Arseni
1 Capítulo 1 - Decisão
Notas iniciais
Eu ia entrar para o exército.
Agora era uma questão de honra.
Não que antes não fosse. Era um desejo, um sonho. O ápice das minhas metas que seriam cumpridas.
Eu me esforcei e dei duro o ano inteiro. Praticamente me engalfinhei com outras milhões de mulheres que também fizeram o impossível para passar na prova e pegar os míseros 10% de vagas que nos são destinadas.
Eu não pulei de alegria quando vi que meu nome estava entre as classificadas. Pensei no meu pai. E pedi para que ele me visse agora. Aquilo era pra ele.
Iria finalmente pôr em prática o que eu planejei a vida toda. Eu bateria na linha de frente e enfrentaria perigos. Eu seria capaz de aceitar suas verdades como as minhas próprias.
O Exército Brasileiro.
Heróis. Como meu pai sempre os viu e como me fez vê-los também.
Eu não pude evitar ficar atônica quando exatamente essas palavras saíram da boca borrada de batom da mulher que me atendia: Todas as vagas já foram preenchidas.
Todas as vagas já foram preenchidas.
Depois de tudo.... As vagas simplesmente e misteriosamente já haviam sido preenchidas.
É claro.
A corda sempre arrebentava no lado mais fraco.
Apesar de toda confusão e de eu ter quase partido a mesa ao meio, ela não parava de repetir que eu tinha que aceitar, que as coisas eram assim.
Sim. As coisas eram assim.
***
− Eu também ficaria puto se me tirassem algo que eu penei pra conseguir. Mas é tão ruim assim? Está sendo uma tortura para mim, ter que me alistar. Você nasceu livre disso! Está mesmo revoltada porque não vai dormir no chão frio e caçar sua própria comida?
Marcelo é um cara legal. Ele falava tudo que pensava, sem medo. Eu adorava isso nele.
Estava temendo por mim. Ele mais que ninguém sabia o que isso significava. Era meu colega de faculdade e de trabalho.
Coisas que eu abri mão.
Ele tinha os cabelos loiros que iam até a orelha e os olhos azuis. Fazia o tipo surfista. Ele gostava de mim, já deixou isso claro várias vezes. Mas eu não tinha tempo para namoros.
− A questão não é essa, Marc. Eles estampam aquela droga de slogan na cara de todos, como se fosse honroso que eles dessem 10% de suas vagas para as mulheres. E ainda por cima reduzem esse número as escondidas... pra quanto? 5%? Agem como se fôssemos um fardo.
− Arseni, você é uma das garotas mais inteligentes que eu já conheci. Se não querem dar a chance, então nem devia querer ficar perto deles.
Estávamos sentados em um banco perto da praia. Com o vento forte sacudindo nossos cabelos.
− Eu daria qualquer coisa para mostra-los que estão enganados. Qualquer coisa. – Vi os nós dos meus dedos ficarem brancos pela força que eu fechava os punhos.
Marc parecia triste. O martírio de querer mudar algo que estava além do meu alcance estava estampado nos meus olhos. E ele viu.
− Eu... – Marc começou, distante. – Não.
− O que? – Eu o incentivei. Lançando meu melhor olhar de carência.
− Ah, Arseni. Olhe... pensei em uma coisa que te colocaria lá dentro. Mas...
− Eu aceito. – Me ergui.
Eu não precisava de mais nada.
Ele suspirou – Conheço um cara que conhece as pessoas que cuidam da papelada por lá. Ele me deve alguns favores. Talvez dê um jeito de colocar sua ficha...
− Sério? – Eu sabia que minha voz estava saindo mais alta e que as pessoas estavam me olhando enquanto eu saltava em cima dele. – Você faria isso?
− Ai! Ai, ai! Eu posso tentar. Mas...
− Ah, Marc. Você é a melhor pessoa desse mundo! – Eu lhe dei um beijo na bochecha que o deixou desconcertado. – Eu vou para casa. Vou te mandar tudo, me ligue quando tiver notícias.
Eu não dei atenção a nada, saí correndo. A última coisa que eu lembro é de ouvir Marc gritando por mim e quando eu me virei só senti um forte empurrão, suas mãos me jogando para longe. E depois um barulho alto de freios e uma batida.
***
− Você poderia ter morrido! – Eu funguei com os olhos inchados, sentada na maca onde Marc estava. Eu acordei em outra maca, no hospital, apenas com alguns arranhões. Descobri que ele tinha me livrado de ser atingida em cheio por um carro. Ele ficou no meu lugar. Quebrou mais ossos do que eu podia contar. – Seu idiota, nunca mais faça isso!
Já fazia alguns dias. Ele estava sendo sedado para ficar mais relaxado. E eu o xingava enquanto ele dormia.
Passei os dedos pelos cabelos úmidos dele.
Idiota. Eu iria mata-lo. Voltaria todos os dias até encontra-lo acordado.
– Essa carta chegou para o Sr. Marcelo. Acho que você pode receber.
Uma enfermeira entrou pela porta, trazendo uma nova leva de anestésicos. Ela era baixinha e robusta. Eu peguei a carta. Estranhei quando vi o brasão do exército impresso na carta.
A medida que fui lendo me lembrei que devem ter pedido sua dispensa. Já que estaria aqui por tempo indeterminado. Ou o livrariam ou lhe dariam algum tempo para recuperação. Quando cheguei ao conteúdo principal eu estranhei e me segurei até terminar de ler. Estavam lhe negando esse direito! Não lhe dariam dispensa alguma. Exigiam sua presença.
Eu rugi e me levantei. Me controlando para não esmurrar a parede. Eles cortavam pessoas que queriam estar lá, como eu. E obrigavam a presença de pessoas incapacitadas.
Isso era...
Uma sacanagem!
Era tão errado!
Queriam que ele voasse?
Olhei para o rosto vermelho e machucado de Marc. Ele parecia sentir dor.
Isso era minha culpa!
Eu estava a ponto de explodir. Ele acabaria perdendo sua bolsa na faculdade caso não comparecesse. O que eu poderia fazer para ajudar? Se ao menos alguém pudesse ir no lugar dele.
Mas quem iria querer? Eu sou a única que...
Alavanquei com a ideia. Eu poderia ir no lugar dele!
Ele já tinha passado pelos testes. Eu só precisaria entrar em contato com seu amigo e pedir que trocasse a foto pela minha. Eu sabia exatamente como dar um jeito no disfarce!
Era absurdo, mas era isso.
Eu entraria no exército como Marcelo.
Como homem.
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