôs a observar uma família de quatro pessoas que caminhava no parque. Bastava repousar os olhos sobre eles para notar o quanto a vida que eles levavam era diferente. Era nítido em suas roupas, na forma de agir. As folhas de Outono caíam especialmente para compor um cenário estético para cada um deles, para forrar seus pés do chão tão banal. Caminhavam em direção ao passeio de charrete, talvez para simular a sensação de serem da realeza.
Não era difícil. O dinheiro que tinham era antigo e nada os atingia: nem o frio do Inverno próximo, nem o calor dos problemas vindouros. E eles eram felizes como todos queriam ser, mesmo com as hipocrisias e dramas.
Wanda tinha a impressão de ter visto o marido no cassino antes, pois aquele penteado repartido e o jeito que ele modelava o bigode escuro eram inconfundíveis. Não era nada incomum um homem se aventurar a noite para apostas, mas a jovem tinha certeza de que sua esposa não iria ficar muito feliz ao vê-lo com amantes enquanto perdia dinheiro. Quando comentou tal coisa com James, ele respondeu que talvez ela não ficasse tão ressentida assim, afinal, ele tinha certeza de que era aquela mulher que levava sempre o carro para um mecânico colega dele — ainda que não houvesse nada de errado com o maldito Ford.
Os dois riram. Era patético demais como a única coisa que separava as pessoas era o acaso — sorte e o azar — das cifras de dinheiro em seu nascimento. De resto, eram tão vulgares umas quanto as outras.
— Sabe aquela mansão famosa em West Egg? — Bucky comentou de repente, brincando com as bordas da boina em suas mãos. — Daquele sujeito que foi assassinado na piscina no outono de 22?
— O que tem ele?
— Eu e Steve o conhecemos no exército.
Wanda franziu os cenhos, intrigada. Ouviu todo tipo de coisa sobre aquele homem, coisas envolvendo teorias da conspiração, Kaisers e assassinato. Exército? Não tinha escutado ainda.
— Sério?
— Sim. O coitado queria morrer de qualquer jeito, mas a sorte funcionava de um jeito engraçado para ele. — Ele completou, mas Wanda arrepiou-se ao ouvir a palavra sorte. — Quero dizer, depois perdemos o contato e achei que ele tinha realmente morrido. Anos depois, fui chamado pra fazer um serviço na mansão, por causa de um carro que perdeu a roda por causa do motorista bêbado. E lá eu vi ele.
— Era um homem misterioso, não? Ouvi tantos boatos sobre ele, mas nunca cheguei a ir numa festa dele.
— É claro que não, você tinha o quê? Quinze anos em 22?
Ela deu de ombros. Realmente teria sido expulsa da tal festa, caso ainda conseguisse atravessar a cidade inteira para chegar naquela área. O fato é que os comentários de lá eram sempre fascinantes demais para uma jovenzinha não sonhar com um pouco de glamour.
— Quatorze, na verdade. — Ele balançou a cabeça, achando graça do que ela tinha dito. — Mas continue.
— Uma figura interessante, sem dúvida. Naquele jeito de chamar todo mundo de “meu velho”, talvez idealista demais. Tinha um sorriso que se vê pouco.
— Por que?
James Barnes suspirou, depois tirou o chapéu estreito de Wanda para vesti-la com sua boina cinzenta.
— Ele parecia acreditar nas pessoas, em algo mais.
— E você não vê esse sorriso no espelho todos os dias?
Ele demorou-se um tempo apenas para encará-la com um olhar entre a ternura e o cinismo. Talvez achasse que era só um elogio vazio, uma moça bonita falando que gostava de seu sorriso. Wanda de fato gostava, mas não queria somente inflar seu ego, afinal, Bucky realmente acreditava nas coisas que fazia, acreditava em seus amigos, acreditava que ela não era só uma moça que servia de decoração em um cassino. Tentando antecipar sua reação, a jovem considerou que ele iria recusar suas palavras e, para sua surpresa, recebeu palavras mais doces:
— Ás vezes acho que vejo esse sorriso raro em você. É um pouco diferente, certamente mais tímido. Mas…
— Mas?
— Mas, — Ele deu de ombros. — É como se você compreendesse as coisas. Compreendesse o que estou pensando, como o mundo é, e que não é possível repetir o passado, para bem ou para mal. E ao mesmo tempo, é como se você soubesse de algo terrível e não pudesse contar. Você sabe?
Wanda queria estar brincando quando respondeu:
— Sei. — Engoliu seco, depois desviou o olhar para outro ponto. Não queria que lágrimas subissem até a borda de seus cílios e por um momento sua atenção voltou à família que partia na charrete. Imaginou-se ali, com ele ao seu lado e o mundo pintando um cenário belo só para eles, eterno como aquela memória do piquenique de agora. — Isso tudo é um sonho e tenho medo da tristeza que vou sentir quando acordar.
— Existe sempre a noite seguinte para sonhar, não?
Ah, se o homem de West Egg era um idealista, James Barnes era então um sonhador. Não era tolo ou ingênuo, pois a Guerra subtraíra qualquer inocência que restasse nele e talvez fosse isso que tornasse seu ímpeto de acreditar ainda mais genuíno. Ele queria ser todas aquelas coisas que dissera na noite em que se beijaram pela primeira vez: Ridículo, insensato, egoísta. Não falara feliz na ocasião, embora isso estivesse implícito no ar. E ela queria também, ardia por mudar a realidade com a ponta de seus dedos. Mas não ousava mais sonhar, não quando pesadelos lhe devoravam de noite… E de dia também.
