Arruinada
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Acenei me despedindo das duas sorrindo. Ajeitei minha mochila nas costas e segui até a porta da minha casa, sempre tem uma chave no meio do vaso de flores que tem ao lado da porta. Peguei e abri a porta, ouvi de longe o barulho de vozes e do nada se cala e ouço barulho de copos e talheres. É a tv. Deixo minha mochila á mesa e sigo até a sala. Nunca faço isso, pois minha mãe me adverte quando eu deixo-a em qualquer lugar. Sempre a levo até o lugar dela no meu quarto, mas, hoje não é um dia como qualquer outro. Sigo o barulho da tv e quando chego á minha sala vejo meu pai tomando café da tarde na poltrona preferida dele. Ele comprou-a a sete meses atrás, até então ele somente se senta nela. Ele olhou para mim e sorriu.
- Pai, cadê a mãe?
- Ela não está com você? Ela ia te buscar! – Ele disse e rapidamente o sorriso se tornou em uma expressão de desespero, ele levantou rápido e foi em direção ao seu celular que estava em cima do balcão da cozinha. “O número de telefone não existe” Ele ficou mais desesperado e tentou cinco vezes. Na sexta, minha mãe atendeu e quando ela disse o simples “Alô” parecia que alguém havia tirado dois tijolos de cima dele.
- Onde você está? Está tudo bem? Porque não foi buscar a Katherine?
- Ah meu amor! Me desculpa, que horas são?
- 17h.
- Eu estou no mercado e esqueci a hora. Kath já está em casa?
- Sim.
Fiquei observando-os conversando. Minha mãe fala alto demais ao telefone, dava para eu ouvir tudo o que ela falava. Relaxei um pouco, a tensão do meu pai me deixou nervosa também.
- Com quem ela foi embora?
- Mãe da Savannah. – Respondi e meu pai repetiu ao telefone.
Sabia que estava tudo bem e peguei minha mochila e subi para meu quarto. Deitei na minha cama, exausta peguei meus fones que estavam na mochila e fiquei ouvindo música.
.........
- Katherine, levanta! Katherine, levanta logo garota! – Ouço uma voz me chacoalhando, não conheço essa voz. Percebo que dormi, talvez umas duas horas. Se eu conseguisse olhar para o relógio, saberia. Abri o olho e avistei uma mulher toda de preto. Parece amigável. Levanto e coço os olhos para ter certeza que não estou sonhando.
- Quem é você? – Disse olhando fixamente para a mulher.
- Pega sua mochila e coloca tudo de importante nela. – Ela disse me dando uma ordem.
- Quem é você?! – Ela ignorou minha pergunta. Eu preciso saber quem é ela!
- Droga Katherine! Nós não temos tempo garota. Arruma suas coisas logo! Volto em 3 minutos.
Ela ignorou novamente. Irei fazer o que ela pediu. Peguei meu celular, peças de roupa, três livros, meu fone, minha carteira e mais umas coisinhas. Quando estava colocando mais uma peça de roupa a mulher de preto entrou no meu quarto.
- Já pegou tudo?
- Sim. – respondi.
- Vamos.
Ela me pegou pelo braço delicadamente e me recusei a fazer outra pergunta a ela. Sei que ela não irá responder. Agarrei-me a minha mochila enquanto ela me guiava, para onde eu não sei. Quando desci o chão da sala estava todo cheio de sangue, e havia muita gente na minha casa, perícia, médicos, policiais, homens vestidos igual essa mulher. Não dava para ver ou saber o que estava acontecendo. Ela me levou até uma Van preta escura. Insulfilm nos vidros. Entrei no lado de trás com a mulher. Só havia nós duas lá dentro. Preciso quebrar o silêncio, mas não quero. Vou ficar quieta agarrada com a minha mochila. Demorou meia hora e chegamos a uma estação de trem. Nós descemos e quando chegamos ao local de embarque, o trem já estava lá e subimos.
- Sua cabine é a de número quatro. Seguindo o corredor. – Disse um homem para a mulher.
Entramos na cabine e ela fechou a porta e as janelas.
- Vamos ficar 8 horas dentro do trem. Você vai para outro país.
Ela disse e já não estava com a sua expressão dura. Ela estava calma, se sentou e ficou me observando. Eu apenas fiquei olhando-a.
- Está tudo bem, Katherine.
- Não. Não está! Eu não sei onde meus pais estão, minha casa está cheia de gente e estou indo para outro país! – Percebi que gritei com ela e fui rude, ela foi doce comigo. Respirei fundo. — Qual seu nome?
- Alexandra. Agente Alexandra.
- Como eu posso te chamar?
- Alexandra, querida.
Quando ela gritou comigo no meu quarto foi na hora de desespero. Ela aparenta ser boa.
- Alexandra, você sabe o que aconteceu com os meus pais? E para onde você está me levando?
- Você saberá em breve, Katherine.
- Porque você não me conta?
- Porque esse não é meu trabalho.
- Por favor. – Disse quase sussurrando. – Não te custará nada.
Ela percebeu o meu desespero. E pela expressão, acho que ela irá me contar.
- Bem, você é a escolhida.
- Escolhida?
- Sim, é um sistema que existe na capital de New York. É organizado por alguns homens, eles tem um contrato com alguns hospitais que quando os bebes que nascerem no ano em que o “escolhido” morrer serão sorteados para saber quem será o próximo.
- O que acontece com esse escolhido?
- Através de um sorteio, ele se torna o escolhido. Então, o bebê tem que largar os pais verdadeiros e irá passar a viver com pais adotivos que são contratados do sistema porque é implantado no bebê um chip que tem os dados que podem acabar com a Máfia.