Então a única solução para aquele momento era beijá-lo. Iria dissolver os maus pensamentos, mesmo que por um instante.
♢ ♢ ♢
Quando Wanda saiu do cassino naquela madrugada, o lugar ainda brilhava e parecia estremecer com a música. Era quase como um palácio encantado capaz de deturpar sua sensação de tempo e espaço, lhe fazer sonhar com uma margem de sorte pequena nos jogos de azar. Havia quem se afogasse nos rios de bebida para acordar só no dia seguinte, havia quem se perdesse no pó apelidado de neve. A Dama de Ouros era imune aos encantos, porém. Fazer parte do espetáculo implicava em ver as cordas e roldanas, esperar nas coxias e observar truques terríveis que a platéia não queria realmente saber.
E quando o crupiê lhe contou que no dia seguinte o senhor Emerald iria fazer um evento especial — e surpresa — com as moças do cassino, Wanda ficou em alerta. Se Declan Dane planejava algum evento, ele anunciava a todos com Dub e Dother ao seu lado e falava com detalhes o que esperava das funcionárias do cassino, o que elas iriam vestir e o custo envolvido. Eventos surpresas geralmente envolviam desligamentos, demissões. E, na pior das hipóteses, a transferência de algumas garotas para The Black Cat Club.
— Dub e Dother não aprovaram nenhum evento. — Ela tentou argumentar, buscando alternativas lógicas. O arrepio em sua pele, no entanto, indicava as piores alternativas. — Aliás, não os vi a semana inteira.
— É claro que não, chérie. Você não tem passeado pelas docas, tem? Só no Brooklyn.
Ela empalideceu.
— Eles… Eles estão…
Remy deu de ombros, brincando com as cartas.
— No inferno, provavelmente. Não se preocupe, a chefia lá deve ser mais agradável do que aqui.
Wanda não se importava com Dub e Dother, mas as peças formaram em sua cabeça uma imagem sangrenta que escorreria até ela. Quando Albie e Carlo sabotaram o carro de Declan… Era óbvio que não tinham feito por conta própria, apesar de não revelarem nada ao senhor Emerald depois.
Ele estava buscando todos os envolvidos no acidente do Bentley verde: Albie e Carlo, os subalternos de Dub e Dother. Os quatro estavam se decompondo nas docas naquela altura da madrugada. Faltava Wanda, que ocultara a verdade.
Faltava Bucky, o mecânico.
Sua cabeça estava vazia quando voltou para o apartamento de Agatha Harkness. Não conversou com Pietro no trajeto, só negou que a razão de seu humor estranho fosse causado por James Barnes quando seu irmão questionara. Apenas certezas martelavam-lhe com desesperança: Ela não tinha dinheiro o suficiente para fugir. Suas posses mais relevantes eram o broche no peito e a arma na bolsa. Declan tivera a coragem de matar os irmãos porque eles tentaram matá-lo antes. James seria morto, ela mandada para o Black Cat.
Havia a possibilidade de Declan Dane não saber que o mecânico contratado por Albie e Carlo era o mesmo homem com quem Wanda estava saindo há semanas, mas ele não era tolo e muito menos misericordioso.
E Wanda não desejava contar com a sorte.
Sem que Pietro ou Agatha ouvissem, ela ligou para o telefone da oficina mesmo sendo tarde da noite e ficou aliviada por James atender, com aquela sua voz grave e sonolenta. Ela só lhe pediu para ir até o apartamento de Natasha no dia seguinte, que a esperasse por ela e carregasse sempre um pé de cabra ou qualquer ferramenta que servisse para derrubar alguém em um golpe. Ele ficou preocupado, é claro, mas apenas concordou antes de desligar — talvez pensasse que ainda estava sonhando.
Só não conseguiu falar o que ocorria ao seu gêmeo. Ele era sempre rápido para adormecer pesado e Wanda deixou-o ter suas últimas boas horas de sono. Iriam precisar no dia seguinte. O sono para ela, assim como o esperado, veio muito tarde, recheado de demônios esverdeados e sons de disparos.
A morte, ela viu. Alcançava muitos, alcançava ela própria através da ponta do cano de uma arma contra seu tórax. A miséria, a fome, aquilo que vinha sendo avisado há semanas e semanas pelas cartas. Seria na quinta-feira, ela sabia disso. Naquele ano.
O diabo.
A Torre.
A Morte.
Na madrugada seguinte, dia 29 de Outubro de 1929.
Ela acordou com Ebony deitado em sua barriga, seus imensos olhos amarelos encarando-a com curiosidade enquanto o suor frio fazia com que seu cabelo grudasse em sua testa, em seu pescoço. Já era tarde e Pietro havia partido, Agatha cuidava das plantas como faria em um dia qualquer. Impressionava-a o quanto um dia antes do Apocalipse parecia um dia comum, mas ela optou por reprimir esse pensamento — Afinal, não era exatamente condizente com suas crenças. Ela comeu, se arrumou e vestiu vermelho. Só não tivera muito tempo para arrumar seu penteado, portanto seus cabelos estavam soltos. Pegou a arma que ficava dentro de uma caixa na estante de livros na sala e deixou-a acima da mesa, junto com uma carta breve explicando o que estava acontecendo e pedindo — por favor — que não viessem atrás dela, que ficassem em casa e que atirassem sem hesitar.
Ela esperava voltar logo.
Levou a sua própria arma numa bolsa maior do que de costume, e o broche no peito antes de ir até o escritório de Declan Dane. O seu objetivo não era encontrá-lo ali, pois ir naquele horário seria pedir para o fracasso. Declan não vinha à tarde. Não, ela não queria encontrar seus olhos verdes, ela queria o verde de seu dinheiro por direito. Por sua sorte. Cumprimentou o porteiro e a secretária como se tivesse sido simplesmente convidada de última hora, depois foi até seu escritório.
O ambiente era simplesmente desprovido de qualquer sensação sufocante quando seu chefe não estava ali. Não havia névoa de fumaça. A estatueta de gato não estava na mesa. Após entrar sem nem bater na porta, ela encarou a direção da sala anexa onde sabia que estava o cofre. No entanto, havia mais um obstáculo a ser vencido: o contador de Declan Dane. Paul levantou a cabeça dos papéis que examinava e encarou-a com um tanto de desdém.
— Olá, Dama de Ouros. Tem algum assunto a tratar com o senhor Emerald?
Wanda piscou docemente, aproximando-se devagar. Seu coração batia rápido dentro do peito e ela se imaginava pegando a arma dentro da bolsa, mas o máximo que fez foi forjar um sorriso convincente e tirar um cigarro da bolsa. Acendeu-o rápido e disse:
— Ora, já era para você estar sabendo. Veja, ele fará um evento especial hoje a noite, huh? — Deu de ombros, sua voz melodiosa ao narrar mentiras, ou melhor, quase verdades. Ela não fazia ideia do que realmente era o tal evento além daquilo que Remy havia lhe contado e pela expressão de Paul, era algo que Wanda não deveria saber. Suas suspeitas sobre o Black Cat só aumentaram, então ela se forçou a aumentar seu sorriso feito uma tola fútil aos olhos dele, uma menina mimada que queria uma roupa nova. — E eu preciso de algo condizente para vestir.
Ele bateu a caneta acima de sua mesa, a mandíbula tensa.
— Se precisa de um vestido, está no lugar errado.
— Não achei que teria que me explicar. — Wanda cruzou os braços, apoiando o quadril numa cadeira que ficava a frente de sua mesa. Bateu um pouco os saltos em um gesto impaciente, bufou um pouco. Ela não interagia muito com as outras pessoas do negócio; falava mais com algumas moças em sua mesma função e Rémy, mas todos a conheciam: era a Dama de Ouros, afinal. Se era uma decoração dispensável e substituível? Sim, Wanda era. Mas uma decoração cara e que necessitava de manutenção, sendo ainda a mais querida de Declan Dane. Contava que suas vontades fossem obedecidas. — O senhor Emerald deixou bem claro que eu deveria estar impecável para essa noite. Sabe o que significa? Joias. Espero que você possa explicar a Declan a razão de eu não estar à altura.
A ideia de que ele estava desinformado incomodou-o e o pior era a possibilidade de desagradar Declan Dane. Ele se remexeu na própria cadeira, relutante em ser vencido:
— Quanto vai tirar do cofre?
— Tenho certeza de que você vai conseguir calcular isso depois que eu sair, querido.
Não discutiu mais. Abriu o cofre e deixou-a entrar sem interferir, então Wanda apressou-se em apagar o cigarro para entrar e foi ainda mais veloz ao colocar os blocos de dinheiro na sua bolsa, que era maior do que usava de costume; depois um pouco mais nos bolsos de seu casaco. Fez o mais rápido que pôde, para que pudesse subtrair mais sem que Paul achasse a situação mais suspeita do que já achava. Tentando controlar a respiração e a compostura, a jovem deixou o cofre e caminhava em direção à saída quando o contador questionou-a:
— O que o senhor Emerald lhe contou sobre hoje a noite?
Wanda virou-se com o sorriso aceso de novo. Piscava seus cílios longos, convencendo-o de cada palavra que saída de seus lábios pintados:
— Apenas que eu deveria parecer deslumbrante. Há algo mais que eu preciso saber?
— Não. Até a noite, querida. — A expressão dele era vazia, o brilho de seus olhos era cortante. Decerto tomava-a por estúpida, o que era bom; embora Wanda considerasse o regozijo dele em saber que o pior aconteceria à ela simplesmente enervante. — Aproveite bem.
Ela agradeceu e saiu, seus sapatos fazendo barulho contra o piso do prédio e depois quase correndo para pegar um táxi na rua. Estava certa sobre catástrofes, sobre seu maldito e tão constante azar, e um dia gostaria de agradecer à Remy pelo aviso, caso sobrevivesse àquela madrugada. O senhor Emerald tinha planos terríveis para ela, planos envolvendo o Black Cat Club e em sua imaginação só haviam gatos sendo mortos, garotas exploradas. Taghairm, o pequeno ritual de Declan Dane. E Bucky estava em perigo.
Sua próxima parada, no entanto, não foi a Wolf’s Garage, e sim Wundagore’s Gems.