Preciso saber mais disso! Então ela quis dizer que sou adotada? Como... Meus pais só ficaram comigo porque eles eram pagos? Isso explica o porque de tanto amor. E tanta preocupação. E quem são meus pais verdadeiros? Será que eles choraram quando souberam que não poderiam me criar? As lágrimas estão vindo para o meu olho. Olho para cima, e tento afastar o pensamento de que fui enganada e o ódio que sinto.
- Se esses dados podem acabar com a Máfia, porque ninguém nunca acabou?
- Porque há anos atrás a Máfia capturou o filho do criador. Foi por isso ele criou o sistema, eles fizeram um trato de que eles não machucariam o filho do criador, e o criador teria os escolhidos. Eles estavam desesperados por causa das informações. O filho leva uma vida normal, porém tem homens da Máfia o observando 24 horas se caso ele tentar ir se comunicar com o pai. Se eles conseguissem capturar todas as partes do chip, eles poderiam matar o filho do criador. Eles aceitaram. O criador é louco, a mulher dele quase o matou quando ele decidiu isso. Ela entrou em pânico e o deixou. Até hoje ele diz que essa escolha foi o melhor para todos, o filho dele terá uma vida "normal" e a Máfia não será destrúida. Mas ele fez isso com a certeza de que ninguém nunca capturaria os chips em todos os escolhidos. Como são muitas informações sobre a Máfia, há em muitos países uma criança escolhida. Em cada criança há uma parte das informações, e quando elas são mortas e o sistema consegue pegá-la antes que a Máfia a capturem eles tiram o chip dela e implantam em outra. Caso contrário, eles tiram o chip da criança morta e ninguém sabe o que eles fazem com ela. E há muitas pessoas trabalhando no sistema. Cada criança escolhida, tem 10 guardas que a vigiam sem ela saber. Em todo canto.
- Para onde você está me levando Alexandra? – Disse.
- Para o prédio sede, onde ficam as crianças escolhidas quando os pais adotivos são mortos, mas elas ficam lá somente até o dia delas fizerem 15 anos. Lá, vocês podem interagir e criar amigos. Mas, é proibido saber quem é a escolhida a não ser que seja um trabalhador do sistema, as outras crianças escolhidas, e os pais da criança.
- Preciso falar com a minha melhor amiga, que eu vou embora. Por favor, ela é muito importante para mim.
- Você não pode, Katherine.
- Porque? — disse quase gritando.
- Porque ela vai precisar de informações de onde você irá. E ela não pode descobrir que você é a escolhida, isso pode a prejudicar.
- O mundo inteiro sabe disso, desse sistema?
- Sim.
Assenti, porque assim seria melhor para Kay. Fiquei olhando o chão.
- Não se preocupe.
- Quem são meus pais verdadeiros? – Eu disse quando senti uma lágrima já escorrendo entre minha bocheixa. Eu pisquei, não quero chorar na frente dela.
- Não sei Katherine. Quem sabe tudo sobre você é uma moça chamada Megan, ela vive na sede do sistema, você irá conhecê-la em breve e poderá perguntar o que quiser.
Coloquei minha mochila no canto da cama que eu estava sentada, e me deitei virada para a parede, encolhida.
- Já volto, qualquer coisa aperte esse botão. – Ela me disse me cobrindo com um lençol fino e me dando um botãozinho redondo com um botão. Apertei o lençol no meu rosto, cheira amaciante. Isso me fez lembrar de quando minha mãe me ensinou a colocar roupa na máquina de lavar. Não consigo odiá-la, tento me fazer acreditar que eles me amavam mesmo. Minhas amigas, minhas vizinhas, minha escola. Nunca mais irei vê-las novamente. Principalmente Kay. Amanhã ela ligará para mim na minha casa e perguntará o porque de eu não ter ido a escola. Ninguém irá atender. Não consigo dormir, os pensamentos me atormentam. Sinto vontade de pegar meu celular e ligar para a Kay e contar tudo o que aconteceu no meu dia, e o que sou. Mas está tarde, ela já deve estar se preparando para ir dormir e não posso. Tento fechar os olhos com mais força que posso para atrair o sono, mas ele não vem. Levanto e pego meu livro na minha bolsa
...............
Levanto e Alexandra está sentada na outra cama me olhando.
- Faz tempo que você está acordada?
- O trem chega no destino daqui a 15 minutos.
- Você sempre ignora as perguntas?
Ela sorriu.
- Você pode ir tomar o café da manhã.
- Não estou com fome.
- Você precisa comer.
- Não estou com fome. – Repito.
Ela desiste. Ela não pode me obrigar a comer.
- Você vai ficar comigo no prédio?
- Não, só irei te levar lá. Meu trabalho é correr atrás das escolhidas quando os pais adotivos são mortos, e levá-las até lá.
- Mas eu não quero ficar sozinha. – Disse abraçando minhas pernas e olhando para ela.
- Não irá, você vai fazer amigos.
Não quero fazer amigos. Quero minha vida de volta. Mas não posso fazer nada a respeito.
- As escolhidas morrem cedo?
- A maioria, sim. Depende, tem algumas que morrem quando os pais adotivos são mortos porque na hora estava junto com eles. Você teve sorte Katherine por estar em seu quarto quando eles foram mortos. — Fico tentando imaginar a cena, dos "meus pais" sendo mortos por alguém que me queria morta. Isso me faz sentir culpa. — Tem aquelas que são despejadas do prédio quando completam 15 e ficam fora da vista dos seguranças um segundo e já morre. Ninguém sabe como eles descobrem as escolhidas. Mas também, tem aquelas que resistem bastante.
- A mais velha, morreu com quanto?
- 57 anos. Foi histórica.
- Existem meninos que são os escolhidos também?
- Claro que sim Katherine!
Sorri quando um som apitou, acho que isso significa que está na hora de desembarcar, e ir para minha nova casa.
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