Talvez tudo estivesse dando certo demais daquele plano insano, tanto que ela chegou a se perguntar a razão de nunca ter feito antes. Parte de seu cérebro respondia que ela tinha juízo, o restante afirmava que ela tinha medo. O que ela precisava era só sorte, mais do que nunca. O fato é que os ensinamentos de Natasha vinham à sua memória de maneira nítida, afirmando o quanto joias não perdiam o valor em si e eram mais fáceis de serem trocadas pelo dinheiro local. Ela precisaria desses benefícios quando ela, Pietro, Agatha, Ebony e… James chegassem em Londres.
Wanda mal ouviu os sinos acima da porta quando entrou na joalheira. Estar ali dentro era uma experiência extracorpórea, mas na realidade ela não queria mesmo sentir-se dentro do próprio corpo naquele dia. O atendente da loja sorriu e repetiu a pergunta que fizera:
— Posso ajudá-la?
— Pode. Pode muito. Eu… — Wanda engoliu seco, aproximando-se rápido. Repousou a bolsa acima do balcão. — Eu quero aquela tiara da vitrine. À vista.
O dinheiro foi o suficiente, sobrando mais dólares que ela usaria para pagar o próximo táxi, as passagens que precisava e quem sabe uma bebida no caminho, antes de chegar ao seu destino. O horário comercial estava ao fim nas lojas tradicionais e ela não conseguiria passagens para a mesma noite. Seria obrigada a esperar até a manhã seguinte, entretanto sua próxima parada não era o apartamento de Agatha Harkness. Durante o entardecer, ela atravessou a ponte do Brooklyn.
♢ ♢ ♢
Ela cortou o saguão da pensão sem ser impedida, fato que era comum: Na pensão em que sua amiga ruiva e a irmã dela moravam, pouco se perguntava as coisas se o aluguel estivesse em dia. Subiu as escadarias até o terceiro andar com verdadeira pressa, ávida por conferir o estado de James e ansiosa para que ele dissesse que sim, iria viajar com ela e deixariam todo aquele pesadelo para trás. Bateu na porta, respondeu seu nome e logo estava lá dentro, com os saltos sobre o tapete aconchegante da sala pequena e uma garrafa de gin barato nas mãos. Tinha tomado alguns goles para acalmar os nervos, mas toda a popularidade de coragem e euforia do álcool eram ilusórias: Ela estava sequer anestesiada direito, só um pouco mais lenta. Wanda girou os calcanhares, intrigada por não ver outras pessoas que esperava ver ali, e então encarou James Barnes:
— Onde estão Natasha e Yelena?
— Yelena está na casa de uma amiga e Natasha… — Ele deu de ombros, o sorriso discreto. — Bem, Natasha achou que queríamos privacidade e saiu. Disse que voltaria amanhã.
A jovem afrouxou a tensão nos ombros. Aquilo era tão a cara dela, tão cínico e insinuante que Wanda não conseguiu fazer nada senão sorrir, mesmo com os nervos em frangalhos.
— Por que ela não falou logo que foi ver o Steve?
Ele fez uma careta, sem querer imaginar momentos mais íntimos entre seus amigos. Certa vez comentara que Natasha era demais para o jeito tímido de Steve, mas ele parecia dar conta muito bem do recado. Como, ele já não ousava saber. O devaneio impróprio e engraçado durou pouco, pois em seguida a seriedade da questão puxou-os de volta ao momento presente.
— Me conta o que aconteceu.
— James… — Wanda deu um passo à frente, seu sobretudo vermelho embalando-a como se ela fosse uma das cartas de um fino baralho. Entretanto, nunca a Dama de Ouros tivera lágrimas nos olhos e o puro pânico em sua expressão. — Está tudo desmoronando e eu já havia visto que isso iria ocorrer, sendo que o pior ainda está por vir. Declan Dane soube que você estava com Albie e Carlo naquela madrugada. Sabe que estamos juntos e… Virá atrás de nós dois.
Tudo estava desmoronando, ela estava desmoronando. Se forçasse um pouco mais a imaginação, teria visto no caminho até ali todos os prédios curvarem-se pelo vento e pela sua tristeza. Havia visto a propaganda de um oftalmologista no alto, uma propaganda já gasta pela intempérie e escondida por outros anúncios. Eram os olhos desbotados e enormes de um tal Dr. T.J. Eckleburg, emoldurados por um óculos dourado para enxergar bem às desgraças que Wanda deixava no caminho. James, por sua vez, só puxou-a para si, abraçando-a contra o próprio peito por vários segundos, na tentativa de acalmá-la.
— Não é culpa sua.
— É, é sim. — Desvencilhou-se um pouco do abraço, mas não muito. Chorava, fungava e tentava manter os pensamentos ordenados para manter uma frase coerente, sendo que na verdade queria só sentar naquele tapete e desfazer-se em lágrimas salgadas. — Eu deveria ter me afastado de você, tê-lo mantido seguro.
Ele acariciou seu queixo.
— Eu não te culpo. Usei todas as minhas habilidades culinárias para fisgá-la.
Wanda segurou firme a garrafa em uma das mãos, a bolsa pendurada no cotovelo oposto.
— Isso é sério.
— Eu sei, boneca. — Ele sacudiu a cabeça, a cor de suas íris num sabor agridoce. Era sincero, resoluto. — Eu sei.
— Vamos morrer se continuarmos aqui. Por favor, me deixe consertar isso.
— Wanda, me ouça…
Ela desviou de seu abraço por um momento, colocando a garrafa na mesa de centro da sala. Depois, pegou a tiara da bolsa em um gesto único e certeiro, mas suas mãos tremiam enquanto mostravam à ele a joia. A bolsa, por sua vez, tinha ficado no chão mesmo enquanto a luz do sol poente entrava diluída pelas cortinas, deixando somente um raio ou outro passar direto pelo vidro para ser refletido e refratado pela miríade de pedras brilhantes naquela tiara. Parecia brilhar sozinha, lançando feixes vermelhos em todas as direções, capturando totalmente o olhar embasbacado de James Barnes.
Não sabia se encarava mais a tiara nas mãos dela ou o rosto lívido de sua boneca, que continuou a explicar:
— Amanhã cedo vou comprar as passagens para Londres para a embarcação mais próxima. Meu pai está morando lá e… — Ela engoliu seco, tremendo. Ainda assim, tentou sorrir: — Com o dinheiro da tiara, você vai poder abrir sua confeitaria e ter tudo o que precisa. Não precisa ficar lá para sempre, só até… Só até a poeira baixar. Eu entendo caso não queira me ver nunca mais na vida, mas por favor, — Inspirou fundo, soluçou. — Venha comigo. Fique a salvo.
Ele voltou a ficar perto dela, sua aura escura absorvendo todos aqueles problemas e soluços, lamentos e súplicas, como uma noite sem estrelas e sem luar. Amenizava todo o caos do mundo. Então ele pegou a tiara pesada de sua mão, examinou-a um pouco… E em seguida colocou-a nos cabelos de Wanda, ajeitando-a até que ficasse perfeita e equilibrada em sua cabeça. Ao fim, sorriu admirando-a:
— Parece uma boneca mesmo.
— James…
Não permitiu que implorasse de novo e seguiu com as explicações, que eram demasiado simples:
— Notei que havia algo de errado quando você me ligou e decidi me adiantar. — Ele tirou algo do bolso, papéis delicadamente dobrados. — Comprei passagens para você, Agatha e Pietro para as nove horas da manhã, o primeiro horário.
Ela sentiu o coração bombear dentro do peito, em um salto afinal de alegria. Ele tinha dito sim? Não parecia um sim e aquilo havia custado um bocado violento de dinheiro. Franziu os cenhos, notando que eram apenas três passagens e ele não havia falado o próprio nome para a viagem.
— E você?
— Eu… — A mandíbula dele estava tensa, assim como seu pescoço. Fazia força para parecer firme. — Eu vou depois, Wanda. Não, não chore.
Mas as lágrimas rolavam por suas bochechas.
— Você não tinha o suficiente para uma quarta passagem, não é?
— Jamais consigo esconder algo de você, huh? — Ele depositou um beijo terno em sua testa, mas Wanda captou sua respiração um tanto irregular. Não era uma escolha fácil para ele, mas era a única que considerava possível naquele instante. — Eu morei minha vida toda aqui e é difícil dizer adeus. Vou me virar por um tempo, afinal, Nova York pode ser um lugar bem grande para alguém me achar, mesmo Declan Dane. E depois eu te encontro, está certo?
— Não. Eu tenho mais dinheiro aqui. — Ela mexeu nos bolsos do casaco. — Podemos comprar outra passagem amanhã, mesmo que seja para outro dia ou horário e…
Ele apenas abraçou-a mais forte.
— Shh, shh. Leve na viagem para o caso de alguma emergência.
— Por favor.
Mas James somente embalava-a no peito, quase como se quisesse dançar com ela uma música lenta na vitrola, com o queixo encostado em sua testa e a sua voz grave descendo suave até seus ouvidos:
— Eu vou contar a Steve, Sam e Natasha o que houve e que você queria dizer adeus a eles. Talvez Natasha fique um pouco brava, mas não por muito tempo. Você sabe como ela é. Ah, e quase me esqueci de Emilija, a florista.
— Não quero me despedir de você. Me soa como se fosse para sempre e eu sei disso porque se ficar aqui, vai morrer.
— Não vai ser para sempre. Prometo mandar cartas e te ligar. E até amanhã de manhã, eu sou todo seu.
Wanda segurou bem seu rosto, encarando bem seus olhos claros. Cedo ou tarde, os homens revelavam a si mesmos e ela estava acostumada a visões terríveis, quebra-cabeças envolvendo peças afiadas e que muito queriam provar um pouco de sua carne. Em James Barnes, havia somente a certeza de uma gentileza que não cabia em si, uma sinceridade crua e não por isso cínica.
— Não é suficiente. Eu quero você pra vida toda.
Ele levou um segundo para desfazer a sua expressão atônita e simultaneamente derretida. Segurou os pulsos dela, mesmo o seu toque da mão metálica sendo deveras delicado.
— Eu disse para você antes que me apaixonei por você porque você ficou, apesar de tudo. Mas agora eu preciso realmente que você vá. — Engoliu seco. — Eu vou te encontrar, eu prometo.
— Eu não sonho mais. Não tenho esperança, talvez só um pouco de sorte e não confio nela. Como posso acreditar nessa promessa?
O mecânico piscou uma pálpebra, num gesto de flerte.
— Não peço para crer no destino, mas acredite em mim.
Então ela não resistiu em provar um pouco mais de seus lábios, mesmo que Wanda conhecesse muito bem o sabor. Ela sentiu-o sorrir um pouco, abraçá-la mais forte enquanto as mãos dela alternavam entre a nuca dele, seus ombros, seus cabelos.
— James, nós temos… — Ela parou um momento e arfou, o encanto do beijo quebrando-se. — Nós temos que resolver isso. Eu tenho que salvar você.
— Não trouxe chocolates comigo para resolver as coisas, então meus beijos tem que bastar.
— Seu ridículo.
— Ah, boneca. — Ele gargalhou e inclinou o rosto, oferecendo-lhe aquela expressão que valia mil tiaras. — Eu só estou apaixonado.
E voltou a beijá-la com sede, com intenção e ternura. O efeito que a bebida não conseguira causar antes, James Barnes conseguia sem esforço. Continuou beijando-a enquanto a repousava no sofá, ajudando-a tirar o casaco vermelho dela ao passo que a jovem hesitava em desabotoar sua camisa; e beijou-a durante o resto da noite, ouvindo Wanda murmurar suavemente seu nome em resposta.
Acordar logo cedo, com o corpo nu muito colado ao dele no sofá, causou-lhe uma sensação estranha. Se sonhara, não se lembrava; se pesadelos tentaram morder-lhe durante a madrugada, o braço metálico de James Barnes havia assustado-os. Ela ficou alguns minutos assim, observando as pálpebras ainda fechadas dele enquanto apoiava-se em seu ombro. A respiração dele era calma e Wanda tentou imaginar se alguma cena desenrolava-se dentro de sua cabeça, quem sabe a fantasia de que estava tudo bem e aquela era somente uma das várias noites que passariam juntos.
Mas o relógio não parava de contar os minutos para que a jovem permanecesse naquele instante eterno, deslocada de toda catástrofe e azar.
O sol era ainda muito pálido quando ela se levantou. Sonolento e confuso, Bucky tentou segurar sua mão e murmurou algo que a jovem não entendeu, mas que a fez sorrir de qualquer modo. Preparou café — pois mesmo preferindo chá, sabia que ele gostava mais do amargor encorpado da outra bebida — e vestiu as peças que estavam sobre o tapete. Dentro de sua bolsa, havia a arma e a tiara, mas ela conseguiu resgatar lá no fundo um batom vermelho no bolso interno e passou-o com delicadeza nos lábios.
Ajeitou o broche sobre o peito e deixou um bilhete debaixo da cafeteira na mesa, com dizeres simples. Te amo. Não havia mais nada que pudesse falar ou fazer. A única decoração naquele papel era o beijo que havia marcado abaixo de sua caligrafia apressada. Ela encarou James Barnes longamente pela última vez antes de atravessar a porta e então partiu com seu coração em pedaços.
♢ ♢ ♢
O motorista do táxi estava muito estranho durante o trajeto. Wanda ficou segurando o cabo da arma dentro da bolsa para o caso do sujeito tentar alguma coisa, mas ele parecia dentro de um grande frenesi. Falava das perdas imensuráveis que um sócio tivera na bolsa naquela manhã, especulando se a situação seria ou não controlada no decorrer da tarde; vez ou outra soltava um suspiro agoniado apertando o volante e lembrava-se de algum eletrodoméstico que havia comprado pelos créditos liberados.
Quando ela olhava para o mundo afora através do vidro, as pessoas pareciam igualmente perdidas. Comerciantes em conversas assustadas na frente de seus estabelecimentos; homens de terno e chapéus quase correndo e brigando para pegar o próximo táxi. O trânsito então estava terrível. Ela observou de novo a propaganda do Dr. T.J. Eckleburg e questionou se ele enxergava tudo, se sabia o que diabos estava acontecendo.
Wanda havia visto nas cartas e em seus sonhos uma desgraça. Enfim, chegara o dia 24 de Outubro de 1929 e ela não sabia ainda muito bem o que era essa desgraça além das próprias desventuras envolvendo o cassino e o maldito senhor Emerald. Não ouviu falar sobre uma nova guerra ou então sobre mais loucuras vindas de outros estados, como pessoas vestidas de capuzes brancos e tochas nas mãos. Nenhum grande navio afundara igual em 1912, nem veio-lhe a notícia de um incêndio. Só ouvira sobre a queda, sobre a quebra. E no fim não se importava mais com o mundo, tinha pressa e pagou o pobre taxista para entrar logo no apartamento. O assunto Declan Dane e a necessidade de uma fuga rápida eram mais urgentes. Depois, quando estivesse a bordo do navio, preocuparia-se em se manter informada.
Primeiro precisava falar com Agatha e Pietro.
Encontrou a velha lendo o jornal de pé perto da janela, suas mãos sobre o colar e os ombros baixos, quase curvados. Não ouviu-a chegar e a senhora Harkness não era assim, pelo contrário: Seu vigor e sua atenção superavam os dos dois jovens sob sua tutela. Antes que pudesse questionar ou falar alguma coisa — como apontar o fato que Agatha não tinha a arma na mão — o miado de Ebony denunciou sua presença e Agatha virou-se para vê-la:
— Wanda! — Ela recuperou o fôlego e a postura. — Querida, onde….?
— Faça as malas e pegue Ebony. — Respondeu, colocando a bolsa no aparador da sala de estar, já rumo ao corredor para ver seu irmão e preparar uma bagagem pequena. Nunca havia passado a noite fora sem avisar; no máximo visitara alguma amiga e comunicara tal coisa com dias de antecedência. No entanto, ela não se sentia envergonhada e optou por focar em aspectos mais práticos. — Nós vamos para a Inglaterra às nove horas.
— Oh, querida. Eu não vou a lugar algum.
Wanda regrediu três passos. Não viu Pietro.
— Agatha. Eu realmente não quero ter essa discussão.
— Então não precisamos discutir. — Ela fechou o jornal e guardou o óculos dentro do bolso do vestido púrpura. — Acredite, nenhum Dane vai conseguir entrar nessa casa e nenhum Dane vai relar um dedo em mim, sem falar que devem estar ocupados com o próprio dinheiro. — O gato preto miou entre as duas. — E Ebony está acostumado demais com o bairro para se mudar, assim como eu. Separe minha passagem e dê ao seu amante.
— Senhora Harkness…
— Eu já estou velha, mas sei me virar. Vá. Pegue o seu irmão e suma por quanto tempo precisar. Só me mande notícias, ouviu?
A garganta da jovem apertou-se e de repente havia lágrimas em seus olhos. Já era a segunda vez que ouvia um não e era como deixar pessoas queridas no inferno para que pudesse escapar. Não queria deixar ninguém, mas era o único jeito. Agatha caminhou com passos lentos em sua direção, pegando em suas mãos com cuidado. Depois, do outro bolso tirou uma pequena caixa onde ela guardava seu baralho velho de tarot.
— Tome. Uma lembrança de seu passado aqui e um jeito de você espiar o destino.
— Eu tenho medo. Lembra-se, Agatha? — Wanda enxugou as bochechas. — O que eu vi nas cartas?
— Eu sei, querida. Eu sei. Você sempre teve talento para enxergar as coisas e é simplesmente triste que veja apenas o horror. Mas acredite, bruxinha, você tem sorte.
O sorriso da Dama de Ouros era composto por cacos.
— Ah, Agatha. Eu odeio essa palavra.
As duas foram interrompidas pelo barulho da porta abrindo-se com um único estrondo: era Pietro e seus olhos estavam elétricos. Encarou Wanda por um segundo, entre o alívio, a raiva e a simples descrença de realmente enxergá-la ali, para depois avançar para dentro do cômodo com passos rápidos. Nem fechou a porta atrás de si, só encarou as horas no relógio de bolso.
— Onde você estava?
— Eu…
— A bolsa de ações quebrou essa manhã. A cidade está uma loucura, todo mundo perdeu quase todo o dinheiro… Incluindo Declan Dane. Ele já queria a sua cabeça e você ainda roubou dele, tem noção do que fez?
Wanda compreendia a preocupação por não ter passado a noite em casa. Seu gêmeo estava pensando o pior e não culpava-o: o pior era sempre tangível demais. No entanto, imaginava que ele não soubesse exatamente a razão do senhor Emerald querer tanto sua presença no cassino na noite anterior. A sentença ao Black Cat Club, o ritual chamado Taghairm.
Não ter comparecido, apesar dos pesares, era a melhor opção.
— Nós podemos fugir. De verdade, Pietro. — Disse, como se explicasse tudo. Correu até sua bolsa e pegou as passagens compradas por Bucky e mostrou-as para o irmão, que não parecia acreditar. — Às nove horas. Eu só preciso… — Suspirou e encarou Agatha brevemente, que anuiu em resposta. Era um encorajamento. A terceira passagem estava vaga. — Preciso falar com James antes.
Outra figura surgiu no batente da porta, ainda vestido com uma gravata borboleta de seu uniforme. A diferença é que seu olho direito estava inchado e roxo, havia gotas de sangue seco no tecido de seu colete.
— Então melhor se apressar, chérie.
— Oh, Remy! — Wanda adiantou um passo. — O que houve com você?
Pietro falou por cima da voz dela, direcionando-se ao crupiê:
— Avisei para esperar no carro. Iríamos para o hospital depois.
Mas Remy só faz um gesto vago com a mão, apoiando-se com o ombro na parede. Tirou um cigarro e o isqueiro do bolso; acendeu-o com agilidade e deu uma longa tragada antes de continuar:
— Eu tenho o coração muito mole. — Ancorou seu olhar em Wanda. — Tentei arranjar mais tempo para você, falei para Declan que não era burra e voltaria logo para o cassino, mas — Arquejou de dor. — Temo não ter sido o suficiente.
Ela quis chorar ao assisti-lo assim, ferido por sua causa. Sempre tomara LeBeau por um oportunista e trapaceiro, apesar da gentileza de várias de suas atitudes. Não sabia ao certo se tinha um bom coração e não estava errada em duvidar: os dois estavam no pior lugar para formar laços verdadeiros. E mesmo que Wanda não fizesse ideia do que exatamente Remy tinha feito para salvar sua pele, ela era grata.
— Eu estou aqui, foi sim suficiente. Não falta tanto para chegar a hora de embarcar e…
— E seu amante, o mecânico? — Ele franziu a testa, inclinando o pescoço para conferir se o achava lá dentro do apartamento da senhora Harkness. — Não me diga que ele voltou para a oficina, pois o senhor Emerald ia direto para lá.
Wanda só encarou o irmão com olhos arregalados e o chamou com a voz agoniada:
— Pietro.
— Entra no carro.
Ela pegou a bolsa de volta e desceu as escadas correndo com seu gêmeo.
♢ ♢ ♢
Pietro era conhecido por ser rápido no gatilho, mas o rapaz de olhos claros e barba sempre por fazer era especialmente veloz no volante, tanto que desta vez Wanda não se preocupou com seus métodos. Não adiantava ligar para a oficina se Bucky ainda não estivesse lá — e a pensão de Natasha não tinha telefone — sem falar que o máximo de proteção que ele teria lá seria alguma ferramenta e seu braço metálico. Wanda tinha que chegar até ele.
O trânsito estava um lixo e era necessária uma dose da loucura automotiva de seu gêmeo para enfrentar aquele caos. Cortou caminhos e fechou outros carros, para então acelerar sem nem dar atenção aos guardas de trânsito. Enquanto isso, Wanda pensava em tudo e simultaneamente em nada, apenas sentindo o peso de sua bolsa com as três coisas mais importantes para ela no momento: as passagens, a tiara, a arma.
A primeira parada foi o apartamento de Natasha e Yelena. Era cedo, ele deveria ainda estar tomando o seu café e ofereceria-lhe aquele sorriso doce e sem jeito, um tanto reticente em demonstrar muito afeto quando Pietro estava presente.. Ou era isso que ela pensava, pois quando Wanda e seu irmão chegaram na pensão, apenas a loira estava lá, sem saber da catástrofe envolvendo Barnes e Declan Dane. Ela só tinha visto o mecânico sair.
Os gêmeos fizeram o caminho de volta para o carro sem responder as indagações preocupadas de Yelena e rumaram direto para Wolf’s Garage.
Wanda chorava e sentia-se a ponto de vomitar sem ter nada no estômago. O coração dentro de seu tórax batia rápido e estava também vazio, sem esquentar o broche acima da camada de roupa. As cartas de tarot se misturavam com os baralhos com quais ela jogava a noite e debochava do azar em apostas altas, mas agora todas desmoronavam sem que a jovem pudesse interromper. Sorte, destino, azar. Sua vida inteira parecia não passar de uma piada de humor duvidoso ou, no mínimo, sádico. O que adiantava sua sorte na jogatina? Para que lhe servia ver coisas nas cartas se nada podia mudar, se a realidade não se curvava diante de si e se se nada lhe trazia um sorriso? Pior, o motivo de seu riso era arrancado dela e Wanda sentia o chão abrir debaixo de seus pés. Caia junto com as malditas cartas.
Quando estacionaram na rua em frente à oficina, Wanda saltou do Ford mesmo com os protestos de Pietro para que tomasse cuidado. Correu até o portão e bateu na superfície de metal repetidamente, chamando pelos nomes que poderia encontrar ali: Steve, Natasha, Sam. James, James, James. E assim como a maioria das outras vezes em que foi até o local, foi recebida por um par de olhos penetrantes e cabelos ruivos.
— Natasha! — Ela segurou as mãos da amiga, que tinha acabado de esfregar os olhos e amarrar o robe na cintura. — Natasha, por favor.
Mas ela lhe ofereceu um sorriso dúbio em meio a um bocejo preguiçoso.
— Se acalme, garota. Primeiro Barnes e agora você? O que houve?
— Ele já voltou? Por favor, — Wanda tremia, aliviada por Natasha tê-lo visto. A ruiva talvez tivesse dormido ali com Steve, já que o loiro não raramente ficava lá para acompanhar o andamento da revelação de fotos. — Eu tenho que falar com ele, James corre perigo.
Mas elas ouviram uma movimentação na rua; Wanda escutou o irmão clamar por seu nome, ainda do lado do carro. Distante demais. Ela só enxergava a cor verde de Declan Dane — parado com aquele seu terno impecável, os olhos brilhantes feito seu sorriso afiado — e a ponta do cano da pistola apontada contra ela.
— Senhorita Eisenhardt, — Ouviu-se o engatilhar da arma. — Seja uma boa garota.
Wanda buscou a própria arma dentro da bolsa com rapidez e arregalou os olhos quando o estouro dos tiros preencheu seus tímpanos. O ar escapou de seus pulmões e tudo no mundo eram peças coloridas de mosaicos sem sentido, só peças afiadas. O impacto no tórax jogou-a para trás e então para a calçada, sem que os gritos ou as mãos delicadas de Natasha pudessem amparar sua queda.
A bolsa e a arma em sua mão caíram junto com ela.
Seus lábios estavam entreabertos num suspiro ou numa frase que não se formava em sua língua. Não estava irritada por estar certa, por ter visto esse desfecho em seus sonhos e saber que iria acontecer; tampouco preocupou-se no ácido sabor de ter sido tola e tentado escapar do inevitável. Na verdade, não pensava em muita coisa. Um pouco em sua mãe, depois em seu pai. Ao menos visitaria um deles, mas não podia deixar de divagar que Pietro teria dificuldade em se cuidar sozinho e que Agatha ficaria decepcionada. Com os olhos encarando o céu pálido, os prédios baixos do Brooklyn e as propagandas penduradas, Wanda imaginava com amargor como deveria estar absolutamente linda com aquele sobretudo vermelho e os cabelos soltos, mesmo com o comprimento fora de moda. Uma peça de decoração finalmente estilhaçada no chão, por puro azar.
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